sábado, outubro 26, 2013

Um comentário antigo que fiz sobre religião



"Adorei (mais ou menos) o que você falou do Darwin no seu blog, ainda que tenha sido meio chapa-branca.

Não acredito em arca de Noé. Uma coisa é a "história", outra é crença. Gosto dos místicos. Acredito na Bíblia enquanto cifra. Teologia deveria ser decifração. Adoro os livros ateus de Saramago porque eles terem me feito mais cristão. Acho "religião" uma ideia bonita e mal engendrada na prática por homens tortos (como somos todos: mal modelados). Acho impossível uma religião que cumpra o compromisso de religar o homem a Deus. Creio que cada experiência espiritual seja uma experiência individual sempre dolorosa, por que em busca de uma verdade impossível. Assim, será sempre busca, queda brusca e elevação. Sou pela catarse. Sou pelo momento epifânico. Sou pela graça também com alegria. O corpo é provisório elemento de ação do homem no mundo, mas sem o limitado, que é a carne, como transcender o corpo? 

Deus para mim não é uma experiência intelectual. A Bíblia para mim, é das coisas mais lindas do mundo. Amo todas as passagens narrativas (e cantares poéticos). O livro de Jó é impensável matéria-drama inconsútil. "Viver exige demais do vivente", disse Rosa com palavras melhores. E por causa disso fiz uma tese longa só para pensar na alma, em Deus, nas palavras, nos homem, no poder da palavra. Acabei quedando na ideia de que a vida em si "é só o demoramento". Deus sempre me livra da tristeza extrema. 

A sua mão moldou o homem. Sete dias para fazer o mundo. Adão (Adamah), Caim, Abel, tudo belo: cifras. Um só para nomear o mundo. Acho um desperdício os que leem ao pé da letra. E no princípio, lá estão as águas, a luz que se faz numa grande explosão. Tudo se complementa. E os pobrezinhos querem os personagens. Darwin é um profeta. Marx também. Antes, Aristóteles; Shakespeare, depois; Freud, outro. Podemos continuar a listar. Todos que tentam explicar o que é o homem e a vida, mesmo ao negar Deus, já estão confirmando o maravilhoso da existência.

Mas me cansa tanto domar dogmas, excogitar enigmas, engolir esquemas.


meditemos."

[Achei cavocando na Internet este antigo comentário meu para um post, e como fui perdendo o gás de escrever, apanho, reescrevo, reciclo. E sigo. Providencial o nome que dei a este blog que me possibilita voltar, rever, repostar.]

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