sexta-feira, setembro 13, 2013

Em pele de cordeiro (ou O príncipe cego)



Um dia o príncipe ficou cego. Cego assim, de não ver um palmo à frente do nariz. De repente, como num passe de mágica, um saltar de coelho da cartola, uma moeda atrás da orelha.

Mágica não era, nem maldição ou feitiço, constatou o mago, de imensas barbas alvíssimas. Mas de fato: nenhum inimigo à vista, bruxa, madrasta má, dragão fajuto que fosse, a sobrevoar o reino. E a paz reinava, pondo às cegas a razão do mal que se abatera ao pobre príncipe, menos que um rapaz, os olhos tão escassos de ver.

“É a vida”, disse o príncipe, para pasmo geral, tateando o espaço, tão nitidamente cego. Mandou vir o ótico, que lhe botou óculos para tapar os olhos. Mandou vir aquele que esculpia bengalas. O lenhador, para chamar o lobo.

Este habitava terras longínquas (mais precisamente um bosque), vivendo de perseguir menininhas e leitões, de assoprar casas para derrubá-las, de travestir-se de velhas ou cordeiros. Lupino, chegou com uma semana. Tinha um focinho longo para bem farejar; e orelhas peludas para ouvir melhor; e olhos sagazes, admiráveis e bons. Suas mãos eram grandes, e fortes, e peludas; e a boca enorme, na medida certa de meninas incautas e avozinhas. Mas o príncipe era homem e não vestia vermelho. Sem o tato dos cegos, quis logo um trato como lobo: que lhe servisse de guia, já que cães - é sabido - não habitam contos de fadas.

Logo o lobo vendo-se pela primeira vez desejado, principiou por pôr exigências. Não usaria cabresto, pois não era cabra; nem canga ou focinheira que lhe estragasse o bom faro. No máximo, para guiá-lo, ao príncipe permitiria roçar de leve os dedos em sua nuca nua, livre de guizos, arreios, colares de couro ou ouro. E para dormir, cama sem ervilha. E para bem comer, que servissem gansos, nada de feijões de ludibriar gigantes ou maçãs seletas.



Acatou o príncipe as exigências do lobo. Selado o acordo, viam-nos perambular salões, escadarias, pátios. Viam-nos cruzar confiantes passagens secretas, estreitos corredores a caminho do paço. Viam-nos, pontes levadiças, paragens, ruas do reino, lugares que o príncipe, por segurança, nunca fora dado antes percorrer sem clara vigilância. E o lobo era negro, feroz, casmurro. Ninguém lhe dissesse onde ir a vir.

Já não vivia às escuras o pobre príncipe. Via-se pelo arregalado dos olhos. Ganhara a agilidade dos caminhos, iluminado pela perspectiva do lobo que tudo escutava, cheirava, o paladar aguçado, o tato livre das feras encantadas. E se estava triste o príncipe, mal ouvia respirar o lobo, fiel à sua tristeza. Nunca um rosnar, feroz rugido, balir que fosse. Permaneciam par a par um do outro, numa cumplicidade de gêmeos, de sereias e sagitários divididos.


Da torre alta à floresta, viam com maus olhos a amizade. Desconfiavam da lupina natureza da fera. Vigilantes fechaduras, gordos olhos, miúdas iris piscantes, em mirantes, nos vãos das torres, no jogo de carta, o cavaleiro de espadas, o valete de ouros, as damas de copas nos baralhos. Até, entre leques, as meninas dos olhos, as figuras altas nos olhares a óleo, sem pestanejar. Mil faróis luminosos que o lobo mal podia ignorar, substituindo e multiplicando-se caleidoscopiamente, sem fazer vista grossa à cegueira do príncipe. Não tentasse o bote, pareciam dizer, mas o lobo não era uma cobra, um lobo tinha outros caminhos.

Inocente, o príncipe ensinou ao lobo a cortesia do palácio: o curto passo dos peões; o movimento em L das torres; o diagonal, dos bispos. Iluminava-lhe as noites com histórias, e para não desagradá-lo, borrava da paisagem os lenhadores maus sempre em pele de cordeiro. Aconselhava a ele o caminho mais curto. Orientava-o a andar à sombra, a desconfiar da doçura das mães famintas, do perigo das casas de doces, da astúcia das velhas com maçãs, do capuz vermelho das menininhas; e a se afastar do coração da floresta, das trevas que há nos castelos habitados por falsas feras a cultivar rosas.

Pela primeira vez bem-quisto, o lobo, como se raposa fosse, fez-se cativar. Dizia ao príncipe o que era o mundo, descrevia-lhe o braille dos caminhos, unidos da aurora ao pôr-do-sol. Assim, aprendeu o príncipe a sentir a espectral luz da lua, os odores da mata, os misteriosos sons da floresta. E a rosnar, feito fera. Guiava-o já tão cegamente que lhe deixava pousar a mão na cabeça, e na noite, ocupando o tapete ao pé da cama, ouvia-o rosnar em sonhos e perseguir porquinhos. Lanoso, o lobo dava-lhe conselhos, o que usar, a direção certa de cada passeio. Alertava-o também para os perigos de traições, as emboscadas nas ruas, os duplos sentidos das palavras.

Recrudescido o medo, o príncipe já não queria deixar o castelo, desconfiava de tudo, de todos, um perigo em cada canto. E, como ameaças vinham a galope, o príncipe prendeu-se no quarto e de lá não saía, nem com rogo da mãe, desesperada entre bastidores. Nem a voz do pai reconhecia, apenas o crespo pelo do lobo, sua voz imperativa. Por isso bradava aos sete cantos que o deixassem em paz, e passava os dias na cama, sonhando com um mundo cheio de lobos.



Fiel, o lobo o vigiava. Com voz mansa narrava-lhe as maledicências da corte, os maus conselhos dos velhos, a falta de juízo dos juízes, a tolice dos bobos, a piedade falsa das damas. Trazia aos olhos do príncipe a luz do dia, o movimento nos salões, os gritos dos presos nos calabouços. Eram seus os olhos do príncipe, toda a visão do príncipe, sua cegueira.

De súbito, via o príncipe a tudo com desconfiança, estarrecido com o quão pouco tinha visto quando tinha olhos. Via com a astúcia dos lobos, com a fúria dos lobos, o rancor dos lobos. Por isso o lobo não estranhou quando pediu-lhe que vestisse suas roupas e ocupasse o leito real. Qual inimigo desconfiaria do príncipe deitado ao pé da cama coberto em pele de cordeiro?


Vis-à-vis, o lobo dormiu feito um príncipe e sonhou com um outro reino. Neste reino, o lobo ocupava o trono e um rei, cada dia mais cego, era puxado por uma coleira dourada. Rosnando em seu sonho furioso, o lobo despertou o príncipe.

Sem acordar o lobo, o príncipe pôs-se de pé ao lado da cama, e viu o que nunca tinha visto: o príncipe viu o lobo. O pelo preto e eriçado do lobo. A língua rubra escorrendo entre os caninos brancos do lobo. O riso escarninho do lobo. Enojado, o príncipe aproximou-se do espelho, mas nada pode enxergar. Então, usando o antebraço, limpou o pó que tinha coberto a superfície cristalina. Diante do espelho, o príncipe constatou sem espanto, que voltara a enxergar, e que seus olhos azuis inocentes tinham sumido, seus olhos agora eram olhos de lobo.

Abrindo a porta, sem fazer ruído, o príncipe deixou sem temor o antigo quarto. Atravessando o corredor, ele chegou à entrada em espiral que dava para torre mais alta onde a luz fria da lua era um sol noturno a desprender raios sobre o castelo. E então o príncipe uivou pela primeira vez para lua. O príncipe era o lobo.

Do meio das trevas do sono, o lobo nada ouviu. Sonhava que o príncipe voltara a enxergar. Que o príncipe descia as escadarias do palácio. Que o príncipe encontrara a espada esquecida sob o travesseiro. Que o príncipe se aproximava da cama e com cuidado de cirurgião preparava a espada para abrir-lhe a barriga. Sem um uivo final, sem sopro ou sobressalto: era uma vez um lobo.  


3 comentários:

Anônimo disse...

Uau, Du,
Eu não sabia desse arsenal maravilhoso. Dois dias, dois contos ótimos.
Esse me arrepiou!
Beleza, estou à espera de mais!
Beijos
Susana

Eduardo Araújo disse...

Obrigado, querida, reli também. Tenho que fazer reparo de vírgulas e outra coisa. Tenho uns contos muito antigos esquecidos, e que assim ficam, por minha preguiça eterna de cortar e corrigi-los. Mas gosto deles, pois normalmente são um tanto cruéis. Meus contos FATAIS.

Anônimo disse...



A inversão da máxima "Homo homini lúpus" numa sombria metamorfose psicológica.

TH. Mendonça