quinta-feira, setembro 12, 2013

A rainha e o esquecimento

A rainha e o esquecimento

Um dia a rainha esqueceu. Esqueceu assim, sem mais nem menos, que é como a gente esquece. Deu um branco, seus cabelos ao vento, tudo era nada diante da gente desconhecida ou não lembrada. Neste lugar que não era o dela, que era para ela um lugar algum. Ofereceram-lhe um casaco, que ela olhava como quem vê um bicho morto que antes estava em fuga. Nenhuma familiaridade nos rostos, nos gestos, na voz zelosa da gente, como se fosse ela uma menina. Perguntaram: onde ia ou aonde, quando se esquecera?  Não sabia ou não encontrava as palavras com que dizer.

Se de dentro vinha alguma lembrança, sabia-a de longe muito longe, vaga e inexata: de uma caçada, de um baile, de um moço, de uma roca e uma rosa, de um sapato não servindo, e de abóboras ou rabanetes. De sete anões (tinha certeza), e de um espelho que dizia. O que dizia o espelho? Que queria o sapo? E as ervilhas, qual a causa de terem sido plantadas sob tantos colchões?

Quis chorar. Trouxeram-lhe um lenço bordado. Não conhecia aquela floresta, aquele lobo, aquele moinho. Conhecia o avesso do bordado. As linhas lhe eram familiares: longos fios formando cachos, tranças a tombar em cachoeiras. Mas tudo era difuso, impreciso. Tudo se fora de uma vez.

No castelo aflito estava o rei. Reunira em torno da távola os cavaleiros para buscar a rainha. Precavidos, de armadura, arco, flecha, falcão e espada, todos ávidos por mil dragões. Ela que fora e não voltara de levar pote e doce à floresta. 

O rei pensou lobos, casas de doces, feras, maçãs envenenadas. O rei pensou labirintos, unicórnios, duendes de nomes imensos e impronunciáveis. O rei pensou abismos, areia movediça, a escuridão profunda da floresta. E desencantou-se, tão soberana pesando-lhe na cabeça a coroa. As amas, desamparadas, choravam. Não bordavam, donzelas, no bastidor. Não caçavam, os moços, nem riam os bobos, apalermados.

Passaram-se dias, semanas. Passaram-se meses, anos. Por fim, voltaram ao castelo com a não notícia: a rainha perdida no vermelho e negro dos quatro cantos. O rei menos o reino, desolados. Ele mais que todos, triste-triste-tristíssimo. Assim, meio que pela metade, feito rei de baralho, no leito real deposto, esquecido da dama, descartado. Então o rei mergulhou em profundo sono . E sonhou.

O rei sonhou a rainha, porém, a rainha antes do resgate, da morte do dragão, antes da madrasta perversa, das irmãs postiças invejosas. Sonhou-a loura, sonhou-a donzela, sonhou-a quase menina de longos cabelos dourados, sem a prata do tempo: a pele lisa, sem as dobras do tempo. E a voz no veludo, extinta caverna do tempo. Enfim, o rei sonhou-a sem gansos, como já não era, e não seria deveras. E amou-a mais, sabendo-se também distinto do príncipe que fora: o príncipe perdido.

Perdida, a rainha, mais ainda; sem saber que buscava-o, lembrava-o moço, no adormecido da memória. Vagou, esquecida, no labirinto sereno e triste do passado, onde corredores cada dia mais estreitos replicavam seus passos. Ignorou o riso congelado nas caras dos quadros nas paredes, - um tal e qual a face do outro, não fosse a fina camada de pó na superfície, o tear cortinado das aranhas. Quando deu por si, estava diante da fonte d'água arrebentada. Assim a encontrou o rei ao chegar no jardim onde a floresta estendera seus tentáculos de ramas. E tudo era ruína e espinho, não fosse a rosa reclinada à fonte.

Ele a chamou pelo nome, mas ela não se voltou. Entretinha-se com a imagem represada no reflexo, o refluxo trepidante da água. Ela ia dizer: espelho espelho meu... Mas ele arrebatou-a num abraço antiquíssimo que ela, velhíssima também, correspondeu, reconhecendo-o no flácido gesto de amor. Cheios de si, beijaram-se. Ela era todas as princesas sonhadas, e era única, sua, a mais amada. Nuvem nova no céu, a noiva. Predestinavam-se. E foram felizes, outra e mais outra, infinitamente, como se fora uma única vez.   



[ Este conto é de 2006, talvez de antes. Mas só hoje (levei umas 2 horas para escrever o parágrafo final), dei-o por encerrado, para o simples objetivo de dedicá-lo/presenteá-lo a minha querida amiga Susana Ventura, para comemoração de seu aniversário.]  

3 comentários:

Nato disse...

Realmente Lindíssimo!
Ah, e um feliz aniversário para Susana!
Abraço.

TT disse...

"E o mundo compreendeu, / e o dia amanheceu em paz..."

Outra vez, feliz aniversário para a Susana!

Anônimo disse...

Eduardo, estás a desfiar os contos e dar-lhes novos contornos? Essas boas e antigas linhas sempre são fortes para novos tecidos. Lembrei-me do Pessoa. Abraços, TH. Mendonça


"Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia."


Fernando Pessoa