segunda-feira, setembro 30, 2013

Liv Ullmann


Nasci num pequeno hospital de Tóquio. Mamãe diz que se lembra de duas coisas: um ratinho correndo pelo chão, o que ela considerou como sinal de sorte. Uma enfermeira curvando-se e murmurando, em tom de quem pede desculpas: "Infelizmente, é uma menina. A Sra. prefere informar pessoalmente a seu marido?"



[Tem início de livro mais sensacional que este?]

O joelho mais lindo do mundo



Meu sobrinho Victor nasceu dia 26 de setembro de 2013. Na foto com dois dias de vida. Olhão aberto, flagrando o mundo. Hoje, 29 fui no Zaíra conhecê-lo. Dormia, mas acordou no berreiro. Que seja saudável, longa e feliz sua vida, recém-inaugurada. 

Na foto de baixo, Pedrerico e Vittorino no colo. Amor para vida toda.

E a MTV acabou mesmo.



20.09.2013.

Faltou o Massari aqui.

Mutações, de Liv Ullman


Cenas de um casamento foi uma oportunidade que eu tive de alcançar os outros, porque tantas pessoas se reconheceram no filme - ainda que de maneira rápida.

O assunto é comunicação, é viver com o outro ser humano, ver os outros como eles são, não como uma máscara que passa pela pessoa verdadeira. 

Nenhum relacionamento entre pessoas é perfeito.

Não há violinos tocando, quando alguém que eu amo me beija. O happy end de Hollywood é um produto fabricado, que jamais encontra equivalente na vida real. Um mundo de sonho que é perigoso, porque incita as pessoas a procurarem sempre novidades. Acreditando que, daquela vez, encontraram "a pessoa certa".

(p. 181)

[Há anos esbarro com esse livro e nunca tive coragem nem mesmo de folheá-lo. Me passava a impressão de livro de autoajuda, sentimentaloide, feminista no pior dos sentidos. Mas depois, conhecendo o trabalho incrível dessa atriz, comecei a cogitar que não poderia ser algo banal. Sábado esbarrei com ele, em frente ao Henfil Liberdade, num sebo bem precário, livros a um real. E eis que me pego lendo, hoje, caminho de Mauá, essas mutações. E descubro estarrecido, o modo brilhante que Liv Ullmann escreve, reflexões pessoais misturadas com autobiografia, muito sobre amar, sobre arte, sobre representar, ser mulher,  mãe, construir-se, muito feminina e por isso também muito humana. Tudo muito direto, em fragmentos cheios de lacunas, mais vãos do que respostas precisas.]

sábado, setembro 28, 2013

Terror em um minuto



Fantástico clima, daquelas mini produções, insights de horror/terror dos meus amigos de Diadema.

quinta-feira, setembro 26, 2013

Victor, Vitorino

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Então as duas da manhã de hoje nasceu o Victor, que eu chamarei de Vitorino. Que seja bem vindo, e muito amado. 





















domingo, setembro 22, 2013

Cores e seu sentido


Questionável mas interessante sempre.

As miniaturas, de Andrea Del Fuego


Amo os contos de Andréa Del Fuego, quero muito comprar para ler Os malaquias. Este, As miniaturas comprei no pacote de livros da Cosac. Estava lá na Martins Fontes da Paulista, sem indício do que era, e pior, romance. Mas não resisti ao nome Andréa Del Fuego, e como sempre, não me decepcionei. Li num dia, assim mesmo, de cabo a rabo. Acho um livro estranho, uma beleza estranha, tenho que sentar e "ensaiar" sobre ele. Por enquanto fica essa capa que não entrega nada.

Blue Jasmine, de Woody Allen


O Gustavo me lembrou que este filme existe, e que está para ser lançado. Esperando ansiosamente.

sexta-feira, setembro 20, 2013

As pessoas são tão interessantes

Corações a mil

Minhas ambições são dez
Dez corações de uma vez
Pra eu poder me apaixonar
Dez vezes a cada dia
Setenta a cada semana
Trezentas a cada mês

Isso, sem considerar
A provável rebeldia
De um desses corações gamar
Muitas vezes num só dia
Ou todos eles de uma vez
Todos dez
Desatarem a registrar
Toda gente fina
Toda perna grossa
Todo gato, toda gata
Toda coisa linda que passar

Meus dez mil corações a mil
Nem todo o Brasil vai dar

Gilberto Gil

Disparos, de Juliana Reis


Um filme que começa bem, depois vai ficando muito muito ruim e termina num desfecho tolo, maniqueista e redutor. Pior mesmo, o insólito de algumas situações absolutamente constrangedoras. 

Jobs, a bomba


Certamente um dos piores filmes de todos os tempos. Ou: o mais longo e pior comercial do mundo. Só para os fortes que podem suportar o discurso de autoajuda corporativa de um egocêntrico que despreza qualquer valor humano e é obsessivo construtor de traquitanas. Um filminho tão ruim que dá vergonha de ter assistido. Lixo. 

Bling ring - A gangue de Hollywood


O vazio existencial de uma classe social vazia.
A objetivação do ser por meio da mercadoria.
A banalização de todos os desejos.
A transcendência ausente numa história mundana.
Crianças mimadas num playground imenso.
Diversão inconsequente
Delinquência e contravenção festiva.
A moral dos eleitos
Consumo e consumição numa vida mesquinha.
O circo midiático num Olimpo hollywoodiano

Um filme que examina as superfície das coisas e não vai além das marcas.

Now you see me



Um filme que faz o jogo da ilusão no próprio enredo.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Eu não dava praquilo


Peça extraordinária, que assisti nesta segunda com o Lucas no CCBB-SP. Cassio Scapin interpretando/homenageando Myrian Muniz num monólogo iluminado, cheio de humor e emoção. Saímos leves, fomos comer no Estadão, e voltamos felizes cá para casa. No fim da peça não resisti e fui dar um abraço no diretor Elias Andreato. 

Arquitetura, por Lúcio Costa


Frase-texto do Lúcio Costa ao definir arquitetura (roubado do Artur):

Enquanto satisfaz apenas as exigências técnicas e funcionais - não é ainda Arquitetura; quando se perdem intenções meramente decorativas - tudo não passa de cenografia; mas quando - popular ou erudita - aquele que a ideou, pára e hesita, ante a simples escolha de um espaçamento de pilar ou da relação entre a altura e a largura de um vão, e se detém na procura obstinada da justa medida entre cheios e vazios, na fixação dos volumes e subordinação deles a uma lei, e se demora atento ao jogo dos materiais e seu valor expressivo - quando tudo isto se vai pouco a pouco somando, obedecendo aos mais severos preceitos técnicos e funcionais, mas, também, àquela intenção superior que seleciona, coordena e orienta em determinado sentido toda essa massa confusa e contraditória de detalhes, transmitindo assim ao conjunto, ritmo, expressão, unidade e clareza - o que se confere à obra o seu caráter de permanência: isto sim é Arquitetura.

O homem que não dorme

Ando tão tão tão atarefado, que mal consigo respirar. Mil coisas para ler, entregar, relatórios e encontros profissionais. Estou em dívida com o mundo. Deus tenha piedade da minha alma. 




















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domingo, setembro 15, 2013

Will Eno



Da peça que não assisti e que espero que um dia volta. Ah, a humanidade! de Will Eno, com a Sutil Companhia de teatro. Dramaturgo que me interessa. Dramaturgia e teatro que me interessam. 

sábado, setembro 14, 2013

Oh, The Humanity



Hindenburg disaster

This is the original reel about the famous Hindenburg disaster in 1937, Lakehurst.

Nelson Leirner, na PINACOTECA



Roda de Leitura do Sesc Carmo


Susana Ventura conduzindo a Roda de Leitura do livro A fábrica de fazer espanhóis, do Walter Hugo Mae. 19h, na segunda passada. Um "evento real de literatura", pois une pessoas que realmente leem o livro, estão encantadas, levantam questões, discutem com empenho, a ponto sempre ultrapassar o horário de desfecho, tal entusiasmo. Comentários sempre iluminadores de Susana, que deixa todo mundo a vontade, dá espaço e respeita as perspectivas distintas. Encontro maravilhoso também com Cecile, Jorginho e Marcelo Ahlers. Saímos de lá para um café naquela padaria bonita da Liberdade. Gostando demais destes ciclos e lamentando o dia que esbarra com meu trabalho.





Jobs


Será que vale a pena?

Lucas Rios, in German


Meu sobrinho Lucas Rios, arrasando como sempre nos seus ensaios, este foi produzido em Berlin, Alemanha por Robin Karter. Para mais, clique AQUI - Daily duo models.com.


Modelo Lucas Rios/ model lucas Rios/ New Face/ Brazil/ Berlin/ Robin Karter

sexta-feira, setembro 13, 2013

Em pele de cordeiro (ou O príncipe cego)



Um dia o príncipe ficou cego. Cego assim, de não ver um palmo à frente do nariz. De repente, como num passe de mágica, um saltar de coelho da cartola, uma moeda atrás da orelha.

Mágica não era, nem maldição ou feitiço, constatou o mago, de imensas barbas alvíssimas. Mas de fato: nenhum inimigo à vista, bruxa, madrasta má, dragão fajuto que fosse, a sobrevoar o reino. E a paz reinava, pondo às cegas a razão do mal que se abatera ao pobre príncipe, menos que um rapaz, os olhos tão escassos de ver.

“É a vida”, disse o príncipe, para pasmo geral, tateando o espaço, tão nitidamente cego. Mandou vir o ótico, que lhe botou óculos para tapar os olhos. Mandou vir aquele que esculpia bengalas. O lenhador, para chamar o lobo.

Este habitava terras longínquas (mais precisamente um bosque), vivendo de perseguir menininhas e leitões, de assoprar casas para derrubá-las, de travestir-se de velhas ou cordeiros. Lupino, chegou com uma semana. Tinha um focinho longo para bem farejar; e orelhas peludas para ouvir melhor; e olhos sagazes, admiráveis e bons. Suas mãos eram grandes, e fortes, e peludas; e a boca enorme, na medida certa de meninas incautas e avozinhas. Mas o príncipe era homem e não vestia vermelho. Sem o tato dos cegos, quis logo um trato como lobo: que lhe servisse de guia, já que cães - é sabido - não habitam contos de fadas.

Logo o lobo vendo-se pela primeira vez desejado, principiou por pôr exigências. Não usaria cabresto, pois não era cabra; nem canga ou focinheira que lhe estragasse o bom faro. No máximo, para guiá-lo, ao príncipe permitiria roçar de leve os dedos em sua nuca nua, livre de guizos, arreios, colares de couro ou ouro. E para dormir, cama sem ervilha. E para bem comer, que servissem gansos, nada de feijões de ludibriar gigantes ou maçãs seletas.



Acatou o príncipe as exigências do lobo. Selado o acordo, viam-nos perambular salões, escadarias, pátios. Viam-nos cruzar confiantes passagens secretas, estreitos corredores a caminho do paço. Viam-nos, pontes levadiças, paragens, ruas do reino, lugares que o príncipe, por segurança, nunca fora dado antes percorrer sem clara vigilância. E o lobo era negro, feroz, casmurro. Ninguém lhe dissesse onde ir a vir.

Já não vivia às escuras o pobre príncipe. Via-se pelo arregalado dos olhos. Ganhara a agilidade dos caminhos, iluminado pela perspectiva do lobo que tudo escutava, cheirava, o paladar aguçado, o tato livre das feras encantadas. E se estava triste o príncipe, mal ouvia respirar o lobo, fiel à sua tristeza. Nunca um rosnar, feroz rugido, balir que fosse. Permaneciam par a par um do outro, numa cumplicidade de gêmeos, de sereias e sagitários divididos.


Da torre alta à floresta, viam com maus olhos a amizade. Desconfiavam da lupina natureza da fera. Vigilantes fechaduras, gordos olhos, miúdas iris piscantes, em mirantes, nos vãos das torres, no jogo de carta, o cavaleiro de espadas, o valete de ouros, as damas de copas nos baralhos. Até, entre leques, as meninas dos olhos, as figuras altas nos olhares a óleo, sem pestanejar. Mil faróis luminosos que o lobo mal podia ignorar, substituindo e multiplicando-se caleidoscopiamente, sem fazer vista grossa à cegueira do príncipe. Não tentasse o bote, pareciam dizer, mas o lobo não era uma cobra, um lobo tinha outros caminhos.

Inocente, o príncipe ensinou ao lobo a cortesia do palácio: o curto passo dos peões; o movimento em L das torres; o diagonal, dos bispos. Iluminava-lhe as noites com histórias, e para não desagradá-lo, borrava da paisagem os lenhadores maus sempre em pele de cordeiro. Aconselhava a ele o caminho mais curto. Orientava-o a andar à sombra, a desconfiar da doçura das mães famintas, do perigo das casas de doces, da astúcia das velhas com maçãs, do capuz vermelho das menininhas; e a se afastar do coração da floresta, das trevas que há nos castelos habitados por falsas feras a cultivar rosas.

Pela primeira vez bem-quisto, o lobo, como se raposa fosse, fez-se cativar. Dizia ao príncipe o que era o mundo, descrevia-lhe o braille dos caminhos, unidos da aurora ao pôr-do-sol. Assim, aprendeu o príncipe a sentir a espectral luz da lua, os odores da mata, os misteriosos sons da floresta. E a rosnar, feito fera. Guiava-o já tão cegamente que lhe deixava pousar a mão na cabeça, e na noite, ocupando o tapete ao pé da cama, ouvia-o rosnar em sonhos e perseguir porquinhos. Lanoso, o lobo dava-lhe conselhos, o que usar, a direção certa de cada passeio. Alertava-o também para os perigos de traições, as emboscadas nas ruas, os duplos sentidos das palavras.

Recrudescido o medo, o príncipe já não queria deixar o castelo, desconfiava de tudo, de todos, um perigo em cada canto. E, como ameaças vinham a galope, o príncipe prendeu-se no quarto e de lá não saía, nem com rogo da mãe, desesperada entre bastidores. Nem a voz do pai reconhecia, apenas o crespo pelo do lobo, sua voz imperativa. Por isso bradava aos sete cantos que o deixassem em paz, e passava os dias na cama, sonhando com um mundo cheio de lobos.



Fiel, o lobo o vigiava. Com voz mansa narrava-lhe as maledicências da corte, os maus conselhos dos velhos, a falta de juízo dos juízes, a tolice dos bobos, a piedade falsa das damas. Trazia aos olhos do príncipe a luz do dia, o movimento nos salões, os gritos dos presos nos calabouços. Eram seus os olhos do príncipe, toda a visão do príncipe, sua cegueira.

De súbito, via o príncipe a tudo com desconfiança, estarrecido com o quão pouco tinha visto quando tinha olhos. Via com a astúcia dos lobos, com a fúria dos lobos, o rancor dos lobos. Por isso o lobo não estranhou quando pediu-lhe que vestisse suas roupas e ocupasse o leito real. Qual inimigo desconfiaria do príncipe deitado ao pé da cama coberto em pele de cordeiro?


Vis-à-vis, o lobo dormiu feito um príncipe e sonhou com um outro reino. Neste reino, o lobo ocupava o trono e um rei, cada dia mais cego, era puxado por uma coleira dourada. Rosnando em seu sonho furioso, o lobo despertou o príncipe.

Sem acordar o lobo, o príncipe pôs-se de pé ao lado da cama, e viu o que nunca tinha visto: o príncipe viu o lobo. O pelo preto e eriçado do lobo. A língua rubra escorrendo entre os caninos brancos do lobo. O riso escarninho do lobo. Enojado, o príncipe aproximou-se do espelho, mas nada pode enxergar. Então, usando o antebraço, limpou o pó que tinha coberto a superfície cristalina. Diante do espelho, o príncipe constatou sem espanto, que voltara a enxergar, e que seus olhos azuis inocentes tinham sumido, seus olhos agora eram olhos de lobo.

Abrindo a porta, sem fazer ruído, o príncipe deixou sem temor o antigo quarto. Atravessando o corredor, ele chegou à entrada em espiral que dava para torre mais alta onde a luz fria da lua era um sol noturno a desprender raios sobre o castelo. E então o príncipe uivou pela primeira vez para lua. O príncipe era o lobo.

Do meio das trevas do sono, o lobo nada ouviu. Sonhava que o príncipe voltara a enxergar. Que o príncipe descia as escadarias do palácio. Que o príncipe encontrara a espada esquecida sob o travesseiro. Que o príncipe se aproximava da cama e com cuidado de cirurgião preparava a espada para abrir-lhe a barriga. Sem um uivo final, sem sopro ou sobressalto: era uma vez um lobo.  


A máquina de fazer espanhóis, de walter hugo mãe


NEGRA



[Roubei do Facebook do Edson Ikê. Que poema! Que interpretação! Que extraordinário!]


quinta-feira, setembro 12, 2013

A rainha e o esquecimento

A rainha e o esquecimento

Um dia a rainha esqueceu. Esqueceu assim, sem mais nem menos, que é como a gente esquece. Deu um branco, seus cabelos ao vento, tudo era nada diante da gente desconhecida ou não lembrada. Neste lugar que não era o dela, que era para ela um lugar algum. Ofereceram-lhe um casaco, que ela olhava como quem vê um bicho morto que antes estava em fuga. Nenhuma familiaridade nos rostos, nos gestos, na voz zelosa da gente, como se fosse ela uma menina. Perguntaram: onde ia ou aonde, quando se esquecera?  Não sabia ou não encontrava as palavras com que dizer.

Se de dentro vinha alguma lembrança, sabia-a de longe muito longe, vaga e inexata: de uma caçada, de um baile, de um moço, de uma roca e uma rosa, de um sapato não servindo, e de abóboras ou rabanetes. De sete anões (tinha certeza), e de um espelho que dizia. O que dizia o espelho? Que queria o sapo? E as ervilhas, qual a causa de terem sido plantadas sob tantos colchões?

Quis chorar. Trouxeram-lhe um lenço bordado. Não conhecia aquela floresta, aquele lobo, aquele moinho. Conhecia o avesso do bordado. As linhas lhe eram familiares: longos fios formando cachos, tranças a tombar em cachoeiras. Mas tudo era difuso, impreciso. Tudo se fora de uma vez.

No castelo aflito estava o rei. Reunira em torno da távola os cavaleiros para buscar a rainha. Precavidos, de armadura, arco, flecha, falcão e espada, todos ávidos por mil dragões. Ela que fora e não voltara de levar pote e doce à floresta. 

O rei pensou lobos, casas de doces, feras, maçãs envenenadas. O rei pensou labirintos, unicórnios, duendes de nomes imensos e impronunciáveis. O rei pensou abismos, areia movediça, a escuridão profunda da floresta. E desencantou-se, tão soberana pesando-lhe na cabeça a coroa. As amas, desamparadas, choravam. Não bordavam, donzelas, no bastidor. Não caçavam, os moços, nem riam os bobos, apalermados.

Passaram-se dias, semanas. Passaram-se meses, anos. Por fim, voltaram ao castelo com a não notícia: a rainha perdida no vermelho e negro dos quatro cantos. O rei menos o reino, desolados. Ele mais que todos, triste-triste-tristíssimo. Assim, meio que pela metade, feito rei de baralho, no leito real deposto, esquecido da dama, descartado. Então o rei mergulhou em profundo sono . E sonhou.

O rei sonhou a rainha, porém, a rainha antes do resgate, da morte do dragão, antes da madrasta perversa, das irmãs postiças invejosas. Sonhou-a loura, sonhou-a donzela, sonhou-a quase menina de longos cabelos dourados, sem a prata do tempo: a pele lisa, sem as dobras do tempo. E a voz no veludo, extinta caverna do tempo. Enfim, o rei sonhou-a sem gansos, como já não era, e não seria deveras. E amou-a mais, sabendo-se também distinto do príncipe que fora: o príncipe perdido.

Perdida, a rainha, mais ainda; sem saber que buscava-o, lembrava-o moço, no adormecido da memória. Vagou, esquecida, no labirinto sereno e triste do passado, onde corredores cada dia mais estreitos replicavam seus passos. Ignorou o riso congelado nas caras dos quadros nas paredes, - um tal e qual a face do outro, não fosse a fina camada de pó na superfície, o tear cortinado das aranhas. Quando deu por si, estava diante da fonte d'água arrebentada. Assim a encontrou o rei ao chegar no jardim onde a floresta estendera seus tentáculos de ramas. E tudo era ruína e espinho, não fosse a rosa reclinada à fonte.

Ele a chamou pelo nome, mas ela não se voltou. Entretinha-se com a imagem represada no reflexo, o refluxo trepidante da água. Ela ia dizer: espelho espelho meu... Mas ele arrebatou-a num abraço antiquíssimo que ela, velhíssima também, correspondeu, reconhecendo-o no flácido gesto de amor. Cheios de si, beijaram-se. Ela era todas as princesas sonhadas, e era única, sua, a mais amada. Nuvem nova no céu, a noiva. Predestinavam-se. E foram felizes, outra e mais outra, infinitamente, como se fora uma única vez.   



[ Este conto é de 2006, talvez de antes. Mas só hoje (levei umas 2 horas para escrever o parágrafo final), dei-o por encerrado, para o simples objetivo de dedicá-lo/presenteá-lo a minha querida amiga Susana Ventura, para comemoração de seu aniversário.]  

quarta-feira, setembro 11, 2013

WILLIAM KENTRIDGE


CIDADE CINZA (ou Estou rifando meu filme)


ESTOU RIFANDO O MEU FILME!


No começo deste ano, o premiado cineasta Kleber Mendonça, em um embate com o ex-diretor executivo da Globo Filmes Cadu Rodrigues, soltou a seguinte frase ao se recusar a fazer um filme com o apoio da Globo Filmes: "O sistema Globo Filmes faz mal à idéia de cultura no Brasil, atrofia o conceito de diversidade no cinema brasileiro e adestra um público cada vez mais dopado para reagir a um cinema institucional e morto."

Não sou o Kleber Mendonça, mas respeito e admiro seu trabalho. No entanto sou um realizador/produtor/diretor, tentando no momento distribuir um filme que assim como tantos outros filmes independentes, acaba sendo sufocado por esse sistema de exposição midiática e distribuição concentrada.

Ao sair por ai, com o filme “Cidade Cinza” no bolso, recebi negativas de algumas distribuidoras, sempre com o mesmo argumento: O seu filme é ótimo, parabéns. Mas não queremos documentários no momento, documentário não dá público e estamos atrás de comédia, sabe aquele tipo de comédia? Então... Ou ainda: Posso até pensar em distribuí-lo, mas você vai precisar entrar com tudo, ter um bom dinheiro e não vai ser a nossa prioridade aqui dentro...

Depois de um tanto penar, decidi junto com meus parceiros realizadores não desistir e juramos que o filme chegaria aos cinemas. Montamos um crowdfunding, que iria custear uma distribuição e começamos o árduo trabalho de divulgar o tal financiamento coletivo: Campanha, Facebook, recompensas, emails, entrevistas, eventos...Tudo para chegar ao valor necessário para se distribuir o filme.

Um dia, ao mandar um email divulgando a ideia aos meus familiares, um tio avo me questionou: Não entendi muito bem a ideia, mas vou te apoiar. É como uma rifa certo? Voce esta rifando o seu filme Marcelo? Eu finalmente entendi o que estava fazendo.

Escrevo pois estou rifando o meu filme! Ele conta a história de alguns artistas de rua de São Paulo, como OsGemeos, Nunca e Nina, que lutam contra uma prefeitura que apaga os seus trabalhos com tinta cinza, enquanto no exterior eles são reconhecidos e celebrados. A trilha sonoroa é de Daniel Ganjaman e Criolo, e lutamos sim contra esse sistema injusto de distribuição cinematográfico no país.

Se você quer ver este filme nos cinemas, ou entende que o trabalho desses caras merece mais respeito e deve ser divulgado e celebrado, me ajude; Tenho 3 dias para captar o que falta, e não está fácil.

Qualquer quantia esta valendo, se não der para colaborar, compartilhe o post.
Valeu!

Site do Crowdfunding: www.catarse.me/cidadecinza

Por Marcelo Mesquita, um dos diretores de CIDADE CINZA - O Filme
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Hoje foi dia de cuidar da vida

- Endocrinologista.
- Urologista.
- Dentista.
- Exames laboratoriais.
- Alimentação regrada.
- Academia.


Dá um puta trabalho manter-se de pé.

À beira do nada Liliputiano.


Pinacoteca do Estado de São Paulo.

domingo, setembro 08, 2013

Aly Muritiba, cineasta



A gente, A fábrica e O pátio. O cinema deste jovem Aly Muritiba me interessa.


*


A Gente encerra uma trilogia sobre o cárcere

Produção é assinada por Aly Muritiba, cineasta que trabalhou como agente penitenciário em prisões do Paraná
LUIZ ZANIN ORICCHIO / CURITIBA - O Estado de S.Paulo
Com A Gente, que será lançado apenas em 2014, o diretor Aly Muritiba fecha a sua "trilogia do cárcere". O longa integra a programação do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, que termina hoje. Os dois primeiros filmes do tríptico - dois curtas - foram sucessos absolutos e deram projeção a este ex-agente penitenciário baiano, radicado em Curitiba. A Fábrica participou de 100 festivais e recebeu 62 prêmios. Com O Pátio, Aly foi um dos dois únicos representantes brasileiros em Cannes, este ano.
"A realidade carcerária é muito complexa para ser abordada num único filme", diz Muritiba ao Estado. "Por isso, fiz três, sobre pontos de vista diferentes. Em A Fábrica, o da família dos presos; em O Pátio, o dos próprios detentos; e, em A Gente, o dos agentes penitenciários."
Essa temática é fruto da experiência profissional de Muritiba, que saiu do interior da Bahia, foi tentar a sorte em São Paulo, estudou História na USP e acabou vindo para Curitiba apaixonado por uma paranaense com quem está casado. Entrou na carreira de agente penitenciário por acaso. "Prestei concurso, entrei e vi que era uma profissão que me permitia estudar cinema em outro período." Trabalhou sete anos no sistema penitenciário paranaense, realizou o sonho de se tornar cineasta e pediu afastamento não remunerado para fazer seus filmes. Mas, para realizar A Gente, pediu reintegração. "Não seria possível fazer o longa sem estar no local, convivendo com meus companheiros de trabalho."
Esses colegas estiveram na primeira sessão do filme, a mesma vista pelo Estado. Riram e brincaram ao se verem na tela grande do Espaço Itaú de Cinema. Mas também se emocionaram ao rever situações tensas, como a do preso que grita e exige transferência, obviamente alterado pelo uso de drogas. Outros presos pedem analgésicos ou sedativos porque não conseguem dormir. Não há remédios. Nem médicos para atender a quase mil detentos empilhados em celas. Apenas uma assistente de enfermagem. "É um barril de pólvora, que o filme mostra com muita fidelidade", comenta o agente penitenciário Ivanney Lobo.
Sem traço de sensacionalismo, A Gente retrata sem piedade um sistema carcerário superlotado, carente de recursos e sem proposta realista de ressocialização dos detentos. Os agentes aparecem com seus nomes reais, em situações ora verídicas ora encenadas. O "ator"principal é Jefferson Walkiu que, na vida civil, é também pastor protestante. Era, na ocasião, chefe de inspetoria da equipe Alfa num presídio de São José dos Pinhais. O filme, na fronteira entre o documentário e a ficção, deve ser uma bomba quando lançado.

A sorte de um amor tranquilo; ou quase

"Antes da Meia-Noite" traz Jesse e Celine finalmente juntos, mas em crise
14 de junho de 2013


"Esperava ouvir algo romântico, mas não vai acontecer", diz Celine (Julie Delpy) a Jesse (Ethan Hawke) em uma cena de Antes da Meia-Noite, que chega hoje aos cinemas. "Sabe aquele cara bacana e romântico que você conheceu no trem? Sou eu", rebate Jesse em outro momento do filme, que fecha uma das trilogias mais bem-sucedidas da história das comédias (ou seriam tragicomédias?) românticas.

E assim a ação se desenvolve como em uma típica discussão de relação, a famigerada DR, que dura o filme todo e revela que, após 18 anos (desde que se conheceram em um trem, aos 20 anos, em Antes do Amanhecer, de 1995), estão finalmente casados e lidam com temas muito mais mundanos, como contas a pagar, carreiras, crise da meia-idade, criação dos filhos. Mas não seriam os outros dois filmes (Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer, de 2004, quando Celine e Jesse, já na casa dos 30, voltam a se encontrar) também DRs intermináveis? "Sim. Talvez por isso eles sejam tão próximos das pessoas. Porque, apesar do romantismo, são um casal tentando aprender a viver", disse Hawke ao Estado no Festival de Berlim, em fevereiro, onde o filme competiu.

Neste terceiro capítulo, descobrimos que eles estão finalmente casados e tiveram duas meninas, gêmeas, com as quais passam as férias na Grécia. Jesse, escritor de sucesso, está em um período sabático. Celine vive às voltas com mudanças na carreira de ambientalista e em dúvida sobre um novo emprego. Ele sugere se mudar para os EUA, onde estará mais perto do filho do primeiro casamento. Ela, que não quer viver na América, entra em crise e profere: "É o começo do fim".

Do fim desta história, não se sabe. Mas do fim de uma espera de anos para se saber o que aconteceu com o casal nos últimos oito anos. "Com todos os prós e contras. Pode-se dizer que este é o menos romântico dos filmes. Acho que seja talvez o mais", disse Hawke. "Eles amadureceram, envelheceram. São um casal que, além do romantismo de outrora, convive com a rotina, crises, dúvidas", completou Julie. "Aliás, ainda que ela, como diz Jesse, ‘seja a prefeita da cidade dos loucos’, e reclame sem parar, este não é um filme que implica com as mulheres. Pelo contrário. Ele tem muito de nossas vidas, ainda que seja ficção", acrescentou o diretor Richard Linklater que, ao lado de Hawke e Julie, assina a confecção deste roteiro tão realista e, muito por isso, belo.

Flavia Guerra - O Estado de S. Paulo

O casal hétero e sua capacidade sem fim de seduzir

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo

Há um momento de Antes da Meia-Noite em que Ethan Hawke e Julie Delpy participam de uma refeição na casa do editor que os hospeda, na Grécia. À mesa estão casais de diferentes gerações, e a conversa, muito naturalmente, cai nas diferenças de gênero. Como se comportam homem e mulher? Alguém conta uma história exemplar - a mulher, de volta do coma, quer saber da família, dos filhos; o homem, a primeira coisa que faz é levantar as cobertas para ver se está tudo em ordem com sua genitália.

Antes do Amanhecer, do Entardecer e, agora, da Meia-Noite. Ao longo de 18 anos, nós, o público, temos acompanhado o casal Hawke/Julie, como eles se conheceram num trem e passearam por Viena, durante aquela madrugada, como se reencontraram quando ela foi à noite de autógrafos dele e, desta vez, casados. A abertura já define o tom - Hawke, no aeroporto, numa conversa quase impossível com o filho.

A beleza da série é este mistério que faz com que o espectador se interesse sempre pelo que está ocorrendo com Hawke e Julie. Um cinema da palavra - a câmera no começo está colada ao para-brisa do carro, enquanto eles falam sem parar; depois os acompanha num travelling, enquanto caminham, e falam sem parar; e mais tarde, ainda, em outro travelling, na casa. Como se filma uma conversa? Como se faz para que seja interessante? Existe esta coisa misteriosa e imponderável que se chama "química". A química entre os atores, entre eles e o diretor Richard Linklater. O roteiro é creditado ao trio, todas aquelas dúvidas sobre a vida, o amor, a literatura, a morte - e o sexo. Na era do GLBT, o casal tradicional não perdeu a capacidade de fascinar. O filme é emocionan

Lucien Freud







Morte e vida severina (completo), em animação.

Machinarium



Amo esse jogo estilosíssimo, que jogo vezenquando com Pedrão.

140, game de jeppe Carlsen



Mais um game minimalista muito parecido com Thomas was alone, o título é 140, da autoria de Jeppe Carlsen.

Latitudes - uma série de Alice Braga



Uma web série produzida e interpretada pela Alice Braga. Dois episódios por enquanto. Boto link AQUI.

O iluminado, cartaz genial