sábado, junho 30, 2012

Em preparação ou Narcisismo.02


Tem jeito não, começou a embarangar, retorno imediato à academia.Aliás, meus problemas acadêmicos atualmente envolvem mais o abdômen que o cérebro. 

Querelle, de R. W. Fassbinder


Quer algo mais explicitamente gay do que a capa de Querelle, de Fassbinder? Assisti no século passado, aos 18, às vésperas de ver Satyricon, do Fellini. Devo mentir que não me chocou? O filme é baseado em Jean Genet. Dai, tudo teatral, posado, nebuloso (de fumo, névoa e ópio). Aquele cabaré estranhíssimo, com cores e climas colorido, e personagens saídos do clichê do hardcore gay. Marinheiros, ursos, travecos, putas, michês, gigolôs, devasidão, culpa, desejo, sexo. Jeanne Moreau sempre transcendendo. Franco Nero em potência. Transgressor até não poder mais. E Brad Davis, estupendo, um pouco antes do fim. Tem que ser muito macho para filmar assim. Fracos e puros: afastem-se.

Ilusão de ótica


quinta-feira, junho 28, 2012

Oito anos de Pedrerico


Sombras da noite


Novo filme do Tim Burton, sem o brilho dos anteriores, apesar do aspecto visual e do elenco. A história não engrena e faltam as cenas bonitas e surpreendentes. Mesmo a excentricidade dos personagens, aqui, parece menos, e nenhum resquício daquela melancolia do velho Burton, do agridoce das situações, e boa dose de ironia com o modo de ser americano. Juro que senti saudade de dois extremos do diretor Peixe Grande e de Marte ataca.

Eu e as meninas em Mauá - 27.6.12




Hoje, eu encontrei por acaso as meninas no centro de Mauá e fomos ver o novo filme do Tim Burton. Legendado e por meia entrada (milagre!!!!). But... não era um grande filme, mas serviu perfeitamente para eu reencontrar essas lindonas aí e compartilhar pipoca e bis no cinema.
 



segunda-feira, junho 25, 2012

A demonização estadunidense e a nossa velha inepcia


Ah, não, de novo a demonização americana?! Para mim, um jeito muito esperto de passar a culpa para o outro, ignorando o nosso velho modelo "democrático" baseado no populismo, na administração inapta, na conivência de diversos setores estabelecidos, na alienação absoluta do dito "cidadão", e principalmente na corrupção nossa de cada dia. É chocante dizer mas a culpa da desgraça do subdesenvolvidos não provém inteira dos estadunidenses. Não me iludo sobre incompetência nossa (latinoamericanos) de nos administrarmos pessimamente e de nos vendermos barato (veja as madeireiras multinacionais que atuam livremente no Br) para quem pagar mais. Se existe um demônio, este não se chama EUA ou legião, mas DINHEIRO, e esse não carece nem de cara nem nacionalidade. Qualquer cucaracha, gringo, wasp, europeu, africano fode seu semelhante, o planeta, sua pátria, seu deus, pelo quem -da-mais.  Quando bem pagos e catapultados ao poder, não há ideologia, fraternidade ou delicada consciência que não sucumbam.


[revidando a essa imagem postada no facebook.]

Micróbio vivo - La Calcanhotta


achei o cd micróbio de calcanhotto muito ruim, ainda mais diante dos trabalhos anteriores. mas eu aprecio demais a artista, e quando vi esse dvd, me interessaram mais os extras do que sua performance de palco, que costuma ser minimalista, fria (embora ela tente uns gracejos) e bastante artificial. o esforço pela leveza e  espontaneidade é o pior inimigo de la calcanhotta, e resulta em algo fake, posado, artificial, muito posado, naquele nível das performances vanguardistas mais chatas e inócuas. mas não assisti ainda. posso ter uma surpresa maravilhosa. 

[mas quem vejo aqui na capa? o davi moraes: o pinto-de-ouro da mpb, que veio ao mundo para des-sapatizar as cantoras brasileiras]. 

Zie zii - show e documentário


depois de meses, decido realmente comprar aquele dvd do show zii zie do caetano que é a coisa mais linda do mundo. tinha aqui uma versão genérica, que não tinha vindo com todos os extras. foi um absurdo o preço, mas um demônio gastador se apossou de mim, e lá na fnac paulista comprei esse e um da calcanhotto. não que eu tenha preconceito contra genéricos, mas os camelôs tem. para eles caetano, calcanhotto e essa elite banquinho violão da mpb não dá lucro. então lá vou eu dar lucro pra fnac e para esse governo que, com suas altas taxas de impostos sem retorno social me apunhala pelas costas. 

Ocupação Nelson Rodrigues - Exposição no Itaú Cultural/Paulista










Então o Dom me ligou pra contar as novidades, e eu falei a ele que não tava a fim de ficar em casa. Subimos daqui pra Paulista, para ver a Ocupação/Exposição do Nelson Rodrigues, que está imperdível. 

sábado, junho 23, 2012

o Gabriel


Essa foto extraordinária o Gabriel postou hoje no facebook, e eu gostei demais pela elegância, simetria e expressividade de tudo. Gabriel foi meu aluno ainda criança, no século passado, quando as torres gêmeas estavam prestes a tombar. Eu falo com ele constantemente pela internet, e colaboro com o site dele SOUL ART. Ele sempre foi um garoto bacana, inteligente. Virou um cara bacana, inteligente e talentoso, a se constatar pela qualidade do Soul Art e do projeto (Control) que ele encabeça; além das edições gráficas, fotografias, papos. Gabriel é fodástico. Não nos vemos presencialmente há todos esses milhares de anos, e mesmo quando há encontros dos colaboradores do site, simplesmente não posso ir ou há desencontros. Mesmo assim, eu gosto de pensá-lo como um amigo próximo, daqueles que nos orgulhamos por conhecer e compartilhar interesses. Acho melhor fazer essa lista de elogios agora, antes dele decolar, virar estrela, porque é a isso que se destina esse menino-cão com nome de anjo. Evoé Gabriel!

Prometheus, de Ridley Scott





Visualmente maravilhoso (embora ainda ache o primeiro Alien infinitamente mais impactante), o filme tem uma trama interessante, mas muitos furos que a torna tão inverossímil (nunca confunda "verdade" com verossimilhança), que a partir de um momento, tive que desencanar pra não me aborrecer. O pior são a galeria de personagens caricatos, desprovidos de qualquer psicologia e/ou simplesmente "inúteis/descartáveis" como o de Charlize Theron, para o meu absoluto espanto. Palmas para Michael Fassbender, que consegue ser o melhor do filme com seu androide assustadoramente ambíguo.

Prometheus




Interessante como Ridley Scott se apropriou claramente da estatuária greco-romana para construir a imagem dos ET´s nesse filme novo do Alien, no qual o Alien é mero acessório.

quinta-feira, junho 21, 2012

"Frontal com fanta" (frag.), de Jorge Furtado



(...)

- Eu gosto do corpo.
- Do seu? É bonitinho.
- Gosto mais do seu.
- Você tem bom gosto. E camisinha, você tem?
- Não.
- Que pena...
- Eu posso conseguir.
- É? Então consegue.

Eu consegui, com o enfermeiro, três camisinhas por um adidas quase novo.

- Eu consegui.
- O quê?
- Camisinha.

Ela riu.

- Que horas é a sua terapia?
- Depois do almoço.
- Consegue não ir?
- Pode ser.
- Se conseguir, fique no seu quarto.
- Tem um cara lá.
- Drogado ou esquizofrênica?
Drogado.
- Tudo bem. Fica no quarto.

Eu não comi nada no almoço, disse para o médico que tinha vomitado e estava com diarreia, disse que tinha dores nos braços e nas pernas e que quando eu olhava para o lado os meus olhos doíam. Ele disse para eu me deitar, devia ser uma virose, eu disse que tinha terapia depois do almoço e ele disse que eu não precisava ir. 

Ela entrou no quarto, o outro cara estava na cama dele, lendo. Ela disse oi e perguntou se ele queria um diazepan. ele disse que sim e perguntou o que ela queria. Ela disse para ele sair do quarto e deu o diazepan pro cara. Ele me olhou, riu e saiu. ela fechou a porta e botou uma cadeira encostada, apoiada no trinco. Ela tirou a roupa. Nós transamos. Era isso, agora sim.

Alguém que podia me amar, que sabia como eu era, que me olhava nos olhos, alguém para quem eu nunca ia ficar invisível, que podia me dar prazer e pra quem eu podia dar prazer, e todas estas pessoas eram a mesma pessoa. Quando eu entrei nela eu nasci.

"Frontal com fanta", de Jorge Furtado. 
in Tarja preta. Ed. Perspectiva. pp.32-33

[Este é um dos contos mais lindos que já li. É de um cineasta, roteirista, diretor de cinema, seu nome é Jorge Furtado. Seus curtas maravilhosos são bastante premiados. Seus roteiros são divertidos, sagazes, divertidos. Ele tem um livro de contos, e um romance baseado em Shakespeare, que eu já comentei há um bom tempo aqui, no Revide. Também gosta de traduzir sonetos shakespeareanos. Postei aqui por que sou apaixonado por esse texto, o modo como é limpo, emocional, claro, e de repente, poético e triste. Chega a doer.]

Dia dos namorados: um vídeo português


O português de Portugal soa realmente muito estranho para mim. Digo como brasileiro. Não que seja feio, ou ruim, apenas desconcentra-me, mas o mesmo ocorreria se fosse um pernambucano ou um cearense falando o texto. Soa incomum, ponto. O texto é lindo, poético, fluente, direto. Adorei a ideia da filmagem no meio da rua/praça aberta, a câmera que capta a reação do público, os que o ignoram e os que admiram. Gosto realmente disso. 

Um dia modelo para Lucas Rios

Hoje fui levar o Lucas na agência Closer model management para um teste, e ele foi imediatamente contratado. Agência internacional, equipe mega profissional, e o garoto agora com o primeiro emprego para modelar/desfilar por aí, essa cara que deixa as pessoas desconsertadas. O nome mudou, agora é Lucas Rios, book em baixo do braço. Quem segura o garoto. Pouquinho antes, ele cá em casa e eu lia para ele o conto "Frontal com Fanta", do Jorge Furtado. Pouquinho depois, ele me mostrava as páginas preferidas dele no Lobo da Estepe, do Herman Hesse, e eu dizendo-lhe que não concordava com nada daquilo. E foi assim, chegou indicado pelo fotógrafo sensacional Daniel Benjamin e logo já estavam lhe dizendo como tudo funciona, e agendando trabalhos para ele. New look/Novo Lucas, tudo de repente renovando-se e abrindo-se bonito para o menino que não sei, mas torço que saiba segurar o rojão sem deslumbrar-se, sem desbundar-se, sem ficar oco. E que posso desejar senão sucesso e juízo? 

Photo by Daniel Benjamin


Sabe aquilo que eu chamo de momento mágico, aquele instante único em que a felicidade é honesta, física, palpável. Foi assim: sair da agência e caminhar do Jockey Club até a estação do metrô Butantã entusiasmados, ouvindo-lhe os planos daquele jeito muito dele. Daquelas coisas que acontecem uma vez na vida. E tudo foi na correria na correria (sugeria adiar), pois tinha encontro encerrando o Mito com a turma lá na FSA, e ele com formatura para às 19h no SENAI. Ficamos o dia todo sem comer nada, eu trabalhando aqui no computador e ele lendo algo enquanto não terminava, até cair no sono e roncar. No fim, aquela coisa meio apoteótica, tudo se realizando naquela correria típica da família, ele pegando o book e correndo para fazer a formatura em Santo André, metrô e trem cheio pelo ladrão. Caos e festa. Agora os cliques bonitos que faço dele desde os 15 não serão mais meus

E tudo deu-se o melhor.

A boa vida. E Deus, muito solar sobre a garoa, e o velho Luks que antecipadamente desvanece na sorte e no tempo.







terça-feira, junho 19, 2012

Um Eduardo partido ao meio



  



No viaduto Santa Ifigênia, de  cara para o Anhangabaú.

E partido ao meio no metrô São Bento.

Uma carta de Caetano no exílio para o Pasquim



Hoje quando eu acordei eu dei de cara com a coisa mais feia que já vi na minha vida. Essa coisa era a minha própria cara. Eu sou um sujeito famoso no Brasil, muita gente me conhece. Eu acredito que a maneira pela qual esse conhecimento se dá pode dizer muito a mim mesmo sobre mim. Acho que uma capa de revista pode ser como um espelho para um homem famoso. Quando um homem vê a sua cara no espelho ele vê objetivamente em que estado a vida o deixou.


O vídeo-tape, a fotografia colorida e as manchetes que incluem o nome de um homem famoso são também assim como o espelho. Durante todo o tempo em que eu estive trabalhando em música popular no Brasil, eu sempre levei em conta esse fato. E eu pensava que estivesse fazendo alguma coisa, pois a imagem que me era devolvida era de alguém vivo, em movimento, passando realmente por entre as coisas.



Hoje eu fui à aula de inglês e Mr. Lee me ensinou como usar direct speech em lugar de reported speech. Depois da aula King’s Road estava sem beleza sob uma chuva fria e crônica. Eu atravesso as ruas sem medo, pois eu sei que eles são educados e deixam o caminho livre para eu passar. Mas eu não estou aqui e não tenho nada com isso.


Estou andando como os homens, com meus dois pés. Não penso em fazer nada. Alguém entende o que seja isso?

O cara que me vende cigarro no Picasso fala espanhol. Na janela da casa onde estou morando tem uns gerânios que já estão secando por causa do outono. Meu coração está cheio de um ódio opaco. As crianças inglesas são belas e agressivas. A rainha Elizabeth está pedindo aumento de salário. Eu não dependo disso tudo. Nada disso depende de mim. O aspirador não serve pra limpar as cortinas porque é muito pesado. Aqui em casa. O Rei esteve ontem aqui em casa e eu chorei muito. Se você quiser saber quem eu sou posso lhe dizer: entre no meu carro, na estrada de Santos você vai me conhecer.

Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos.


Ele está mais vivo do que nós. [De Londres (no exílio) para o Pasquim. 27/11 a 02/12/1969]


segunda-feira, junho 18, 2012