quinta-feira, maio 31, 2012

Se eu quiser falar com Deus


Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Gilberto Gil

Crise

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Meu Deus, que trabalho cuidar de um apartamento sozinho!!!






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quarta-feira, maio 30, 2012

Narciso: de Caravaggio a Leminski




Contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Paulo Leminski

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Narciso e Narciso

Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.
Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.
O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.

Ferreira Gullar

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Narciso e o lago

Quando Narciso morreu, o lago de seus arroubos de prazer converteu-se de ânfora de água doce em ânfora de lágrimas salgadas. E as Oréades vieram chorando pelo bosque a cantar junto do lago para consolá-lo. E ao ver que o lago se havia convertido de ânfora de água doce em ânfora de lágrimas salgadas, soltaram as madeixas verdes de suas cabeleiras e gritaram para o lago, dizendo-lhe:
- Não nos surpreende que chores assim por Narciso, que era tão belo.
- Mas Narciso era belo? – perguntou o lago.
- Quem melhor do que tu poderia sabê-lo? – responderam as Oréades – Ele nos desdenhava, mas cortejava-te, e deitado em tua margem, contemplava-te e no espelho de tuas águas mirava sua própria beleza.
E o lago respondeu:
- Eu amava Narciso porque, quando se inclinava na minha margem e me contemplava, no espelho de seus olhos sempre via minha própria beleza refletida.

Oscar Wilde

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O PAÍS DAS MARAVILHAS

Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

Antônio Cícero


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Para Cioran, em Exercícios de admiração: “toda metafísica começa por uma angústia do corpo”, uma busca de algo que ao ser encontrado se desfaz ou se transforma, assim também se dá com a imagem desse algo que não encontra seu lugar em nenhuma realidade. O mito de Narciso, por exemplo, nos dá bem essa sensação de vertigem, uma angústia do corpo que só se resolve ao anular(-se) esse corpo.

 No texto de apresentação a Metaformose – “Águas para um olhar” – Alice Ruiz responde ao porquê de Narciso ter sido o escolhido de Leminski para contar essa história: “Talvez porque, de todos os mitos, é onde o ego se faz mais autodestrutivamente presente.”

Leminski escreve: "toda fonte é uma moça bonita que foi amada por um deus, que disse não a um rio, que fugiu de um sátiro, nada é real, nada é apenas isso, tudo é transformação, tudo vibra de significar. Heródoto buscou, entre as miríades de povos, uma fábula que, como o ímã, fosse o centro e a raiz de todas. Mas as fábulas não têm centro.... Quem me dera ser uma máscara para repousar meu rosto de todo esse vão mudar. Não se pense que vou ficar assim a vida toda. Um dia eu mudo, vão ver. No carnaval das transformações, passa a sombra da Medusa, dor sem fim de virar pedra... É realmente preciso imaginar o horror, até  o limite do horror, imaginar livre além de toda a repugnância, permitir-se imaginar até as extremas fronteiras onde a imaginação, em delírio, reduz a realidade à pobreza de uma pedra? (LEMINSKI, 1994, p. 9).




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• Que espelho poderia conter o sol? Mito, rito, minto mundos, enquanto vomito três mil deuses por segundo, a fonte é uma poça de vômito e sangue, desaparecendo meu rosto sem igual.

Paulo Leminski

Paulo Leminski


Saudades de rever/ler/reler aquela poesia falsamente fácil do sujeito aqui encimado, esse Cão chamado Paulo Leminski.

Definição de Poesia, por Paulo Leminski


LIMITES AO LÉU

POESIA: “Words set to music” (Dante
via Pound), “uma viagem ao
desconhecido” (Maiakóvski), “cernes e
medulas” (Ezra Pound), “a fala do
infalível” (Goethe), “linguagem
voltada para a sua própria
materialidade” (Jákobson),
“permanente hesitação entre som e
sentido” (Paul Valéry), “fundação do
“a religião original da humanidade”
(Novalis), “as melhores palavras na
melhor ordem” (Coleridge), “emoção
relembrada na tranqüilidade”
(Wordsworth), “ciência e paixão”
(Alfred de Vigny), “se faz com
palavras, não com idéias” (Mallarmé),
“música que se faz com idéias”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), “um
fingimento deveras” (Fernando
Pessoa), “criticism of life” (Mathew
Arnold), “palavra-coisa” (Sartre),
“linguagem em estado de pureza
selvagem” (Octavio Paz), “poetry is to
inspire” (Bob Dylan), “design de
linguagem” (Décio Pignatari), “lo
imposible hecho posible” (García
Lorca), “aquilo que se perde na
tradução” (Robert Frost), “a liberdade
na minha linguagem” (Paulo Leminski)



Clarice, no inferno


O imitador de vozes, de Thomas Bernhard


Curioso por conhecer este autor que influenciou o Bernardo Carvalho, comprei esse O imitador de vozes, de Thomas Bernhard. Livro de tramas curtíssimas, com um humor estranho, tom monocórdico em ordem linear. Li tudo, sem paixão, que talvez um dia venha, mas por enquanto não. O problema é não saber como soa no original as repetições (para mim insuportáveis) das frases longuíssimas. Impressionado apenas com o uso da primeira pessoa do plural, de um modo bastante interessante, causando estranheza aos relatos que soam realistas, mas deixam escapar um estranhamento do mundo, um insólito que raramente se cumpre. Nas entrelinhas, uma ironia leve que dissolve o pessimismo reinante, a descrença em homens e instituições, solidões imensas, gente medíocre em vidas banais, escritores/intelectuais vaidosos e ressentidos, tudo descambando em assassinatos, tragédias e principalmente suicídios. Aliás: um livro de suicídios.



CARIDADE

Uma velha senhora, vizinha nossa, foi longe demais em sua índole caridosa. Tinha acolhido em sua casa um pobre turco, conforme acreditava, que, de início, mostrou-se de fato agradecido por não mais precisar viver num barraco de canteiro de obras destinado à demolição mas, em vez disso, e graças à caridade da velha senhora, poder morar agora num casarão situado no meio de uma grande jardim. Fez-se útil ali, trabalhando como jardineiro, e a velha senhora não apenas vivia lhe comprando roupas novas como verdadeiramente o mimava. Um dia, o turco compareceu à delegacia de polícia e declarou ter matado a velha senhora que, por caridade, o acolhera em sua casa. Estrangulou-a, como constatou em visita imediata ao local do crime a comissão designada pelo tribunal, quando a comissão perguntou ao turco por que havia matado, ou seja, estrangulado a velha senhora, ele respondeu: Por caridade.

terça-feira, maio 29, 2012

Rever Revide Retornar Re-Vidar



E seguindo aquele meu método bizarro, de deixar que as coisas se resolvam por si mesmas, voltei ontem ao antigo Revide, e já não havia mensagem do malware ou bloqueio para quem quisesse acessá-lo. Então, trago tudo o que tinha escrito anteriormente para cá, muito fiel a essa minha mania de odiar mudanças. E sigo: retorno revendo revidando entremeado de assuntos que são meus, e por não me bastar, desejo-os compartilhados, vidrados e vistos. Revindo, revido.

segunda-feira, maio 28, 2012

Eu e irmanzinha


Nós, dias desses, no show do Marcelo Jeneci, em Santo André. 

Família ou Das crias da Vã


Patrícia, Diene e Carlos Eduardo, meus primos-sobrinhos, em algum lugar do passado.

domingo, maio 27, 2012

Anotação




Joseph.




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Concerto de piano no tablet pra Lucas, the habbit


John Carter - Entre dois mundos



Achei que fosse tão tão tão ruim. Não é não, mas foi o fracasso de bilheterias do séculos, o que significa que não teremos a continuação e o desfecho dessa história. Certo?

Leituras



E no meio das mil coisas para fazer, arranjo tempo para ler. Engano seu, de Andrea de Fuego, com contos belos e qualidade irregular, apesar de ser uma autora que se arrisca no ponto de vista do conteúdo. Pão e sangue é de um Dalton anterior, ainda atrás da síntese, aqui fazendo versões e reescrevendo-se sempre dentro do próprio conto. 

sábado, maio 26, 2012

Fotos no cinema pelo ActionSnap


ActionSnap é um programa do Android que faz colagens sequenciais de fotos automaticamente, o efeito é quase sempre bacanas. Este eu fiz no cinema de Mauá.



Sensacional foto do Leo Castro


Essa ele mandou adivinhe de onde?

Homens de preto 3



Uma delícia de filme assistido hoje, em Mauá.

quinta-feira, maio 24, 2012

Redação censurada na USP



Dalton Trevisan e o Prêmio Camões




O escritor brasileiro Dalton Trevisan, 86, foi anunciado o vencedor da 24ª edição do Prêmio Camões nesta segunda-feira (21), em Lisboa. A premiação, criada em 1988 por Brasil e Portugal, é o principal reconhecimento da literatura em língua portuguesa.

Grande sertão: veredas

Que síntese linda.

O fim do House


Então o House, este ano, 2012, chega a sua última temporada. Está aqui, baixei, falta assisti. Dou graças, pois os últimos episódios estavam bem desinteressantes. 

Douglas Sirk no CCBB


Então o meu caríssimo mestre Djalma mandou um torpedo me convidando para ir no CCBB-SP assistir com ele um dos filmes da mostra dedicada ao extraordinário mestre do melodrama Douglas Sirk. E como não foi previamente marcado, e combinado, deu certo. Palavras ao vento é um filme de excessos, na intensidade dos sentimentos, da atuação, de diálagos rascantes, das cores primárias brilhantes, da trilha sonora que irrompe e estarrece. Ricos deprimidos, promíscuos, alcóolatras, servos fiéis, mulheres abnegadas, paixões recolhidas, desejo reprimido, invejas colossais. Precisos e hiperbólicos movimentos de câmera, que invadem e perscrutam segredos. Pai do cinema de excessos, coloridos e diálogos cortantes de Almodóvar, de Fassbinder, David Lynch e Haynes. Matriz.  






terça-feira, maio 22, 2012

segunda-feira, maio 21, 2012

Django Reinhardt



De repente, essa beleza apresentada pelo Djalma por email.

Todas as cores de Jeneci













Show de Marcelo Jeneci no Sesc Santo André

18 de maio de 2012.