segunda-feira, dezembro 10, 2012

Recusando uma entrevista/depoimento sobre Clarice Lispector

Uma amiga querida, sabendo que amo Clarice Lispector, me indicou à uma jornalista que faria uma matéria sobre Clarice Lispector, mas não gostei muito da pauta. Abaixo, 

minha resposta:


Olá, caríssima,

De antemão, peço perdão pela demora em responder. Acontece que em fim de ano,
para nós professores/pesquisadores aumenta em muito as atividades, com correções,
provas, concursos etc. Então não tive mesmo como sentar e responder como devido.

Primeiro a amiga Mariana perguntou se eu podia participar, e eu topei na hora, mas 
logo que li a pauta percebi que não tinha muito a ver com meu modo de pensar sobre a questão.

Explico:

Minha formação é Letras, tenho á pós-doutorado em Literatura e Estudos Culturais,  
portanto, trabalho todo tempo com literatura e arte, e achei equivocada essa abordagem do texto literário.

Clarice Lispector (assim como Caio Fernando Abreu e Fernando Pessoa) viraram ícones
do facebook, por meio de "frases" que parecem pírulas de sabedoria, e que fazem a 
cabeça da molecada adolescente que passa e repassa sem saber, por falta de leitura
e desconhecimento - que 99% daquelas frases não são dos autores, muitas vezes são o
oposto do estilo e pensamentos dos autores.

Esses dias vi uma "receita de mulher", um texto que "cantava" o corpo feminino (no estilo
"o que me atrai em uma mulher") atribuída a Caio Fernando Abreu, gay assumidíssimo, 
que jamais escreveu algo do tipo.


Graças a Deus, alguns denunciam o ridículo, montando comunidades como "Clarice de TPM",
para zombar exatamente daquela outra Clarice Lispector fake que circula pela internet.


Portanto, você já entendeu, que não compartilho da ideia de autores que "dão lição de vida",
que inspiram decisões, que determinam mudanças de pensamento nos seus leitores. Amo Clarice
não só pela grandeza da sua expressão, mas seus nuances filosóficos. Amo-a empaticamente
mas também muito pelo reconhecimento estético, ou seja INTELECTUAL, mas ela não 
significa para mim mais do que uma grande escritora com capacidade ímpar de transcender
literariamente a vida e poeticamente exceder em sentidos através de sua palavra.

O resto, acho ingenuidade e mistificação, e não gostaria de difundir essa coisa 
de leitor-guru, colocando-a lado a lado com escritores medíocres de autoajuda rasteira,
que emulam provébios e frases clichês - tautologias, obviedades, muitas vezes somente
aquilo que as pessoas querem ouvir. Formulazinhas empobrecedoras para vidas
pobrinhas.

Pensando bem, não é só Clarice que agrega significado à vida das pessoas, acho que qualquer
obra de arte tem esse potencial, aliás qualquer experiência: relacionamentos, viagens,
empregos, acidentes. Clarice talvez só faça a percepção ficar mais aguda ao que se passa internamente
na pessoa, talvez funcione como um amplificador para fazer o sujeito se perceber melhor.

Mas como disse, essa é a função de toda obra de "arte". Como pouca gente tem tido
contato com Arte maiúscula nova (ainda mais jovenzitos) Clarice virou uma espécie de caminho para o nirvana. 

Ela certamente odiaria isso, essa mistificação de sua figura. Mas aí sou eu conjecturando.

Desculpe se não posso ajudar, 

mas desejo boa sorte.


Abraço





Um comentário:

Anônimo disse...

Touché!