domingo, setembro 02, 2012

De "Galeria póstuma", de Machado de Assis



"Benjamin ficou atordoado. Não podia acabar de crer na morte do tio. Correu ao quarto, achou o cadáver na cama, frio, olhos abertos, e um leve arregaço irônico ao canto esquerdo da boca. Chorou muito e muito. Não perdia um simples parente, mas um pai, um pai tenro, dedicado, um coração único. Benjamin enxugou, enfim, as lágrimas; e, porque lhe fizesse mal ver os olhos abertos do morto, e principalmente o lábio arregaçado, concertou-lhe ambas as cousas. A morte recebeu assim a expressão trágica, mas a originalidade da máscara perdeu-se."

"Tão amado que ele era, com os modos bonitos que tinha, sabendo conversar com toda a gente, instruído com os instruídos, ignorante com os ignorantes, rapaz com os rapazes, e até moça com as moças."

ELIAS XAVIER. - Este Elias é um espírito subalterno, destinado a servir alguém, e a servir com desvanecimento, como os cocheiros de casa elegante. Vulgarmente trata as minhas visitas íntimas com alguma arrogância e desdém: política de lacaio ambicioso. Desde as primeiras semanas, compreendi que ele queria fazer-se meu privado; e não menos compreendi que, no dia que realmente o fosse, punha os outros no meio da rua. Há ocasiões em que me chama a um vão da janela para falar-me secretamente do sol e da chuva. O fim claro é incutir nos outros a suspeita de que há entre nós cousas particulares, e alcança isso mesmo, porque todos lhe rasgam muitas cortesias. É inteligente, risonho e fino. Conversa muito bem. Não conheço compreensão mais rápida. Não é poltrão nem maldizente. Só fala mal de alguém, por interesse; faltando-lhe interesse, cala-se; e a maledicência legítima é gratuita. Dedicado e insinuante. Não tem idéias, é verdade; mas há esta grande diferença entre ele e o Diogo Vilares: - o Diogo repete pronta e boçalmente as que ouve, ao passo que o Elias sabe fazê-las suas e plantá-las oportunamente na conversação. Um caso de 1865 caracteriza bem a astúcia deste homem. Tendo dado alguns libertos para a guerra do Paraguai, ia receber uma comenda. Não precisava de mim; mas veio pedir a minha intercessão, duas ou três vezes, com um ar consternado e súplice. Falei ao ministro, que me disse: - "O Elias já sabe que o decreto está lavrado; falta só a assinatura do Imperador." Compreendi então que era um estratagema para poder confessar-me essa obrigação. Bom parceiro de voltarete; um pouco brigão, mas entendido."

Para ler o conto inteiro AQUI



["Galeria póstuma", é para mim uma das maiores realizações de Machado de Assis no conto. Parece sintetizar seus principais temas: a questão da máscara, da ingratidão, da hipocrisia das relações sociais, da ganância e mediocridade dos que almejam e chegam ao poder. Há a questão do conselheiro, daquele que vê, mede, e trata de descarnar, com visão arguta -  talvez cruel, talvez cínica, mas sempre desencantada - o homem. Amo os "perfiz" céticos, maldosos que figuram na "Galeria póstuma" do recém defunto. São outras memórias póstumas, e desconfio que o Jorge Amado tirou daqui, pelo menos a cara que pôs no defunto de três mortes: seu Quincas Berro D'água.]



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