terça-feira, setembro 18, 2012

Da predileção pelos contos


Gosto de contos curtos, incisivos, desses que cravam os dentes, deixam marcas. 
Cicatrizes de "A bela e a fera" e o "Búfalo", de Clarice, trago na coxa esquerda. 
"A terceira margem do rio" me marca a nuca. 
"A cartomante", do Machado, quase me fura os olhos. 
A minha cegueira tem muito do Ficções. 

Embora uns contos do Cortázar me encham a vista, prefiro relatos soturnos. 
Fui educado nas sombras de Poe e Kafka confundidas com as narrativas feéricas dos Grimm. 
Minha catequese foram também aquelas ilusões de robô de Asimov e K. Dick. 
O mal-gosto da escrita de Stephen King fez casa em mim, mas fui salvo pela jocosidade de Scliar e Loyola, pelas introspecções de Vilela, pela elegância de Lygia. 
Também Tchecov me iniciou no peso do silêncio.

São contos demais para listar; suas leituras também me remetem a situações; construíram em mim memórias pessoais difíceis de apartar.
Falar de contos é falar do ato de ler, de escolhas de autores, obras. 
E essas escolhas me definem como leitor amoroso e crítico experto.

Há uns que doem mais que outros, como aqueles do Caio de Morangos Mofados, destroçando e revelando que o pior estava por vir. Gabriel Garcia Marquez viria então me apaziguar com seus contos encadeados travestidos de romance. Realismo fantástico ou brutal.

Alguns contos, por mais que vertam sangue (penso no Rubem Fonseca), me enchem de alegria. 
Será que alimentam em mim certo sadismo insuspeitado? 

Contos são instantâneos de criação, simulacros de uma verdade possível, em que o escritor tanto espelha quando se rebela com Deus reivindicando para si também o papel de criador. 
Há muito de profético (e herético) no ato transgressor de escrever.

Da parte do leitor, destaco a predisposição de todos estes a voyeurs. 
Prazer de travestir-se também na perspectiva do outro.
Quem negaria a excitação de mirar a vida que desfila desnuda (às vezes sub-repticiamente) entre parágrafo e ponto? 
Toda fábula - construída período a período, compacta e condensada, 
- não terá esse objetivo onanista de fricção, tensão e gozo?
Toda narrativa seria a simulação de um coito ou sua sublimação? 
Não é isso o que textualmente se lê nas páginas finais do Ullysses, de Joyce?

Leio um livro aos saltos, como faz a agulha da velha vitrola saltar sobre as faixas que seguem. 
O factual, o prosaico, o poético, o grotesco, o introspectivo, o absurdo, o fantástico, o estilizado: todas as dicções me interessam. 
Seguirei sempre meio claudicante daquela "Cadeira", de Saramago.

Leio os contemporâneos, os europeus e os negros/brancos-africanos; os anônimos, os autores-grifes, os do passado (e a intuição que eles tiveram do futuro).
Leio os novos sem-qualquer-visão (esses contemporâneos que negam influências, seus ismos e querendo muito ser originais) 

Curto, ao conto somam-se périplos.

6 comentários:

Cavalo Marinho Audiovisual disse...

Lindo texto!!!!

Anônimo disse...

Fabuloso! Me fez suspender a mordida na maçã noturna várias vezes. Nunca dememorei tanto para comer uma maçã, viu? Pena que vc. não dê acesso para compartilhamento através daqueles ícones. Mas vou dar um jeito de espalhar, pois "coisas assim a gente não perde nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas"

Curvei-me, senhor, diante de seu texto!

Cleyton Cabral disse...

Que lindo, leitor apaixonado. :)

Charlene Salus disse...

Amei Edu! Lendo seu texto lembrei de muitas coisas na minha vida, do tempo que participava de concursos de contos e de tantas outras coisas...

Belíssimo texto!

Saudades suas e de algumas coisas daquele tempo...

bjs
Charlene

Eduardo Araújo disse...

tks carissimos. meus mais fieis leitores e incentivadores.

Beatriz disse...

Muito muito bonito!