domingo, setembro 02, 2012

Da imortalidade de Machado de Assis



O tempo faz bem a Machado de Assis, ou a nós, quando tornamos a ele. Por certo, ocorre reencontrá-lo distinto, novo: a velha casaca do século XIX sem um indício de traça. Ou isso, ou descrer da originalidade divina, monotonamente a replicar vícios, traições e misérias de um século a outro, cumprindo aos escritores profeticamente testemunharem a falência humana. Creio, mas posso errar por indução de gosto, que  o ganho se faz na malícia que, recrudescida ano a ano, desanuvia-nos da inocência dos primeiros, instruindo-nos tanto no desvendamento da hipocrisia quando à sua prática. Isto porque, não sendo outro o escrito (consoante a alcunha de "bruxo" do autor), ele se faz, à revelia de Heráclito, sempre outro quando submergimos em suas águas. Deixemos o filosofar aos filósofos, embora não cessem em nós a comichão e o viciante ato de coçar. Desta é que brota ainda a aguda especulação: certo é que não há permanência - mudamos nós, a vista, o ritmo também das horas, tudo, camonianamente sonetado. Não ignoramos, entretanto, a pena jocosa do mulato autor? Não terá Machado, obliquamente nos mudado, soprado, num gesto de prestidigitador, aquela última fagulha de pueril candura adormecida em nós?

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