segunda-feira, agosto 27, 2012

Triste Bahia


Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Gregório de Matos



[Caetano continua me surpreendendo. Procuro um soneto satírico do Gregório de Matos e esbarro no Youtube com este, mas musicado por Caetano ainda na fase tropicalista. Extraordinária a entrada de berimbaus, no toque da capoeira, na cadência africana e nordestina em que sua voz se dobra e desdobra lindamente, virando baião e inserindo pontos de macumba e música folclórica. Eu, vindo de ônibus do Rio, de repente, escuto isso na estrada, à noite, com aquelas faixas brancas de asfalto passando por meus olhos. E fiquei pensando em como tudo, a vida, a arte e o Brasil são extraordinários. A vida é sempre mais. De um poema acusatório de Gregório de Matos sobre a decadência moral econômica da Bahia/do Brasil, Caetano reverte e encontra e ressalta, só no seu canto, a grandeza. Lindo até não caber mais. Devo dizer que isso me emociona e encanta profundamente? E que fico triste pois me lembra a minha imensa defasagem no ponto de vista de criação? Tudo que pudendo não realizei?! Haverá tempo?]