segunda-feira, agosto 27, 2012

Sobre mortos, cemitérios, monumentos e perenidade


O acúmulo local dos mortos na igrejas, ou nos pátio das mesmas, tornou-se repentinamente intolerável, ao menos para os espíritos "esclarecidos" da década de 1760. Aquilo que durava há quase um milênio sem provocar reserva alguma já não era suportado e se tornava objeto de críticas veementes. Toda uma literatura menciona o fato. Por um lado, a saúde pública estava comprometida pelas emanações pestilentas, pelos odores infectos provenientes das fossas. Por outro, o chão das igrejas, a terra saturada de cadáveres dos cemitérios, a exibição dos ossários violavam permanentemente a dignidade dos mortos. Reprovava-se a Igreja, por ter feito tudo pela alma e nada pelo corpo, por se apropriar do dinheiro das missas e se desinteressar dos túmulos. Rememora-se o exemplo dos anciãos, sua devoção aos mortos atestada pelos restos de seus túmulos e pela eloquência de sua epigrafia funerária. Os mortos não mais deviam envenenar os vivos, e os vivos deviam testemunhar aos mortos, através de um verdadeiro culto leigo, sua veneração. 



Os túmulos tornavam-se o signo de sua presença além da morte. "Uma presença que não suponha necessariamente a imortalidade das religiões de salvação, comoo Cristianismo. Era uma resposta à afeição dos sobreviventes e à sua recente repugnância em aceitar o desaparecimento do ente querido. Apegavam-se a seus restos. Chegava-se mesmo ao ponto de conservá-los à vista em grandes frascos com álcoo como Necker e sua mulher, os pais de Madame de Staël. É certo que tais práticas, se foram preconizadas por alguns autores de projetos utópicos sobre as sepulturas, não foram adotadas de maneira geral. Mas a opinião comum quis conservar os mortos em casa, enterrando-os em propriedades da família, ou ter a possibilidade de visitá-los, caso estivessem enterrados em um cemitério público. Para ter esta possibilidade, deviam estar em sua própria morada, o que não era o caso na prática funerária tradicional, em que ficavam na igreja. Antigamente, enterrava-se diante da imagem de Nossa Senhora, ou na capela do Santo Sacramento. 


Agora, queria-se não só que se voltasse ao lugar exato onde o corpo havia sido colocado, mas também que esse lugar pertencesse, como propriedade exclusiva, ao defunto e a sua família. Foi então que a concessão da sepultura tornou-se uma certa forma de propriedade, subtraída ao comércio mas com perpetuidade assegurada. Foi uma grande inovação. Vai-se, então, visitar o túmulo de um ente querido como se vai à casa de um parente ou a uma casa própria, cheia de recordações. A recordação confere ao morto uma espécie de imortalidade, estranha ao começo do Cristianismo. A partir do fim do século 18 na França - principalmente no decorrer dos séculos 19 e 20, anticlericais e agnósticos -, os descrentes serão os visitantes mais assíduos dos túmulos de seus parentes. A visita ao cemitério foi - e ainda é -, na França e na Itália, o grande ato permanente de religião. Aqueles que não vão à Igreja vão sempre ao cemitério, onde se adotou o hábito de pôr flores nos túmulos. Aí se recolhem, ou seja, evocam o morto e cultivam sua lembrança. 


Trata-se, portanto, de um culto privado, mas também, desde a origem, de um culto público. O culto da lembrança imediatamente estendeu-se do indivíduo à sociedade, seguindo um mesmo movimento da sensibilidade. Os autores de projetos de cemitérios do século 18 desejam que estes sejam ao mesmo tempo parques organizados para a visita familiar e museus de homens ilustres, como a catedral de Saint-Paul, em Londres. Os túmulos dos heróis e grandes homens seriam venerados pelo Estado em tal local. (...) Pensa-se, e mesmo sente-se, que a sociedade é composta ao mesmo empo de mortos e vivos, e que os mortos são tão significativos e necessários quanto os vivos. a cidade dos mortos é o inverso, sua imagem, e sua imagem intemporal. Pois os mortos passaram pelo momento da mudança, e seus monumentos são os signos visíveis da perenidade da cidade. 


in História da morte no ocidente, de Philippe Ariès. pp 77-78.


Um comentário:

Anônimo disse...

Agradecendo o excerto e já figura na lista dos desejados