terça-feira, agosto 14, 2012

Boca de ouro, no Teatro Popular do Sesi


Sábado fui com Luquinhas ver Nelson Rodrigues. Esbarramos com Okuma e esposa. Ficamos de cara para a cena, no melhor lugar.

Marco Ricca está ótimo, mas falta algo à montagem, pois me parece um Nelson sem sujo, um Nelson por demais domesticado. A peça se converte então em culto, ainda mais quando as rubricas são passadas ao público em voz alta, desnudando continuamente a encenação. Acho a cenografia o fim! É cheia de vãos e embora se converta em Sapucaí, é uma Sapucaí de camarote vip, carente do suburbano, do periférico. Sem empostar o texto - para dar a dimensão do absurdo do farsesco - não se perde o impacto da palavra, aqueles diálogos magistrais que vazem Nelson, Nelson? E o que dizer da descarnada interpretação de todo o elenco, naquele tom de novela do Manoel Carlos?

Parece uma peça pensada para o público que frequenta o fim de semana da Paulista: uma montagem que aproxima esse Boca... daquela adaptação bem feitinha e anódina exibida na Globo: A vida como ela é. A vida não tinha que ser mais? Que simboliza esse nobre ouro na boca de um escroque? Achei leve, peso pena. Tudo que Nelson nunca foi e não deveria ser: aquela coisa palatável do Daniel Filho. Nelson depilado, lisinho. Amortizado, para o bom gosto da família.

Mas o grande de Nelson não está justamente em pôr em cena aquelas taras e recônditos de que todo mundo tem vergonha por que sente e faz? A violência do desejo ante a norma, o desbunde entre quatro paredes da luxúria, em tudo o tesão dando desordem ao fino da vida, causando o desnorteio que encaminha, muito burguesinho, para um final com punição na morte. Como essa anestesia?! esse Boca sem dor e orgia?! esse Ouro sem brilho?! esses dentes sem morder?   

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