segunda-feira, julho 30, 2012

Impressões buenayrenses


Talvez Buenos Aires não seja a Argentina, assim como a capital de São Paulo não é seu estado e muito menos o Brasil. Então relativize se eu falar "os argentinos" ou "a Argentina", os que forem de lá, os que viveram lá, os que foram. Etc. 



Não comprei pacote. Disse para minha querida amiga Janete que tava louco para conhecer a Argentina. "Me considere uma mala, no sentido de carga e chatice". Mesmo assim ela topou comprou passagem, reservou hotel e fomos. Peguei uns pesos e uns dólares no cambio minutos antes de ir viajar. Minha irmã me levou até o aeroporto; lá estava Janete vinda do Rio, voamos pela Qatar, comemos bem, rimos um tanto. Ônibus de translado e táxi, tudo tranquilo. Chegamos no hotel as 2 da manhã do domingo (21/7?), e saímos de lá dia 28/7, as 20h. Fez frio todos os dias, em níveis bem variados. Normalmente voltávamos para o hotel as 3h da manhã e saíamos de lá tarde, depois do café. 



Ficamos na calle Las Piedras, no barrio de San Telmo, predominantemente turístico, com muitos hotéis e hostels a cada esquina. Rico em cafés, livrarias/sebos, mercados, quitandas, lojas de artigos de decoração/suviniers, antiquários e restaurante e bares (muitos), todos lindos uma cidade linda, imensa, e muito limpa. Urbanizada até os ossos. No domingo há uma feira de rua extraordinária, abrange umas dez quadras ou mais, com artigos variados, e muitos artistas, de cantores, a estátuas vivas, títeres com seus bonecos de corda.  Gente muito jovem. 






Não sei ao certo como são os argentinos, tamanha a profusão de brasileiros e outros tantos estrangeiros e latinoamericanos. Mas os brasileiros prevalencem em todos os lugares. Troca-se em todo canto reais e dólares por pesos, devido a estranha política nacionalista de Cristina Kischner. O que sei é que não usam aparelhos nos dentes (o que fazia de mim uma aberração), predominam a estatura mediana, e são magros (apesar da inacreditável diante de carne de chorizo e batatas fritas), esguios e elegantes. Foram de uma gentileza imensa para conosco, nas ruas, no metrô, onde fôssemos. A carne argentina não há dúvida é a melhor que há, bifes imensos, suculentos, macios, relativamente baratos. Adorei um bolo (budín) chamado borrachito e claro, os alfajores. 


A cidade tem preservado seus monumentos centenários de forma inacreditável. São belos e imponentes, e dividem espaços (muitos são adaptados) com uma arquitetura mais contemporânea. Nos bairros as construções são de altura mais baixa. O tipo de crime mais praticado é o furto, assaltos são raríssimos. É uma cidade calma (para quem é de S. Paulo e Rio, então, nem se fale), faz frio e por conta disso há poucos moradores de ruas (mas existem!!!). Os cachorros são uma raça superior em Buenos Aires, são lindos, magros como os donos que parecem levar para passear, de tão educados que são. E sim, há aqueles passeadores que levam 6 ou 7 cães pelas ruas, sem que se ouça um latido. 



A mania da chapinha feminina não chegou na argentina. Todos - e digo todos - andam despenteados, ainda mais as mulheres com seus cabelos compridos. Os homens fazem um coque e amarram no alto da cabeça e cultivam aquela típica barba por fazer estrategicamente simulando descuido. Como faz frio, há toca, muita boina, alguns chapéus, e cachecóis com que estrangulam pescoços e põe elegância europeia em toda gente. As botas e sapatos são de couro, mas vi homens maduros desfilando tênis allstar. Aliás, todos eles (quando íntimos) se cumprimentam com efusivos beijos no rostos. É raro encontrar uma pessoa obesa (normalmente são estrangeiros). Janete resmungava do cheiro de maconha que uns meninos e meninas mais rockers fumavam próximos da universidad, o que veio a colaborar com minha teoria que isto faz parte do processo escolar no mundo. Os homens falam com os graves de barítonos de ópera, e as mulheres desembestam em agudos do rato ligeirinho. 




Nunca me senti tão constrangido em pedir informação no meu espanhol-capenga. Como disse à Janete, todos os bebês tem olhos azuis. E fazem fila em pontos de ônibus de rua, filas que nunca furam. Os ônibus são do tipo antigo, classicões, lindos. Vem com o itinerário pintado. Há paradas específicas para cada número. E que fez a gente zanzar loucos de lá para cá. E leva-se os pesos em moedas, já trocadas 1,25 exatamente. E pega-se um papelzinho de comprovante da máquina. São dezenas de estações de metrô (o primeira linha foi feita em 1922), um labirinto que Julio Cortázar descreveu em  um de seus contos. É descuidado/decadente/pichado como os trens antigos da CPTM, lotado quase todo tempo, mas aquele lotado japonês. O intervalo de trens costuma ser longa, e há trens históricos em circulação. Demora séculos para fechar as portas, abrindo, fechando, apitando.  Mas pode-se chegar há qualquer ponto da cidade com os metrôs (eles chamam de subte), contudo é necessário se atentar para não descer no errado pois é realmente labiríntico, muito movimentado. E fecha por volta das 22h20.




Fiz uma viagem turística típica para pontos turísticos, convencionais, mas fiz também aquilo que adoro, tudo sem pressa, pegando trem, metro, taxi, andando muito a pé para conhecer o ritmo da cidade, em horários variados, tentando entender o ritmo da cidade, e sempre que podendo fugindo para pontos comuns, não turísticos, onde as pessoas realmente circulam. 








Não fugi ao pacote Jantar/Showzinho fake de Tango (me senti um pouco ridículo, mas havia champanhe, vinho, a comida era boa, e a Janete é divertidíssima. Aliás, uma paciência de Jó para meu mal humor e indecisões frequentes. Comprei, comprei muito, volto, como antecipei, mais pobrinho e mais feliz, pensando que esta foi a primeira viagem para lá.






Um comentário:

Anônimo disse...

É impressionante o talento que tem para tirar fotos, por mais simplório que seja o local vc consegue fazer com que seja mto bonito. Admiro demais a sua pessoa, mesmo que não o conheça direito, pois tive contato apenas de aluno X professor... Sinto um grande prazer por ter feito parte de um pedaço de minha vida (de modo indireto,mas fez)