segunda-feira, janeiro 30, 2012

Tango de Nancy


Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha

Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida
E me deixou assim

Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa
E cheirando a gim
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos
Que nunca mais.

Chico Buarque de Hollanda

[então acontece de eu ouvir incessantemente, e dou com umas letras incríveis, menos conhecidas do Chico, com versos sublimes. Aconteceu com 'Leve', 'Dueto', 'Violeira', 'Lábia', "A bela e a fera', "Tatuagem', 'Quarto de hotel" e umas tantas canções/letras/poemas do Seu Francisco, que simplesmente se tornam obsessões para mim. Agora essa - ao lado de Embebedado, letra de Wisnik - que não consigo parar de ouvir].

Pina, segundo Guilherme (no facebook)





"Dance, dance, otherwise we are lost."


Pina Bausch é grande. Mística. Wenders sabe disso e em nenhum momento tenta capturá-la. Ele a cerca em sua grandeza enigmática e solitária. Retrata suas ressonâncias. E escolhe a forma mais apropriada: a dança. Pina ainda vive - em cada depoimento, em cada dançarino, em cada movimento.


[O Guilherme publicou no FACEBOOk, mas lá tudo passa e cai no esquecimento. Aqui no Revide, três pessoas leem, mas tem alguma permanência (pelo menos para mim), por isso roubo, sem autorização e colo, por que o Guilherme anda escrevendo bem PRA PORRA!]

domingo, janeiro 29, 2012

Tomboy ou em torno dos gêneros e dos sexos


Uma menina ao mudar com a família para uma nova cidade é confundida com um menino. Em vez de "consertar" o equívoco, assume o nome de Michel, vestindo, comportando-se, jogando e brigando com grupo de meninos, ou seja, vivendo mesmo como menino, a ponto de deixar-se e/namorar por outra menina. Sua forte ligação com a irmã mais nova (uma princesa de feminilidade, rosa até os ossos), com a mãe grávida (de um menino, prestes a nascer) e com o pai (puro afeto, amor) é evidente, explícita, num nível de afeto e delicadaza ideal entre pais e filhos. Assim, sem traumas aparentes, nada "justificaria" o desejo de Laura de ser um menino (descobre-se depois que não era a primeira vez que ela agia assim). Nas cenas finais, quando a mãe a obriga a pôr um vestido e ir de casa em casa mostrando-se é de uma violência brutal. 

A performance das crianças, todas - o filme beira o documental - estarrece, mas a interpretação da irmã menor (de cinco anos) é algo que simplesmente não pode ser explicado. Adoro o rosto da protagonista, sua implacável androginia, sua melancolia, sua introspecção. O filme é dirigido a seco, numa objetividade documental (como já disse) e o que nos comove (pelo menos a mim) é o nível de dor que essa menina tem/terá que enfrentar para desembaraçar da situação (e, por que não, no decorrer da vida). 

'É uma fase, passará' assim dizem os pais em determinado momento. Laura/Michel olha-se no espelho. Essa coisa de alguém que não se enquadra ao que o mundo chama de lei biológica e divina, e tem que descobrir-se numa sociedade de paradigmas, tabus, segredos vetados, imposições, repressões, sublimações. Como se revela esse descobrimento de si quando tudo/todos lhe dizem que você é, à revelia das 'leis' é essencialmente um erro? Claro que posteriormente, haverá a descoberta da hipocrisia, e que sob a pecha da "normalidade' há vontades humanas que elegem, evidenciam e estabelecem - com uma eficiência sem limites - o que deve ser moralmente/religiosamente/legalmente aceito. Mas nada disso está em Tomboy. O filme não polemiza; sua eficiência/ambiguidade reside em não afirmar/defender. Mostra tudo numa chave objetiva/imparcial, mas com delicada ternura acompanha Laura/Michel em sua simulação, que sim, sabemos que essa objetividade/imparcialidade é uma também simulada. 

Ciente que entre o preto e o branco, o gris se elabora, camuflado, existindo sempre, na superfície das coisas (talvez de forma mais autêntica, verdadeira), Michel sobreviverá em Laura. É que o ser humano é infinitamente mais complexo do que os modelos apresentados, gênero e sexualidade são mistérios vividos, quase sempre, em equipamentos cerrados, vetados ao grande público (são chamados quartos), e isso que chamamos de transgressão atrai, como loucos, a quase todos; o que nos faz pensar que há algo mal resolvido nas alternativas propostas. 

Não, não é um grande filme, mas propõe-se a evidenciar uma questão que não se põe em pauta. Sabe aquilo lá: o amor que não ousa dizer seu nome?

Amanhecer


Foi uma experiência torturante enfrentar cada segundo deste filme. Não existe uma frase que seja original, um clichê que não seja evocado no plano do diálogo, da interpretação, da luz, dos efeitos especiais etc. Tudo é insosso, vazio, fake. Não suportando, confesso que usei aquele botão de acelerar em tantos momentos que o filme deve ter passado em trinta minutos. Em termos de filme ruim esse ocupa (com os anteriores) o topo. Perdoem o despudor, fãs e aficcionados, mas para mim ele é diagnóstico de imbecilização, conservadorismo, grau elevado de repressão sexual e nível intelectual que beira a acefalia.

Inaugurando uma fase Nelson Rodrigues


Fui assistir a uma peça do Nelson Rodrigues, e pronto, fui novamente fisgado. Corri aqui pra minhas obras completas e li numa viagem a sampa Perdoa-me por me traires e Os sete gatinhos. E, o óbvio: ele é tão extraordinário, anárquico, intenso, visceral que ando pensando rodriguianamente.

sábado, janeiro 28, 2012

Recado


...
ando ainda por aqui
os dias garoantes de são paulo
e você, 
que não liga
enquanto ando carente de declarações 
intempestivas

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Medo de amar



Que linda essa letra de Vinícius de Moraes, nunca tinha reparado, até hoje quando vi/ouvi esse vídeo com o Ney Matogrosso. 

Filmes


Água (com açuçar) para elefantes. Espetacular na técnica, no visual, num universo circense em pleno Crash americano do passado. Um pouco sobre o sonho americano implodido, a busca pela aventura, o entretenimento, a guerra e a constituição de uma nova família. Saudosismo e fantasia conciliatória. Um romance paquidérmico com final feliz.


As desventuras de uma trintona que chega ao fundo do poço: sem casa, péssimo emprego, objeto sexual de um escroto e prestes a construir um paraíso cor-de-rosa para o casamento da melhor amiga. Mas em termos de forjar fantasia, tem que competir com outra madrinha que recobre com milimétrica perfeição a infelicidade nossa de cada-dia. Casadas infelizes, solteiras infelizes, mulheres em ataque de nervos. A solução: homens, consumo e alguns (poucos) laços emocionais verdadeiros. Não parece, mas é uma comédia hilária, ri horrores. Vale.


Estupendo suspense que só começa a engrenar lá pelos quarenta minutos, neste ínterim temos que enfrentar pesadas cenas de estupro. Sexo é a questão, como sempre será, e morte. Me respondam pelo amor de Deus, por que a obsessão do cinema atual pela nudez de Daniel Craig? pois não entendo. Certamente o melhor suspense (remake e adaptação de romance) realizado no ano passado.


 Pirotecnia e pouco raciocínio. Visual no sentido da gratuidade. Um filme, digamos, elementar.

Consário, com Elis

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Na curva do edifício


um prédio com inspiração em vertigo, cortázar, borges e escher.

São Paulo, São Bento e milagres mínimos


alegria neste aniversário de são paulo de ter visto gabi na imobiliária, bebe que já me reconhece, me quer bem, me chama pelo nome. de ter recebido mensagens boas no cel. de ler bliss na tradução de ana cristina cesar (e seus meticulosos comentários sobre meandro do inglês), também seus ensaios bonitos. de ter assistido aquele filme ótimo de ação ontem, o homem que não amava as mulheres, uma surpresa.


de ter gravado com outros, filmes bacanas para doni. de ter ido mostrar o ape ainda em reformas a ele e visto o que há para fazer para me instalar até o fim de semana. de termos caminhado por sao paulo e conversado tanto e brincado de fotografar.


da lazanha ótima no bar do estadão. de ter comprado ingressos para LAMARTINE do Antunes. de bebermos nossas bramas enquanto esperávamos o início da peça 17x nelson, a qual assistimos embevecidos - teatro de arena -  e quase assim por acidente. das boas conversas que tivemos, da amizade sempre boa e cada dia mais escassa. e de voltar, para o banho quente, a boa recepção familiar. a cidade estava um agito só. e entrei naquela igreja do são bento no meio de uma missa e agradeci as coisas mais cotidianas. é que minha miopia ressurgida faz com que tenha mais olhos para os milagres mínimos.





quarta-feira, janeiro 25, 2012

Anivesário de São Paulo


Kassab e Alkmin são um lixo, mas as cidades/estados não são seus governantes provisórios. São Paulo são essas barras de prisão da bandeira, e dentro dela se abriga todo um Brasil de indefinido azul. Tem esse vermelho japa, invertido, e essas quatro pontas de estrelas amarelas que me parecem excessivas. Que quererão dizer essas formas? para mim (por hora) é um mistério. Gosto da Ésse-pê e, ao contrário do que diz Criolo, todos meus amores mais intensos foram vividos em SP. 

Criolo, extraordinário


Criolo, extraordinário para além da música.

terça-feira, janeiro 24, 2012

ODISSEIA

O amor foi à função, bebeu, cantou e bailou, estava muito excitado, tiveram de levá-lo para casa e prendê-lo no quarto para que repousasse. No dia seguinte o amor cantou e bailou sem beber, e era sempre primavera nos seus modos e falas. O amor viajou, voltou, fazia piruetas, trocadilhos, esculturas, criava línguas e ensinava-as de graça. Todos o queriam para companheiro, paravam de guerrear para abraçá-lo, jogavam-lhe moedas, que ele não apanhava, gerânios que oferecia às crianças e às mulheres. 


O amor não adoecia nem ficava mais velho, resplandecia sempre, havia quem o invejasse, quem inventasse calúnias a seu respeito, o amor nem ligava. Cercaram sua casa de madrugada, meteram-lhe a cabeça num saco preto, conduziram-no a um morro que dava para o abismo, interrogaram-lhe, bateram-lhe, ameaçaram jogá-lo no precipício, jogaram. 

O amor caiu lá embaixo, aos pedaços, mas se recompôs e foi preso outra vez, aplicaram-lhe choques elétricos, arrancaram-lhe as unhas, os dedos, o amor sorria e quando não podia mais sorrir, gritava numa de suas línguas novas, que não era entendida. E desfalecendo voltava à consciência; e torturado outra vez, era como se não fosse com ele. 

Quebraram o amor em mil partículas e ninguém pode ver as partículas. Foi sepultado formalmente no fim do mundo, que é pra lá da memória. Ninguém localizou, mas todos falavam nele, o amor virou um sonho, uma constelação, uma rima e todos falavam nele. 

E ressuscitou no terceiro dia.

in CONTOS PLAUSÍVEIS
Carlos Drummond de Andrade




system of a dilma

a escrita crônica

finalmente, aberta conta no bradesco, via crucis total. volta a academia depois de uma semana distante, e 4kg a menos. dormindo pouco. lendo neuroticamente, um pouco de tudo. escrevendo. revendo trabalhos orientados. roteiro de terror escrito para um minuto. lendo livro de contos de amigos para dar uma força. ouvindo buarque com tanta atenção que nem entendo. telefonema de paty pedindo ajuda em compra de camera e note. irmã que me liga dizendo coisas do coração e me salvando a vida com o apartamento, que está, caladinho, e me avista do 6o andar. o todo tempo que ando tendo com meu irmão. visita bacana de bruno ontem ainda [nem o deixo falar, carente que ando de amigos que partiram para nunca mais], e antes, visita bonita da querida natasha para levar kieslowski. venham, gosto de passar a bola pra sempre, tem filme livros revistas coisas demais nessa casa que não dou conta. palavras então, ando jogando conversa fora com o computador, tanto que de repente gostando do facebook e começando a entender. muitas séries. rascunhos de frases. peguei pedrão e sergio ontem em dia clean, jogando x-box e gravei um vídeo para edição divertida e sofisticada, experimentando camera e tripé. começo do processo de encaixotamento das coisas da casa. possível viagem para o rio pipocando. overdose de cuidados com os olhos depois de consulta que me trouxe más notícias. amanha às dez ponho aparelho. é possível? só o pior da adolescência voltando. e se disser que dormi três horas de ontem para hoje e ainda estou nesse pique brutal? luquinhas voltou da bahia, liguei vivo, saudades de ti negão, como vão as coisas, senai de novo e já programamos para breve ida ao teatro. as chuvas desabam. mãe beeeeeeeeeeeem. valdecyr chegando sem vista. big em contentamento, esse menino que é canino amor. péricles cada vez mais cozinheiro. as comigo-ninguém pode e as espadas-de-sao-jorge verdes de doer, ameaçadoras na frente da casa. guardas em defesa. sem embargo: certo vazio existencial. fico é doido com pequenas mensagens torpedadas que me convidam para esses programas que são mais do corpo que do coração. tesão brutal essa coisa de viver, consumo e não se gasta. teclado com maiusculas destruídas, deixo tudo para depois, para reinstalação de mim em espaço novo. adesivo ou não a geladeira? compro novo. achei um faqueiro inox na caixa esquecido por mim em cima do guarda-roupa há uns cinco anos. penso em como meu ape já anda lindo, nas reuniões, encontros com amigos, receber aquela gente boa carioca por lá. e o nuno ramos me perturbando com esses textos filosóficos cheio de grandeza. clarice vírgula. lota e elisabeth bishop - flores raras e banalíssimas. martin scorsese. ando bem das biografias, entrevistas e ensaios de arte em construção. um agito interior novo, remodelado. muito impressionado de como veroniga stigger é ruim. filmes pornográficos, ei, por que não. a minha humanidade na saúde e na doença. eu perambulei um bocado nesses dias chuvosos nessa sampa mostruosa. que coisa linda a voz de roberta sá, até mais que o repertório e as cançoes. mas nada supera quixote com maria rita pré estrelato. morro todo dia com caetano na voz de gal neste recanto auto-tunado. que que se faz com tanto livro, recorte de jornal e revista. e não posso reclamar de ti vida, que andamos em clima de romance, você cheia de agrados para mim, remoçando desejos, esse milagre calado da presença de Deus nas pequenas coisas. nado grato. rezo. saudades lúcidas que diluem enquanto vou me despedindo. a voz do buarque: pra onde vai o amor, quando amor acaba? nostalgia do que cara-pálida? bonito naquele livro de ana cristina cesar o que ela fala do poema de done que caetano musicou e lhe cantava. essa coisa de convergência de ideias. eu ainda não sei, mas está acontecendo. espero. depois apresento. escrever é minha doença. ando crônico.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Beleza


Pode um post existir apenas por que o blogueiro se enebriou com uma imagem e a achou apenas e tão somente isso: a pura beleza?

domingo, janeiro 22, 2012

The artist


Imaginem em pleno 2012, lançar um filme de época (anos 40), em p&b, mudo, justamente sobre a decadência do cinema silencioso, tudo isso através de um astro que encena produções de aventura ao lado de seu cachorrinho. Em certo sentido The artist dialoga com o clássico Dançando na chuva, pois é o mesmo contexto e tema. Mas é deliciosa essa produção francesa brincar com todos os cliches, canções, takes, expressões na narrativa da queda do artista mudo e a ascensão da atriz iniciante no cinema falado. Parece até um filme sério, mas é uma incrível comédia de amor absoluto ao cinema, com momentos dramáticos e poéticos. Aliás é a melhor definição do filme, pura poesia e encantamento. É a entrega a fantasia, a ficção, ao sonho, a beleza.  Tudo isso que o cinema legou, transformando também nosso olhar sobre a realidade. Há tantas cenas de encantar nesse filme, que fica difícil selecionar. Mas o momento insólito em que o artista sonha que tudo tem som, e ouve gargalhadas e fica desorientado é fantástico; assim como quando começa a dialogar com sua versão em miniatura; e a incrível parte em que enfrenta sua própria sombra que lhe dá as costas e o chama de fracassado. Genial, até no número de dança, de encerramento, e o instante em que tudo ganha som. Os atores que fazem os protagonistas certamente vão virar stars, pois são soberbos. O filme realmente é uma obra de arte. 

sábado, janeiro 21, 2012

como terminar um namoro

Conversas com Scorsese


Depois de um mês de espera, chegou pelo correio. Leio no onibus, nos trens dessa vida, esse tijolão de entrevistas. São perguntas sem brilho e respostas diretas, práticas feitas por Richard Schickel (que não é Truffaut). Tudo muito prático, técnico, muito americano. Mas Scorsese, de sangue italiano, traz paixão no que diz, nos filmes que ama. A leitura ilustra a mente prática/técnica de um grande cineasta que compões quase todos os filmes em torno da ideia de lealdade, família, conflito de gerações (pai/filho), luta por uma emancipação que normalmente se frustra e descamba em violência, aniquilação, entrega. Gosto dos seus filmes, mas sem paixão. Ando, na leitura, gostando do seu método, do seu olhar, desse furacão interno que quase que o obriga a criar e que eu não tenho. E por enquanto, só isso que dizer.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Uma separaçao, de Asghar Farhadi


É tudo limpo, posto às claras, dirigido com uma fluidez que parece não ter produzido esforço algum. De repente tudo se nubla nos fatos mostrados, carece ser revisto, repensado, reavalidados gestos e certezas que os próprios personagens parecem já não saber. Fatos não existem à revelia das intensões. 

A fotografia não grita para si. Não há trilha musical. Quase não se ouve música, mas há todos os sons da vida, e seus silêncios que se vem erguer em discussões que vão num crescendo tenso. Palavras que se transportam entre cômodos, sussurros, entreados ditos, tudo o pequeno que depois será amplificado. Em Uma separação há aqueles tempos (que parecem tempos mortos) dos filmes de Kiarostami que de tão popularizado fez a gente achar que compõe o ritmo de um espaço/filme iraniano. 

Os atores são. Não há um instante de representação. Por isso, eu me ponho em reverência, pois é o supremo desta grande arte: atuar sem parecer por um instante que não se é. Não há um gesto a trair a adolescente, o velho com alzheimer, a cuidadora gravida, a professora etc etc.

O enredo vai linear, tudo fácil, tudo muito 'realista', no ritmo da vida, deslizando na retina de quem vê: o particularíssimo da cultura, da religião, da relação homem/mulher, com os mais velhos, e as amarras sociais, e políticas. O filme que começa de cara com a questão da separação por questões para além do entendimento afetivo do casal, de repente se amplia. E logo o filme se converte num painel que parte do privado para o público; e se visto com perspicácia, a separação nunca perde-se do foco, derrubando a possibilidade de dois planos não articulados, excludentes (ou gratuitos).

O ponto de partida são mesmo as dificuldades de entendimento que leva a decisão de um divórcio. Tudo, contudo, se faz maior no Irã, pelos hábitos, pela religião muçulmana determinando costumes, rituais, interditos. Vem se somar, a crise econômica global, a atmosfera opressiva de uma ditadura castradora,  tudo traduzido em uma lei kafkiana moral, rigorosíssima, direta, arbitrária, emocional.

Logo, o conflito dos pares vira drama familiar (a envolver a filha), e vira drama pessoal no desespero do marido em achar quem cuide desse pai com Alzheimer que não o reconhece e é tão amado por ele. Mas faz-se drama ético/moral com a cuidadora grávida sofrida, religiosa, e sua filha estabanada de cinco anos que vão por três dias cuidar do idoso. Dramas vão, no entretanto, se entrepondo e emaranhando-se numa difícil tapeçaria de linhas e matizes que se emaranham, borram o quadro, as certezas, e já não se pode saber o produto final deste bordar. A narrativa se abre para os transito da cidade, migra para casa dos parentes próximos, toma a escola onde a mãe leciona, a filha estuda, a casa da mãe que abriga a esposa que partiu, mas já alcança o tribunal, fabriquetas, casas miseráveis em subúrbios. E toda gente/questões se amalgamam: as amigas, e a perda do filho, e a violência do marido desempregado que vem exigir reparação, e suspeita de roubo, e a violência contra o velho, e o desejo de fuga da mãe, e o coração partido da filha adolescente que ampara o pai que idolatra, que mente por ele, que se sente ferido, e novos pactos se fazem/refazem/desfazem; até o juramento do alcorão, e as surras, e o eliptico atropelamento escamoteado. E o afeto (que insuspeitado de nós ocidentais) tem um pai por sua filha/mulher, amplo, denso, delicado.

Mas as questões subjacentes de Uma separação dão densidade a tudo que se vê, com questões como: e a verdade? e a ética? e a mentira? e a fidelidade? e o pecado? e a abnegação? e a prisão política? e os testemunhos e os falsos testemunhos? e a entrada da vizinhança na cena? e o juiz? e os companheiros de trabalho do pai com filho abortado? O filme vai crescendo, e tomando dimensão particular, política, ética, moral, emotiva, religiosa, sem nunca se perder.

Asghar Farhadi realiza tudo isso sem perder a linha de um discurso trata da complexidade das mais diversas relações humanas. Faz um filme emocionante, baseado na intensidade dos sentimentos que nós, espectadores, reconhecemos em nós e em nossas vidas, e que são profundamente universais. 

Uma separação é simplesmente uma experiência desnorteadora, e mostra o quão longe pode ir um filme. É uma das grandes obras artísticas do século 21 por tudo que configura, reconfigura e deixa por ser entendido. É para ser revisto, ainda que seu final espantosamente perfeito, a dividir esteticamente num plano duas posições, dois afetos, duas difíceis escolhas, figure eternamente como um nó nunca destado da garganta.

Tudo sem pieguisse, sacanagem com o espectador, sem esquemas fáceis de melodramas que nos impedem der ver um drama cru e intensamente emocional.Um momento de triunfo. Uma obra-prima.



Para quem quiser este filme, torrent e legenda, encontrei AQUI.

O espião que sabia demais


Bela fotografia, atores/atuação num filme absolutamente preciso tecnicamente, entretanto de andamento moroso e enredo confuso. Não digo intelectual, digo, confuso, talvez demasiadamente rebuscado. No final, pelo menos para mim, sobreveio bela dose de tédio.

Pina Bausch



O que mudou?
Nada, apenas o tempo foi passando.













Assisto e reassisto a Pina, documentário de Wim Wenders sobre Pina Bausch e sua companhia de balé. Quando chegar ao Brasil, irei ao cinema assisti-lo. Continuarei me comovendo todas as vezes, e sentindo que perco tempo tempo tempo nesta vida.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Norman Rockwell


Um dos meus ilustradores preferidos Norman Rockwell fez essa imagem magnífica. O quadro explodindo em cores - simulando o Number 8, de Jackson Pollock, - e diante dele paralisado, um connoisseur de arte. Como diversos trabalhos de Rockwell há sempre o choque de extremos, saindo dali uma ideia de desacordo. O choque aqui se faz na galeria, no piso e suas simetrias, na sensação de narrativa interrompida. Pensamos sempre no desafio de entendimento desse especialista/crítico de arte 'absolutamente tradicional' (a se julgar pela roupa e porte; tradicional no chapel, metódico e precavido até no guarda-chuva e na posição da mão. O exterior/galeria é mundo cinzento, formal e contido em oposição ao quadro visceral, pulsante, transgressor da arte tradicional e do próprio figurativo. O mais fascinante para mim é a genialidade de Rockwell que sendo um figurativo (um realismo poético à serviço da publicidade e capa de revista, portanto, convencional e nada transgressor) tenha capitado e feito uma espécie de louvação ao dinâmico expressionismo abstrato pollokiano; coisa de gênio.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

chico buarque


estou passando por um processo de obsessao por chico buarque. li aquele livro comprado na usp, Histórias de canção, de wagner homem; converti e baixei toda discografia restante do autor, além de suas participações em diversos outros discos. separei e ouço, ininterruptamente - ate as que mais gostei do disco novo. sinto que dai vai nascer algo, mas nao consigo precisar. sei que agora para mim suas palavras/versos/letras poemas são mais que necessários. busco uma compreensão, um enredo. como uma compreensão? nao sei. é um mar complexo, pois o chico letrista não surge nas entrevistas do chico/chico, uma figura que não compreendo, mas que aprecio imensamente e que uns livrinhos de ensaios não deram conta de algo que subjaz e o sei por intuição.


Por que ler Dante, de Eduardo Sterzi


Li com grande atenção, apesar do conhecimento inegável do seu autor ele não conseguiu me instigar suficientemente. Prefiro nesse sentido o pequeno ensaio de Borges sobre a Comédia.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

O concerto


Uma comédia dramática que encanta. Uma sequencia final de orquestra realmente emocionante.

Black mirror - série inglesa em três episódios


Black mirror é uma série inglesa em  três episódios. O primeiro, único ao qual assisti até o momento é deliciosamente perburbador. Uma "princesa do povo" cultuada no pais é raptada, e os sequestradores só exigem que o primeiro ministro inglês transe em rede nacional com uma porca sem truque de edições. Chega a enviar um dedo cortado para mostrar que não estão de brincadeira. Tudo em torno da forte influencia das redes sociais e da internet como um todo no público e na decisão (conforme a popularidade apontadas nesses meios) dos políticos. vale.

O gato de botas


Shrek começou divertido mas foi perdendo o cinismo, o tom jocoso e metalinguístico ao longo das sequencias. Esse não, já começa péssimo, cheio de dancinhas insuportáveis e tom de fábula moralista. Eita gato chatinho.

Doente, de novo

5o. dia imprestável, de tanta febre, dor de garganta, de cabeça. Nunca sei se o nome disso é gripe ou resfriado, mas que acaba comigo, isso acaba.

domingo, janeiro 15, 2012

Italiano para principiantes, de Lone scherfig


Há muitos anos queria ver esse filme, Italiano para principiantes, de Lone Scherfig, de 2000. Foi realizado no período do Dogma dinamarquês, cheio de limitações, sem luz que não fosse natural/ambiente, sem trilha/música que não estivesse na cena. E é simplesmente incrível, que a precariedade da imagem (creio que foi feito em digital) não tem a mínima importância, pois o filme é tão bem construído (não há nada nele que seja gratuito, banal), com um enredo envolvente, que sai de um desencanto absoluto para uma deliciosa reunião em seu desfecho. Começa pela elaboração densa de cada um dos personagens, todos marcantes, singulares, cheios de nuances, facetas, brutalidades, falhas e delicadezas. Os diálogos mínimos, reveladores e atuações que destrói a ideia de um só protagonista, já que uma vida está atrelada a outra. E no meio de tudo, questões de família, diversas mortes, ausências e encontros amorosos que vão, a partir das aulas de italiano, dar um novo destino aos personagens. Apaixonado, eu só consigo dizer: deslumbrante.

sábado, janeiro 14, 2012

Putas assassinas, de Roberto Bolaño


Terminei ontem de ler meu primeiro Bolaño, Putas assassinas, livro de contos. Leio aos saltos, primeiros os menores, os maiores por último. Adorei seu estilo ágil, fundamentado em verbos de ação, portanto cinematográfico, mas sem descuidar de rápidas impressões poéticas, perfis inusitados, certo nonsense, personagens solitários em exílio. Melancolia, frustração, vazio existencial, deambulação num mundo em que não se encaixam, impulsionando viagens (e sempre há esse trânsito de busca em Bolaño e nenhum encontro, ao contrário, perdas). Contos que são balanços de vida, ou focam num instante significativa apenas ao sujeito, comumente descrito por um personagem observador, testemunha. Um narrador que perscruta e metralha impressões seguidas sobre um estado do sujeito que narra, mas que perscruta a si mesmo, mas nunca precisando, deixando vácuos, vazios. Uma capacidade extraordinária de criar climas e expectativas de tragédia no espectador, mas que muitas vezes não se realiza, ou se faz num contínuo adiamento. Morte, assassinatos, sexo, algumas perversões.

Os melhores contos; O Olho Silva, Últimos entardeceres na terra, Dias de 1978 (om a bela descrição do filme Andrei Rublev, de Tarkóvski), Vagabundo na frança e na bélgica, Prefiguração de Lalo Cura, O retorno, Buba (raríssimo conto - bom - de futebol).

a morte do orkut e outras mortes


já aviso que meu teclado anda com defeito na tecla das maiusculas, entao vai sair tudo assim, sem acento, com cara de descuido.

esse é um texto de opiniao de usuário, e nao de especialista. nao estou com a verdade, se é que há, mas posso tentar tangencia-la, pois me interessa pensar (uso a forma escrita) e ponderar sobre questões que ponderava, envolvendo a hegemonia do facebook.

o orkut morreu, o msn está entrando em desuso, feito os emails confinados hoje a espaço de trocas mais fechadas e funcionais; uma assinatura, um registro para ir as outras instancias da internet. photologs não tem folego, pois o google abarcou os espaços. o facebook engoliu todos. e engoliu, não por que funde características do orkut, blogs e programas com imagens instantaneas - incluindo vídeo - e abarcando fotologs, youtube, links de notícia entram no meio. não conseguiu ainda ser eficiente no ambito das comunidades. agora com timeline, harmonizou e embelezou a possibilidade de um espaço que fixa informações e contatos (um tanto ideia chupada do myspace). Porém o maior atrativo (que matou orkut), além das questões de privacidade que tiveram que ser repensadas, foi sua dinâmica nova, fundamentada no imediatismo (eu acho que o twitter está também em declínio, pois hoje muitos optaram por essa escrita telegráfica). bobagenzinhas como 'curtir' foram um achado para toda uma gente que tem uma preguiça ontologica de tecer comentários, mas quer marcar presença na informação dada por um amigo.

o facebook virou espaço para dar opiniões rápidas sobre um cem numero de trivialidades, mas também mobilização por questões sociais. ele porta fortemente a ideia de blog/diárinho, com fotos de viagens, datas de aniversarios, convites para festa. a interaçao em jogos, o primeiro contato com pessoas desconhecidas, e troca de mensagens instantaneas mais restritas (hoje com direito a vídeo). o orkut, fechado numa página de apresentação a que se visitava, depois muito restrito, acabou perdendo folego e poder de difusao e comunicação, atolado também de mensagens banais cheias de midi, virus; além da desvantagem de quase se circunscrever a comunidade brasileiras. o 'elitismo' de uma 'comunidade internacional' menos aberta aos 'pobres/gente diferenciada' também favoreceu o boom - irreversivel - do facebook no brasil.

não sou definitivamente fã do facebook, mas devo reconhecer sua preponderancia e capacidade associativa (mais que criativa). O negócio é saber para que caminho irá.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

Hitler fala sobre Michel Teló



Roubei do facebook do Cleyton. 

Eu já tive 50 anos

Uma ex aluna viu uma foto minha de uns 5 anos atrás com meu sobrinho no colo, e disse "você não muda". Como assim? eu já tive 50 anos! Na verdade eu tive 28 com um corpinho de 50 (bem mal tratado); hoje quarentando, fico fingindo uns trinta e poucos. Sei que não dura, que o demônio da passagem do tempo não admite retrocesso. O bacana é ver o passado e pensar, saber o que me põe num estado deprê que me leva a uma falta de cuidado comigo em amplos aspectos. Bacana é chegar aos 40 com cara de uns 40 bons tentando esse difícil equilíbrio de nós com nós mesmos.

Mas vamos lá, abri o baú, posto crimes e datas. Confiram.

Eu e Gabriel no colo, deve ser por volta de 2000.
 Chapada dos Guimarães - 1995


Mauá - 2002


Brincando com Lucas - 1998


Eu e o Lucas, jogo da copa em 2010.


Com Cris - 2010

Rio de Janeiro 2011

Junho de 2003
(tem noção do que uma tese faz como corpo da gente?)


Jan. 2012

Novembro de 2011. (o segredo está na cor da roupa!)

Pedro baby - 2004


2012

Que conversa é essa que eu não mudo?