segunda-feira, julho 25, 2011

Sonata de outono, de Bergman


O terrível encontro entre mãe e filha. Sobre a superfície calma, a mãe que sempre soube falar tão bem sobre o amor, mas nunca amar. As máscaras. Os grandes monólogos. As instranponíveis mágoas. Bergman são suas mulheres. E as mulheres, não só mulheres: como que arrancadas de um livro de Clarice Lispector. {para mim Bergman era o único capaz de traduzi-la em cinema} 

Lena Nyman materializando o aleijão emocional de mãe e filha: o terrível grito. A superlativa interpretação de Ingrid Bergman. A dor incomunicável dita inteira numa torrente verbal/emocionada de Liv Ullman. E o rosto delas - mesmo no silêncio - dizendo tudo. Insuperável.

Pensei naquele quarto com o filho ausente? A dor tem medida? O ressentimento, cura? A cena do piano, em que a filha toca para mãe toda mágoa e a mãe a corrige, terrível, com censura, frieza e método. Um filme de matar. Disse que chorei horrores?

[Dois Bergmans no mesmo dia, um após o outro. Prova de fogo emocional, pois neste período, mais que qualquer outro, ando sentindo tudo mais intensamente.]

2 comentários:

marcio_LG disse...

Adoro Sonata. Não está entre as principais obras do artífice, mas é bom até doer! Curiosidade: Veja "A outra" de Woody Allen Eu acho que esses dois são filmes meio que irmãos.

Afonso disse...

A cena que vc comentou, em que a mãe lança todo o seu impiedoso olhar crítico sobre a filha, talvez desvele a questão principal levantada por Bergman nesse exercício, brilhante: os perigos e as armadilhas que um ambiente onde se lida c/ a sensibilidade pode desencadear. São duas personagens impregnadas de sensibilidade artística, convivem à flor da pele, desfrutam de uma mesma paixão, isso as torna vulneráveis, frágeis, a cada gesto, a cada nota, vão tirando-se as cascas e o cerne revelado é duro, cruel. "Sonata de Outono" é antes de tudo uma discussão sobre a fragilidade humana diante da recusa, do medo do desamor do outro. Não adianta, gênio ou não, a gente quer ser amado. Bergman queria e sofria, se maltratava pelo medo da desaprovação, incongruente c/ a sua genialidade, mas compreensível em sua condição humana. Acho que o cineasta urdiu "Sonata" como uma alegoria disso tudo, e poucas vezes vi a questão crítica colocada c/ tanta poesia e sensibilidade. O jogo emocional entre mulheres que (como em Persona) Bergman articulava tão bem, encontra aqui um resultado soberbo. Ah, e os planos fechados no rosto de Ingrid, enrugado e cheio de histórias, linda, linda, como nunca. Tão diferente das atrizes embotocadas de hoje…
Abs!