terça-feira, julho 19, 2011

Pensando na obra de Ron Mueck

Às vezes eu penso em sentar e escrever sobre fotógrafos, pintores, diretores, dramaturgos, esses artistas que posto aqui. Por falta de tempo ou gás, normalmente boto fotos/imagens que acho memoráveis e sigo adiante. Mas também escrevo. Faço isso uma vez ou outra. Tento ser sintético. Acho que almejo um público. Mas é um público que não se manifesta, embora o Google Analytics ateste que sou visitado diariamente por umas 110 pessoas. Saber-se lido é sempre bom, motiva; mas sem comments parece que estou a fazer para ninguém. Ainda assim, gosto de escrever, de fazer reflexões. São extensões do que digo aos meus alunos de pós-graduação e de cursinho. Reflexões sobre o contemporâneo. Gosto dessa urgência de pensar o hoje. Sinto que seja necessário. Para mim é, eu que tenho pretensões pedagógicas, de reflexão crítica e criação artística. Então, motivado pelo comentário do Marcio_LG, ponho em texto umas ideias que me vem da arte de Ron Mueck. 




Lembro-me de um artigo do Ferreira Gullar que dizia que as artes visuais de tanto avançarem para abstração fetichizaram-se de um si em si, amaneiraram-se num todo conceitual e deixaram, de certo modo de se comunicar com o presente, afastando-se do público/homem comum. Como se em literatura, ao chegar ao limite de um Finnigan's Wake, escritores se emaranhassem na linguagem distanciando-se de uma escrita com maior extensão comunicativa. Não sei se era isso que estava no artigo, acho que não, creio que assim eu o entendi, pois acredito no que está escrito (com ressalvas), e deformo o escrito por Gullar.

Nunca vi presencialmente uma das esculturas de Ron Mueck. Conheço-o por imagens difundidas na internet, matéria do Youtube. Mas o que me impactou obviamente foi seu realismo, melhor, seu hiper-realismo. Também os gregos buscaram a perfeita imitação do humano (as estatuas hoje brancas, eram originalmente pintadas, tinham fios de cabelo etc). Mas o que Ron Mueck nos expõe, desde seu primeiro trabalho artistico (e não de artesão de efeitos especiais), foi o corpo do pai morto. É um tema emocional, ao mesmo tempo grotesco, impactante na transfiguração da morte/do rigor mortis. Diferente daqueles cadáveres "plastificados" com que um necrófilo chinês grotescamente espetaculariza e banaliza a morte, "sinto" que Ron Mueck quer mostrar justamente a precaridade dos corpos, a fragilidade humana.

Em suas obras, a alma salta no olhar das figuras, desconfiadas, tímidas, retraídas, melancólicas. Há uma solidão essencial em todas as imagens que vi deste escultor. Mesmo a desproporção (obras em escala imensa ou miniaturizadas) servem justamente para "quebrar" a ideia de que estamos ante o real. A escala, portanto, me parece fundamental para desnortear o olhar, para que nos vejamos em grandeza e pequenez humana. Somos em Ron Mueck a "coisa vivente", parca, solitária, frágil, mundana. Penso em seus bebês, em seus velhos, penso no gigante obeso, no menino desconfortável com o próprio crescimento. A melancolia, a postura de autodefesa, o modo acuado que muitos se encontram, somados ao olhar flagrado num movimento/momento íntimo. Acho que sim, são estratégias do artista para captar um modo humano de ser.


Talvez por isso eu não resista nunca a contemplar os seus trabalhos tão em sintonia com o presente, quando o homem e o corpo são obsessivamente espetacularizados. Ron Mueck não faz aquelas estátuas de cera com famosos, ícones facilmente reconhecíveis, imagens clichês para confundir o olhar e permitir a um público também narcisista,  fotografar-se ao lado de um simulacro. Big Brothers, cirurgias plásticas, criações de órgãos, de seres em CG, à mania de fotografarmo-nos a todo instante, tudo evidencia o "corpo humano" como supremo fetiche. E por que ele não se tornaria neste momento o principal foco/tema das artes? Ele é. Sem deixar de pôr o corpo em evidência ao mundo voyer (voyers que todos nós nos convertemos), ele nos devolve o perecível, o mundano, não o atlético/perfeito, o corpo que de tão exposto mais se revela imprescrutável. 

Em Ron Mueck o corpo é matéria, o humano é indistintamente carne nua, translúcida e úmida, por isso grotesca. Mas nunca escapa-lhe em imprimir no olhar certa vacuidade, certo incômodo de se ver exposto. Assim, penso que nos seus trabalhos as imperfeições físicas e a melancolia das expressões traduzem, de certo modo, aflições muito humanas com as quais nos quais nos reconhecemos extremamente humanos. E não é isto Arte?

10 comentários:

Anônimo disse...

Acho que é pra não estragar a ficção de que isso aqui é um espaço íntimo... Mas existimos, estamos ai =)

Luca disse...

Ao que me parece, a arte hiper-realista, a tal da "paixão pelo real", está muito em evidência nas artes e na filosofia contemporânea. Sendo assim, bom saber da existência desse Ron Mueck, cara que eu não conhecia até então. Quando vi as esculturas dele aqui no blogue fiquei com essa mesma impressão: vacuidade, grotesco. Incomoda porque é o homem ele-mesmo, sem as ilusões que os artistas costumam colocar nas artes. Tá aí, comentei. Sinta-se menos só agora. Abraços.

marcio_LG disse...

Bom, uma vez citado, acho que preciso me manifestar. Sim, como disse lá no meu comentário. É arte. Arte moderna. Meu questionamento vai justamente na direção do pensamento de Gullar que você citou. Achei que vc fosse falar sobre isso. Mas não, justificou o artista. O que pretendi tematizar foi o excesso de descritismo das artes modernas, em detrimento da profundidade. E Mueck é puramente descritivo, até no mais íntimo sentimento que te provoca, é mera descrição. Agora a interpretação é de cada um, quanto mais cultura adquirimos, mais capazes nos tornamos para ver metáforas onde só há descrição. E também devemos ser suficientemente inteligentes para não enxergar a arte em contextos onde ela não está presente. Todos nós estamos mergulhados nessa modernidade descritiva, o que não quer dizer que valores como o Belo, por exemplo, tenham deixado de existir e que a arte tenha perdido sua função primeira apenas porque hoje a maioria dos artistas (principalmente no Brasil) desconhecem essa função e não se sabem enquanto representantes dela.

Afonso disse...

Não sei qual foi exatamente o artigo do Gullar que vc citou, mas o que ele defendeu por algum tempo é que, nas artes visuais, o conceito engoliu a criação em si, passando-se a exigir cada vez mais do espectador dela uma experiência literária ou teórica anterior, e numa exposição de arte, isso nem sempre é instigante. É como se a criação artística fosse uma criança que não pudesse caminhar com as próprias pernas e necessitasse de um apoio, de uma explicação complementar. Acho que esse não é o caso de Mueck, um artista cujo impacto nasce da imediata contemplação de seu trabalho. Ouço sempre essa palavra "grotesco" qdo alguém tenta definir o que sente sobre sua obra. Não quero confrontar ninguém, mas…. É saudável que um artista possa despertar inúmeras interpretações ou reações.. Acho que Mueck tenta, paradoxalmente, distanciar o humano de cada próprio espectador. A descoberta do "outro", torna-se impiedosa, sarcástica. Ele transforma o ser humano em fóssil, como uma espécie extinta, lançada à curiosidade alheia em algum museu de história natural. E quanto mais realístico, mais inusitado este "objeto" é. No universo de Mueck o gênero humano não é o que existe, é o que restou apenas em representação. O impacto é grande porque o espectador é um estranho que encontra um ancestral, um desvão revelado, em todo seu silêncio e sua solidão. E é aí que sua arte reflete o que tem de mais poderoso: transforma o hiperrealismo (um estilo tão atacado no final do sec. XX) numa experiência surreal, o homem confrontado em seu próprio gênero, perplexo diante do descobrimento de sua estranheza. É na exatidão, no detalhismo obsessivo que suas obras encontram um misterioso sentido espiritual. Isso vai muito além da simples representação, como alguns insistem.

Thais da Silva disse...

Bom.... a principio eu leio e gosto quando tem coisa nova... quase sempre baixo os filmes indicados e fiz uma grande pesquisa só pelas fotos do artista realista que confesso, não conhecia.... e adorei. Quanto aos comentários.... o que é isso mesmo, nunca os vejo no meu blog... mas nem ligo.

Eduardo Araújo disse...

Afonso, obrigado pelo esclarecimento sobre Gullar e o fato de ter melhor consciência do que "sinto/raciocino" ao ver as obras de Ron Mueck. O mesmo digo para o Márcio. Não sou "grande conhecedor" embora tenha estudado Artes no século passado. O que posso dizer é que me encanta o poder expressivo de sua criação, assim como a intensidade artistica que ultrapassa (como intenção) o compromisso com o real que está em muitos artistas ruins, até na mesma linha do Ron Mueck.


E obrigado pelos comentários de todos, pois eu gosto dessas perspectivas que nos colocam contra a parede.

marcio_LG disse...

Deve ser por isso que tens medo de tomar cerveja comigo! hehehehe

Beatriz Cruz disse...

Faço aqui um breve comentário apenas para que tu saibas que és lido e, quem sabe, para deixar o teu dia um pouco mais alegre quando leres isto. Tens um blog apaixonante.

Janis Yesplin disse...

Eu não sou crítica de arte ,tão pouco tenho qualquer conhecimento de história da arte...mas o realismo da arte de Murray me causa uma sensação muito forte...eu acredito que a forma como nos vemos, a maneira absoluta de que ninguém mais no mundo terá a mesma ótica que voce aplica sobre si mesmo, a nossa
figura externa e interna é do tamanho das esculturas dele, olhamos a cada detale nosso na mesma proporção...desta maneira sinto através do trabalho dele como se tivessem revelados muitos segredos...segredos que não se dividem...

A.Ferram disse...

Adorei seu texto sobre o Ron Mueck. Andam dizendo por aí, inclusive nas Universidades que ele é o Michelangelo dos novos tempos. Concordas???