quarta-feira, julho 13, 2011

Se um desconhecido recitar-lhe um poema de amor


Meio que perdido em mim, eu venho, vez-em-quando me encontrar aqui, no que escrevi; e sempre me reconheço e vejo que me repito e, às vezes, também silencio. Eu ando gostando bem de mim, e de um monte de gente. Não obstante tenho espasmos de melancolia; por que, por dentro, tenho essa inquietação de vulcão. Por ex., não me abandona o sentimento de que algo se perde, por irrepetível, e seu deixo, que passe, como se não tivesse vocação para o meu porvir. Falta-me, menos a competência prática que o desejo de ser maior/melhor do que sou. Ainda assim, ambiciono dias deleitáveis.

Ando comprando os livros que já tenho com a desculpa de desfazer-me deles em presentes. E mesmo viajando, me pego na rotina dos mesmos espaços revisitados. Hoje conversando com menina Rafaela, eu reparei que meus personagens sempre partem de um ponto inicial de solidão (de estagnação) para, de repente, tornarem-se outros. Meus personagens sub-repticiamente me revelam. Mas ainda não é isso.

Eu faço dessas aulas que tornam-se longas digressões (almejando) diálogos com gente jovem, diálogos que me iluminam e me fazem ver melhor. Digo-lhes de coisas que para mim são velhas, mas preciosas, e que se renovam aos olhos deles que não conhecem Rosa, Hilst, Nassar. Que não viram os filmes que não são melodramas. Que não viajam, mas que estão naquele ponto bom de descoberta. Para mim, o melhor é sentir-me participante deste ponto-de-virada, aquela mão que se junta para apoiar o salto sobre o muro. Esse encontro breve, feliz é que tem me feito bem e dado algum sentido ao trabalho que faço ainda hoje no Henfil.

Olha, eu parei naquela banca de livros velhos rumo à Cinelândia, e comprei Farewell com o intuito de dá-lo ao Luquinhas, que gosta de poesia. E comprei o Pirandello e aquele livrão de ensaios, O sentido da paixão. (noutra, comprei um livro do Bosi, esmiuçando inteligentemente vários poemas). Mas foi nessa mesmo, do Pirandello, da Paixão e do Drummond que se deu o seguinte:  o cara da banca, que deve ter um pouco mais do que cinquenta, naquele sotaque incrível de (quase) malandro carioca, declamou para mim, no meio da rua, um poema do Rilke, de memória. Um poema dedicado de Rilke a Lou Andreas-Salomé. Ele me disse: "Eu me amarro em Rilke", e esse é o poema que mais gosto... Disse, já iniciando os versos enquanto pessoas se precipitavam na calçada estreita ao lado da banca, carros passavam, ônibus faziam parada de destino em frente. E nisso tudo, que é a rotina do dia, ele declamou aquele poema de quem se faz aos pedaços por amor sem perdê-lo. E foi tão bonito. Pois sempre a mim, inesperadamente, dão-se esses instantâneos maravilhosos.

Achei agora o poema, e aí está:


Tapa-me os olhos: ainda posso ver-te
Tapa-me os ouvidos: ainda posso ouvir-te
E mesmo sem pés posso ir para tí
E mesmo sem boca posso invoca-te.
Arranca-me os braços: ainda posso apertar-te
Com meu coração como com a minha mão
Arranca-me o coração: e meu cérebro palpitará
e mesmo se me puseres fogo ao cérebro
Ainda ei de levar-te em meu sangue.

Rilke.





É, parece que agora para mim é tempo de redescobrir aquele meu amor meio adormecido pela Poesia.

3 comentários:

marcio_LG disse...

Edu, obrigado. O título desse post me inspirou a fazer "Cadeiras caídas" que, embora trate de um amigo específico, fala de você também. ;-)

Eduardo Araújo disse...

Oba, vou ver!

Beatriz Cruz disse...

Que delícia isso!