terça-feira, maio 31, 2011

Eu Gabri e Petrovich em 3d

Lendo as imagens do cinema

Desconhecido (Unknown)


Demorou para sair o arquivo pirata, não deveria. Este filme é uma cópia da série Bourne, praticamente o mesmo enredo, peripécias, ação, presença de garotas superpoderosas. Começa bem e fica previsível. [Sabe que não aguento mais cenas de perseguição de carros?] Mas ok, o que eu quero encontrar num filme que é só um filme de ação? Talvez ambição de ultrapassar o próprio clichê do gênero. Mais uma vez, a idéia de uma vida reconstruída pela memória com lances das obsessoes hitchcoquianas. Nada de novo sobre a terra.

Juventude, de Domingos de Oliveira



Eu simplesmente adoro os filmes do Domingos de Oliveira. Os grandes diálogos irônicos, autoirônicos, amargos, românticos, emotivos, poéticos, eruditos, eróticos, sacanas, saudosos, desbundados. As citações literárias, as máximas superlativas, as sutilezas, os palavrões docemente brutais, a reflexão do papel do amor na vida dos machos. Entendo tudo isso, esse medo de morrer, de envelhecer, amores eternos que acabam sem findar, esse desejo de que a vida tenha alguma significação. Arte. Gosto dos seus longos diálogos/monólogos que perscrutam, quase recitativos, a alma humana. Os filmes dele são de parcos recursos de produção, tudo acontece num só cenário (uma "quinta" onde amigos se encontram para rememorar o passado, fazer pedidos, falar das paixões, das mulheres, das doenças, do presente). Nada de grandes planos, monumentais, rigorosos, geniais. Tudo pequeno, enquadrado bonito, uma paisagem que a fotografia digital estraga, e por isso se põe em segundo plano. Filme de encontro flertando, não com a narração, mas com o ensaio, reduzindo o fio narrativo do que sucede a quase um vazio. Mas são ambiciosos em sua forma quase artesanal, no afã que tem de clarificar o percurso existencial dos personagens (do homem). E de tão reais, parecem extensão da voz de Domingos, autênticas biografias ficcionais. Vão reclamar do carioquês classe média. Mas tem que ter! Não só Divã, não só Jonnhy, não só filme favela. Tem que ter tudo neste cinema-brasil. E esqueçam!: não irá passar na Globo, e se passar, será em alta madrugada, para os insones. 

segunda-feira, maio 30, 2011

Source code (Contra o tempo)


De longe o melhor enredo dos filmes de ficção atuais. Tudo perfeito, impecável. Grande suspense. Inteligente direção. Prefiro este àquele cult A origem, que visualmente é belo, mas tem uma história bem fraca. Já Source code apresenta uma trama tirada de Phillip K. Dick; ainda por cima em completa sintonia com obsessões das atual cinematografia americana para o gênero: aprisionamento, mundo paralelo, mundo virtual, vida e vigília, controle do estado, ambiguidade do real. Tenso, inteligente. Uma fusão de O feitiço do tempo e imersão virtual. E com o requinte da brevidade: 1h20 de entretenimento que chuta longe. Para reprisar.

Filmes vistos


Enredo bacana, mas final positivo demais quando se trata de drogas (sim, para aguçar a inteligência, mas droga). De Niro apenas como figuração de luxo. Tudo no cinema americano de hoje tem que tratar da gana do crime e da política?


Suspense francês que estava no carrinho há tempo para assistir. Adoro ambas as atrizes. Aquela elegância dos planos, no ambiente e nas roupas. Uma trama direta, narrada com velocidade da trama (!!! à maneira daquele Sonho de Cassandra, de Woody Allen), por vezes mais explicativa do que dando espaço ao espectador para entender motivações. É enfático em acompanhar as ações da assassina, tanto que desdramatiza o próprio assassinato. Aquele final com diálogo vago. Bom, muito bom.

Comédia romântica fraca, arrastada. Personagens sem carisma. Trama que vai constrangendo por incogruente.



Mais uma adaptação de quadrinho. Foi muito recomendada por amigos cinéfilos. E foi uma decepção. Pra mim, essa coisa de hiper-violência divertida, ainda mais com crianças assassinas que lutam e atiram facas, é piada de pior gosto possível. É um filme pop, colorido, que flerta com filmes de heróis e imita cenas/lutas inteiras de filmes como Matriz. Ou seja, nada de novo. Achei o banal do banal do banal. Acho que já venci minha cotas de heróis, maniqueismos, lutinhas e pirotecnia. Eu quero é trama boa, direção inteligente, e principalmente, nada de elogia a traumas e heróis doentes. 

Piratas do Caribe 4, com Penelope Cruz. 2 horas que parecem 4. Um filme sem magia.

domingo, maio 29, 2011

Livros comprados na USP Leste

- O pão do corvo, de Nuno Ramos. Editora 34. São Paulo. 2001.
- Lendo as imagens do cinema, de Laurent Jullier e Michel Marie. Editora Senac. São Paulo. 2009.
- Imagens, de Igmar Bergman. Martins Fontes. São Paulo. 1996.
- O filho da mãe, de Bernardo Carvalho. Cia das Letras. São Paulo. 2009.
- Ética, vários autores, org. de Adauto Novaes. Cia das Letras. São Paulo. 2007.
- O capote e outras histórias, de Nikolai Gólgol. Editora 34. 2010.
- Grogotó!, de Evandro Affonso Ferreira. Editora 34. São Paulo. 2000.
- Memórias da sauna filandesa, de Marcelo Mirisola. Editora 34. São Paulo. 2009.
- O azul do filho morto, de Marcelo Mirisola. Editora 34. São Paulo. 2002.
- Meu amor, de Beatriz Bracher. Editora 34. São Paulo. 2009.
- Contos completos de Lima Barreto. Cia das Letras. São Paulo. 2010.
- 2666, de Roberto Bolaño. Cia das Letras. São Paulo. 2010.

Ney Matogrosso, no Roda Viva



Entrevista completa no Youtube. Excepcional.

Xadrez, dois sonetos de Borges


1.
No seu recanto grave, os jogadores
dirigem as lentas peças. O tabuleiro
os demora até a aurora. No seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.

Quando os jogadores se tiverem ido,
quando o tempo os tiver consumido,
certamente não terá cessado o rito.

No Oriente se acendeu esta guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

2.

Tênue rei, oblíquo bispo, encarniçada
rainha, torre direta e peão ladino
sobre o negro e branco do caminho
buscam e livram sua batalha armada.

Não sabem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu alvédrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(a sentença é de Omar) de outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este, a peça.
Que Deus atrás de Deus começa a trama
de pó e tempo e sonho e agonias?


em O fazedor, de Jorge Luís Borges.

A labareda que lambeu tudo, documentário



Integral no youtube, o documentário apenas de depoimentos de memória, sobre amizade e exílio. Caetano Veloso. Gilberto Gil. Jards Macalé e Jorge Mautner. Narração de Peréio. Veiculado no Canal Brasil. Sensacional.

O fazedor, de Jorge Luis Borges

O fazedor, de Jorge Luís Borges.

Um dos livros que comprei na USP Leste e que li hoje em várias viagens equivocadas de trem e metrô. Textos curtos lindos que giram em torno das obsessões borgianas: espelhos, cegueira, biblioteca, tigres, gauchos, punhais, autores universais (Shakespeare, Cervantes, Dante), duplos, simulacros, punhais, livros e bibliotecas. Poemas líricos, sobre xadrez e o tempo. Poemas menores. Dos mais pessoais dos livros de Borges. Uma beleza.

sexta-feira, maio 27, 2011

Uma canção desnaturada, por Chico Buarque



Contundente, de uma força poética que surpreende. Uma das minhas canções prediletas do Sr. Chico.

Eu aqui e lá

Reunião de allstar


Eu e alunas usando all star
Henfil Santo André
25 maio de 2011.

Eu e mãe


Metrô de São Paulo, rumo às Clínicas


Hospital das Clínicas de São Paulo
Instituto de Psiquiatria onde mama trabalhou por 33 anos.

terça-feira, maio 24, 2011

Soul Kitchen, de Fatih Akin


Um filme plurinacional. Pop. Divertido. Engenhoso. Inteligente. Cheio de movimento. Peripécias. Uma direção engenhosa. Personagens memoráveis. Feliz. Moderno. Sexy. Sexual. Romântico. Amoroso. Também sobre amizade. Família. Cheio de humor. Sagacidade. Para estar naquela listas dos filmes que dialogam com o hoje, artístico e sem enfado. Adoro o sujo de sua fotografia. E o grito cheio energia de sua cor. Um filme calcado em música, batidas, rock, bancas, canto. Um filme que dança, move, movimenta-se. Show, jogo, viagem e permanência. Livre. Como ser livre. Cabe tudo. Soul e cozinha. Um prato sensacional.

Bin-Jip (Casa vazia), de Ki-duk Kim


Casa vazia, filme de 2004. Ki-duk Kim ainda era promessa. Na lista de filmes mais que necessários de assistir desde os tempos da ELCV. Não me arrependo pela demora. Tudo tem seu tempo, e o deste filme é agora. Belo, silencioso, moderno, delicado, imaginativo, primorosamente filmado, com uma fotografia linda e uma trama insólita. Casa vazia, uma insólita história de amor vinda da Coréia. 

Hanna


Hanna filha de Bana. Bom suspense mas o estopim da trama não convence. Por que fazer a perseguidora saber que a menina estava viva? Muita coreografia de luta, mas isso já deu. E como é que Cate Blanchett não revela no final ser a mãe da menina, no estilo Darth Vader? Não era? Deveria. Daria complexidade a trama e vacilação moral dela e da menina. 

Just go with it


Uma grande bobagem. A falta de química entre Sandler e Aniston não deixa dúvida. Meia risada. Kidman em decadência? A melhor piada sobre botox. 

sábado, maio 21, 2011

New York, New York, ou De como passei a gostar de musicais

Para Rod, 
que anuncia números, dança, canta 
e sapateia lindamente (com ou sem bengala) 
neste New York, New York 
dos nossos sonhos.



Nunca gostei de musicais. A ação que irrompe para a dança, o sapateado, a cantação: tudo sempre me aborreceu. Traumas dos trechos chatos dos desenhos da Disney que eu via criança em Clube do Mickey, de manhã, antes de ir à escola. Frustrantes, nunca a Globo apresentava os desenhos inteiros, só os números musicais da Branca de Neve, Cinderella, e pior, naquele incompreensível inglês. Lembro de desenhos em que uma bolinha saltava em palavras em inglês, para cantar junto. Nos VHS's, acelerava os números musicais de O mágico de Oz, só parava no Cantando na chuva, sei lá por quê. E os números musicais de Jerry Lewis, de A incrível fábrica de chocolate, e dos filmes de Elvis sempre me pareceram desnecessários, a que me sujeitava nas transmissões de tevê. Sou antigo.

Até que no teatro assisti O mambembe, com o Antônio Abujanra, com lindos números musicais. Juro que me apaixonei pelas canções de "A pequena sereia" e outras, mais modernas, dubladas, da Disney. Depois fui estudar Cinema, e o meu mestre Djalma Limongi Batista foi "ensinar" sobre musicais a partir de Moulin Rouge. Então minha cabeça se abriu. Isto por que meu "gostar" é também aprendido, as coisas acontecem assim comigo: do intelectual vão para epiderme. Então fui lá rever Cabaré. Grease. Victor ou Vitória. Chicago. Talvez nem todos esses se encaixem perfeitamente no que se chamou musical. Mas gosto deles. E gostei demais de ter ido ver New York, New York, no teatro, apesar de ter assistido de um péssimo lugar. 

A trama do musical é a mesma do filme de Martin Scorsese. A cantora Francine se apaixona por Johnny, um músico/saxofonista que conhecera em fim da II Grande Guerra. Depois de encontros e desencontros, do amor à separação, vão se reencontrar ao fim da peça. Já transformada em grande diva/cantora de teatro, ela canta para ele "New York, New York", canção que "ele" compusera e ela "letrara", o tom é apoteótico, cena que reúne atores e bailarinos no desfecho (que posto aqui). A história é realmente trivial, embora os diálogos sejam rápidos, espertos, o que conta é o canto, o que a adensa é dança, a performance dos artistas em cena. 

Musical nunca antes montado (talvez por causa da pouca repercussão do próprio filme, seu realismo/drama com pouca vazão para fantasia), New York, New York só ganhou vida no teatro em abril deste ano. Sobe pela primeira vez em palcos no Brasil pela direção do incansável José Possi Neto, idealizado pelo maestro Fábio Gomes de Oliveira, e escrita para cena pelo autor original, o norte-americano Earl MacRauch. 39 artistas, 29 músicos ( 16 atores/cantores, 13 bailarinos, mais de 400 figurinos) atuam no palco do fantástico Teatro Bradesco, dentro do Shopping Bourbon. O repertório é de standarts americanos, com jazz, Big Bands, com grandes números bailados, entradas apoteóticas, figurinos reluzentes, danças, sapateados. Linda movimentação. 

Alessandra Maestrini está incrível como protagonista, e sua voz é inacreditável da primeira à última música. Juan Alba - que eu sempre achei um galanzinho insosso - me surpreendeu. Mas o fraco da peça está na historieta do casal, falta drama que confira identificação/adesão ao casal protagonista (e sim, a química entre os atores é nítida), mas tudo se dilui diante dos espetáculo que músicos, dançarinos, cantores, atores, belas coreografias e mise en scène dão a peça, que chutando a casmurrice da trama original, ganha mais humor graças ao afinado elenco secundário. Destaque, CLARO! para Simone Gutierrez, com sua hipnótica interpretação de "Fever". 

Entre o teatro mais realista e o excesso espetacular da ópera parece pairar o teatro musical. Ele tem algo de pop, não nos dará tramas de reflexão profunda. Mas seu compromisso - além de entreter, encantar pela fruição estética - parece ser levar o público a uma suspensão da realidade, ao encantamento. No musical, a lógica do mundo precisa ser subvertida. A "prosa" do cotidiano é substituída pela "poesia" do ideal. Num musical, movimento, formas, cor, ritmo, melodia, pesam mais que a "trama" e seu texto. Um musical nos dá cenas de suspensão, em que mais que comunicar, ambiciona ser "poesia" em si, linguagem/forma suplantando a própria mensagem. Nisto ele tem muito de circo, em sua ambição de mostrar a quebra das leis da física, dos limites do corpo. O que o diferencia, é o fato de nunca perder seu fio narrativa, e tratar do humano não como sobre-humano, mas converter sua existência prosaica e algo para além do mundano. Isto por que o teatro dilui o mundo objetivo, é uma das mais "artificiais" expressões artísticas. Por isso que em tempos de extremo cinismo e obsessão pelo "mundo cão"/ "pelo verismo", é alvo das mais duras críticas, já que sim, é inegavelmente um gênero burguês. Mas seu alcance é amplo, pois se abre ao belo/ao ideal, um espaço onde os sentimentos mais tristes se convertem em uma subjetividade que se manifesta em forma de canção. Não é espaço para gestos contidos e sutilezas de atuações, sua expressão (e o humor é um elemento fundamental) se faz em cacos, gags, diálogos rápidos, muitas vezes em jogos de palavras; ou se fazem pelo oposto, em pantomimas e danças que dispensam palavras, textos, discursos. O musical, como espetáculo, exige igualmente mais do cenário, pois ambiciona o espanto, e no desenrolar da trama, fragmenta espaços, que precisam ser amplos para movimentação. Exige igualmente, luzes mais marcantes, porque sua mise en scene se faz por uma dinâmica menos calcada no texto, no embate interpretativo entre atores, daí abundar em musicais cenas/esquetes para rápida apreensão do espectador. Neste teatro, as letras não só se prestam ao diálogo, mas músicas/canções constroem climas, e traduzem a interioridade dos personagens, - daí a porção "lírica" que o define (menos que o épico e o dramático), - e faz com que canções correspondam a monólogos interiores, ou a fluxo de consciência.

No musical, a função poética e a lírica se impõem, suplantando realismo, dissolvendo o entorno na expressão de um sentir, que converte o entorno em manifestação do onírico, do feério, da fantasia. A acusação de que musicais são superficiais - e portanto, inferiores ao "verdadeiro teatro" - não deixa de espelhar a limitação de uma crítica inábil (quando não obtusa) que não percebe que o musical transita numa outra vertente, possui uma natureza diversa do drama teatral fundamentado na palavra, devendo portanto ser avaliado/entendido por outros paradigmas.

Do equívoco de considerar o teatro musical "intelectualmente inferior" ao "verdadeiro" teatro, político ou não, mas ontologicamente "transformador", leva muitos a depreciarem também seus criadores/participantes. Desprestigiar atores-performers (artistas meticulosos e entregues ao canto, à dança e ao domínio de outras artes) só por trabalharem em musicais, é uma forma de preconceito; ainda mais se considerarmos que o grande ator se reconhece pelo domínio das suas potencialidades interpretativas, da voz, do corpo, e seu uso para representação plena de significado de um "outro eu".

Negar a condição de "Arte" dos musicais é reduzir a experiência humana à realidade objetiva imediata e prosaica, negar "a paisagem interior do homem", o simbólico, a conversão do real em imagem poética. Negar que a experiência humana abarca não apenas o mundo dos sentidos e das ideías, mas também a FANTASIA que muitas vezes, confere e amplia o sentido daquilo que banalmente chamamos VIDA.




Lendo Godot


Lendo Esperando Godot, de Beckett e pitadas dos contos pedregosos de Joca Reiners Terron, de Sonho interrompido por Guilhotina. Um tantinho atrás, muito apaixonado pelo livro do Marçal Aquino, As fomes de setembro. que li rápido, numa tacada. Assisti a Reflexões de um liquidificador, do André Klotzel, filme de humor negro, pop-tupiniquim, pop de periferia (mas habilidosamente filmado) ousado pela escolha de seu protagonista liquidificador (voz de Selton Melo), mas que como tudo do Klotzel não vai além de uma pequena diversão. Comecei agora a ver Pigmalião (de George Bernard Shaw), filme de 1938, em p&b. Corrijo trabalhos da pós. Preparo ensaio para apresentar no PACC. Dois sábados dando aulas sobre técnica de redação com salas lotadíssimas. Monto programa para dois dias de oficina para Diadema, sobre roteiro - um curso avançado. E durmo terrivelmente. A doença agora se evidenciou, por isso só sonho com afogamentos, estrangulamento, e tenho realmente a impressão de que irei morrer dormindo. Caminho exaustos nos dias, arrastando certo mal estar de mim e do entorno. Mas fiquei feliz com dois sapatos comprados no sábado. Com o diálogo rápido com Cris. Do afeto sem sujeição dos meus alunos. Da companhia boa de minha mãe cada vez melhor. E da cumplicidade que tenho com minha irmã e meu irmão. Da presença do Pedrão aquecendo dias. E da decisão de não procurar por quem dizia me querer bem. Desejo de estar mais centrado, em mim. O frio favorecendo introspecções. Leituras boas de Shakespeare. Planos para um filme pequeno. Ganhei de um garoto na quinta, um desenho que ele fez de mim na sala. Gosto dessas demonstrações de afeto desinteressadas. Das aulas da tarde. De ter de reler Camões. De falar de mitologia. De suar na academia gelada. De me vestir bonito no frio. De sair de manhã apesar de não gostar de acordar cedo. De ter muito o que fazer. 



sexta-feira, maio 20, 2011

Capitu


Linda imagem da série Capitu. A série é insuficiente, mas Luís Fernando Carvalho constrói belas imagens. 

quarta-feira, maio 18, 2011

Esperando a Graça

Turmas novas começando no Henfil (manhã e noite). Bons encontros com amigos que foram me ver no intervalo. Almoço tranquilo. Botando o diabo pra fora do corpo e outros demos para correr, para que tudo se renove de novo, com novos ares sem as hipocrisias galopantes que me perturbaram os últimos meses. O inacreditável depois de todo o golpe, a manipulação, o cinismo. Inacreditável, realmente. Aulas longuíssimas, turmas interessantes. Mãe um tanto doente nesta noite fria. Vou lá, vejo sob os lençóis. Depois do respiro, há tantas e mais importantes coisas para as quais a gente precisa se voltar, que tudo se dissolve, vazio. Balão. 

A justiça é questão de perspectiva?


terça-feira, maio 17, 2011

Soneto XII, de Shakespeare

Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.

    Contra a foice do Tempo é vão combate,
    Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.

[Por Ivo Barroso]

XII


When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silvered o'er with white;

When lofty trees I see barren of leaves,
Which erst from heat did canopy the herd,
And summer's green all girded up in sheaves,
Borne on the bier with white and bristly beard,

Then of thy beauty do I question make,
That thou among the wastes of time must go,
Since sweets and beauties do themselves forsake
And die as fast as they see others grow;

    And nothing 'gainst Time's scythe can make defence
    Save breed, to brave him when he takes thee hence.


[Lindo soneto, lembro de tê-lo escutado no filme O homem que copiava, de Jorge Furtado. Estranho não ter postado aqui no Revide. Para compensar a falta, ei-lo].

New York, New York

Assisti ontem, mas vou ter que sentar e escrever demoradamente. Hoje não dá. Sigamos.

segunda-feira, maio 16, 2011

Louco por Shakespeare

Desde que fui ano passado à palestra do Jorge Furtado em o_Barco quis ler este livro que ele idealizou, convidando amigos para realizar traduções inusitadas dos sonetos de Shakespeare. Lázaro Ramos, Gero Camilo, Fernando Meirelles, Wagner Moura e Fernanda Torres estão entre os "traidores/tradutores". Nesta palestra ele declamou um soneto delicioso em duas versões, posto aqui e recomendo o livro.


Soneto 66

Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
E aos mais inúteis com riqueza e sorte
E a fé mais pura triste ao ser traída

E altas honras a quem vale nada
E a virtude virginal prostituída
E a plena perfeição caluniada
E a força, vacilante, enfraquecida

E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sábio, decidindo
E o todo, simples, tido como parte
E o bom a mau patrão servindo.

Farto de tudo, penso, parto sem dor
Mas, se partir, deixo só o meu amor




ou, numa segunda versão (glaucomatosiana) do mesmo soneto

De saco cheio, mando tudo às picas
Ao ver só gente boa se ferrando
E as mais escrotas rindo à toa, ricas
E as crentes, puras, só no cu levando

E prêmios dados a um monte de bostas
E virgens puras pagando boquetes
E a perfeição xingada pelas costas
E os fortões entubando croquetes

E a cultura virar supositório
E a chusma de imbecis cagando regras
O bom e simples tido por simplório
O mal triunfa e o bem toma nas pregas

De saco cheio, vão todos se fuder!
Só o que eu não posso é meu amor perder.


JORGE FURTADO


João de Barro



Adoro comerciais inteligentes.

Livros que vem pelo Correio


Chegaram hoje pelo Correio os livros que eu comprei nas Americanas.

- Sonho interrompido por guilhotina, de Joca Reiners Terron
- Dicionário crítico de escritoras brasileiras, de Nelly Novaes Coelho
- Sonetos de Shakespeare faça você mesmo, de Jorge Furtado

O estranho é que livro comprado pela Internet, quando chega, dá a mesma sensação de ter sido presenteado. Sei que é ridículo, mas é isso, nem me ligo que com o "presente" virá a futura fatura, fico naquela felicidade folheante de quem não tem ainda ipad, e não sabe mesmo se quer ter. 

Sentindo muitas saudades desse garoto


Starbucks Paulista 2011.

Recover my photos


Então o Cleyton passou aqui por São Paulo, e eu o fotografei com minha Canon novíssima. Acontece, que eu fui fuçar para "entender" o menu e formatei o chip de memória. Há dois dias eu consegui finalmente recuperar as fotos do chip com um programa extraordinário (depois de tentar com diversos outros): Recover my photos. Infelizmente, para "salvar" as fotos no computador é preciso comprar o programa, que não tem versão demo. Mas como sou burlador interneteiro, consegui abrir algumas fotos principais e copiei/colei da tela com a simples tecla Print Screen. A qualidade não é a original, mas pelo menos não dói saber que estão perdidas, além de deixar feliz aos amigos daquela tarde irrepetível em que comemos massa em São Paulo.


domingo, maio 15, 2011

Limpe Todo o Sangue Antes Que Manche o Carpete


Na correria para chegar a tempo na sexta para assistir no SESC-Consolação a essa peça escrita por Jô Bilac, o mesmo autor de Rebú. Chegamos, eu. Lucas, Cinha, Rô. Tragicomédia com enredo interessante, boas idéias, mas insuficiente. As pilastras da cena atrapalham terrivelmente a visão. Cenografia enxuta. Uso interessante de parcos recursos de cena. Interpretações por vezes mais histriônicas que o necessário. Destaque para atriz que compõe uma enfermeira fria (excelente trabalho de voz e expressão), que só se aquece pelo desejo de um apartamento com vista para o mar. O texto de Bilac flerta com o absurdo, e segue influênciado pelo universo de Nelson Rodrigues em muitas expressões (rainha de sabá!), nos desejos fúteis, mesquinhos, nas obsessões dos personagens. Em Bilac, um grau acima, uma espécie de "circo-de-horrores-das-paixões".

sexta-feira, maio 13, 2011

A encenação de uma tragédia: Incendies, de Denis Villeneuve


Assisti de madrugada. Elementos que odeio: drama pesado, guerra civil, questão mulçumana/religiosa, tudo isso dirigido por estrangeiro (canadense, no caso). E o filme me prendeu, pesadíssimo, da primeira até a última cena na qual mais respiramos. A direção é de primeira, clássica, emocional, mas a montagem embaralha a estrutura com recuos, elipses, mistura interessante de tempos que dá uma outra dinâmica (não vertiginosa, o oposto, minimalista, reveladora) e que nos faz assisti-lo com grande prazer, e sim, a certeza de ver uma obra com mão autoral. Mas é um drama pesadíssimo, tanot que como faço sempre, nem comento o roteiro/enredo. Pois me interessa outra coisa.

Pensando o filme, como definí-lo. Sem pé no clichê, está ligado à TRAGÉDIA (na tradição grega), mas de uma forma brilhante. É como se a história não fosse em torno de Édipo, mas de sua mãe (ou seja, na perspectiva de Jocasta). Sua protagonista, Nawal, parece inevitavelmente destinada ao sofrimento maior, à desgraça pessoal e do mundo em torno de si, e tudo reverberando para além da sua morte.

O filme abre-se com a leitura do testamento, a mãe pedindo que seja enterrada nua, de costas para o mundo, num túmulo sem lápide: "pois quem não cumpriu uma promessa e guarda segredos não merece lápide". Uma carta destina-se a seus gêmeos, que devem procurar o pai e o irmão que nunca souberam que existiam. A filha Jeanne (estudante de Matemática Pura) aceita cumprir o último desejo da mãe e do Canadá embarca para o Oriente Médio, ao mesmo tempo em que a história da mãe é contada. Assassinato, danação, ódio, genocídio, massacre religioso, guerra civil, assassinatos políticos, tortura, estupro, incesto tudo o filme abarca. 
Das marcas da tragédia, a profanação do "nome familiar" que faz com que o irmão mate o pretendente da irmã. O filho retirado e marcado nos pés (como Édipo, "de pés inchados", fundamental para o reconhecimento no desfecho do filme, da mãe), a viagem de Nawal para capital, seu retorno para buscar o filho, o mergulho no mal, o assassinato, os quinze anos na prisão, seu retorno com os gêmeos que deveriam ser afogados (daí sua ligação com a água e as piscinas) até as cartas final para o filho perdido e para o torturador pai dos filhos. A enorme voz do perdão final, do trágico que condena ao silêncio e ao cegar-se. Terrível. A tragédia sem precedentes. Belo/bélico, para dizer o mínimo. 

Copie Conforme, de Abbas Kiarostami


Imagino no mundo das atrizes, o ódio que todas devem ter por Juliette Binoche, pelo fato de ela ter embolsado, nos últimos vinte anos, as melhores protagonistas do cinema mundial, e trabalhado assim com grandes e talentosos diretores, realizando, com eles, obras-primas. Para ombreá-la, só mesmo Isabelle Huppert. Mas eu prefiro mesmo a carnal Binoche, com sua beleza entregue ao poder do tempo, suas atuações intensas ou contidas, mas nunca óbvias. E agora ela faz este estranho Copie Conforme com Abbas Kiarostami para terminar de f. as semi-atrizes do mundo.

Copie conforme é um filme estranho, gosto da mistura dos três idiomas (inglês, francês, italiano), esta viagem a Itália (Toscana), para discutir o que é Arte, o que é cópia, o que é amor autêntico. Gosto de filmes-falação, cabeçudos, adultos, belos. Talvez emule de um outro jeito aquele filme do Rosselini - Viagem à Itália - com Ingrid Bergman. Talvez. Assim sendo, também cópia deste filme maior que lhe serve de mote. E juro que ainda não o entendi no nível da trama, só sua simbologia. Do encontro da dona de antiquário com do escritor/crítico de arte inglês do começo, para simulação de que ambos são um casal, até a afirmação, de que sim, são de fato marido e mulher com 15 anos de casamento. Esta viagem à Toscana nada mais seria que estopim para discutir uma relação que envolve distanciamento, esquecimento, amor autêntico que vira outra coisa. E os grandes silêncios kiarostamianos que nada explicam. Gosto, por parecer tão simples de fazer e meter-se a enganar a nós, espectadores, fiéis demais à verdade e à representação.

quinta-feira, maio 12, 2011

Eu sou o número quatro


Não me censurem, já disse que adoro filmes de ação/efeitos especiais/ficção científica etc etc. Realmente não perco. Esse diverte, a história é bacana e os efeitos ótimos. But. Por que a praga da atmosfera "Crepúsculo" teve que contaminar todos os filmes que tem por protagonistas jovens? Pior, eu me pergunto, como conseguiram transformar "adolescentes melancólicos e reprimidos sexualmente" em chamariz de público?

Thor


Aquele filme pra divertir, mas bem mais ou menos.

terça-feira, maio 10, 2011

Frontal com fanta

Frontal com fanta

Vencido está de Amor meu pensamento

Vencido   está  de  Amor meu pensamento
o mais  que pode ser vencida a vida,
sujeita   a  vos  servir instituída,
oferecendo     tudo    a vosso intento.

Contente deste bem,  louva o momento
ou hora em que se viu tão bem perdida;
mil  vezes  desejando a tal ferida
outra   vez   renovar   seu perdimento.

Com essa  pretensão  está segura
a causa que me  guia   nesta empresa,
tão estranha, tão doce, honrosa e alta.

Jurando   não   seguir  outra ventura,
votando   só  por  vós  rara firmeza,
ou ser no vosso  amor  achado em falta.

Camões


[Um acróstico muito bem cifrado neste soneto camoniano: VOSO COMO CATJVO - MVI ALTA SENHORA = Vosso como cativo, mui alta senhora.]

Partindo corações, Romain Duris



Li uma crítica na Folha escrita por André Barcinski sobre o filme com o ator Roman Duris, L' Arnacoeur. Ele detonava o filme, falando que não passava de uma contaminação de clichês norteamericanos, todo muito ruim (estou sintetizando, mas o conteúdo é este). Eu que sempre gosto de ler críticas, nas não as respeito a ponto de não assistir aos filmes, baixei e me diverti horrores com esse filme delicioso, elegante, feliz, e muito francês (para além do cenário deslumbrante do país). Pois filmes também servem a isso, para nos fazer rir, dar alegria, ainda mais quando é a isso que o diretor/filme se propõe, já que este filme não se "vende" com a etiqueta do "filme de arte"

E o filme de Pascal Chaumeil nos encanta, com seu argumento fantasioso, sua premissa questionável, e que de tanta liberdade poética, só pode mostrar ao espectador um mundo idealizado, chique, divertido. Algo próximo do sonho, e sem a necessidade de significar/ressignificar valores, tradições, sentidos mais ou menos profundos.

Eu penso ser um filme que fracassou aquele que não se realizar plenamente, não cumprir aquilo que se propõe (até como gênero), o que não é o caso desta comédia romântica. E ler a crítica rancorosa de André Barcinski (ele está se habituando a seguir essa linha), revela apenas a visão cada vez mais empobrecida e um tanto míope de um crítico sobre a arte do cinema, que admite múltiplos caminhos.

[Aliás, o filme faz homenagem a um filme de terceira (Dirty dancing), um filme de sessão da tarde tão bobinho e delicioso quando ele mesmo. Alías, a cena em que o Duris e Vanessa Paredes recriam a cena do filme e dançam Dirty Dancing mereceria pelo menos quatro replays pós-créditos].

quinta-feira, maio 05, 2011

Cartas da mãe



http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=1554&Exib=1550#

Documentário sobre Henfil.

O sanduíche, de Jorge Furtado



Um curta extraordinário de Jorge Furtado.

20 anos blue

Eu não te quero
Eu te quero mal.

[Que versos!!!!]