sábado, junho 12, 2010

Da mania de fotografar



Vejo aqui as fotos. Há fotos demais. Reflexo de certo narcisismo certamente, e uma boa dose de prazer. São cuidadas para serem bonitas, mas não são artísticas. Falta-me a técnica, ainda mais, falta em mim o gosto pela técnica. São registros, fotodocumentam o evento pessoal, não se prestam a jornais, são assim como memórias do prosaico da vida, não querem aspirar a nenhum momento de grandeza. Minhas fotos não transcendem. Transcender --  ah! e eu lembro do Cartier-Bresson  -- está no momento único que técnica, sensibilidade, e alguma coisa que é Deus se conectam.

E pensando bem, as melhores não são as espontâneas, são as que dirijo, aquelas nas auais coreografo as pessoas em ação e elas, constrangidas ou entregues ao momento do clique, se deixam captar. É por isso que gosto de fotografar pessoas, amigos, parentes, amores. Constato que as pessoas amadas ficam mais bonitas nas fotos, eu mostrando sem querer o olho de afeto com que as vejo, olhar que vai de graus de ternura a desejo. Eu quero iluminar aquele brilho essencial da pessoa.

Mas não são as fotos em si que me interessam. São os momentos das fotos que quero chapar. Que ela capte a energia do instante, a dinâmica daquele momento quando eu quero que se estampe no rosto, na expressão, nos olhos dos fotografados, a vida. Que elas estejam o mais perto do que são (não de fato), mas para mim. Eu quero a "verdade" subjetivada; o filtro é esse meu "eu" tão narciso. No final, eu me orgulho dessas fotos. Do ser captado em pixel. Trago para casa, descarrego no computador, clareio, mudo as cores, interfiro no enquadramento, ponho aqui e ali uma outra luz. Interferir é ferir? Aferir outro significado? 

Quero-os belos como no meu pensamento. Quero-os o meu pensamento. Quero-os a minha memória que se vai minguando, e eu não quero que ela nunca me desampare. Fotografar é fazer um pouco mais essas pessoas minhas, pois cada foto devolvida (e apreciada) é um presente que lhes dou, sendo eu mesmo, o recebedor daquela presente entrega. O tempo que elas estiveram comigo. Que foram minhas. Quero-os todos, egoísticamente, sempre meus. Aprisioná-los é minha forma estranha de amor. Quero-os como minhas pequenas biografias de gentes. Eu que tiro de todos algo, quero-os sempre, para sempre, mais meus?

3 comentários:

LeoMahlerBR disse...

Fantástico o post(como sempre, aliás), ainda mais porque me identifico muito com ele...sou músico -fiz cursinho no Henfil ano passado e tô estudando Música na Unesp- e tenho as "manias" de escrever e de fotografar. E sinto falta de técnica em tudo. Uma sensação de que estou profanando as duas artes. Mas amo, necessito. E não escrevo/fotografo por fazer, tudo pra mim tem uma carga, um significado, como você mesmo disse: "Mas não são as fotos em si. São os momentos das fotos que quero chapar. Que ela capte a energia do instante..."

Amo seu blog, leio cada post, é pra mim uma fonte de reflexão e inspiração.

Abraços!

Magna Regina disse...

Sou apenas uma nova aluna que está começando a aprender muito com você.
Mas saiba que de todos os professores que já tive da sua matéria, você foi o único que está conseguindo colocar alguma coisa na minha cabeça, fazendo com que eu mude alguns hábitos de escrever, questionar, etc... E obrigada por querer nos ter em sua memória para sempre, pois suas aulas jamais serão esquecidas, ao menos para mim. Sou péssima para expressar o que quero dizer, então desculpe pelos erros ortográficos e dissertativos... rsrs

Bjs e até a próxima aula.

Anônimo disse...

Mas Magna, está perfeito. Eu que me sinto um privilegiado.

Abço

Eduardo