segunda-feira, novembro 30, 2009

Fabiana Cozza no Som Brasil


Zapeando na madrugada, e vejo no Som Brasil que Fabiana Cozza canta na homenagem a Paulinho da Viola.  Então paro e assisto, pois Fabiana é a melhor cantora da nova geração, derruba todas as demais intérpretes sem qualquer esforço. Pode brigar pau a pau com todas as maiores da atualidade, mas não briga. É fertil, sem aqueles disquinhos-projetos insuportáveis cheios de pesquisa de mercado (ah Maria Rita, por que você é assim!!!), canta com coragem em muitos palcos, sempre se mantendo integralmente ela mesma. Só tenho medo do "enquadramento" no quesito tradição, no gueto afro que vira world music, ou no risco de se tornar "diva cRássica", ou seja, petrificada em sua torre de marfim. Que ela seja grande sempre, como Betha, que se dá inteira em desafio da auto-imagem construída até em seus desafinos. Mas Fabiana tem personalidade, aquela que falta a tanta cantora nova, então acredito que ela vai sempre nos surpreender com sua voz estupenda e interpretação de altíssima voltagem emocional.


domingo, novembro 29, 2009

sábado, novembro 28, 2009

Carta para BB


Cara BB.,

a saudade maior do mundo de você. mas não tanta, que não me faça sair daqui depois da sexta e ir lá na usp buscar uns livros naquela feira que de tão única só se apresenta nesses quase-finais de novembro. passei no banco, peguei grana e fui. trem, metro, baldeação, baldeação, baldeação e eis na Madalena, aquela escada rolante infinita, e o ônibus lá a frente. não, BB querida, não vou de ponte-orca, demora séculos descer, atravessar aquela curva de carros que vem a cem e pode matar qualquer um, pode me matar também. você quer que eu morra, BB? o que acontece é que já são quase três da tarde e estou torrando no ônibus quando o motorista resolve dar partida. o tempo de quatro ou mais canções no mp3 recalcitante, culpa do ideológico fone de ouvido que só desfila canção no ouvido esquerdo. mp3player coreano e comunista, desses de passar por cima de pacifista na praça da paz celestial. mesmo assim BB, você sabe que isso não é problema, eu sou do improviso, boto olhos perspectivos na gente universitária que vai no ônibus. vao ensimesmados, lendo  trepidantes cópias xerox. uspianos até os ossos. igual como éramos, eu sou um pouco, não perdi o hábito de descolar retina em coletivos. então, BB, sucede entrar na cidade universitária, dou conta então que senti grandes saudades, que faz tempo demais que não vou lá, e rever é constatar mudanças, eu que tenho esse desejo petrificado de permanência. cogito buscar o diploma que já solicitei há tanto tanto tempo. preciso do diploma. daquele que ateste minha competência. que reconheça quem sou, para que eu  próprio me reconheça. para que eu seja. preciso talvez para ser mais do que sinto ser enquanto o ônibus faz aquela curva fatal, pois todo motorista é um menino frustrado de montanha-russa. minha cabeça fica ainda lá atrás, no diploma, pensando que botam na parede emoldurado para apaziguar o espírito conquistador, ou por fetiche exibicionista, ou para autoconvencimento, já que vivemos em eras de incerteza. então dou conta da parada brusca, fora do desobediente ponto onde despongo num salto no gramado ante o grande prédio histórico da história. a feira é longa, ocupa todo o pátio, o centro, uns quadriláteros com carteiras com gente dentro que lembra feira de ciências em escola pública. cada editora ter seu espaço delimitado, com vendedores excitados ou cheios de tédio em torno de caixas e livros. bastante gente, bastantes livros, livros em pilhas, andar fica impraticável, sacolas pesam nos braços, o ar irrespirável e livros. tanto de dostoievski e kafka e candido e extremos hobsbawm e a morte da tragédia na grécia e quadrinhos de crumb e mulheres nuas do manara com mangás e tantos e tantos livros sobre machado de assis que se vendem! zanzo banzo horas sem me interessar por quase nada, até parar ali na cosac naify. então encontro tudo. 50%, sabe? compro ali os livros mais bonitos do mundo. me deixo levar. resisto ao claude levi strauss tão sedutor do cru e cozido à gênese dos talheres na mesa. a prova de resistência é não ceder, não levar tudo que queira. idade média, minha perdição, se compro enrolo, acabo naquela leitura aos saltos, daqui a uns dez anos terei lido o livro aerobicamente. sabe como sou. eu não mudo mais. eu vou ser pra sempre esse mortal desatento. ia passar no serrano. esqueço. buscar o diploma para ser. esqueço. de comer, esqueço também. as horas passam. tenho que pegar uma coca. desaba uma chuva dos diabos, mas ninguém dá por ela. a universitariada mais linda que há comprando livros, roçando braço a braço na luta por espaço para escolher o que se dispõe a mesa como banquete. exaustos, festivos e compenetrados, com nomes e listas cheias de consoantes fricativas. pego quase tudo na cosac, uma fortuna, e zanzo mais: livros infantis para pedro e para o Gabriel. na língua geral uns africanos. uns contemporâneos de 3 e 5 noutra banca, de encalhe. e o dia acaba comigo procurando um banheiro com que lavar o rosto. o peso danado. Imprestável estado com que vou embora, parar naquele ponto. eu e buñuel. eu e orides. eu e virgínia woolf. eu e zazie no metro, depois de quase meia hora à espera. e tudo de volta até chegar aqui pela meia-noite enquanto mando mensagens engraçadinhas no msn. mas tudo vale, é tolo, eu sei, mas esses livros todos me fazem um cara mais feliz. e eu penso "onde vou por tanto livro?" , meus arquivos de metal arriam ao peso de muita obra lida e se não lida à espera de um dia que eu lhes pertença. (porque, não sei se é assim com você, mas comigo há sempre o revés do amor em excesso, vira preocupação, angústia. E o que a gente faz com a angústia daquilo que antes nos fizera feliz?). não sei, BB. eu guardo, pesam nos armários, mas não esqueço, tão prestativos meus sagrados livros, esperando por mim, meigamente. BB, sabe do que falo: dor feliz?

e é só isso. posto no blog, sem selo e/ou saliva, a que sobra é para mandar beijo. Beijo.

E, claro,  as mais cordiais e arcaicas saudações neste teu coração de lápis-lazúli

Edu

quinta-feira, novembro 26, 2009

Relatório

Internet caindo a cada dez minutos. Telefone mudo. Notícias por email do marido de uma amiga muito querida que morreu recentemente. Amigas também doentes e o mundo em volta desabando sem que você saiba o que dizer, sem poder participar agora com sua presença. O pedido para ser padrinho de casamento. Email simpático. Cães e gatos alagando a casa. Academia. Academia. Academia. Muito esforço e pouco resultado. Vegetais estragando na geladeira. Procrastinações várias. Perspectivas de viagens. Caos generalizado na casa. Indecisão quanto a uma compra. Problemas salariais. Dentes desobedientes. História Concisa da Literatura Brasileira de Alfredo Bosi. Entrevista ontem no café do Sesc Paulista para revista Problemas Brasileiros com um Jornalista bacanérrimo. Fones de ouvido e camiseta Hering preta em V. DVDs três por dez: A festa da menina morta, Mutum e A história de Jane Austen. Feira de Livro na USP, botar tanta tralha onde? Irritabilidade ou desencanto comigo, ou as duas coisas somadas porque de repente a visão clara de que não posso corresponder as expectativas, os projetos todos, etc etc. A minha condição mortal gritando em problemas físicos que vão se agravando, como aqueles carros que envelhecem sem balanceamento e manutenção. Preguiça, preguiça sempre, como enguiço, como soluço, pigarro, como uma lesera crescente. Calor e suor nestes dias paulistanos quentes  demais.

Julie & Julia



[De madrugada assisti a este filme que tem uma narrativa convencional, que flui maravilhosamente bem, e trata de pessoas boas, pessoas felizes, pessoas que amam cozinhar, pessoas que se amam. Não há um resquício de tristeza, de cinismo. É um filme sobre felicidade, sobre alegria. Não há conflito. Não há doença. Não há morte. E não é chato. A interpretação mais que SUPERLATIVA de Meryl Streep, com toda aquele poder de alterar a dicção, linguagem corporal e te fazer crer que o ser realmente existe. E no final estamos totalmente apaixonados por essa personagem hiperbólica que converte o banal em entusiasmado nonsense. Gostei demais. Acho que estou me reconciliando com o cinema, e desejando filmes felizes.]

quarta-feira, novembro 25, 2009

COCO AVANT CHANEL




COCO AVANT CHANEL

[Acabei de assistir agora, as 2h40. Sabe um filme deslumbrante?]

Mas a melhor definição realmente é a do Lucas:

[...um filme que acaba quando começa...]

terça-feira, novembro 24, 2009

Evocando Lobão

Essa chuva caindo lá fora e esse relógio do computador dizendo que só faltam uns 20 minutos para minha aula, só reforçam o enorme cansaço e a certeza de que por esse ano basta. Tudo já foi dito, discutido, todos os autores reverenciados. O melhor mesmo é que usassem esse tempo que resta para aquilo que seria realmente útil para o vestibular e principalmente para vida: ler.

Novo sonho de consumo


PhotoScape



[Esse programa de edição de imagens é o máximo e inacreditavelmente fácil de usar]

Plugin para tirar tremor de imagens


[Pesquisa para usar em trabalhos de vídeo que pretendo fazer]

segunda-feira, novembro 23, 2009

Bastardos Inglórios


Assisti hoje - finalmente - a Bastardos Inglórios. Procurei a imagem de uma cena marcante, como aquelas que sempre havia nos filmes do Tarantino. Mas desta vez não achei nenhuma. Então posto esse cartaz, que achei bonito, criativo, bem interessante. Lá embaixo postei aquela cena deliciosa do Pulp Fiction, que assisti no Cine Tangará em Santo André ao lado de umas velhinhas que não entenderam muito bem como o John Travolta podia morrer numa cena e dali a duas reaparecer. E eu me espantava muito, em ver aquele vigor e aquela ironia no lance não linear das cenas que valiam fechadas em si. Divertido, criativo, instigante, a gente levava o filme para fora da sala, pensando nas colagens, e que aquilo era uma crítica inteligente à banalização da violência no cinema, e outras coisas para mais além do maneirismo. Ou o maneirismo mesmo em si fazendo-se estilo como nos filmes de Leoni ou Depalma.

Hoje, penso que Pulp Fiction é daqueles acidentes raros de carreira, pois é um grande filme quando tudo o que se seguiu só fez confirmar o curto alcance de Tarantino. Inegável é o seu talento em construir climas, personagens marcantes/divertidos, estereótipos que traduzem emblematicamente seus atores, mas  tudo isso não basta quando nada se tem a dizer; se o "maneirismo" deixa nítida a gratuidade de tudo. Em suma, tudo se converte em um "discurso/conteúdo" banal: o sadismo visto com alegria, a pirotecnia do sangue jorrando e das cabeças explodindo na histeria feliz daquele mundo sem sagrado. Tudo cegando uma plateia juvenil e acelerando o consumo de refrigerante e pipoca. Coisa que me faz imaginar o alcance da discussão sobre o filme na praça de alimentação: Você viu a cena que ele estoura a cabeça do cara com o taco de baseball?

Não que quisesse ou buscasse ou me fosse necessário que o cinema portasse um discurso moral, edificante, humanista. Minha expectativa era só que fosse algo mais, pois neste sentido, não há diferença alguma entre o que o filme de Tarantino apresenta, dos mil Jasons, Jogos Mortais, zumbi-movies da temporada. E no entanto, ainda com Cães de aluguel, por equívoco, me parecera que ele buscasse um lugar mais além, não só no encadeado incomum e esperto da cena, na colagem, no caudal dos diálogos, no procrastinado da ação. Tudo o que me fazia esperar com ansiedade um novo filme do autor.

Vendo Bastardos... penso que não só é um "canto" ao embastardamento do público mas um louvor à violência festiva que em sua extravagância hiperbólica  neutraliza a percepção do que é dor e morte.  Bastardos, por isso, têm para mim a mesma contundência imaginativa e profunda daquele programa americano Jackass: imbecis arremeçando bolas de golfe nos testículos dos colegas, um anão descendo uma escada num carrinho de compras, um gordo lambuzado de pasta de amendoim cutucando uma colméia de abelhas. Tudo o que não me diz nada. Um humor que não me interessa. Por isso já não espero mais nada do Tarantino.

domingo, novembro 22, 2009

Boca

A grande cena de Pulp Fiction




Porque as cenas que apreciei sempre nos filmes do Tarantino foram justamente aquelas em que não havia violência.

Balada Literária



Fotos da Balada Literária, Sesc-Pinheiros. Show "Viva o Povo Brasileiro", no dia da Consciência Negra, 20 de novembro, às 19 horas. No palco, Fabiana Cozza (cantora), Rubi (cantor) e Vitor Araújo, pianista.

quinta-feira, novembro 19, 2009


- um telefone meio insólito ontem e um convite para um entrevista na Problemas Brasileiros
- uma hd queimada com trabalhos importantíssimos
- sete horas expulsando jornais velhos de armários, gavetas, caixas, esquecidos sob o colchão
- muitos filmes baixados e tempo algum para assisti-los
- questões financeiras para serem acertadas com urgência
- créditos e mais créditos no celular e ninguém para ligar (Tem Vivo?)
- uma aula boa com músicas de Chico Buarque que me fez feliz
- livros comprados sobre Gil Vicente
- pipoca no cinema para estragar a dieta e um filme catástrofe onde a Terra é destruída (mas desastre mesmo é o filme em si).
- assistindo a tudo de costas e em pedaços por conta da tevê a cabo (enquanto digito trechos do ensaio)
- passagens compradas (pela irmã) para estar em breve no Rio
- a proposta nova, e também insólita, para um documentário sobre o Betinho (e com verba)
- o calor de novas descobertas e a descida boa aos subterrâneos (na pena forte) de Gil Vicente e Caio
- malhação neurótica com bons três 3kg a menos (e dizem que esteiras e ergométricas nao levam a nenhum lugar)
- uma alergia (nao confundam com ALEGRIA) que não cessa
- um ensaio sobre o Caio Fernando Abreu com a precisão (e a dimensão) de uma tese
- semanalmente como que acorrentado à cadeira do dentista, seus instrumentos e contas estriDENTES
- um rumor estranho na casa traduzido em silêncios e indiferença para comigo
- a sensação de que um crime está prestes a ocorrer
- botando fim nos adiamentos
- saudades de longas conversas consoladoras, felizes, às vezes sobre nada
- saudades dos velhos amigos, e dos amigos jovens, e de novos amigos que farão a diferença
- preparando planos para equipe e filmagens e já temendo o vuco-vuco
- ouvindo Nego do Rennó e cd do Kleber exaustivamente. Exaustão feliz.
- aviso que o filme Padorum não vale a pena
- coco antes de chanel me sorrindo e eu o cara mais fora de moda
- de repente acho que estou velho demais para todas essas minhas roupas
- alguma melancolia passageira
- vontade de dar aquela gargada
- minha mãe com cabelos brancos e cinzentos crescendo fortes como uma felicidade reinaugurada
- a certeza de que falamos outra língua
- a redação talentosa de um aluno que me deixou orgulhoso
- querendo ir na balada literária
- talvez Recife em fevereiro
- fechando o 18 de novembro de 2009, na expectativa de uma boa consciência negra.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Vegas Pro 9




Hoje instalei o Sony Vegas Pro 9 (e plugins) para começar a edição dos vídeos que quero produzir. Não aguentava mais os paus do Premiere.

domingo, novembro 15, 2009

Caio Fernando Abreu



Redigindo a fórceps um ensaio sobre Caio Fernando Abreu, dificílimo de se fazer escrever. Fuçando os diversos livros que tenho dele, encontrei esse fragmento na contracapa (uma versão curta, que é mais bonita, sem a fúria da versão longa):

"E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo. No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho."

[Na orelha do livro Triângulo das águas está esse trecho que eu achei muito forte, muito bacana, e me fez comprar esse livro antes de terminar Letras, na Fundação Santo André, em 1996]

Situações dramáticas

[Voltando a pensar em roteiros de cinema]

Conflito externo entre pessoas
Conflito externo entre pessoas e o ambiente
Conflito interno entre duas partes de uma pessoa (conflito moral)

Homem se aprontando - assobiando e feliz - para um encontro
Mulher com um ânimo bem diferente se preparando para o mesmo encontro
(coloca uma arma na bolsa)

Assaltantes se preparando para roubar uma casa
Detetives em vigília, preparando para prendê-los
Mulher na casa armando esquema de suicídio

Homem no espelho ensaiando para pedir um aumento
Dois gerentes discutindo como vão demiti-lo
[E se a demissão vier depois do pedido de aumento, em vez de precedê-lo?]

Ironia visual:
Mulher compra vestido novo
Homem esqueceu de limpar os sapatos

Causas e efeitos relacionados//
Pensar sequencias simultâneas/ações paralelas//retrospectiva

Paralelas:
- entrecortar duas linhas narrativas
- contrapor dois estados de espírito
- levar duas paralelas em contraste
- acontecimentos separados e simultâneos para convergência.

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PAISAGENS PARALELAS
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[01] Homem prepara tomada com vários benjamins, senta e assiste tv (não vê faiscas)
[02] Mulher em outro apartamento liga secador de cabelo (luz oscila)
[03] Menino põe café sobre monitor de computador, e começa a jogar no teclado com fone de ouvidos.
[04] Homem sobe numa escada instável e martela um prega na parede do apartamento [lustre trepida]
[05] Mulher gorda liga um rádio na maior altura para evitar barulho, e executa delicados passos de balé
[06] Gato brinca com novelo que cai embaixo da escada e se enrosca no benjamin
[07] Cego prepara-se para tomar banho de banheira
[08] Mulher esquece secador ao lado da banheira e vai atender telefone animadamente
[09] Leite sobe, derrama, apaga chama e libera gás
[10] Garota gripada rouba cigarro e isqueiro da bolsa da mãe que conversa ao telefone
[11] Bebê ergue-se para alcançar móbile [parafusos afrouxam no cercadinho]
[12] Carro na garagem escorre gasolina e cria poça até o gramado
[13] Garota risca isqueiro, mas não funciona, procura caixa de fósforo
[14] Menino empolgado bate o pé no rack do computador, café começa a derramar
[15] Cego mergulha na banheira [secador treme com as marteladas do vizinho e com o balé da gorda]

Entre vizinhas


- A Raquel acredita em Deus?
- A Raquel acredita em Marx.
- Ótimo, pelo menos ela acredita em alguma coisa.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Ypacaraí é aqui


Londres está cheia de porcos. Nas ruas, há bois boiando. E vacas que vão entrando pelas casas. É preciso fechar as cercas. Espantá-las da praça.
Falo, aqui, de uma Londres sul-americana. Onde a água, longe da Trafalgar Square, é pura lama. Poética. Como ir pela estrada, em viagem, e sentir cheiro de terra. Primitiva.
Foi o que eu fiz. Seguindo, de alguma forma, os passos do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (autor do clássico Eu, Supremo, morto em abril deste ano). Explico: Londres é Nueva London, vilarejo que conheci quando visitei o Paraguai em maio para participar da 2ª. Feira Internacional do Livro.
A saber: a comitiva ia parando. Até chegarmos à cidade de coronel Oviedo, onde a feira acontecia, a alguns quilômetros da capital, Assunção. Tudo uma vista parecida com o Nordeste do Brasil. Se a pobreza era física, era espiritual o calor humano. Temperatura: 28, à sombra.
Em 2003, fiz viagem semelhante a Bogotá. Foi por causa disso, inclusive, que me convidaram a voltar para mais uma reunião de escritores da nova geração. Esquecida. Aqui no Brasil faz tempo que não acontece um encontro similar. Uma comunhão de "los hermanos”. Quando acontecerá? Existe evento desse tipo no Chile e no Peru e na Bolívia. E no Brasil nadica. Nossa vocação é inglesa, sei lá. Francesa. Há quem tenha torcido a língua quando falei: "Estou indo ao Paraguai”. Por que não Paris? Portugal? Polônia?
Freqüento até velório, se for preciso. Para levantar defunto, recito um conto. Subo aos tamancos. Da Festa Literária Internacional de Parati até o Haiti, podem me chamar que eu vou. Pô! Que clausura é essa a do escritor? Na redoma? No chá da ABL, por que não servir um pouco de marijuana?
Chegamos. Almoçamos na casa do governador de Caaguazú. Como se aqui, um a um, fôssemos recebidos no palácio do Alckmin. Todas as honrarias à prosa e à poesia. Escritor é coisa importante, quem diria? Houve discurso de boas-vindas. E desabafos improvisados. Como o do poeta e embaixador equatoriano Francisco Suescum:
- Se não tomarmos cuidado, eles vão nos "borrar" do mapa.

Eles, os americanos. E os países ricos. O Brasil aqui incluído, fiquei com essa impressão. O Mercosul não existe. O que existe é desintegração. Velhas melodias em guarani. Um balé boliviano me fez chorar. Escondido. Somos mesmos intelectuais subdesenvolvidos. Lembrei do mercado editorial lá em Pernambuco. Um povo caduco a viver de UBE. E a publicar livros chinfrins. Quixeramobins e Tocantins. O Paraguai e sua terra vermelha me encheram de tristeza. Assim, Cuñataí.
Não quis dizer do meu drama para o escritor José Manuel Pérez, que me convidou. Ou para o organizador do evento, o obstinado poeta Fernando Pistilli. Ambos anfitriões de primeira. Eu é que já carregava comigo essa desilusão brasileira. Que a gente vai fingindo não existir. Porque somos teimosos. E vamos até o fim.
O negócio é simular um sorriso diplomático e ir atirando para todos os lados. Com os pés no teclado, haveremos de fazer a revolução. Seguindo o exemplo de Monica Bustos, em cujas mãos está o futuro fértil da literatura paraguaia.
Foi exatamente quando eu estava cansado de ver páginas empoeiradas e escritores que ainda posam de terno e gravata e autoras de alma penteada que Bustos me apareceu.
- Meu sobrenome, na verdade, é Busto. Mas coloquei um "S" para provocar.
Ela, uma jovem de 21 anos que me fez lembrar a gaúcha Clarah Averbuck. Acompanhada da avó, mostrava o seu Leão morto. Repito o nome: Leão morto. Eu disse: Leão morto. Um romanção de umas quatrocentas páginas (escrito aos 15 anos) que ela vendia e divulgava em uma das barracas.
"¿Qué se necesita para ser feliz?", pergunta ela no começo do primeiro parágrafo. Sem esperar pela resposta, é claro.
- Por isso eu mesma abri uma editora, a Cria Cuervos (por onde publicou, idem, o seu livro de contos Complexo de bustos).
Diz ela: "A gente cria urubus para depois eles pularem em cima da nossa carcaça".
É a luta, companheira.
Foi com a Monica Bustos que a feira me revelou o seu melhor frescor e me revigorou a esperança. Em quê? Voltei para o Brasil e fui direto à reunião do Movimento Literatura Urgente, a saber: manifesto assinado por mais de 180 escritores (www.literatura-urgente.com.br) que reivindica a definição de políticas públicas para o fomento ao trabalho de poetas, prosadores e ensaístas. Não se engane: aqui também precisamos, e muito, progredir. Feito o capim e a lama que alimentam os porcos e as vacas e os bois de Nueva London.
Logo ali, junto ao lago azul de Ypacaraí.

Marcelino Freire





quinta-feira, novembro 12, 2009

Separações

Negócio é o seguinte. Quando um casal acaba, a gente acaba com o casal. Ou melhor, desde cedo a gente estilhaça o casal, cada um (quem já era/quem está chegando) sendo visto na sua individualidade, se há empatia com o que chega, há de se duplicar o bem querer. Assim, quando se estilhaça, tudo serena sem partido, cala-se a história de um para o outro, e quando possível, vê quadruplicar o rol das amizades.

Só me arrependo




Só me arrependo dos livros que não comprei.

[A frase é falsa, mas o efeito é ótimo. E este livro do Bonassi, folheei anos atrás num sebo vagabundo, e não comprei. Faz falta.]

quarta-feira, novembro 11, 2009

Black out

No
princípio
era
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o breu.



[10.11.2009 - Homenagem ao apagão colossal que cegou São Paulo e vários outros estados do Brasil]

terça-feira, novembro 10, 2009

Ontem Paulista-Augusta, chope e chuva




[Quando vou para o Rio,  Janete me recebe com braços de Cristo Redentor. Aqui em São Paulo, eu só posso oferecer passagem chuvosa pela Paulista, com parada no Masp em horários que nunca podemos entrar. Mas com Janete, a viagem é o encontro com a alegria, a beleza e humor dessa carioca que me ensinou a amar o Rio, e me apresenta sempre seus incríveis amigos (a Jocelene lá, e aqui, o Luís). Para uma pessoa que gosta de pessoas como eu, ela me presenteia sempre com suas amizades que são extensão da sua presença ensolarada, o sol no Arpoador que um dia vou lá para ver com ela.]  

Aniversário do Playmobil


Claro Curtas - Concurso






O Claro Curtas – Festival Nacional de Curtíssima Metragem valoriza a produção audiovisual realizada em curtíssimos formatos (30 a 90 segundos) feita a partir de celulares, webcams, câmeras digitais e outros dispositivos móveis.





Traz o tema SER DIGITAL – Aprendizado e Transformação na Sociedade do Conhecimento. A ideia é ampliar os debates sobre as possibilidades trazidas pelas novas tecnologias, suas formas de expressão e participação no mundo contemporâneo.

Mais CLIQUE

sábado, novembro 07, 2009

Desejo, necessidade, vontade

Como aquele refrão bacana do Titãs:

"Desejo, necessidade, vontade"

Esses três muito em choque, e martelando a desordem das mudanças continuamente adiadas (e tão necessárias) que no momento eu (me) julgo tão fraco, ou sem capacidade, para realizar.

sexta-feira, novembro 06, 2009

Vitiligo, digo, Snarf.


Ele invadiu minha casa, como se fosse aqui o castelo dele. E na sua inconsciência felina, vai levando a existência em hábeis e macios pulos, quebrando a rotina do dia com súbitas hibernações de gato-menino. Ele nunca se exaspera, as ameaças do cão nada mais exige dele do que brandas patadas. Na rotina dos dias quentes, passa um tempo circulando com gratitude na vizinhança, depois volta, desfilando com orgulho suas sete vidas intactas. Gosta de brincar com as franjas velhas do tapete, pois tudo para ele é recentíssimo.  Quando quer, usa pés e pernas como fonte de carícias, mas não atende ao miado falso quando o querem próximo. Come pra cachorro a  ração para o cão que ele não é. Espalha pêlos claros, enevoando móveis, expulsando o sobrinho alérgico da vida deste tio displicente. Fez um estrago enorme nos jarros com plantas do quintal, pintando patas de lama nas escadas nestes dias de alguma chuva.  Quando chego avariado e caio no sono, ele dorme no tapete ao lado a minha cama. Entendemo-nos muito bem em nossa compartilhada narcolepsia. E escorre seus músculos, pele e ossos mínimos no alaranjado feio da capa do meu sofá, e faz a casa, de repente um pouco mais bonita. E enquanto o fotografo, penso comigo que o Cazuza errou, porque neste mundo feroz só os gatos [amados] são felizes.  



REVENDO O REVIDE, DEI COM ESTE TEXTO QUE ACHEI BONITO, E REESCREVI, PARA FICAR MAIS. O TÍTULO QUE DEI FOI OUTRO, POIS ESTE GATINHO MORREU POUCO TEMPO DEPOIS ENVENENADO. ENTAO FICOU ASSIM


HOUVE UMA VEZ UM GATO

Para Elaine, sua dona

UM DIA HOUVE UM GATO


Vitiligo, digo, Snarf.

Ele invadiu minha casa como se fosse aqui o castelo dele. E na sua inconsciência felina, vai levando a existência com pulos hábeis e macios, vezenquando, quebrando a rotina do dia com súbitas hibernações de gato-menino. Ele nunca se exaspera. As ameaças do cão nada mais exigem dele do que brandas patadas. Na rotina dos dias quentes, passa um tempo longo circulando com gratitude na vizinhança, mas sempre volta para desfilar com orgulho sete vidas intactas. Gosta de brincar com as franjas velhas do tapete, pois tudo para ele é recentíssimo. Quando quer, usa pernas e patas como fonte de carícias, mas não atende ao miado falso que faço, se o quero próximo. Come (pra-cachorro!) a ração destinado ao dog que ele não é. Espalha pelos claros, enevoando móveis, expulsando o sobrinho alérgico da casa deste tio displicente. Fez um estrago enorme nos jarros com plantas do quintal, pintando patas de lama nas escadas nestes dias de alguma chuva. Quando chego avariado do trabalho e caio no sono, ele dorme no tapete ao lado da minha cama. Entendemo-nos muito bem em nossa compartilhada narcolepsia. Bêbado de sono feito naciturno, escorre seus músculos, a pele e seus ossos mínimos no alaranjado feio que recobre meu sofá, quando faz a casa, de repente um pouco mais bonita. E enquanto eu o fotografo, penso comigo que o Cazuza errou, porque neste mundo feroz, só os gatos [amados] são realmente felizes. (17.08.2017)

quinta-feira, novembro 05, 2009

SATYRIANAS




Pensei que não iria nas Satyrianas este ano. Na verdade não fui nunca, em tempo algum. Eu estava naquela segunda modorrenta, bem ao estilo dia-dos-mortos, e fui. O melhor beirute no Bar do Estadão (eu recomendo lugares baratos, barulhentos e bagunçados, em que os pedidos são gritados por sob o sovaco dos frequentadores, e pratos ganham sabor na gordura velha de mil lanches). Depois de lá, caminhando até o Espaço dos Satyros; trincheira de bares, micro-teatros e livrarias que dão para o deserto de concreto em frente, a Praça Roosevelt com seus mendigos, bêbados felizes, esqueitistas e moleques de rua.
Aquela praça suspensa, bizarra arquitetura, sem glamour algum, a não ser pelo luxo dos artistas e pseudos que passam por ali. Por conta da maravilha que são as Satyrianas, mal acaba um evento inicia outro ou gratuito ou por dois reais (ou quanto mais queiram dar), havia filas para ver apresentações, shows, espetáculos. Na curva, de esbarrão com o caramigo Marcelino Freire, pessoa-escritor da mais alta qualidade, e de repente já estamos com amigas de Marcelino na fila para assistir a peças/performances curtissimas nas tendas montadas na praça.

Dentro da tenda plástico branco, um teatro improvisado, mas teatro. E fico feliz de ser apresentado para Olívia Araújo, atriz que encenou a melhor peça das três que vi, um daqueles textos-monólogos-insanos-lúcidos do Marcelino Freire: "Zulu", clandestina que viaja da África do Sul para o Brasil na esperança de entrar para Seleção de Futebol FEMININO Brasileira.
Aproveito para fazer fotos da noite, pois minha câmera digital anuncia com engasgos o seu breve e inevitável falecimento. E na noite que me leva para casa, registo o batidão do trem que ruma comigo pro ABC, enquanto digo para mim mesmo que é preciso, mais que urgente, escrever algo que preste, roteirizar, dirigir, fotografar, para dar testemunho desse tempo em que a vida é interessante demais o tempo todo.





quarta-feira, novembro 04, 2009

Arnaldo Antunes

Envelhecer

A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer

Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer

Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me fala levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá

Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr.

Arnaldo Antunes

[Adoro esse ie-ie-ie de Arnaldo Antunes, adoro "Rita Pavone/de ringtone no meu celular"]

segunda-feira, novembro 02, 2009

A idéia é otima


Não se respeitam mais nem mesmo as folhinhas religiosas!

domingo, novembro 01, 2009

Acrilic on canvas



[Eu adoro essa letra, essa canção do Legião Urbana talvez seja a minha preferida.]