sábado, outubro 31, 2009

Friends


Às vezes (não com muita frequência)eu vou à casa dos amigos para ver os amigos. 


[Fotos roubadas da visita que fiz ao blog da Letícia, Palavras...apenas

sexta-feira, outubro 30, 2009

MUROS



As sempre meia-dúzia de palavras para dizer tudo, e a tentação asfixiante de estar mudo, na contramão de um mundo cambiante. O olhar mudo ante o muro. O muro oferecendo-se a todo picho, a toda sorte de emparedamento, o muro e sua vocação para parede, barreira límpida para interdições. As plantas do pé criando raízes ante a cerca viva de concreto, a natureza morta interior (anterior a todo acontecimento), e o muro à frente sorrindo emparedamentos.

A visão parnasiana do muro. A mão nervosa. Essa árvore-homem de olhos e pêlos. O astigmatismo surdo, a garganta arenosa, e palavras florindo cartazes publicitários que dão conta de dizer somente o desnecessário. A venda nos olhos vetando a visão do muro, a vidência do muro, a evidência do muro, como um urro, como um murro desvendando o olhar bloqueado.

As sempre meia-dúzia de palavras para construir mundos, para erguer muros, ao acaso. E de repente, o repente de cores dizendo mais que o verbo. Sem lamentação. A graça do traço, o gracejo do sagrado. Da dor, a brotação: essa suplência inesperada e intensa chamada: a alegria.



PEDAÇO DE AMOR

O Cristo e o governo e as bocetas nesse mundo e aquela cena da cobra engolindo o sapo e os leões devorando as criancinhas que esguicham sangue e o sol secando o sangue das criancinhas e o sangue das criancinhas se decompondo e liberando carbonos e formando petróleo: o combustível do piloto de carros em chamas. O piloto se queimando e derretendo e liberando carbonos e toda essa angústia o tempo todo. Aquelas palavras e aqueles livros todos explicando as palavras e as palavras dos livros e a história do Cristo, lá, todo ensangüentado na cruz e o sol secando o sangue do Cristo. Galáxias se expandindo e as bocetas do povo lá.

Trecho de “Amor”, de André Sant'Anna

Só o amor constrói




Graças ao Lucas que ganhou num daqueles programas faça-pergunta-e-ganhe, estou ouvindo esse disco novíssimo do Kleber Albuquerque & Miniorkestra de Polkapunk com esse título breguissima. Eu que não ganho nada em concurso alguém, recebo o empréstimo com alegria, para as canções conhecera no show, antes de sair esse famigerado disco. Kleber é sempre bom, e o cd é ótimo, penso comentar depois longamente.

NEGO


Ouço de rádio online, já quase morri procurando para baixar, não acho. Um dia acho.

Televisão

Profissão Repórter

Café filosófico
Todo mundo odeia o Chris, House, Desperate, Dexter, Medium, Arquivo morto, Desaparecidos, Sobrenatural, Lost etc
Zoom
Ensaio
Mobile
Roda-viva
Som Brasil
Metrópole
Entrelinhas
Programa do Jô
Leitura dinâmica
Olhar digital
Ídolos Record
Som & Fúria
Jornal da Globo
SBT Notícias

segunda-feira, outubro 26, 2009


[Desafinou terrivelmente, mas fez a música (hoje para mim insuportável) soar nova e de um jeito tão bacana que superou as falhas.]

domingo, outubro 25, 2009

PP trouxe um filme para o tio


PP aos quatro, e meu irmão

Um pedaço da cadeira de José Saramago

"A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar. Em sentido estrito, desabar sifnifica caírem as abas a. Ora, de uma cadeira não se dirá que tem abas, e se as tiver, por exemplo, uns apoios laterais para os braços, dir-se-á que estão caindo os braços da cadeira e não que desabam. Mas verdade é que desabam chuvadas, digo também, ou lembro já, para que não aconteça cair em minhas próprias armadilhas: Assim desabam bátegas, que é apenas modo diferente de dizer o mesmo, não poderiam afinal desabar cadeiras, mesmo abas não tendo? Ao menos por liberdade poética? Ao menos por singelo artifício de um dizer que se proclama estilo? Aceite-se então que desabem cadeiras, embora seja preferível que se limitem a cair, a tombar, a ir abaixo. Desabe, sim, quem nesta cadeira se sentou, ou já não sentado está, mas caindo, como é o caso, e o estilo aproveitará da variedade das palavras, que afinal, nunca dizem o mesmo, por mais que se queira. Se o mesmo dissessem, se aos grupos se juntassem por homologia, então a vida poderia ser muito mais simples, por via de redução sucessiva, até à ainda também não simples onomatopéia, e por aí fora seguindo, provavelmente até ao silêncio, a que chamaríamos o sinônimo geral ou omnivalente. Não é sequer onomatopéia, ou não é formável ela a partir deste som articulado (que não tem a voz humana sons puros e portanto inarticulados, a não ser talvez no canto, e mesmo assim conviria a ouvir de mais perto), formado na garganta do tombante ou cadente, embora não estrela, palavras ambas de ressonância heráldica que estão designando agora aquele que desaba, pois não se achou correcto juntar a este verbo a desinência paralela (ante) que perfaria a escolha e completaria o círculo. Desta maneira fica provado que não é perfeito o mundo."

Cadeira, (in Objecto Quase), de José Saramago.

[O melhor conto de José Saramago, no qual ele trabalha de modo engenhoso o tempo na narrativa.]

Ovnis em Mauá, matéria da teve online

sábado, outubro 24, 2009

Paradoxo da ausência

Falta absoluta de tempo para escrever uma linha. Eis a linha.

terça-feira, outubro 20, 2009

Dia da mae e da filha

Nao existe Dia das maes, existe esse dia daquela que eh a nossa mae. O da minha - mama, madrecita, mae-dos-outros, Marizedna - foi hoje: 19 de outubro, dia do seu aniversario. Ela se chama Edna, embora eu a chama quase que exclusivamente de mae, ou invente nomes estranhos para nomea-la (coisa que faço sempre com todos que amo). Minha mae (Dona Edna, para o grosso da gente para a qual ela é so mais uma entre tantas mulheres) fez aniversario e ganhou festa, ela que existindo, permitiu que existissimos tambem para sauda-la.

O certo eh dizer que o dia das maes se inaugura de fato no dia do nascimento do primeiro filho(a), no caso, de minha Irmancita. Minha irma fez a minha mae, mae de fato. Pois o primogenito inaugura (quase sempre com o assombro de uma alegria) uma nova maneira de amar. Inaugura tambem, um outro modo de temer: temer errar como mae, errar nos detalhes do cuidado, e jah (quase que imediatamente) temer o horror de perder o ser gerado com a entrega absoluta do proprio corpo. O corpo por esse nove meses compartilhados, num gerar e dar a vida que poe a propria "criadora" em risco.

Eu, como segundo filho, inauguro uma segunda mae, quatro anos depois daquela menos experiente e um tanto mais atarefada, mas tendo o privilegio de ja nascer amado por duas mulheres que serao para sempre as mais importantes. Pela primeira (que nunca sera a mesma, mudando a cada etapa do seu ser mae num mundo de perigos e asperezas) e um tanto pela segunda, sem o trauma do ciume das primogenitas, mas com o gosto de um irmao com que dividir o bom e o dificil do viver. Alegria e cumplicidade registradas nas fotos em que eu estou no banco de tras do velocipede, infancia que ela intenta apagar e eu reitero e registro.

Entao registro o aniversario da minha mae ao lado da filha, ja que ambas criaram-se num só parto.  Um aniversario com festa de fingida surpresa, com direito a todos os fetiches de festa: bolo com vela pipocando fogos, parabens desritmados, flashes dos filhos em torno da mesa com garrafas de refrigerantes, o olhar esperto do neto para os brigadeiros, as fotos em paredao (mas agora em pixels high techs), o cachorro dando pulinhos e latidos na provocaçao do ra-ti-bum. So que ao final deste aniversario minha irma leu um texto seu, um texto que segundo ela deveria ser meu (ja que diz que eu digo tudo sempre melhor). O texto dela estava inacabado. Era escrito num rascunho no papel do escritorio no qual ela ficou pendurada até as 19horas, apavorada com a possibilidade de perder o horario de apanhar o bolo na confeitaria. Leu-os para sua mae em volta da mesa, a voz embargada, muito emocionada, comovida para mae que nao sabia muito bem o que dizer, pois para essa mae as emocoes mais delicadas ficaram dificeis, e a manutençao da vida é uma luta diaria que tem nessa filha a maior das aliadas. Ela escreveu o texto que eu deveria escrever, mas ainda nao estou pronto, pois eu nao sei ainda como falar de amor. Entao eu registro esse aniversario da minha mae com a minha irma lado a lado, com o maior amor que eu nao sei dizer nem a uma nem a outra, na esperanca de um dia, mais que faze-lo, demonstrar a ambas na devida medida das acoes, gestos e palavras.

segunda-feira, outubro 19, 2009

Eles não usam black tie



- Precisa reforçar essa porta, senao ela nao aguenta.

[Um momento extraordinário de Fernanda Montenegro e outros atores num filme que vi e revi exaustivamente, e do qual gosto demais].

Fernanda Montenegro




Eu adoro Fernanda Montenegro.
80 anos em 16.10.2009

sexta-feira, outubro 16, 2009

Billie Jean

Milagres do Povo

Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
E o coração que é soberano e que é senhor
Não cabe na escravidão, não cabe no seu não
Não cabe em si de tanto sim
É pura dança e sexo e glória, e paira para além da história

Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Xangô manda chamar Obatalá guia
Mamãe Oxum chora lagrimalegria
Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia
Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Obá

É no xaréu que brilha a prata luz do céu
E o povo negro entendeu que o grande vencedor
Se ergue além da dor
Tudo chegou sobrevivente num navio
Quem descobriu o Brasil?
Foi o negro que viu a crueldade bem de frente
E ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente

Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Xangô manda chamar Obatalá guia
Mamãe Oxum chora lagrimalegria
Pétalas de Iemanjá Iansã-Oiá ia
Ojuobá ia lá e via
Ojuobahia
Obá

Ojuobá ia lá e via...

Quem é ateu...

[Caetano Veloso]



[Isso é tão bom que nunca saiu da minha cabeça. Adoro o paradoxo, adoro o refrão repleto de vogais, as incríveis assonâncias africanas. Sinto uma falta enorme dessas composições mais complexas do Caetano.]

Para os melhores e piores dias


quarta-feira, outubro 14, 2009

Para um cão ausente

Às 6h30, sem a assistência canina do Big. É que o cão que me acompanhava há semanas retornou limpo à casa da minha mãe. Pensei que não sentiria falta. Um cão, mais que um gato, é um corpo que nos acaricia sem aquela atenção meio oportunista dos felinos. No cão, aquela pachorrenta e explícita dependência para que se abra a porta pela manhã, que a água seja trocada, um punhado de ração esteja na vazilha, para que se arraste o pequeno colchão onde durma. E mais nada.


Um cão nos ama com a naturalidade de seu destino e nos domestica com sua personalidade única. Os gatos são todos, a companhia provisória, estão à ausência de um salto, enjoam de nós como se não o merecêssemos. O cão acredita no nosso merecimento mesmo quando não fazemos nada para merecê-lo. Estão lá, vigilantes de nós, habituando-se a nós e a nossa rotina. Um cão está sempre carente de nós e sofre a nossa ausência arranhando portas, mordendo bolinhas, arrastando panos, brinquedos, roendo o osso da nossa displicência. Adoram a ilusão da posse, o engano da coleira possuída, o exílio do território marcado a urina. Ladram para seus inimigos, mas não os odeiam para além da função hodierna de estarem sempre vigilantes. Erguer a orelha, focinhar, e sair saltitante em desbaratada corrida ao som mais rotinerio das ruas: uma conversa, um homem que parou, outros cães vadios.

No Big, toda a solidão do ser cão. A dor do abandono pela manhã, a recusa de comer o que seja antes que volte. A saltitante alegria esquecida do abandono. A cauda gargalhando a alegria de minha chegada. Bota a lingua para fora e me assiste a assistir tevê. Sou seu programa favorito, seu inovidável programa de variedades, até que num vem salta contente no meu colo, e adormece esquecido do abandono de um dia inteiro.

Um cão nos investiga o tempo todo com seu focinho, seu nariz é um ponto de interrogação que esquadrinha nosso estar no mundo. A sua alegria está na nossa fidelidade. Eles querem saber  só de nós,. Arrasta-nos em passeios nas ruas. São a companhia perfeita dos que nada tem. Suprem a ausência desse filhos ausentes que traíram os pai com a obstinada mania de crescer e partir para suas próprias vidas. Mimetizam-nos a ponto de serem tão parecidos conosco, que a morte deles estilhaça o melhor  gesto de nós. Senhores dos provérbios (da amizade fiel, ao latir fingido, à caravana que passa), figuram Argos em todas as literaturas. Erguidos nas constelações, causam egipcias invejas nos gatos de sete vidas transcendentes.

Cães são seres terrenos, vieram à vida para o prosaico dos dias de fartura e escassez, com seus nomes de peixes para espanto de todas as raivas. Mundanos e mortais como todos. Atravessam a vida sem mistério a par de nós,  conhecendo nossas falhas humanas, mas cegos para nossas covardias. Guiam-nos nessa vida de trevas fulgurantes, enquanto nós (mais que cegos) achamos que guiamo-nos a nós mesmo neste mundo cão, em que nada é certo. A não ser, às vezes, o amor em tudo desobrigado de um cão.



[Borrado no negro, só se vê as patas, e outra foto dele não há. Este cão (Rinte) foi o melhor amigo que uma criança pode ter na infância. Ele me ensinou também o significado do verbo morrer].

Diego Vale


[É disso que eu falo quando digo que é necessário umas vozes masculinas novas e interessantes. Mas será que o garoto de 23 anos vai ter fôlego e não cair no repertório da bobagem?].

terça-feira, outubro 13, 2009

Irmanidades e abusos


Estive na minha irmã no que foi meu feriado inteiro (domingo e segunda). Pratiquei a arte da inutilidade. Me espalhei (trapo) no sofá, me apossei do controle remoto, dormi até não poder mais, comi como um flagelado, meti o pé na jaca no sorvete de passas ao rum e flocos. Roubei duas peras que não eram minhas, pedi café na cafeteira italiana e o tomei na xícara quadradinha. Já no primeiro dia, fui solicitando pratos (pão de queijo na travessa, bacalhau com legumes). Falei pelos cotovelos, me recusei a subir para o quarto, para logo em seguida, vir surgir ao lado do sofá um colchão com lençol e travesseiro no qual me joguei virando levemente o corpo. Na noite, estrondei a casa com meu ronco naufrago, e inundei o chuveiro, porque nunca aprendi a lavar bem a cara de pau. Displicente, apaguei os programas gravados na tevê novíssima, e me prontifiquei a lavar uns pratos (ação que se arrastou quase por uma hora). De dentro, soube que martelava lá fora uma chuva que eu desprezei brincando de esquentar a casa com o climatizador. Saí de lá da forma que cheguei, de carona com a Ro. Minha irmã me olhou com sua fraterna ternura  maternal que as famílias tortas tem. Ela estava feliz por eu estar lá, e eu fiquei contente por saber que ela me quer bem, pois indiferente do lugar, ela é a melhor companhia que alguém pode ter em todos os instantes da vida. E é por isso que eu tenho esse amor por ela.

Estasi di Santa Teresa d'Avila


Estasi di Santa Teresa d'Avila, Roma, Santa Maria della Vittoria





domingo, outubro 11, 2009

Um Tigre de Papel



   Sabendo que a ele caberia determinar seus movimentos e controlar sua fome, o escritor começou lentamente a materializar o tigre. Não se preocupou com descrições de pêlo ou patas. Preferiu introduzir a fera pelo cheiro. E o texto impregnou-se do bafo carnívoro, que parecia exalar por entre as linhas.
   Depois, com cuidado, foi aumentando a estranheza da presença do tigre na sala rococó em que havia decidido localizá-lo. De uma palavra a outro, o felino movia-se irresistível, farejando o dourado de uma poltrona, roçando o dorso rajado contra a perna de uma papeleira.
   Em vez de escrever um salto, o escritor transmitiu a sensação de movimento com uma frase curta. Em vez de imitar o terrível miado, fez tilintar os cristais acompanhando suas passadas. Assim, escolhendo o autor as palavras com o mesmo sedoso cuidado com que sua personagem pisava nos tapetes persas, criava-se a realidade antes inexistente.
   O quarto parágrafo pareceu ao escritor momento ideal para ordenar ao tigre que subisse com as quatro patas sobre o tamborete de "petit-point". E já a fera aparentemente domesticada tencionava os músculos para obedecer quando, numa rápida torção do corpo, lançou-se em direção oposta. Antes que chegasse a vírgula, havia estraçalhado o sofá, derrubado a mesa com a estatueta de Sévres, feito em tiras o tapete. Rosnados escapavam por entre letras e volutas. O tigre apossava-se da sua natureza. Já não havia controle possível. O autor só podia acompanhar-lhe a fúria, destruindo a golpes de palavras a bela decoração rococó que havia tão prazerosamente construído, enquanto sua criatura crescia, dominando o texto.
   Impotente, via aos poucos espalharem-se no papel cacos de móveis e porcelanas, estilhaçar-se o grande espelho, cair por terra a moldura entalhada. Não havia mais ali um animal exótico na sala de um palácio, mas um animal feroz em seu campo de batalha.
   O escritor esperava tenso que o cansaço dominasse a fera, para que ele pudesse retomar o domínio da narrativa, quando o viu virar-se na sua direção, baixar a cabeça em que os olhos amarelos o encaravam, e lentamente avançar.
   Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a enorme pata do tigre abatendo-se sobre ele obrigou o texto ao ponto final.

Marina Colasanti, Contos de Amor Rasgados, Editora Rocco. Rio de Janeiro. 1986.

Protegendo a inocência das crianças


[Sempre surpreendente como alguns cartunistas/chargistas conseguem dizem tanto com tão pouco.]

sábado, outubro 10, 2009

Elegia

(...)
Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.
(...)

"Elegia", Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, outubro 09, 2009

Gigante




[Um filme pequeno. Tudo contido. Um amor da perspectiva de um brutamontes. Quase inteira filmada num mercado, centrada num vigia se apaixona por uma moça da limpeza. A rotina sem grandes eventos, a vida limitadíssima deste do gigante delicado, menino sem perspectivas maiores (a descoberta do amor sendo,a grande aventura). A alegria de assistir a essas produções latinoamericanas (esta é do Uruguai em parceria com Argentina) sem martelar sempre a violência, como as brasileiras. A vida sempre pequena, um olhar perspicaz de crônica na construção de um filme centrado no humano.]

quinta-feira, outubro 08, 2009

Tieta do Agreste, a novela


[Lembro de cada detalhe desta cena, uma das novelas mais extraordinárias que a Globo já passou, tudo era incrivelmente bom e divertido, cada ator, canção, cena. Boto aqui para dizer que questiono sempre quem diz que novela idiotiza a audiência.]

quarta-feira, outubro 07, 2009

500 dias de verão



Assisti ontem. Um cruzamento entre "o fabuloso destino de Amelie Poulain" com um curta metragem que rola na internet. O carisma dos protagonistas, alguma coisa de "Antes do amanhecer", uma colagens bonitas de filmes como "A primeira noite de um homem", "Jules e Jim", e outras  referências a nouvelle vague. Bonito de se ver, mas com um final insuficiente.



O tudo e o nada




Serafina, a revista



Não gosto de fazer propaganda, mas essa revista que vem com o jornal da Folha é melhor do que muitas vendidas comercialmente. As matérias são ótimas, as entrevistas inteligentes, tudo inteligente, bem ilustrado, e escrito, bonito de se ver. Esta de setembro/2009 traz matéria sobre o Almodóvar (6 páginas!!!),  seu filme novo e impressões sobre o Brasil. Tem também o diário da primeira viagem de Tarantino ao  país, antes de se tornar nome internacional. Há também fotógrafos produzindo trabalhos baseados nos poemas do João Cabral de Melo Neto, entrevistas várias etc etc.  Gostei demais.E incrííel, não se acha nada sobre ela no Google.

Maria Brithânica


Estou ouvindo esses dois discos (recém-lançados) de Maria Bethânia, só de inéditas, um de festas e louvações, outro centrado no amor; todos de inéditas. Ouço um depois do outro. Eles estão conectados com os discos anteriores, mas são diferentes, soam diferentes, mas digo isso como impressão inicial. Ela faz um recuo (sem anacronia) e canta um tanto mais próximo daqueles discos antológicos ("Drama", "Pássaro da manhã"). A brasilidade premente nos cantos sertanejos (muitos), mas ela experimenta novos caminhos para a voz, com registros vocais que causam estranhamento bom, pois mostra inquietação de Bethania, aquele rigor e aquele prazer de cantar. E o resto ainda há por dizer. Deixo link para matéria sobre lançamento dos dois discos. AQUI.

terça-feira, outubro 06, 2009

Inquieta, tonta e encantada estou.

Após nove ou dez conhaques,
Acordei qual uma flor,
Sem Engov nem ataques.
Nem senti tremor
Homem sempre me aparece;
Geralmente bem me dou.
Mas um meia-boca desse
Me desconcertou.
Tinindo estou;
Curtindo estou;
Criança, chorando e sorrindo estou
Inquieta, tonta e encantada estou.
Sem dormir,
Não tem dormir,
O amor vem e diz: não convém dormir...
Inquieta, tonta e encantada estou.

Me perdi, dominada,
Errei, sim.
Ele é uma piada,
A piada sobre mim.
Ele é o fim,
E até o fim
Vou tê-lo pra vê-lo, com fé, no fim,
Inquieto, tonto e encantado também.
Vi demais,
Vivi demais,
Mas hoje eu já adolesci demais
Inquieta, tonta e encantada estou.
Niná-lo eu vou,
No embalo, eu vou,
Um dia na pele grudá-lo eu vou
Inquieta, tonta e encantada estou.

Ele é um tolo, mas um tolo
O seu charme às vezes tem
Em seus braços eu me enrolo,
Que nem um neném.
Caso é aquela coisa louca;
Nem dormindo eu estou,
Desde que esse meia-boca
Me desconcertou.

Sensata, enfim,
Constato, enfim,
Sua baixa estatura de fato – enfim,
Inquieta, tonta e encantada não mais.
Doeu demais;
Rendeu demais;
Você ganhou muito e perdeu demais
Inquieta, tonta e encantada não mais.
Tive um surto dispéptico,
Mas viver já não dói.
Tenho o peito antisséptico,
Dês que você se foi.
Romance – finis;
Sem chance – finis;
Calor a invadir meu colant – finis;
Inquieta, tonta e encantada não mais.


Bewitched, Bothered and Bewildered (Encantada)
(Richard Rodgers e Lorenz Hart; Carlos Rennó)
Tradução





[Por que essa música é demais, e eu não consigo parar de ouvir um só minuto quando paro aqui no meu computador].

segunda-feira, outubro 05, 2009

Da (des)Arte de se escrever um blogue - I

{01} O texto curto, assim, como um palito que se risca, faz breve fogo, pequena fumaça e se desfaz. Lirismo tolerado em prosa; se poemas, só em curtas linhas. Descompromisso com os grandes assuntos da vida, à exceção dos afetos.


{02} Observações telegráficas. Apartes biográficos. Bem-vindas dores de amor. Alguns necessários flertes. Autoanálise sem psicodrama. O compartilhamento de múltiplos diários íntimos. Um modo bigbrother de ser.


{03} A espectativa de uma resposta. A espectativa de encontros. E tudo diariamente descendo, ficando para trás. Como um livro que se lê: nas entrelinhas a tentativa de captar a pessoa, a persona, o personagem?


{04} Um dia no Google, numa pesquisa, depara-se com você com espanto, depois medo, depois orgulho, e por fim, o absoluto anonimato. Mas sempre, o desejo de ser encontrado por alguém.

sábado, outubro 03, 2009

FIN






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Como el musguito en la piedra, ay si, si, si... 
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FIN.

['La negra', Mercedes Sosa]
[Argentina, outubro, 2009.]