quarta-feira, setembro 30, 2009

Greta Garbo


Garbo não permitia ninguém assistindo às filmagens, não admitia no set ninguém que não fizesse diretamente parte da equipe. E tinha algo como um sexto sentido para saber se havia alguém que não devesse estar presente à filmagem. Durante os trabalhos de Ninotchka fui [Billy Wilder] até o set apenas para dar uma espiada, não queria ser notado. Ela deve ter pressentido isso instintivamente, pois de repente surgiram dois homens e puseram, sem dizer palavra, um biombo entre mim e a cena. Ela não podia suportar ser observada durante a filmagem, era como que uma invasão de seus segredos mais íntimos. E tinha boas razões para isso, porque sabia que o milagre de Garbo não era visível na filmagem, era um milagre do celulóide.
Seu rosto se transforma na tela. Passava do rosto fechado, e mesmo talvez até enfadonho, da atriz ao rosto de uma star, no qual o espectador presumia ler todos os segredos da alma feminina. Nas grandes estrelas, o celulóide, o banho de emulsão do cinema, opera esse milagre: ao ‘chapá-las’, fazendo com que passem de três dimensões para duas, dá a elas uma profundidade, um mistério – é como se seus enigmas de repente parecessem revelar-se. Greta Garbo foi um caso assim: o nascimento de uma estrela a partir do celulóide.

p. 180
Billy Wilder - e o resto é loucura, de Hellmuth Karasch
Dórea Books and Art (DBA), São Paulo, 1998.

terça-feira, setembro 29, 2009

Samba lenço


O orgulho de ter participado deste projeto da minha amiga Paula Quintino, partindo em viagem pra Penha, gravando, debatendo o roteiro, correndo atrás de filmadoras, equipamento de sons com o amigos (salve Okuma! salve Taís e Giba! salve Lukino Guedes!) e metendo o bedelho até na escolha do material para captar o documentário. No final da produção, Samba lenço, a memória está no corpo, entre o antropológico e o artístico, mas sem perder um olhar afetivo sobre o grupo/família Samba Lenço, samba tradicional sempre novo, remoçável. A prova de que apesar de recursos técnicos limitadíssimo, um trabalho de primeira se transforma com boas parcerias, talento e vontade de fazer. Delicado e esteticamente belo, tudo ocultando a complexidade de sentidos (fingindo-se singela presença), meio assim, como a Paula.

[Elogio especial a capa linda concebida pelo Edson, que bota fogo também na banda Uafro.]

MELODRAMA, Ismail Xavier


"A título de esquema é comum dizer que o realismo moderno e a tragédia clássica são formas históricas de uma imaginação esclarecida que se confronta com a verdade, organizando o mundo como uma rede complexa de contradições apta a definir os limites do poder dos homens sobre seu destino, ao mesmo tempo que os obriga a reconhecerem a própria responsabilidade sobre ações que terminam por produzir efeitos contrários aos desejados. Em contrapartida, ao melodrama estaria reservada a organização de um mundo mais simples em que os projetos humanos parecem ter a vocação de chegar a termo, em que o sucesso é produto do mérito e da ajuda da Providência, ao passo que o fracasso resulta de uma conspiração exterior que isenta o sujeito de culpa e transforma-o em vítima radical. Essa terceira via da fabulação traria, portanto, as reduções de quem não suporta ambigüidades nem a carga de ironia contida na experiência social, alguém que demanda proteção ou precisa de uma fantasia de inocência diante de qualquer mau resultado. Associado a um maniqueísmo adolescente, o melodrama desenha-se, nesse esquema, como o vértice desvalorizado do triângulo, sendo, no entanto, a modalidade mais popular na ficção moderna, aparentemente imbatível no mercado de sonhos e de experiências vicárias consoladoras."
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O olhar e a cena, Ismail Xavier
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[Sou apaixonado pelo estilo retórico de Ismail Xavier, pela concisão de sua linguagem, o uso que faz da palavra precisa, e ainda assim, a capacidade de fazer o texto soar como fala exata, corrente, moderna. É um exemplo de raciocínio depurado traduzido em bom Português do Brasil. ]

segunda-feira, setembro 28, 2009

Dois amores

Belíssimo filme, uma interpretação delicada de Joaquin Phoenix, e um dos finais infelizes mais melancólicos que já assisti. Isabela Rosselini, agora uma senhora, bela e contida.


domingo, setembro 27, 2009

A violação da inocência em Loretta Lux







[Preciso dispor de um momento para sentar e escrever longamente sobre a fotógrafa Loretta Lux, sobre a violência contida em seus retratos de criança. Preciso escrever sobre o que vejo e o que me suscita. Essa contenção do espírito, essa simetria perversa, essa liberdade cerceada. Há ali a nostalgia de um mundo impossível, a imposição do universo adulto - ou o oposto disso: o desejo de penetração num mundo adulto para o qual ainda não estão preparadas. Esse olhar vazio, ou perverso que arranca de seus modelos (a fixação no corpo-rosto de Dorothea], tuso sempre perturbador, olhar que nos violenta pela impressão de uma inocência corrompida por todas as leis do mundo. Cada quadro como uma queda: a simbologia roubada à pintura, o paradoxo do seu hiper-realismo calculado, sóbrio, e por isso, surreal. O esmaecido das cores como a tradução exata de uma melancolia premente. Um universo adulto em luta para um retorno impossível à infância. Essa materialização da impossibilidade de transcendência, do corpo como signo vazio, de vida vazia, de futuro vazio, tudo me faz pensar em encarceramento.

Loretta Lux não fotografa crianças. Ela as aprisiona.

Por isso preciso escrever longamente sobre minha completa admiração pela artista Loretta Lux e suas modelos enjauladas.]

Programa ou Para tempos de cegueira



><


Quando sentir que não há mais originalidade no que se vê
Que as imagens do mundo estão por demais gastas
Quando os olhos, viciados, já não quererem ver
Olhos preguiçosos de contemplação

Retornar à fotografia

:

A fotografia nos (re)ensina a ver.




[Não por acaso este blog chama-se "revide".
Foto de Alessandra Sanguinetti]

Tentativa

Lendo os posts da Letícia,

descobri que não tenho vocação para síntese.

sábado, setembro 26, 2009

Conselho

Espero que esta lhe encontre bem, sem a disritmia que marca passo de um coração que desafina, segue a galope em tempos de rotina exasperante. Que saiba de cor (decore, se concordar) que há tempo, que o ano pode até se acabar em três meses, mas que a vida continua para depois do fim de dezembro, e novas estações a renovarão após janeiro. Desejo, principalmente, que o coração esteja tranqüilo, pois é necessário paz para receber a vida que, breve, se inaugura. Memorável acontecimento a confirmar que ela - a vida - é interessante demais todo momento.

Horas de verão


Francês até os ossos. Um olhar melancólico sobre um tempo que se esvai; sobre a memória do que se acaba. E aquela ambigüidade do desfecho, quando a neta porra-louca, um pouco de lado na cena, lamenta a perda da avó e da casa da família.

Sóbrio e comovente.

quarta-feira, setembro 23, 2009

QUERRA


Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido

Caetano Veloso

Diz pra mim com a cara mais lavada de todas que anda por aí procurando o amor. Logo pra mim que cuido da sua roupa, que lavo no punho as suas calças, que boto a quarar o encardido das ceroulas, que meto brilho no preto dos seus sapatos. No pé dele, não falta o desamparo de um chinelo. Seguindo à risca os mandamento, costuro e cirzo o matrimônio. Não lanço na lama a dignidade de seu nome. Chega tarde da construção: nunca sóbrio. Bate a porta pesado, quando é madrugada. Não tá nem aí pro meu sono. Vadia na noite pra minha aflição. Já foi um dia o homem da minha vida. Hoje, cospe fumaça fedida na minha cara; e ri do câncer. Não respeita a sagrada esposa que cria seus filhos abaixo do céu, sobre telhas vadias que pingam na chuva, o sol coado nos buracos, nas frestas, no clarão que assusta nas tempestades, e que eram estrelas no tempo das bodas. Atormenta, o diabo, eu que nas costas carrego esse filho de Deus. Que tiro sangue da mão caceteando porções grandes de mandioca, e faço vir à luz o branco polvilho, quase puro azul, luzir no sol do meio dia. Diz pra mim enquanto bota perfume no espelho, que uma hora perde a cabeça e sai pelo mundo. Dá com o muque na madeira má do guarda-roupa, abre um buraco, um oco donde cupins saem roendo a nossa ruína. Diz que não se alimenta mais de mim, que minha saliva não tem o gosto do mel, e vai para esquina encher a cara de preguiça. Antes, espinafra a folhinha do Cristo, o dedinho no coração faiscando fulgores. Espezinha Deus e o diabo. Mete o pé na porta, parte fechaduras. Escancara aos berros intimidades nos botecos. Avermelha os olhos, o cara de pau, fumando erva.

(...)

Um dia, jura que me atira na sarjeta, que é donde tinha que ter me deixado, os cabelos longos, soltos nos ventos da madrugada, a boca vermelho-encarnado, pomba-gira de lamê dourado, a calcinha metida no rego da alma, a imundície do corpo gritando meu nome de guerra. Estrela da manhã. Vésper no fim do dia. Rosa fugidia da esquina. Mas meu coração não sabe odiar. Meu coração dá a outra face, cega os olhos. Meu coração escangalha-se todo ouvidos quando ele põe a alma na boca, gritando que me preferia mil vezes aquela puta, incendiando quartéis, suja do cóccix até o pescoço, a essa santa esposa que no altar do lar condena e soterra. Maria Imaculada.

500 dias de verão

Simplesmente preciso assistir a esse novo filme, que tem cara de Miss Sunshine, Brilho eterno, Juno. Ou seja, aqueles filmes singelos que são pura alegria sem dor.

Nurse Jackie


[Adorei essa minissérie. Jackie é uma enfermeira viciada em analgésicos, adúltera, cínica e incrivelmente apaixonada pelo que faz. Assisti a primeira temporada inteira em dois dias. Recomendo.]

Curta metragem de ficção científica

segunda-feira, setembro 21, 2009

Ensaio (parcial) sobre Kleber Albuquerque

Produzi há muitos anos o ensaio "Balada do amador cruel", sobre as letras de Kleber Albuquerque, cantor/compositor que admiro abertamente. Ocorreu então um pedido da Ana Lira para novo texto no Rabisco. Mas o artigo era grande demais (acabava falando de todos os cds e até das parcerias). Cortei, mandei, e pedi que cortasse ainda mais. Então está aí, um tanto amputado, manco, mas um ensaio sobre um artista que faz arte hoje. Ficou de fora observações que gostava, sobre seu jeito particular de compor canções de amor. Mas acho que ainda assim está valendo.

Memória da cana


Assisti com Conrado e Margarida Memória da cana; adaptação de Álbum de família de Nelson Rodrigues encenado com elementos de Casa-grande & sensala de Gilberto Freyre. Espaço dos Fofos, na rua Adoriran Barbosa (o taxista disse que ele tinha vivido ali). Domingo, 19h.

Relatório saltando o encontro com a mãe



Como previsto, quando acordei pela manhã, estou com febre. A garganta dói. Resta saber se não ficarei, como quando ataca, imprestável para o resto da semana. Afogado em dipirona, o trem me levou com Margarida para ver Nelson Rodrigues com Conrad. Todos os incestos no Álbum de família, cortinas que caem, mas o palco intacto com chão de barro e lamparinas suspensas. A cena pega fogo, entretanto uns e outros precisam dominar o volume da voz (uns para cima e outros para baixo). E tudo deve fazer sentido, nada, gratuito, na encenação. E vi excessos reversos/contrastantes: berros e pausas longas demais. No nariz, ainda o cheiro doce da cana, da carne seca e macaxeira compartilhada entre roteiros de filmes pornorromânticos regados à Maguerita, e o bolo rocambolesco com goiabada. A coca caríssima, lata 5 paus. A gente caminhando em frente ao Oficina, cruzou a esquina e seguiu até o Anhangabaú guiados por uns meninos paulistanos gentis. E nem fazia frio, sobre a passarela sinuosa e desconhecida. Tudo na noite agradável, até o espanto da moça com as teias de aranha na árvore. A descoberta de que ela vem aqui de vez em quando e sai em silêncio sem postar comentários. Em casa, fui dar bronca no cão e mordeu a mão do dono que o alimenta. O cão ficou bravo, o cão cobra minha atenção, e eu tenho que aprender a não largar ninguém que vai a minha procura. Então, no instantâneo, certa preguiça de falar comigo, aceitando que minhas respostas fossem todas ok. Algo meio que se perde com o tempo. Alguém me lembrou que faz mais um ano que Maria Cilene nos deixou. Os mortos que fazem anos se dissolvem nas fotografias. Cada dia os intercepta e os conduz a Er, onde as reminiscências repousam. E há crianças novíssimas, prestes a nascer.

domingo, setembro 20, 2009

Animação com grafitti


[Genial.]

Boca de lobo

Eu adoro este blog Boca de lobo, do Marco. Não conheço, nunca falei com ele, mas a admiração grande por seus textos curtos que ele não chama microcontos. O cara tem valor. Tanto que transcrevo uns textos e boto link e dou crédito: são do Marco.


Pais Separados.

- Pai, de onde eu vim?
- Da puta que o pariu.



Niilismo

Chegou bem-humorado ao trabalho numa segunda-feira. Não teve dúvidas: alguma coisa estava muito errada com os seus fins de semana.


Monoteísmo

Só acreditava em um Deus.
Baco.
Morreu de cirrose.


Diálogos de Internet

- E se eu for albino?
- Não te levo pra praia.
- E se eu for anão?
- Aperto o botão do elevador pra você.
- E se eu for japonês?
- Eu não ligo pro tamanho, digo, adoro olhos puxados.
- E se eu for gordo?
- Tenho uma ergométrica em casa.
- E se eu for cego?
- Traz o cão guia que está digitando pra você.
- E se eu usar dentadura?
- Te sirvo uma sopa.
- E se eu for...
- Vem.

E lá se foi o anão japonês albino cego gordo banguela e manco para o encontro da sua vida.


Marco.

(Marco.ponto e pronto, não sei o sobrenome)


sábado, setembro 19, 2009

Gelsomina

[Olhando o clipe de Rita Pavone só consegui pensar na Julieta Masina, Rita era a cara de Gelsomina.]

sexta-feira, setembro 18, 2009

Rita Pavone


[Lá na Augusta, na roda, tocou Rita Pavone. Eu corri hoje para o youtube e achei essa preciosidade. Rock spaghetti da maior qualidade. E a delícia do balé discreto atrás da menina bonita com visual modernérrimo.]

Contagiante.

DATEMI UN MARTELLO

quinta-feira, setembro 17, 2009

Uma hora e meia de encontro na Augusta


Foi assim, muito rápido, mas sempre um encontro bom com a trupe. Falta foto da Apá que conheci e amiga. Mas fica valendo o registro do encontro.

quarta-feira, setembro 16, 2009

SESC POMPÉIA

Petrificados em Pompéia para sempre: Lukino, Mariana, Conrado e yo (de olho no Vesúvio).


segunda-feira, setembro 14, 2009

Viver a vida (ou Morrer de tédio)


Toda vez que começa uma nova novela do Manoel Carlos eu me lembro da Marcela, pois ela gosta do Maneco. Eu também gosto um pouquinho, apesar de ele repetir sempre a mesma bossa nova, o mesmo drama sem trama, a mesma Helena chata que fala pelos cotovelos. Pior que há sempre algum personagem falando frases poéticas de gosto duvidoso, citando livros e peças. Os homens praticamente não existem, são seres de papel machê, mamolengos sem profundidade psicológica, estão ali só para fazer escada para as atrizes da novela. As "mulheres apaixonadas" do Manoel Carlos sofrem sem motivo, tramam para roubar os homens das outras, fazem-se de vítimas, puxam o tapete das outras, sabotam-se, menosprezam-se, guardam ressentimento anos e anos por um mero quindim. Principalmente: então sempre competindo entre si. Quem já trabalhou em repartição pública, escola, hospital, lojinha da esquina ou padaria suburbana já viu essa história antes. Na Isto É saiu uma matéria com o título "De volta ao real". Só o título estúpido dispensa criticar a visão rasa de quem a escreveu. Mas a autora, Renata Cabral, insiste: "A Rede Globo estréia Viver a vida, um antídoto à disparatada fantasia de Caminho das Índias." Pelo-amor-Deus, Manoel Carlos realista?! Onde a vida é aquela constante paisagem de calendário de país tropical? Sempre dia ensolarado, todos bem vestidos e monologando todo tempo num português corretíssimo; o mundo um grande Leblon? Realismo naquele festival de gente linda (um mundo excessivamente edulcorado, por isso fake, por isso grotesco), nenhum pobre desdentado coçando o saco, nariz escorrendo, um mero soluço? Pior mesmo é ter que encarar aqueles diálogos em castata, aquelas mulheres que vivem de discutir relação. Aliás, o Maneco talvez seja o único homem do mundo que gosta de discutir relação. Será esse o porquê de Marcela gostar das Helenas e das mulheres apaixonadas?


[Meu lado Camões-fazendo-se-velho-do-Restelo exige que eu sabote o meu texto e diga, no final que ando mal humorado, que eu gosto de gente bonita, que eu amo o Rio. É que vezenqaundo eu esquizofrenicamente chuto o pau da barraca.]

domingo, setembro 13, 2009

Vida em revista

Mauá: cidade dormitório. A mais estigmatizada do ABC. Quase terra nordestina. Dez mil vezes renegada terra de índios, cifrado racismo de paulistas a toda herança indígena em terra que se quer moderna e cosmopolita. Resultado direto do milagre econômico que atraiu todos os nordestes e interiores para a periferia da periferia. O mundo se construindo em torno da estação de trem. Abrigo nos 70 de perseguidos pela ditadura. Paisagem barrada por morros, hoje por casas empilhadas que desafiam a lei da gravidade. Terra sem lei. Uma só empresa de ônibus com poder divino sobre a cidade. Templos em todo canto, templos e botecos à mancheia, recolhendo lágrimas, cédulas, caridades. A biblioteca, no segundo andar de um shopping, livros didáticos datados, atendentes atenciosos, escada rolante para subir, para descer: escadas. No centro da cidade a grande promessa de uma outra biblioteca, seqüestrada por uma estação descomunal de ônibus. Meia-noite, uma hora da manhã, quatro, há sempre gente a pé perambulando, e porque são imprestáveis as calçadas, todos preferem as ruas. Chegando à estação de trem, o desembarque bovino às carreiras. O trem esvazia-se por completo. A passagem mais cara do Brasil para percursos de dez minutos, às vezes bem menos. Camelôs barram todas as saídas, tudo aos tropeções sem pedidos de perdão. Mendigos na ilusão de praça central, bêbados, gente velha e feia. A fonte morta, o chafariz chinfrim lança jatos insensatos sobre fios elétricos. Hipóteses de árvores em canteiros. Ali em frente, o grande shopping civiliza a terra. Um orgulho imenso do melhor - e mais barato - cinema da região. Agora todos os filmes dublados estimulam novos analfabetismos. O estacionamento do shopping vazio; cheia, a praça de alimentação. A deturpação absoluta da zona de consumo. Cadernos abertos, livros, estudantes estudam. É imperativa a conversa desencanada com amigos, horas e horas, e um único litro psicodélico de chope no centro da mesa. Todos os candidatos rejeitados no Raul Gil têm espaço garantido no palco da praça de alimentação. Os habitantes são gentis e aplaudem. Os habitantes, o que há de melhor. Uma parcela jovem promissora. Ninguém mede o menor esforço. Cruzar três ou cinco cidades para estudar na Fundação, na zona leste como se fosse na esquina, senais, pucs, usps, fatecs, e muitas faculdades de baixo preço e menor qualidade. Sem problema. É uma gente macha acostumada a ser maltratada a cada esquina. Ninguém faz corpo mole. Academias, uma quase por esquina. A incompreensível fila com senha numa farmácia caríssima. No Hospital Nardini, a prática diária do óbito. A enfermeira lamenta: hoje não temos aspirinas, gazes, dipirona. Ainda assim, muitos sobrevivem a tiro. Bocas de fumos nas vielas. Muitos seduzidos pelo pó, a alma engessada, para aflição das mães que rezam. No centro, restaurante de um real. A Fatec bombando. As piores agências bancárias do mundo. A humilhação de velhos em filas como paradigma. Nenhum lugar sobrando na porta das lotéricas, curvas e curvas de contas a pagar e apostas (há gente que não perdeu a fé). Quatro dvds por dez, mas aceita-se chorinho. Quando o Jota (antigo Jóia) fechou, por causa de um incêndio não bem explicado, quase morri de saudade do camarão na moranga. Bolo de chocolate no shopping em frente à estação. A melhor casa de sucos do mundo, mas só comporta exatamente doze pessoas: eu sempre recomendo o quibe de aparência bizarra e gosto único. Três puteiros oficiais. Há um que é espetacular a duas quadras depois da Sasaki, locadora de japoneses que persistem. Nas barracas de quinquilharias ao lado do shopping popular destruído (prédios insistem em incendiarem-se na cidade sem aviso prévio) encontra-se de tudo autenticamente falso, seja paraguaio, chinês ou coreano. O império absoluto das Casas Bahia, sua onipresença. Onde cruze, um papelzinho acabará em sua mão. Placas de dentistas para todos os lados, consultórios sempre cheios, variações de preços inimagináveis. As cáries disputadas à unha. A orquestra de violeiros apresenta-se no teatro para ninguém. Kelly Key enchendo o gramado no dia das crianças. 36 anos aqui e nenhum assalto. Na praça da Bíblia maconheiros, roqueiros, tipos darks de um modo geral, fumam sem o temor-de-Deus. Bicicletas repousam em cabides ao lado da estação. Bicicletas em cada esquina, de vez em quando acidentes fatais. Tudo empoeirado e um tanto feio. Pouco o que fazer. Há velhas e cadeiras tristes à porta de casa. Cachorros vadios às pencas percorrem ruas. A reciclagem de latinhas, garrafas pets e papelões é um fato, denunciam misérias que arrastam carroças. A arquitetura das escolas públicas não as distingue de prisões. Depois da proliferação de grades, o contingente crescente de alunos exigiu a adesão ao estilo puxadinho. As escolas-cortiços não causam espanto. O SESI imponente, piscina, ensino de primeira, espetáculos teatrais itinerantes. O teatro da cidade há anos impondo a contragosto sua existência. O cursinho começou com uma salinha para uns trinta, agora uns 150 numa sala, 60 na outra, poucos ficam até o fim, mas os que ficam passam para o que quer que queiram. Roubaram o Ginásio de Esportes e fizeram a FAMA. O poder público indecente, obsceno, sifilítico como uma puta voraz de IPTU e raríssimas obras. Minha mãe fez amizade com os travecos que a levavam do ponto longe até a porta da casa alugada no centro. Dentre eles um ex-aluno de enfermagem. O Zaíra proliferando em algarismos. Do alto do escadão ou lá na caixa d'água, ao lado do Iracema Crem, a visão da Petroquímica lançando seus fogos. A possibilidade de uma explosão a qualquer momento não inquieta ninguém. Cenário mais que acabado da eclosão populacional desgovernada. Império da geração puxadinho: todos se juntam e se metem na casa da mãe, dos irmãos, nos fundos. Muitos que partem, retornam. Eu retornei. Nem mais um rio à vista que não seja esgoto para o céu. Eventualmente há enchentes. As crianças nas ruas com pipas em disparada. Na rua da infância, de nome impronunciável, o São João com bandeirolas, pião, pipoca, algodão doce, fogueira, quentão e vinho quente. Tudo à boca-livre da rua, mais de trinta e cinco anos de uma harmonia que perpassa dramas, escândalos, cochichos da vizinhança. Grávidas aos quinze ou menos. Pais de família jogam futebol feito meninos, numa crescente negação do mundo adulto. Todo portão de ferro é um possível gol. Estes dois ou três que enriqueceram, o que fazem aqui? Eu ponho a sacola embaixo do braço. O pastel de bauru na feira cada vez mais longe, queima a boca com seu bafo quente. Uma garoa improvável me ataca com seu frio. Viu como aumentou o preço das coisas? A vida pela hora da morte. Mas você, ainda vivo? Há um que perdeu o baço num acidente de carro. Outro sem vesícula, diabetes nas alturas. Pipas insistem em cair no meu quintal, enroscam-se nas antenas. O chuveiro queimou e a caixa-d'água é tempo de lavar. A mangueira do botijão de gás em tempo de trocar. O caminhão de lixo passa às segundas, quartas e sextas. A nudez das janelas sem cortina. O exemplo mais bem acabado de periferia absoluta. Terra de nenhum futuro possível. O ganido de um cão estilhaça a invisibilidade de um mendigo. Mesmo o mais miserável carece de alguma companhia. As solidões todas vividas coletivamente em paredes coladas como folhas de papel. A procissão largando nos bares seus derradeiros fiéis. Mil coisas a fazer e nenhum empenho. A infiltração nas paredes, no teto, traças e bolor materializando angústias. O batuque da escola de samba que o hábito tornou inaudível, e o martelo que martela o vizinho, toda manhã, na construção de novos escombros. A conexão de banda larga como um consolo. O coração culpado do exílio nesta terra mais que familiar. A preguiça enorme de partir, ou o medo. Onde tudo completamente reconhecível. O açúcar para o amargo na sorveteria self-service. E gente nascendo. Impossível descartar do pensamento medidas nazi-fascistas: castração generalizada, contraceptivos despejados na água feito cloro. Tudo parecendo demasiado. Roupas baratas tremeluzindo dentro de nós, como pipas enganchadas em antenas, sapatos velhos lançados em alta-tensão. Eterno anos 80 de lama e camadas finas de poeira que tudo mancha e recobre. E agora me lembro daquelas tempestades terríveis em que minha irmã nos fazia rezar entre caixotes onde se lia Barão do Rio Branco. Tudo é presente e já é memória. Mães disparando gritos como tiros para meninos absortos em brincadeiras de rua. A displicência fingida da obrigação da escola. O resíduo químico no ar que embaça o verniz dos móveis encerados, para desespero de todas as donas-de-casa do mundo, em seus incansáveis combates ao desastre do tempo. Tudo está em mim. A tudo compreendo. Mauá é o fim da picada. Mauá é o fim do mundo. Mauá é o fim. Ou meu começo.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Prenez Soin de Vous

Segunda. 7.de.set.2009.
[Sesc-Pompéia][Exposição Cuide de você de Sophie Calle]

A
carta de Grégoire Bouillier à Sophie Calle:

"Há algum tempo, venho querendo responder seu último e-mail. Na verdade, preferia dizer o que tenho a dizer pessoalmente. No entanto, vou fazê-lo por escrito. Você já pôde notar que não estou bem ultimamente. É como se não me reconhecesse em minha própria existência. Sinto uma espécie de angústia terrível, contra a qual não consigo fazer grande coisa, exceto seguir adiante para tentar superá-la. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a 'quarta'. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as 'outras', não achando logicamente um meio de vê-las sem transformar você em uma delas.Pensei que isso bastasse. Pensei que amar você e que o seu amor — o mais benéfico que jamais tive — seriam suficientes. Pensei que assim aquietaria a angústia que me faz sempre querer buscar novos horizontes e me impede de ser tranquilo ou simplesmente feliz e 'generoso'. Pensei que a escrita seria um remédio, que meu desassossego se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições nem sequer de lhe explicar o estado em que mergulhei. Então, nesta semana, comecei a procurar as 'outras'. Sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Nunca menti para você e não é agora que vou começar.Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…). Com isso, jamais poderia me tornar seu amigo. Você pode, então, avaliar a importância de minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante de sua vontade, ainda que deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre os seres e a doçura com que você me trata sejam coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você do modo que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá. Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que, você sabe tão bem quanto eu, se tornou irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único. Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.


Cuide de você."

sábado, setembro 05, 2009

Escrevi sobre Coração Vagabundo

http://www.rabisco.com.br/2009/08/vagabundo-coracao/


[Rabisco é uma revista para qual adoro colaborar. Esse texto fiz meio que correndo, sobre o filme Coração Vagabundo. Hoje escreveria diferente. Acho que andava um tanto Casmurro, quem lê nem perceberá que achei o filme bacana. Mas está aí o link para quem quiser ver/ler].

quarta-feira, setembro 02, 2009

Revidando Ana que eu conheço daqui e de lá

Eu gosto do blog da Ana, que vive mudando de nome. Fui lá e todos os posts eram lindos. Recomendo a vocês lerem a Ana.

Deixei esse post, para que ela saiba o quanto me apraz as minhas e suas visitas:


Adoro essa sua fase inspirada. As melhores imagens (felizes) de amor e liberdade. Os poemas incríveis (salve Leminski!!!), os posts telegráficos, e as bonitas canções que nos ensinam a ouvir melhor.



Natação

Eis o novo membro da família, por enquanto nadando peixinho no útero da mãe Diene. Aquele nadar que se chama natalidade.

Lábia

Mas nem cantor incendiário
Ataca à queima-roupa a canção
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a introduz
Que nem abelha ronda a flor
Que nem dá voltas ao redor
Da lâmpada, ao redor da lâmpada
O bicho-da-luz

Nem pode à meia-noite
Abrir um sol a pino de supetão
Nas noites em câmera lenta
Espero por meu bem
Lábia, flor do bem-me-quer
Lábia que adoça a boca de mulher
Dom de mulher
Que os homens têm

Palavras de virar cabeça
Meu amado vai usar
Palavras como se elas fossem mãos
Tantos rodeios
Pra enfim me roubar
Coisas que dele já são

Mas nem uma mulher em chamas
Cede o beijo assim de antemão
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a seduz
E eis que nada mais se diz
Os olhos se reviram para trás
E os lábios fazem jus.

Edu Lobo/Chico Buarque