sábado, fevereiro 28, 2009

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Gestalt, de Hilda Hilst


Absorto, centrado no nó das trigonometrias, meditando múltiplos quadriláteros, centrado ele mesmo no quadrado do quarto, as superfícies e cal, os triângulos de acrílico, suspenso no espaço por uns fios finos os polígonos, Isaiah o matemático, sobrolho peluginoso, inquietou-se quando descobriu o porco. Escuro, mole, seu liso, nas coxas diminutos enrugados, existindo aos roncos, e em curtas corridas gordas, desajeitadas, o ser do porco estava ali. E porque o porco efetivamente estava ali, pensá-lo parecia lógico a Isaiah, e começou pensando spinosismos: “de coisas que nada tenham em comum entre si, uma não pode ser causa da outra.” Mas aos poucos, reolhando com apetência pensante, focinhez e escuros do porco, considerou inadequado para o seu próprio instante o Spinoza citado aí e cima, acercou-se, e de cócoras, de olho-agudez, ensaiou pequenas frases tortas, memorioso: se é que estás aqui, dentro da minha evidência, neste quarto, atuando na minha própria circunstância, e efetivamente estás e atuas, dize-me porque. Nas quatro patas um esticado muito teso, nos moles da garganta pequeninos ruídos gorgulhantes, o porco de Isaiah absteve-se de responder tais rigorismos, mas focinhou de Isaiah os sapatos, encostou nádegas e ancas com alguma timidez e quando o homem tentou alisá-lo como se faz aos gatos, aos cachorros, disparou outra vez num corre gordo, desajeitado, e de lá do outro canto novamente um esticado muito teso e pequeninos ruídos gorgulhantes. Bem, está aí. Milho, batatas, uma lata de água, e sinto muito o não haver terra para o teu mergulho mais fundo, de focinhez. Retomou algarismos, figuras, hipóteses, progressões, anotava seus cálculos com tinta roxa, cerimoniosa, canônica, limpo bispal Isaiah limpou dejetos do porco, muito sóbrio, humildoso, sóbrio agora também o porco um pouco triste estragando-se nos cantos, um agrado-ternura nos dois olhos, e por isso Isaiah lembrou-se de si mesmo, menino, e do lamento do pai olhando-o: immer krank, parece, immer krank, sempre doente parece, sempre doente, é o que pai dizia na sua língua. É doença não é Hilde? Hilde sua mãe, sorria. Ach nein, é pequeno, é criança, e quando ainda somos assim, sempre de alguma coisa temos medo, não é doença Karl, é medo. Isaiah foi adoçando a voz, vou te dar um nome, vem aqui, não te farei mais perguntas, vem, e ele veio, o porco, a anca tremulosa roçou as canelas de Isaiah, Isaiah agarrou-se, redondo de afago foi amornando a lisura do couro, e mimos e falas, e então descobriu que era uma porca o porco. Devo dizer-lhes que em contentamento conviveu com Hilde a vida inteira. Deu-lhe o nome da mãe em homenagem àquela frase remota: sempre de alguma coisa temos medo. E na manhã de um domingo celebrou esponsais. Um parênteses devo me permitir antes de terminar: Isaiah foi plena, visceral, lindamente feliz. Hilde também.

Ficções, Hilda Hilst, (Pequenos discursos e um grande), Ed. Quíron, 1977. p. 6-7.

[Texto genial de Hilda Hilst, sempre maior na poesia, mas grande na prosa e principalmente nos seus contos curtos de estilo único. Este é para o Gláucio]




terça-feira, fevereiro 24, 2009

De como curti o Carnaval com os amigos

Poços de Caldas - 21 a 23 de fevereiro de 2008

E fez-se a terra inteira de repente

Diante da beleza a desintegração de Letícia.

Meu momento introspectivo.


Volta em torno do Thermas.

A pedra do reino.

Marcela impondo-nos sua visão de mundo.

Noturno amarelo em Minas Gerais.

A virada da bateria.
 
Depois de curtir blogos e marchinhas.

De ombro, apreciando sucos nutritivos e exóticos 
(como abacate com morango).

Curtição ou Bloco Mimimi no compasso do samba.

Thermas fechado 
ou De como não pudemos nos tornar seres mais saudáveis.

Invertendo o processo

Agora resolvi inverter o processo e posto também a minha descoberta de blogs interessantes, belos escritos e pessoas sagazes.

Caríssimo César, caí em seu blog - Modos de fazer mundos - por acidente, caçando algo sobre a Câmara Clara de Barthes. Há acidentes fatais, o seu, um deles. Gostei demais de seus poemas, de seus posts, de encontrar Kiefer. Tudo grande, maior que a vida. E o piropoema, poesia de incendiar. Muitas idéias contra as idéias correntes, salutares mas inquietantes. Tudo de refinado gosto, um humor difícil aqui e lá. Gosto. Pensei em roubar coisas, creditar (claro), mas roubar para revidar em cima, com gosto, mas achei seu blog profissa, e vai que eu quero fazer homenagem/citação e acabo pagando processo. O dinheiro curtíssimo, uns cinco vinténs para passagem cara, único bilhete no lugar de bilhete-único. Paulistanagens e periferias. Só esse luxo de internet rápida, para ver saltar aos olhos essas imagens e escritos. Linquei seu modos de fazer mundos, nada levo, mas deixo convite para que me visite. Abraço estranho para você do leitor prolixo. Eduardo.


Resposta no Modos de criar mundos

cesarkiraly Reply:
February 21st, 2009 at 2:39 pm

Caro Eduardo, fico muito contente com a sua gentileza, num tempo no qual as gentilezas são sempre tão raras. E se o leitor é prolixo o escritor também o deve ser, e nada que valha a pena ser escrito deve ser escrito pouco, mas sempre muito, em muitas páginas, para frente, ou para dentro, ainda que contenha uma palavra apenas. Deve se escrever muito e escrever sempre escuro, difícil e um pouco enviesado. Ainda que seja apenas um ponto na página branca. Que não seja um ponto, mas um poste, que não seja um poste, mas um grão de areia. Mando um abraço para você e para cidade estranha em que mora. Do amigo, Cesar.



Para cair no MODOS DE CRIAR MUNDOS, clicar abaixo ou nos visitados.

http://cesarkiraly.opsblog.org/2009/02/17/alguns-escrevem-para/#comments

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sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Mas afinal de contas...

O que é mesmo uma amizade de mão única?

Sobre Henri Cartier-Bresson



Dentre os fotógrafos, um dos que mais admiro, é Cartier-Bresson. Não estou sozinho, obviamente. Mas diferente do que normalmente acontece, minha admiração por Cartier-Bresson não surgiu de uma apreciação intelectual. Tanto é verdade que já postei anteriormente fotografias incríveis dele, sem uma linha que seja de comentário. É que não sabia verbalizar.



Descobri Cartier-Bresson porque uma de suas fotografias estava pendurada na parede de um filme B, e no filme, havia se inventado uma história para o homem retratado. A imagem era tão surpreendente, que me lembrei dela quando vi tempos depois naqueles cadernos dominicais de cultura. Estava lá, ao lado de outros trabalhos, com uma pequena explanação sobre o fotógrafo. Tempos depois, a internet me revelou um cem número de trabalhos desse fotógrafo extraordinário.

O que me atrai em Cartier-Bresson não é só o admirável uso do preto e branco no enquadramento mais acertado. Ele capta um momento único, mas busca isto dentro do prosaico. Este momento decisivo (que ele teorizou) é revelador tanto de um ponto luminoso da vida do retratado, mas abarca, muitas vezes, todo o universo entorno. 


Seus planos, mesmo os mais abertos, parecem voltar-se para a interioridade: da pessoa, da cidade, do acontecimento. Uma foto de Cartier-Bresson não admite questionamento sobre ser ou não a fotografia uma forma de arte. Pois Cartier dá sentido a palavra artista. Não é só um olho e um dedo premendo um botão. O aparato técnico acionado no instante exato para perfeita captação da luz bem harmonizada no espaço do papel. É o instante irrepetível, quando o factual (a vida em si, o real inapreensível) se torna instantâneo poético. 


E muitas vezes, há mais poesia em Cartier do que em Mallarmé. Uma poesia imediata, cuja simplicidade aparente estarrece quando menos evidente; espanta, paradoxalmente, pela sutileza. Imagem paralela às entrelinhas de Clarice, de Bandeira, e de Rosa. Mas hoje, a delicadeza perdida do pós-tudo (utopia, humanismo, afeto, metafísica) parece esmaecer até mesmo seus instantâneos. E penso que talvez isso tenha se dado pelo uso que a publicidade fez de cenas captadas por ele, imitadas e banalizadas à náusea nos comerciais mais eficientes, para venda de produtos ordinários. 

As imagens de Cartier-Bresson, contudo, resistem. E são maiores porque todas parecem prescindir da existência da câmera e do fotógrafo. Em sua autonomia, o mundo parece caber (sem enquadrar-se) no retângulo brilhante do papel. Mas o revelado por Cartier-Bresson não vem do olho que contempla ou da lente que capta o instante que passa; é antes, a imagem que se lança sobre a lente intuindo o olho de Cartier-Bresson, confiante de que ele entenda que lhe entrega o puro instante. 

Cartier-Bresson torna visíveis as pequenas epifanias do cotidiano. Não há mínimo em Cartier-Bresson, tudo contém e tudo excede: do amor que consola o homem ao mundo que o massacra.



Por isso é que em cada foto de Cartier-Bresson, o que se vê é o tempo-espaço traduzido num gesto trivial, ridículo ou glorioso, de alguém que passa, multidão empilhada, vão escasso de prédio, lance súbito de leveza do homem efêmero. Aqui um casal que se beija, turistas que estátuas contemplam, vôo aquático do desejo, exaustão de uma longa jornada. O amor está em quase tudo. Em Cartier-Bresson o humanismo é um fato, não uma apologia. E o grande sentimento do mundo, a alegria de estar feliz consigo mesmo, cabe na cara do menino que segue pela rua, orgulhoso de carregar a garrafas para casa. 


No Orkut, para o aniversário do meu ex-aluno Beto

Caríssimo, o professor Eduardo nunca dá presente a ninguém, mas escrevo mensagens para pessoas a quem admiro. Então começo:

Beto, é seu aniversário. Isso é ótimo. Nao fique chateado com essa conversa de mais velho. Pense o seguinte, você fugiu às estatísticas: balas perdidas, atropelamentos, intoxicação, doenças galopantes, fome, miséria, coração partido. Julgue-se vitorioso, e comemore a ineficiência de toda possível tragédia na sua vida. Para isso, esta mensagem-lembrete para dizer que no fundo no fundo no fundo no fundo você nem precisa se esforçar para conquistar mais vitórias. Mas se ambicionar fortuna, amor, realização profissional e outras dessas coisas humanas nada descartáveis, considere a data do seu aniversário como ponto de partida (e não é?), para se sentir feliz, bastante feliz.

Abço

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

O acaso entre a distância e algum lugar

Meu amigo Okuma e cia, no Diário do Grande ABC, sobre as filmagens do seu novo curta - O acaso entre a distância e algum lugar. Sucesso para ele, todos envolvidos, e abraço grande também para o Celso Luz.

Link para a matéria aqui.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Oratio de hominis dignitate

Não te dei face, nem lugar que te seja próprio, nem dom algum que te faça particular, ó Adão, a fim de que tua face, teu lugar e teus dons, tu os desveles, conquistes e possuas por ti mesmo. Natureza definida de outras espécies em leis por mim estabelecidas. Mas tu, a que nenhum confim delimita, por teu próprio arbítrio entre as mãos daquele que te colocou, tu te defines a ti mesmo. Te pus no mundo, a fim de que possa melhor contemplar o que contém o mundo. Não te fiz celeste nem terrestre, mortal ou imortal, a fim de que tu mesmo, livremente, à maneira de um bom pintor ou de um hábil escultor, descubras tua própria face...

Picco della Mirandola,

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Roubando (creditando) o Sérgio




O Sérgio, que um dia eu chamei de semi-pessoa, pois era novo e magro demais (ele não gostou), anda queixando-se das primeiras marcas de quem está saindo da adolescência. O negócio está tão sério que postou - no seu Decadence... -  inflamado texto sobre o chute (falso, claro) que pretende dar à vaidade. Não bastando, exigiu que eu creditasse o "Beijinho doce remix" como indicação dele. Quem sou eu para recusar coisa que seja para quem está em crise existencial? Obedeço, mas revido em seguida essa coisa de vaidade moderna.

[Aproveito para apresentá-lo com doçura: Camarada Sérgio, proto-jornalista, garoto meio-amargo. Menino mau que gosta de pessoas boas]

O sabonete anda muito caro. Resolvi tomar banho com sabão de côco. A idéia não foi minha, foi de uma dermatologista que consultei no século passado. Ri por dentro na ocasião. É neutro, vai fazer bem para sua pele. Neutro? Vou chamar a atenção aonde for. Não haverá quem me trisque, cheiro de palmeiras cansadas, espirro de maresia, velhas ensaboando na beira do rio, roupas quaradas ao sol. Cheiro de tanque é cheiro de pobreza. Miséria branca de espuma. Passado o tempo. Não estou nem aí. Nunca gostei de perfume, nunca me adequei bem às modas do tempo. Vejo fotos antigas, passei incólume sobre o ridículo dos anos. As sempre mesmas calças jeans, camisetas brancas, sapatos e tênis baratos, e uma longa fase cinza. Pois queria não ser visto. (Meu período de auto-destruição). Leio seu texto. Tempos outros. Tudo vem de fora: como o vêem é o que você espelha. Narciso simulando o reflexo. Daí, uma leva de gente igual. Uma semelhança enfadonha. As mesmas tatuagens, piercings, o mesmo gel, tênis baixos, outro com molas. Depende do grupo, uma horda emo, rave, rock, jiu jitsu, dublês de loshermanos, uns pretos de Jay-Z e Beyonce, chapinhas no cabelo. [Será que um dia foi diferente?] No final, tudo valendo pouco. Bom papo, inteligência, simpatia, algum humor e sarcasmo sobre medida compensando o resto, dando conta de revelar "o valor real da pessoa". A carcaça variando (boas, fazem toda a diferença). Capriche na carcaça com bom senso, pois boa aparência abre portas. Tudo dependendo das portas (portas?) que queira abrir.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Revidando de novo Marcela


Entediado, fui lá no blog da Marcela. Há sempre uma tristeza que Marcela, em sua ironia X melancolia, transforma em humor. Jujubas, sorvetes, passeios, cães, gatos, trivialidades e fotos retrô. Encontro Marcela igual a mim, e me sinto melhor. Não é maldade. É que não quero ser um triste sozinho. Quero ser triste em companhia, mesmo que a quilômetros de distância. Não quero o mal de Marcela. Quero todo o bem do mundo. Mas, minha alma egoísta não quer ser só. A Marcela que encontro em visita no Umbigo Roxo é uma Marcela com um toque de Schopenhauer. Parece bacana, profundo, filosófico. É triste. Marcela melancólica na escrita é quase um adultério do mundo real. Marcela é sempre mais feliz nos seus escritos. A alma melancólica mineira está nela, queira negar, cassinos, família passados, como em Drummond. Minas está em Marcela endurecendo tudo. No fundo, um coração singelo. Mas que não se diga isso em público, que não se publique. Prezam o humor, essas minas. Falou para mim (não sei se posso postar aqui, mas posto). Falou para mim que se assusta com a quantidade de álcool que rola nas rodas de Minas. E enquanto me fala daquele amor irrestrito pelas esquinas e outras paisagens e tambores de Miltom, me falou que dói no seu coração a quantidade de pó que engessa a alma de gente por aí. Toda vez que ouço Cartola penso em Marcela. Ando ouvindo muito Cartola atualmente.

Mas do "post triste sobre a vazio existencial" (o meu é também espiritual-metafísico) que nem sorvete mais caro preenche, anestesia, cala, saiu este comment que joguei lá no blog dela. Pois, o Lucas me ensinou, em um canto aqui deste espaço, que a missão nova do Revide, é revidar comentários e até os post dos amigos. E foi isso que escrevi:

"Hoje, tédio profundo de tudo, passo aqui para me animar, o velho tema, insatisfação grande. Aí, de repente, me lembrei de uma frase que copiei há muitos anos de um filme (estava numa agenda, eu transcrevia em agendas textos pelos quais me apaixonava. sorry, nunca fui normal). Vasculho no Revide (pus muito das minhas agendas no Revide). Nada. Não encontro no Google. Nada. Mas como pode existir algo que não esteja no Google? O original, lembro, em inglês. Não lembro mais nada de inglês, - wish, adventure, desire - sei lá, não é isso. Então busco na memória. A memória falha. Capaz que a frase tenha saído capenga. Manca. Mesmo assim posto. Não coloco dono. Se não estava no Google, agora, inteiramente de minha autoria. Posto, domínio público p. nenhuma, se citarem, exigirei meus royalties: 

"Não existe aventura nem romance. Tudo que existe é tensão e desejo, mas quando se deseja alguma coisa, provoca-se o sofrimento, e quando se sofre, não há mais desejo."

De tanto ir a PUC fiquei com saudades da USP


USP. Prédio Letras. 2008. Palestra do Mia Couto.


sábado, fevereiro 14, 2009

Mais idéias roubadas

Minha fase de roubar idéias não pára. Letícia fez uma lista de seus melhores filme e livros. Não resisti em compôr micro-resenhas para eles:

Lista ótima, no estilo da futura Letícia crítica, as resenhas um tanto assim:

Noite americana 
"De repente, a gente está dentro do filme"


Morangos silvestres
"O amargo da velhice quando nunca se está maduro para vida"

O ano passado em Marienbad 
"A arquitetura engolindo o tempo, palavra em desfile de estátuas vivas. Será maravilhoso não foi?

Felizes juntos
"Ei moço, role mais um piazzola pois os moços, tão infelizes separados"


Fale com ela 
"A difícil arte de penetrar uma mulher."
ou
"Mulheres caladas gerando homens cheios de dedos e lágrimas"


O estrangeiro
"O crime não está no ato, mas no julgamento que fazem de quem está contra a corrente."

O processo
"O crime maior é ter esquecido que não existe uma lei que seja inocente"

Vidas secas
"Um baleia atravessa a caatinga. O pai. A mãe. 2 meninos. O soldado mau, amarelo,  como um sol eterno pairando sobre tudo circular. Dentro e fora: Graciliano Ramos"

Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres
", a sereia Lóri entre ondas da cama, finalmente afogada no amor, do outro lado, então Ulisses naufragado sussurra na concha do ouvido um segredo:"

Comment no blog do Eduardo Santinon

Os recados para o Edu [Santinon], cada vez mais poéticos, de matar de inveja meninos congelados em fotos 3x4. Neste vai-vem de blogação, vou encontrando pelo caminho esses textos tão bacanas que vão me deixando meio zarolho, mas um zarolho feliz. A grande vantagem destes comments e posts, é serem muito mais velozes que cartas, a que cada um se dá o direito de completar a mensagem com uma emenda/notas à borda da página, como escribas da idade média. E por que são cartas abertas, como antigos cartões-postais (e imagino quantos carteiros não morreram de desgosto, por tantos sentimentos endereçados a outros), comments entregam-se à vista vaidosos. A vantagem é que nem precisamos extraviar postais, pôr na parede e fingir ser nossos (como os carteiros melancólicos). Vamos nos apossando do blog alheio, e nos sentindo um tanto donos dos escritos, o orgulho imodesto de compartilhar a amizade de gente tão admirável.

Um conto de Marcelino Freire

http://www.youtube.com/watch?v=x8Imk7B7s1c

[Homo erectus, conto do caríssimo escritor Marcelino Freire que é uma verdadeira porrada. Abre o livro BaléRalé. Recomendo: Kyoto, Balé, Darluz.]

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Beijinho doce remix



A favorita e seus absurdos, deixa pelo caminho essas pérolas já clássicas

Expeditionen in der Dulkelzone



"The Porn Identity - Expeditionen in der Dulkelzone" ("The Porn Identity - Expedições na zona escura")



[Porque sexo é uma coisa que me interessa.]

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Um homem fértil

O blog era para dizer que estou de férias até princípio de março, sem um p. no bolso, embora haja convite. Meu único luxo é o tempo, que gasto para ler, ouvir música, assistir a um encalhe de filmes e dormir, dormir muito. E escrever, claro. Parece o paraíso, para quem está de fora. Mas estou exilado. Inventei para isso o retorno (hoje) à academia de musculação, pois não abandonei a esperança de voltar a ser um homem bonito. Meu segundo luxo é essa banda-larga a preço de ouro, subsidiada também pelo meu irmão, que puxou um cabo daqui para casa dele: único gato de uma casa, agora sem cachorro. Por isso, essa fertilidade de comments também em outras paragens. Visitas, longos emails. Alguns desastres por conta de um texto que publiquei aqui, pois todas as interpretações são livres. Então entrei no blog de uma menina que veio aqui (no Revide, entenda) e me visitou, fez um comentário tão bonito, que achei importante retribuir a visita. Não pensem mal, sou um homem solitário, procrastinando trabalhos urgentes, qualquer brisa ou aceno, e me jogo na areia. E como quem me quer não anda me dando bola, ou se metendo com quem não vale poesia, eu me entrego à vadiação sadia e deslavada por quem me queira bem. Como um velho cão vadio, mero afago, as patinhas erguidas no ar.


O comment que fiz é esse, e a imagem (roubada do blog dela) tem por quê. E como estou um canalha de músculos cansados pela esteira e os halteres, aproveito e entrego o link para o blog da moça, tatuagem marota no pé. O nome dela é Ana, o mesmo de minha avó e da incrível personagem de Raduan Nassar no
Lavora Arcaica



Cliquei na canção esperando Lenine entre harpas, e de repente, dou com a gravidade da voz do Arnaldo Antunes, com uma leveza incomum. Postar uma foto assim, na rede, céu azul de fundo e areia, para quem está exilado em São Paulo, é um crime inafiançável. Merece, por isso, novos roubos de canções (que apresenterei como descobertas minhas) e outros comments no seu blog (o anterior no do Drexler de agradecimento pela visita no Revide e por apresentar tão linda música. Agora este comment pelo belo canto do Arnaldo Antunes). Aqui chove. Chuva em São Paulo é trilha sonora perfeita para minhas longas ondas de insônia, não esta pontada de mar, mas nightmares. Vou me viciar nessas visitas pelas paragens do seu blog, catar um pedaço de azul fotografado, quase tecnocolor de tão bonito. E criar comments imensos, que você não terá a mínima paciência de ler até ao fim. É a vida! Quem manda postar a inveja de umas férias que nem em sonhos ando alcançando. Mas mando beijo, e aconselho filtro solar.

Reflexões embaixo d'água




Não penso normalmente em obscenidades sob o jato do chuveiro. O espelho, antes de embaçar melhora ou piora minha auto-estima (já disse, não sei mais usar hífen) de acordo com o dia. No banho, o melhor espaço para o canto. Apaixonado por Cartola, ando torturando a vizinhança (canto alto). Esses dias, um colega que passou aqui como uma chuva, meteu no meu ouvido a Carmen Miranda, e não resisti a um bom falsete de "Disseram que eu voltei americanizada", na versão desconstruída de Caetano. Quando não canto, fico elocubrando. Litros e litros de água com sabão Protex, fuligem e pedaços de mim descem pelo ralo sem qualquer consciência ecológica. Um desses pensamentos, compartilho, e como daqui para frente, tudo fica muito chato, melhor parar. Mas se quiserem saber o porquê do Pato Donald, a única maneira é seguir adiante.

Uma pessoa que escreve um blog diarinho tem moral para questionar o Big Brother? A quem assiste ou participa? Não estamos todos metidos numa mesma época de esgarçar nossa intimidade em público? Não fetichizamos a nós mesmos com o excesso de fotos digitais, vídeos postados, listas, filmes e músicas preferidas, declarações de amor, banalidades, ironias cortantes, bons e maus poemas?

Aí vem alguém e me diz. Mas camarada Eduardo: "A internet é a morada do fake. A rede soberana das mentiras. Não queremos ser vistos como somos, queremos que nos vejam como queremos ser vistos. Das 300 fotos sacadas no passeio, elegemos aquela que pelo ângulo, pela luz, pela mágica do momento nos fez parecidos com a imagem que fazemos de nós mesmos. Neste sentido, também nos auto-enganamos. Aliás, camarada, ainda nos damos o direito a retoques para aperfeiçoar o falso. Os que dão as caras lá nos orkuts, aqui nos blogs, ou noutros sites de relaciomentos e twitters da vida não somos nós, mas uma versão daquilo que julgamos o melhor de nós, ou pior, aquilo que do outro lado querem que sejamos. Acontece, que mesmo no fingimento nos revelamos, mas nos Big Brothers da televisão, ao menos, eles lucram." Melhor então, respondo por ironia, legitimar a farsa, colocando a cara do Pato Donald para bater, do que a nossa própria cara.

Tão farsante como todos (veja só esse "alguém" aí de cima que inventei, por força da retórica, e caso existisse de fato estaria bem molhado no meu chuveiro que lança água para todos os lados), eu aceito o jogo. A realidade e o tempo escapam, não podemos recuperá-los. Toda fala, apenas uma versão. Convém realizar, penso, a versão menos vadia (ou vazia) de nós mesmos, aquela que ao nos dizermos, reconhecemos e somos reconhecidos no outro.

Tela para o menu do dvd do fado


quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Ester

Antes que o amor a atingisse como uma bofetada, a vida era mansa sobre a tarde calma. Ia à missa, religiosamente. Fora o estrabismo do padre novo, nada de novo sob o sol. Da igreja cuidava com aptidão de mãe. O cantochão puxava na quaresma. Nenhum fogo ardia no altar sem sua discreta autoridade O padre novo não vendo o Mal em nada. O sermão frouxo. Zarolhas citações dos evangelhos. Ela já enterrara quatro papas, enfrentara, impiedosa, os teólogos da libertação, comandara com mãos de ferro, e cartas de satisfação ao bispo, a expulsão de sete padres comunistas. Para ela religião era sagrada, a exigir dedicação de mártir. No rastro de sua passagem anteviam-se trombetas dos anjos e labaredas infernais. Ela era que carregava o estandarte da Virgem do Livramento de olhos marejados, os dedos engessados da artrite. O inferno ela própria apresentara à metade do bairro com a perícia de um guia. Desde que a mãe morrera, de arrastada e penosa enfermidade, esmerava em sê-la. Por isso mesmo, era dura com mendigos que só queriam saber de esmolas. Sabatinava-os com rigores teológicos. Não admitia intimidades com coroinhas. Nos horóscopos, enxergava a satânica hipótese de uma heresia.

Mas tinha um segredo. Cultivava-o num jardim interior. Era como um cacto terrível, retorcido, anos omitido nas confissões mais sinceras. Esgueirava-se dos santos de olhos acusatórios. Encarcerada. E o peso do cacto dobrou-a no curso dos anos. Era preciso o amor para tirá-la daquele inferno. O amor não veio e restou Jesus, penso de pregos, o coração exposto na dor constante de pedra. Seu coração também, de repente, petrificado. Cada espinho uma farpa de carrasco, e a sombra do que fizera recobria o mundo. Para salvar-se, era preciso salvar o mundo. Veludo, seu único luxo, e um carnê quitado no Vale do Divino. De resto, nada mais. Um silêncio imenso. E frio. Muito frio. Um frio que mantas tecidas não davam conta de aquecer. A aposta na caderneta de poupança. O funeral magistral varando ruas. A virgindade, para derreter as fechaduras do céu, amainar anjos desalmados, exigir o cruel perdão de Deus. Por hora, o dinheiro guardado no oco de um santo de pau-ferro. Só não contava com o sumiço súbito de Veludo, a inesperada chegada de Crispin. E triplicava jaculatórias nas trezenas. O pavor de morrer devendo.



Segunda parte do conto

Mundo-maquete criado por mim








Fazer o real parecer falso, me interessa

Para Marcela

Marcela, quando vi esta foto constatei que sou realmente um homem que levanta o dedo e faz positivo. 

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O sexo exposto de Carmem Miranda



Exilado em Londres em 71, foi que eu vi pela primeira vez a tal fotografia em que Carmem Miranda aparece involuntariamente de sexo à mostra. Lembrei dos primeiros portugueses que, ao chegarem ao Brasil e vendo os índios nus, anotaram em carta ao rei de Portugal que "eles não cobríam as suas vergonhas". Isso de se referir à genitália como vergonha era corrente no portugues do século 16. Pensei que não deixava de ser significativo que a nossa representante fosse a única do Olimpo hollywoodiano a exibir sua vergonha. E que tivesse feito sem saber o que estava fazendo, por descuido, inocentemente. Vergonha é uma palavra que atravessa esse artigo, desde o primeiro parágrafo. Mas tal visão me causou antes orgulho do que mal-estar. Nos braços de César Romero, sorriso hollywoodianamente puro nos lábios, cercada de brilhos cheios de intenção e controle, tudo nela e em torno dela parecia obsceno perto da inocência de seu sexo.

CAETANO VELOSO


[Texto excepcional do Caetano Veloso, a partir do qual saiu o livro Verdade Tropical. Saiu primeiro no New York Times, depois na Folha. Para ver na íntegra, clicar no título do post.]

Diálogos entre irmãos

Fim de tarde, carro a 80 na avenida dos Estados. Mãe exausta no banco de trás. Ainda assim, o irmão insiste em cantar Di-no-sauuuuuuu-rus fazendo back-vocal para Djavan. A irmã destrói uma carreira promissora na música com um só comentário:

- Amor, fica quietinho para eu gostar mais de você.

domingo, fevereiro 08, 2009

Mudança

Mudança é o REVIDE de cara nova. Para falar a verdade, com a minha velha cara estampada. Ajuda de Lukino que esteve aqui em visita emergencial para me desemburrecer, pôr ordem na bagunça do meu blog, espanar o pó do sistema antigo. Agora tenho tudo. Links dos amigos aí do lado. Sites interessantes. E espero que seja o fim do pau na hora de postar. De fato acho que esse blogger está p. com meus excessos. O fato de agora compor blog "diarinho", talvez seja a razão. O caso é que ainda me interessam os assuntos grandes, os textos alheios, fotos e imagens. Acontece que é tempo de férias, tenho tempo. E a febre da escrita me pegou para coisas úteis e inúteis.  Post imensos nos blogs dos amigos que como estão elogiando, acho que não estão incomodados com esta prolixidade do cão.

sábado, fevereiro 07, 2009

Nunca brochei em São Paulo



E fez-se a LUZ

São Paulo é uma cidade horrível, mas eu adoro. Cilene disse um dia que em São Paulo ninguém se perde porque está sempre em algum lugar. Há algo de arrogante, cínico e safo em cada paulistano, um verniz ou polimento feito calo criado pela competição feroz, pelo prenúncio de violência. Só em São Paulo a devassidão se converte em virtude. Acho que vem daí o amor e ódio pela capital. São Paulo é desvairada, e desvaira. Só o claustro de monges impede a extinção dos cantos gregorianos no Mosteiro de São Bento. Meu sonho já foi fazer um ensaio fotográfico com topmodels super-produzidas abraçando mendigos e putas na Boca do Lixo. 

São Paulo é uma cidade que me excita. 

Nunca brochei em São Paulo.

Guia fotográfico na paulicéia comportada



Neste ínterim, desde a semana passada acompanho meu mais novo amigo santanense, Dom Doni Adonilton, que minha mãe trouxe de sua cidade natal na Bahia para as paragens de Mauá. Lugar do meu exílio provisório que se arrasta há anos. O motivo da perambulação é o processo de matrícula do rapaz na PUC-Perdizes. Assim, faço com o garoto, o itinerário de reconhecimento da metrópole, de mim tão desconhecida. Meus passos o levam aos lugares mais óbvios, mas me contento com a alegria de apresentá-los a ele. Aproveito o papel de guia para fazer uma coisa que pouco fiz no curso destes anos: fotografar São Paulo e fotografar-me como um bom turista apaixonado por sua monumentalidade, o poder profano que ela possui de nos fazer cada vez menores. A cidade nos apequena. Paulistas e paulistanos só se sentem grandes quando estão fora de São Paulo.


sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Um post que são muitos

Relendo MIGUILIM para escrever sobre MUTUM


Neste período de férias em que ando a escrever como um maníaco obsessivo compulsivo, também tenho me dedicado a outras coisas exaustivas e necessárias. Não bastasse alguns surtos psicóticos de explicita emotividade, peguei para reler o Miguilim do Guimarães Rosa a fim de escrever um ensaio para o não mais embrionário projeto "Literatura e outras artes". E agora me ocorre, que ler "Campo geral" me deixa ainda mais sentimental

Entre campos e espaços

Aproveitei o dia de ontem e editei a pedido de Susanna o trailer do "Canção d'Além-mar" (como não estou para pouco, aproveitei e fiz quatro versões, duas bem diferentes, e outras com simples variação de som). O objetivo agora é pôr no youtube (a última tentativa falhou) e postar no Revide para que os nossos diletos amigos saibam o que eu, Marcela e Tiago passamos meses editando. 


A Praga de kafka


Ontem, depois de encontrar Susanna na Livraria Cultura, fechamos palestra-espetáculo sobre Kafka. Estou aqui com o texto de O processo para retalhar e ir à caça de Kafka no cinema para apresentar no Sesc-Santana, o que poupa o esforço de muitos de ir a Praga procurar Kafka. Tudo fechado, mando chamar. Por enquanto preparem-se para Orson Welles, Steven Soderbergh e animações russas sobre uma pessoa que é um inseto.


Mundo nipônico ou O que nos pode oferecer a Liberdade

Entre a Sé e o bairro da Liberdade vou de sebo em sebo buscar o livro que minha mãe me pediu.  Encontro outros, até que baratos. Muita literatura africana, faço força para não comprar, pois todo canto agora aceita cartão de crédito. Zanzo pelas ruas com fome. Mas na hora exata, vejo que ficou tarde, e cedo ao MacDonald destruindo uma dieta até esse momento bem sucedida. E me envergonho disso. Chove depois. Na liberdade, meto-me em shoppings nipônicos. Há já uma febre indiana proliferando em lojas, entre estátuas de buda, samurais, gatinhos que acenam, elefantes, budas barrigudos prometendo prosperidade. Paro na loja para ver miniaturas perfeitas de personagens de animes, mangás. 50 paus um Naruto. A chuva castiga ainda. Numa esquina, quase reconheço a casa descrita no livro que adio leitura, e que se passa justamente no bairro da Liberdade - O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho - e dali acabará no Japão. Estar num cenário de livro é ótimo, já me sinto intensamente ficcionalizado.



A pé até o Centro Cultural Vergueiro

Eu vi um Chico César pobrinho se apresentar no CCSP. Assisti em boa companhia Vereda da Salvação. Perdoa-me por me traíres na montagem mais legal que vi. Bebi cerveja num boteco e filmei Leandro nas escadas e no Metrô. Ontem, as estantes das revistas mais ordinárias. Carinho, Capricho, Caras. Bravo. Já tomei banho naquele gramado: o céu estava azul e passou uns dez mil helicopteros. Helicopteros são as aves paulistanas. Caminhando pelas calçadas a gente topa lá a frente com um prédio bonito que parece gavetas abertas. Se me perguntassem se quereria morar no Centro, já tenho as imediações escolhidas. Há ali uma profusão de instituições de ensino superior que baixam minha auto-estima.

Um post no Orkut para o Júnior

Wilson é o Júnior, e é um nome que me causa sempre sempre estranheza, pois para mim você é só o Júnior. Agora vejo aqui você empunhando guitarra, num acorde grunge total, mas como pensar em um Júnior melancólico? Primeiro foi o Júnior no cursinho, calado, às vezes atento, às vezes sonolento. Depois me lembro de você meio baqueado no trem, único zumbi no mundo capaz de provocar ternura humana. Depois outro Júnior, entre tímido e orgulhoso vindo cá em casa mostrar o baby, ou procurando Gullar para fazer trabalho na Letras. Fora a faceta uspiano, ainda tem uma de improvável operário, e a outra, mais recente, de pai e marido. E a pergunta que sempre me vem ao vê-lo é: mas a que horas você dorme? Todos os wilsons juntos exigem parabéns distintos. Um para cada pessoa. Uma dando força à outra para que o Wilson-Junior se fortaleça, pois a vida não é para os fracos. Assim, parabéns duplicados, triplicados, e reduplicados sucessivamente na composição de um único grande desejo de alegria neste seu aniversário e realizações contínuas para esse Júnior singular, o cara. Já que tem futuro promissor por saber lutar para conquistar seus objetivos, mais que nós, meros mortais. Abraço

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Sobre bagulhos inocentes






Um comment sobre comments e sobre uma postagem no youtube sobre a marcha pela maconha.

Que é uma cambada de vagabundos de primeira não há dúvida. Burgueses maconheiros não participam de passeatas. Atores globais que cheiram pó não marcham. Não marcham donas de casa viciadas em anfetaminas. Bêbados de classe-média e alta, indiferente a qualquer lei, vão de carro. Meninos e meninas descolados não dão as caras por lá, ficam nas raves, em cruzeiros, tomando balinhas numa balada frenética e inconsciente. Maconheiros oficiais, -- filhos bastardos dos hippies, dos beatniks, dos velhos sonhos de liberdade, paz e amor -- não se escondem. E tenho simpatia por eles por sua luta ingênua e vã contra os hipócritas, contra a força conservadora dos que não toleram os diferentes e fazem apologia da intolerância, elevando militares estupradores e/ou assassinos da tropa de choque à categoria de heróis (ainda mais em PE, exemplo de paz e igualdade social). Mesmo achando maconha uma bobagem, sou solidário a todos os que têm pensamento próprio, assumem suas verdades e buscam seu caminho no caos do tempo. Não tenho simpatia alguma a esses sujeitos DOMESTICADOS e BURROS - iletrados e ignorantes, capazes de julgar outros seres humanos por causa de bermudões e chinelos chamando-os de "lixo da humanidade". De fato, não temos o povo que merecemos, e o Brasil não vai para frente porque o país não é uma carroça, embora tenham muitos asnos para empurrá-lo com vendas nos olhos e na rédeas de corruptos na maioria não-maconheiros. E uma pessoa que confunde "direitos civis" com "direitos autorais" não pode ser levada a sério. No mais, caríssimos a favor do "legalize já", tentem se pautar em argumentos, falar que maconha é lindo/delícia só bota em descrédito a causa de vocês, que deve ser respeitada, já que maconha é usada de modo terapêutico em países civilizados, para o tratamento de males que vão do câncer, à síndrome de pânico e depressão. Como então podem dizer que a família brasileira e a moral vai implodir por causa de uma bobagem de baseado. A família brasileira já implodiu há muito tempo, por conta da vertigem do consumo, da pobreza e do descaso educacional. Problema mesmo é traficante. E bem ou mal o tráfico desta droga não-letal banca também  um cem número de marginais capazes das maiores atrocidades. Então o videozinho no youtube tem que ficar, pois é relevante,  é algo sério sobre a cara do desbunde gratuito. Liberdade, preconceito, alegria e danos, tudo isso, num fuminho aparentemente tão inocente.


Inventário Precoce



Meus sentidos estão se reduzindo drasticamente. Dizem que é a idade. A memória vai mal das pernas, o estômago não se dá com o cérebro que quer sempre mais. Os olhos operados (até que recentemente),  queimam-se nos LCDs da modernidade e breve estarão de volta os óculos, provavelmente os bifocais. Reparei uns pêlos brancos no peito. Da adolescência permaneceram as espinhas que luto em combater, mas estão me vencendo. Escrevi um livro de 336 páginas. Amo árvores, mas tenho dificuldade de manter vivo um comigo-ninguém-pode. Não tive filhos, mas ajudei a criar uns primos, que me tratam de igual para igual, mas são muito meigos comigo. Virei filho-eterno da minha mãe, irmão-eterno da minha irmã, amo o meu irmão, mas de um modo difícil e sem cumplicidade. Não adquiri, apesar de certo esforço, a tão sonhada independência financeira. Ando sem saco para sair de casa, mas adoro visitas e passo horas e horas falando com amigos muito jovens. A maior parte das vezes, acho que os aborreço. Redescobri o amor pelos livros. Amo ainda desenhos animados. O sexo está melhor, pois adquiri a capacidade de rir dos desastres sem racionalizar demais as performances menos eficientes. A culpa persiste, mas já incomoda menos. Quanto a Deus, eu acredito na metafísica, e as pequenas coincidências do cotidiano ressoam em mim como confirmação de que, definitivamente, não valeria a pena ser ateu. De vez em quando eu rezo e acho que tenho algum crédito porque a infância arrastou-se num rosário longo de infelicidades. Era quieto, solitário, feminino. Disseram que eu era inteligente, comecei a escrever. Fui salvo pelas palavras. Prometi que jamais esqueceria como se sente uma criança triste. Queria morrer cedo quando tinha dezessete. Hoje acho uma bobagem e julgo tudo interessante o tempo todo. Cultivo velhas amizades, mas as novas vão se impondo com leveza e alegria. Troco o dia pela noite, porque dormir para mim, já é uma espécie de felicidade; e na noite, descubro que me satisfaz a minha própria companhia. De repente, no banho, num relance do espelho, reconheço algo do meu pai e de minha mãe. Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Drummond sempre farão parte da minha vida. Cometi certos crimes dos quais me envergonho. Sou daqueles que guardam cadáveres no armário. De vez em quando, um fantasma me visita. Tiro muitas fotografias desde quando percebi que estava apagando o passado. Diferente dos velhos cães, aprendo truques novos. Tenho a esperança de um dia escrever um conto monumental. Tenho simpatia pelos tímidos, fracos, mas que sobrevivem e se reinventam na dor. Só o menosprezo me atinge a alma. Já pensei em suicídio como toda gente. Os cães gostam de mim e eu gosto dos cães. Só quem sofreu de pânico depois de ser mordido ferozmente e jogado num rio imundo sabe que isso é uma evolução dos diabos. Entrar em lojas ficou mais fácil, mas como é difícil escolher diante de tanta variedade. Choro cada vez menos, mas choro sempre diante da beleza: do final de um livro, de um filme que me comove até os ossos. Tenho sonhos prosaicos: uma casa confortável, um tempo enorme para livros, discos, filmes e amigos, uma cadeira na universidade para implodir pensamentos óbvios e criar bons interlocutores. Uma boa paixão correspondida e intensa acrescento à lista, mas me preparo há anos para longos silêncios na tarde clara. No mais, a realização de utopias criadoras e significativas. Do meu profundo ceticismo, vejo lentamente brotar alguma coisa que me anima em relação a projetos. Dizem que tenho um futuro promissor, mas não acredito em promessas. Não criar expectativa é um método que uso para não me decepcionar. E pela primeira vez sinto que o caminho da maturidade pode ser legal.