quinta-feira, dezembro 31, 2009

A passagem do ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras expreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasta renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, dezembro 26, 2009

Este ano muitos mataram seus blogs



Este ano muitos mataram seus blogs. Se não mataram, eles foram secando esquecidos, até minguarem com postagens de uma vez por mês. Acho que seus donos estão mais envolvidos com a vida. Presos ou atentos ao ato de viver. Eu não. Eu não aparto a vida das palavras. A minha memória mais que perecível exige que tudo seja posto em registro. Vistos e revistos os momentos, os poemas, as imagens, as fotos, as canções, os acertos e os naufrágios, tudo parece ganho. Mesmo os projetos que vou deixando de escanteio ou ficaram congelados ou que perderam o sentido (porque eu já não sou mais eu), tudo me parece bom. Não, não me arrependo de nada.


Por isso o próprio REVIDE foi e voltou umas tantas vezes, marcando para mim não só as minhas mudanças, mas minhas constantes. Recuando para cada final de ano no REVIDE (que virou algo assim como um diário de bordo, vida-crônica, roteiro de viagem interna/externa, polaróides e panoramas deste meu eu todo interior), vejo que quando chega o fim do ano posto sempre (sem consciência disto) alguma citação de Clarice Lispector (quase que só ela). Faço releituras de outros autores. Digo de filmes que assisti, mas assisto a um novo Almodóvar que comento. Posto também poemas alheios que me espelham, que de repente repito. Mas posto também poemas meus, em cascata.


O REVIDE - com esse nome - não me traí, sempre volto, revejo, reatualizo o velho-Eduardo. As velhas manias, a velha obsessão de falar sobre envelhecer, sobre o tempo que passa. O REVIDE vai sendo assim minha memória (muitas, costuradas nas entrelinhas, de descobertas, de afetos, fracassos sem estardalhaço, abandonos breves, etc). Nunca enumero beijos, amantes casuais, amores duradouros, zangas de viver. Pouco contabilizo ganhos, choro a perda de fortuna, faço elenco de objetos adquiridos que me põem feliz. Arregimento lá e cá, declarações de amor às amizades novas-velhas. Desgraças entram. Entram banalidades. Listas. Ensejos. Trocas.


Abro as janelas para que vejam, quem passe, esse Eduardo que engorda emagrece pois sua alma é essa gaita de fole, aqui e lá, franzida testa, meio que pachorrento, pesando uma tonelada com suas camisetas pretas em gola vê, gosto pelo mais barato, pela rotina, mas ambicionando na cota diária sua porção de eternidade. 


Este 2009 não foi moleza, mas continua com aquela fé-insone de que o ano novo será melhor, embora não alimente expectativas demais pois tudo há de suceder no seu devido tempo. Quase todo um ser providencial. Prudente medroso, temente a Deus e fiel às certezas pequenas que defende como se fossem verdades. Nada declara. Guarda o mais importante. Imodesta criatura vítima de alergias constantes, pelos brancos brotando no peito. Adiador angustiado de seus projetos urgentes. Alma pecadora em busca de salvação pelo mal que insiste em não praticar ao lado de doses paulatinas de bem que distribui com cuidado. Não plantou árvore. Não teve filho. Não tem um livro publicado que possa chamar de seu. Sua vida poderia ser um rosário de negações: não fez isso, não fez aquilo. E nunca sabe se fica melhor em primeira ou terceira pessoa quando fala de si. Não gosta muito de viajar mas anda viajando. Correria não é muito com ele. E caminha muito José para esse onde que vai dar inevitavelmente na morte. Mas com passadas contemplativas. Um tanto banal. Prosaico como toda gente. Quer o melhor para os seus, tanto quanto para si. E acha que anda pelo caminho do meio, em dramático desequilíbrio de quem não sabe lidar com essa coisa de corda bamba, com altos e baixos, riscos com ou sem rede de proteção. Sua vida não é um espetáculo, mas vai ficando mais esperto ano a ano, mais senhor de suas passadas.  





sexta-feira, dezembro 25, 2009

terça-feira, dezembro 22, 2009

Landscape


Dias abençoados


Nas escadarias


Jô e amigo


Jo


Bancando o fotógrafo


No Jardim Botânico







Lapa dia e noite




Feirinha


Lapa, arcos e fundiçao



Rio de Janeiro
dez.2009

Nas costas do Cristo


Jardim Botânico/RJ, ontem - 21.12.2009

Rio Rio Rio


terça-feira, dezembro 15, 2009

Elaine (Lan)





A presença cotidiana faz com que a gente se esqueça de dizer às pessoas o quanto são importantes para nós, o quanto nós as amamos.

Doméstico e cotidiano




.dias de dispersão em casa.

Big ou Bri-bri





O melhor retrato do meu cão (que divido posse com minha mãe e afeto com um sem-número de pessoas).

The waste land


Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

T.S. Eliot


[Trad. Ivam Junqueira]



[Das coisas mais linda do mundo este trecho. Enigmático, mágico, daquelas coisas que eu gostaria de ter escrito].

segunda-feira, dezembro 14, 2009

O hacker


Vem meu amor
Vamos invadir um site
Vamos fazer um filho
Vamos criar um vírus
Traficar armas
Poemas de Rimbaud...
Vem meu amor
Vamos invadir um site
Vamos fazer um filho
Vamos criar um vírus
Traficar armas
Escravos e rancor...


A vida é boa
A vida é boa
A vida é bela
A vida é boa
A vida é boa
A vida é bela
Quem teme um tapa, não
Não põe a cara na tela...(2x)
Como diz meu tio
Estelionatário
Ladrão que rouba ladrão
Tem cem anos de perdão
Malandro também tem
Seu dia de otário...
Vagabundo acha que eu tô rico
Nêgo pensa que eu sou bacana
Bacana! Bacana! Bacanão!...
Quando a barra aperta
Eu faço bico
Eu aplico
Eu não fico sem grana
Sem grana! Sem grana!
Sem grana não!...
Eu me viro daqui
Eu me arranjo de lá
Quem só chora não mama
No meio do pega prá capá...(2x)
Malandro que é malandro
Não teme a morte
Malandro que é malandro
Vai pro norte
Enquanto os patos
Vão pro sul...(2x)
Vem cá, vem ver
Como tem babaca na TV
Vem cá, vem cá
A vida é doce
Mas viver tá de amargar...(2x)
Baby eu te espero
Para o chat das cinco...(4x)
Quem sabe, sabe
Quem não sabe, sobra...
Baby eu te espero
Para o chat das cinco...(6x)


Zeca Baleiro


cores de almodóvar cores




Sim. Não é um grande filme.
Não. Não existe um Almodóvar que seja medíocre.

Qualquer filme "menor" de um grande diretor é sempre maior que de uma maioria mediana.

[Sem quebrar a tradição, neste dia 13.12.2009 - eu, Ana e Tininha estivemos lá no UNIBANCO, 16h30 para sessão lotada de Abrazos rotos, do Almodóvar. Novo desvio de Pedro, a reiterada obsessão por criar mise en abyme. Um filme para pensar o cinema. O diretor cego, a encenação de velhos clichês de melodrama, a imagem que persegue personagens, atrizes que nunca cessam de interpretar, dentro da vida e na tela. A perseguição aflitiva da câmera, onde a verdade se revela e sobrepõe. Li em algum lugar que não é um filme para ser visto, que é um filme de como se é visto. Gosto dessa idéia. Para pensar. ]









Dia treze postei aqui

Sessão sofá.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

PUNK DA PERIFERIA


Das feridas que a pobreza cria
Sou o pus
Sou o que de resto restaria
Aos urubus
Pus por isso mesmo este blusão carniça
Fiz no rosto este make-up pó caliça
Quis trazer assim nossa desgraça à luz

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia

Ter cabelo tipo índio moicano
Me apraz
Saber que entraremos pelo cano
Satisfaz
Vós tereis um padre pra rezar a missa
Dez minutos antes de virar fumaça
Nós ocuparemos a Praça da Paz

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia

Transo lixo, curto porcaria
Tenho dó
Da esperança vã da minha tia
Da vovó
Esgotados os poderes da ciência
Esgotada toda a nossa paciência
Eis que esta cidade é um esgoto só

Sou um punk da periferia
Sou da Freguesia do Ó
Ó
Ó, aqui pra vocês!
Sou da Freguesia.




Gilberto Gil
1983

Despedida das turmas do Henfil



Sabe Sísifo?
Prometeu?
Sabe o círculo de Dante?
O eterno retorno junguiano?
É assim, todo fim de ano, a repetida lição aprendida,
os alunos vão, o professor fica.




quinta-feira, dezembro 10, 2009

ÍDOLOS




Eu que odiava tanto esses programas musicais, tenho que fazer a mea culpa. Gosto tanto de ouvir esses cantores. Talvez não tenham futuro. Talvez não dê em nada. Mas eu, que não sei cantar, admiro-os profundamente. O programa poderia ser mais interessante, pois é ainda muito decalcado no formatão internacional. Gosto que eles tenham deixado que querer enquadrar todos no modelo broadway, high school musical ou "brithnyano", as canções ficando mais entre um pop que flerta com a mpb. E eu me entusiasmo com os acertos, com a melhor desenvoltura dos participantes, embora saiba que não seja isso que faça surgir cantores "de verdade". Entretanto, é ótimo que haja esses programas. Fico pensando naqueles festivais da Record que puseram em evidência talentos fulgurantes. A televisão tem poder para tanto mais, mas faz tão pouco. Não acredito que funcionariam os festivais hoje, o tempo mudou, era preciso pensar num novo formato, um modelo que unisse compositores, músicos, cantores. Por enquanto, fica a alegria de ver o Diego Moraes cantar, pois há tempos que queria ver surgir uma bela voz masculina.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Maria Gadú




Sou da contradição. Ouvi Maria Gadú, achei chata, achei novidadeira. Volto, reouço. Descubro-me gostando demais, como daquelas músicas que já nascem velhas, p.ex, as "versões versadas" no cd Nego do Rennó. Será que ouço pela primeira vez sem menor cuidado só para descobrir ao reouvir? Reler contra o desconforto que provoca ler o novo a primeira vez? 


Mas gosto dela cantando o quê? O velho Chico, "A história de Lily Brown" que Gal cantou lindamente num disco que ficou lá atrás (O grande circo místico), e que a Maria Rita, cantou - recentemente - incrivelmente mal.




A versão de Gadú com sua voz estranhíssima, agora me interessando demais. Não gosto de vê-la vender-se visualmente como a Cássia Eller. Espero o Chicão crescer, e trazer Cássia de volta. Sou nostálgico, e justo. A cada qual o que lhe caiba. E ao reouvi-la, ouço tudo se encaixando no desconcerto da sua voz séria. Séria ela segue até no embalo final da Pantera cor-de-rosa, tudo contradizendo a menina sapata de pernas cruzadas, nome feio e riso tímido decalcado daquela mesma Cássia de princípio de carreira. Contudo, as vozes (louvo!) tão diferentes! A de Gadú, inclassificável, nesta terra que gera cantoras excepcionais a cada esquina.

[Cantando o "Baba, baby" da Kelly Key, ela faz o que Lily Allen fez com a música "Wominizer" da Britney Spears.]

Tudo me parecendo certo, no lugar, como nunca, e realizado de um modo inesperado. Princípio de paixão? Que venha. 

terça-feira, dezembro 08, 2009

Mais um balanço

Fui arrumar os tubos de filmes, acabei achando o Morte e vida severina. Então, fui lá na estante reler O cão sem plumas, que é o poema do Cabral que mais amo. E me lembrei de Os três mal-amados, que copiei à mão num almaço na Biblioteca de Mauá. Poema que reli tantas e tantas vezes até decorar quase inteiro, depois de datilograr (lá no Correios, quando era escriturário, o verso verde de uma nota de encomendas). Tudo para guardar, para lembrar. Entrei aqui no Google, pus os versos iniciais de memória, e eis o poema inteiro - como me lembrava, sem dificuldade, sem busca. Esse é o meu tempo, pois é o tempo em que estou vivo. E sou jovem demais para ter aquela nostalgia feliz dos que viveram o grande mergulho para dentro da vida. Se arriscaram, amaram demais, fizeram filhos que criaram bem ou mal. Gente que traiu, xingou, ganhou/gastou o dinheiro, perdeu tudo, montou casa, agora a aposentadoria chega. Estou anos luz de aposentadoria. De concretizações sérias, de desesperos de amor. As minhas conquistas são tão somente no plano da interioridade, fora de mim meu mundo é quase semovente, imutável. Atávica criatura que vê pela janela as ondas que batem no mar sem o desejo de viagem que não passe por seu rosto.
*

É nessas horas que penso que tudo anda ficando antigo. Tudo que está para trás devolvo ao presente para me reorientar. Mas nada nunca esteve longe demais. Estou continuamente relendo os livros e pouca coisa mesmo tem me despertado o interesse. Deve ser a tal maturidade. Estou em choque com a velocidade presente, com a mania de novidade esfuziante, entediado com as imagens em excesso, das palavras em profusão, explosões e pirotecnias. Quero a calma, estou pela calma. Viagem sem pacote turístico, sem planos de aproveitar o sol. Sei que a maturidade nos desacelera, nos faz mais seletivos, focados no que é premente e necessário. De repente, a saudade desses amigos novos que não revejo, que são fotos, mensagens cada vez mais curtas e escassas no orkut.

Boto em pauta esse compromisso, longas conversas (presenciais) descompromissadas com amigos para o futuro mais próximo.

Os Três Mal-Amados

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Luis Buñuel


Lendo "Meu último suspiro" e gostando muito.

Não me apetece nem um pouco passar em revista todos os meus filmes e dizer o que pensod eles - não é a mim que cabe fazê-lo. Além disso, não creio que uma vida possa ser confundida com uma obra. Eu gostaria apenas, depois de todos esses anos mexicanos, de dizer a respeito de cada um desses filmes que guardei, o que me impressionou (será frequentemente um detalhe), recordações que talvez ajudem a conhecer o México de uma maneira diferente, pelo viés do cinema.

*

De repente




De repente, quando a gente acha que tudo já foi dito nesta arte, jamais haverá algo que ombreie Quino, Charles Schulz ou Bill Watterson surge Liniers. E um universo extraordinário se abre, cheio de humanismo, beleza, inteligência, sensibilidade - o mundo da menininha Enriqueta que se povoa dos livros que lê, desse gato Fellini, onírico, e uma galeria de personagens que corrompe os limites do quadrinho para transcendê-lo. Entre pop e o erudito, entre o poético e o crítico, Liniers com seus personagens insólitos (o coelho alter-ego e seus pingüins questionadores), viola o cinismo do nosso tempo com sua poética a favor do humano.