segunda-feira, agosto 31, 2009

Da preparação à exposição na EMIA


Trabalho que desenvolvi com meu amigo Celso Cardoso (as fotos são dele). O evento ocorreu na sexta passada. No salão de convivência optamos por móbiles para que as pessoas pudessem se mover e tocar as fotos e reconhecerem-se (no caso dos ex-alunos e/ou entrevistados). Os textos suspensos pertencem aos entrevistados, a idéia era pegar frases mais significativas como insights rememorativos. Acho que ficou bonito, até nas transparências. Os textos maiores de apresentação das salas e trabalhos são meus, e uns refletem sobre o tempo, a experiência, e a importância do fazer artístico.

Dia 30, aniversário da Marismárcia

Eu e minha irmã, agosto 2009.

Jimbo no jazz

É xis, é dabliú e ipsilone
Quando Jimbo no trombone
Se zanga e jonga no jazz.

Samangos e candangos no fandango
Dão até tangolomango
Com as firulas que ele faz.

As quengas, quando escutam a pererenga,
Entram na sacurupemba
Provocando bafafás .

Jimbo batuca, toma timbuca,
Jimbo é maneiro demais:
Risca tuia na fundanga
E faz jongo no jazz.

Um dia, um bangalafumenga já meio tungado,
Gago, gungunando, banzando um bocado
Indagou do Jimbo que joça era jazz.

E o Jimbo, ziguezagueando a vara do trombone
Fez dois dabliús e três ipsilones,
Dois passos pra frente, dois passos pra trás.
Então, o samango, mondrongo, mumbungo, piongo,
Largou da rezinga e caiu no fandango
Gostando e sacando que o jongo é um jazz.
E o jazz e o samba e a milonga e o tango e o candombe
E a rumba e o mambo, tudo é lá do Congo
E é essa a mironga do que o Jimbo faz.

[Francisco Bosco & Ney Lopes]

[Sabe quando você descobre uma canção que de tão irresistível não consegue parar de ouvir. Esta é uma dessas, está no disco novo do João Bosco - Não vou para o céu - onde está também "Ingenuidade". Disco que marca o retorno da parceiria com Aldir Blanc. E João Bosco canta lindamente, com e sem aquelas "firulas" características, e nesta canção, mais que necessárias.]

domingo, agosto 30, 2009

Pedrerico ou Das pequenas epifanias


... aí ele me olhou e abriu um grande sorriso:

- Você está me fotografando, não é não, tio?

E eu, meio que constrangido do flagrante fiquei assim, um tanto mudo, intimidado.

Mas ele sorriu mais ainda, e disse:

- Vai, tá esperando o quê?

E abriu um terceiro sorriso ainda maior para mim.



E eu pensei muito comigo: essa cara é a cara do amor.

sexta-feira, agosto 28, 2009

O que você fez antes de crescer

Amanhã será a abertura da exposição da ESCOLA MUNICIPAL DE INICIAÇÃO ARTÍSTICA ARON FELDMAN, produção e concepção geral do meu amigo Celso Cardoso; e que traz seu ensaio fotográfico sobre a reconstrução da casa-sede da Emia. Colaboro com textos, e também com a seleção de trechos de entrevistas e fotos para o projeto. O vídeo do trabalho foi editado por Alex Moletta, e dirigido um tanto pelo Celso e alguma coisa por mim. Por conta dos mil trabalhos, ficou agora para ele pôr de pé a obra. Deus abençoe-o, abençoe-nos. Os melhores pensamentos para estréia e o orgulho grande de ter participado. E deixo abaixo o convite aberto.

quarta-feira, agosto 26, 2009

DORMINDO

Hoje num nível de exaustão incomum. Dormi muito, levantei apenas para ir ao dentista. Voltei para casa me arrastando. Dormi novamente. Acordei as 16 horas. O dia acabou rápido, escapou, escapuliu, e deixou o cansaço. Que cansaço é esse?

As 36 situações dramáticas de Georges Polti

Georges Polti dizia que para se ter uma história de sucesso devia-se tratar de temas que o leitor já tenha vivido e com os quais possa se identificar. Em 1870 ele reuniu em um livro as 36 situações dramáticas que expressam todas as emoções capazes de sensibilizar o gênero humano.Escolha uma delas e mãos à obra:

(1) Implorar; (2) o Salvador; (3) a Vingança que persegue o crime; (4) Vingar parente por parente; (5) Acuado; (6) Desastre; (7) Vítima de; (8) Revolta; (9) Tentativa audaciosa; (10) Rapto; (11) o Enigma; (12) Conseguir; (13) ódio de parentes; (14) Rivalidade com parentes; (15) Adultério mortal; (16) Loucura; (17) Imprudência fatal; (18) Crime de amor involuntário; (19) Matar um parente ignorado; (20) Sacrificar-se pelo ideal; (21) Sacrificar-se pelos parentes; (22) Sacrificar tudo pela paixão; (23) Ter que sacrificar a família; (24) Rivalidade entre desiguais; (25) Adultério; (26) Crimes de amor; (27) Ser informado da desonra de um ser amado; (28) Amores proibidos; (29) Amar um inimigo; (30) a Ambição; (31) Luta contra Deus; (32) Ciúme equivocado; (33) Erro judiciário; (34) Remorso; (35) Reencontrar; (36) Perder a família.

terça-feira, agosto 25, 2009

Charles Ray (escultor)




[Sim, eu tenho certo horror às esculturas humanas de Charles Ray, pois elas nos desnorteiam com sua desconcertante imperfeição e violência, ainda que vendo-as, saibamos que não são reais. Então por que o desconforto? A aversão? Por que a náusea? Será por que os humanos de Charles Ray nos horrorizam justamente pela exposição explicita de sua nudez, seus desejos difusos, sua grotesca passividade?]

[Nunca houve um homem (um manequim) mais nu.]

segunda-feira, agosto 24, 2009

Sticker

Sem ruído (matéria)

SEM RUÍDO

Tiveram um começo difícil, mas aos poucos aprendeu a amá-lo à moda de Estocolmo.

*

Saboreava tranquilamente a sua marmita, quando, num estalo, percebeu seus grilhões.

*

Folheava em vão o grande católogo de assuntos. Tudo falava dela. Deixou o passado para trás e recomeçou a canção.

*

O impacto dividou seu corpo em dois, mas só conseguia pensar: vou chegar atrasado de novo.

*

Sabia da urgência, mas achou que um donut a mais não faria mal a ninguém.

*

Já estavam há 5 horas conversando e tinham muitos assuntos em comum, mas foi no silêncio que descobriram suas incompatibilidades.

*

Visivelmente desconfortável, saiu fantasiado de esperança. Foi encontrado nu ao relento, coberto de decepção.

*

Ferro incandescente. Olhos bem abertos. Finalmente, um novo ponto de vista.

*

Nos seus quase 50 anos de rua, nunca tinha visto aquilo. Cansou de esperar na fila do banco e sentou na sarjeta mesmo.

*

Ela olhou pra ele. Era melhor quando era platônico.

*

Sentiu-se envergonhado. Era o único vestido.

*

Estava a poucos segundos de perder tudo o que tinha conquistado. Tateou seus bolsos em busca da salvação. Game Over.

*

Era um pequeno empreendedor. Diante da oportunidade de lucro, não se importou em perder alguns dentes


[Alguns microcontos do grupo Sem ruído, publicados na Revista da Folha, de 9 de agosto de 2009. A proposta parece ser produzir contos literários com 140 caracteres. A base é o Twitter. A literatura surge agora como INTERVENÇÃO, na linha dos grafites, dos stickers. A qualidade deste contos de incrível síntese é inegável. O que me faz novamente pensar que vemos lentamente nascer uma nova geração de autores, criativa e com coisas a dizer.]


PARA LER MAIS

www.twitter.com/semruido

Um dia substantivo

o torcicolo
a chuva
a visita da rô
a carona até a casa da Tininha
a carona da irmã para estação
o trem
o ônibus
o cão
o filme ruim

2 horas da manhã.

sábado, agosto 22, 2009

Théatron


Théatron em grego é o "lugar onde se vê".

Mais que um lugar físico, é arte antiga, ritualística. Das áreas traçadas magicamente aos campos lúdicos, o teatro transforma palavra e ação em experiência presente, que só se realiza diante de um público que o assista e sinta.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Não me interesso pelo que o Chico diz


Eu não me interesso por aquilo que o Chico Buarque diz. Chico é o homem banal. Eu me interesso pelo que Chico compõe, aquele Chico que pode ser qualquer um (qualquer uma) quando canta (não quando escreve). Quando prosa, Chico é sempre o negativo dele mesmo: anti-herói sem virtudes, casmurro perambulando cambaio numa narrativa sem enredo. Tacanhos, tristes, peripatéticos, falta a seus homens transcender a visão limítrofe do mundo. Falta ao autor meter alma dentro de suas almas de papelão. Talvez por isso tudo nos soe vazio e tedioso em seus romances: estranhos nomes de mulher, vidas sem sentido, uma família que não está lá, um país que não é nunca o seu. E para o maior espanto, ele que já nos deu tanto o que pensar em versos precisos, dos seus romances (num portugues traçado e bem escrito mas sem surpresa), nenhum dito marcante ecoa, uma palavra memorável sequer: Inania verba, Rosa, a sua prosa?
*
Todo romance de Chico Buarque nega o compositor Chico Buarque (ao contrário do teatro). E sempre me espanta que ninguém diga isso.
*
Chico para mim não existe em prosa. Chico só existe enquanto verso rimado e ritmado onde tudo faz sentido. Um verso nada ordinário que torna admirável o homem-Chico.

De novo o velho Caetano


Para mim Caetano não é "cê", Caetano é "eu". Caetano é mais Caetano na primeira pessoa.

Provérbio

Voltando a ELCV. Reunião. Provérbios. Criação.

segunda-feira, agosto 17, 2009

La teta asustada

Extraordinário. Não há uma cena que não seja um grito de cinema. A descoberta de uma atriz e de uma diretora.

sábado, agosto 15, 2009

Arraste-me para o inferno, um post feliz

o horóscopo prometia um dia bom. eu que ando descrente, achei que era bacana fazer o horóscopo acertar esse dia. liguei para meu primo Márcio (que levava quando criança sempre ao cinema e atualmente, menos do que deveria, levo a filhinha dele que é criança), liguei e fomos ver ARRASTE-ME PARA O INFENO. sabe um filme sem nenhum compromisso? um filme assim só para assistir? assistir daquele modo descuidado? assistir com pipoca e refrigerante? filme que dá susto, a gente salta da poltrona? filme para pouco temer ou para rir um tanto também? um filme meio assim "sessão da tarde"? sabe um filme para só divertir sem ter muito que sofrer porque a vida não é ideal? um filme para esquecer? lembrar como um dia feliz; no futuro. como coisa boa do passado? pois é. eu fui ao cinema-stadium de Mauá. R$7,00 com a velha carteira de professor. [Pensando: depois dessa maratona que são minhas aulas de sábado, o necessário anti-repouso. talvez para fechar o dever com alguma alegria. com filme, conversa e a renovar esse vínculo amigo que anda ficando raro.] tudo para afirmar que o circunstancial também faz a vida plena. ou tudo, simplesmente, para que pusesse ter matéria para este post no final do dia?

[a vida é mais que qualquer escrito]
[e viva o Sam Raimi que sempre me faz feliz]
[agosto.2009]

O rapaz mais triste do mundo


O rapaz olha os próprios braços e diz: eu sou tão magro, vê? Quando abraço uma mina - ele fala assim mesmo, mina, e o homem pisca ligeiramente, discreto, para não sublinhar o abismo de quase vinte anos - fico olhando para os meus braços frágeis incapazes de abraçar com força uma mulher, e fico então imaginando músculos que não tenho, fico inventando forças, porque eu sou tão fraco, porque eu sou tão magro, porque eu sou tão novo. O rapaz olha em volta seco, nenhuma sombra de paixão em seu rosto muito branco, e diz ainda: eu quero me matar, eu não entendo estar vivo, eu não tenho pai, minha mãe me sacode todo dia e grita acorda, levanta, vadio, vai trabalhar. Eu quero ler poesia, eu nunca tive um amigo, eu nunca recebi uma carta. Fico caminhando à noite pelos bares, eu tenho medo de dormir, eu tenho medo de acordar, acabo jogando sinuca a madrugada toda e indo dormir quando o sol já está acordando e eu completamente bêbado. Eu nasci neste tempo em que tudo acabou, eu não tenho futuro, eu não acredito em nada - isso ele não diz, mas eu escuto, e o homem em frente dele também, e o bar inteiro também. Então o homem responde, com essa sabedoria meio composta que os homens de quase quarenta anos inevitavelmente conseguiram.

Ele, o homem, passa a palma da mão pelos cabelos ralos, como se acariciasse o tempo passado, e diz, o homem diz: não tenha medo, vai passar. Não tenha medo, menino. Você vai encontrar um jeito certo, embora não exista o jeito certo. Mas você vai encontrar o seu jeito, e é ele que importa. Se você souber segurar, pode até ser bonito. O homem tira a carteira do bolso, pede outra cerveja e um maço de cigarros novinhos, depois olha com olhos molhados para o rapaz e diz assim. Não, ele não diz nada. Ele olha com olhos molhados para o rapaz. Durante muito tempo, um homem de quase quarenta anos olha com olhos molhados para um rapaz de quase vinte anos, que ele nunca tinha visto antes, no meio de um bar no meio desta cidade que já não é mais a dele. Enquanto esse olhar acontece, e é demorado, o homem descobre o que eu também descubro, no mesmo momento.

Aquele rapaz de casaco preto, algumas espinhas, barba irregular e pele branca demais - este é o rapaz mais triste do mundo.

[conto homônimo de Os dragões não conhecem o paraíso, de Caio Fernando Abreu]

sexta-feira, agosto 14, 2009

Periquito ou Lovebird


Era dos que amavam vasculhando bolsos?

[Adoro o nome dos periquitos em Inglês: lovebirds. Pois só vivem aos pares e se um morre, o outro morre em seguida (dizem). Se colocarem números ímpares em gaiolas, uns matam os outros, são possessivos. Periquitos são periclitantes trocadilhos.]

O curta do André Okuma na luz do Celso Cardoso



EM CARTAZ.

Trailler


[O orgulho grande de ter esses amigos artistas: Okuma e Celso.]

quinta-feira, agosto 13, 2009

No labirinto

“No século passado, as aristocráticas mansões de campo inglesas ostentavam belos jardins e, neles, labirintos de cerca viva. Por esses labirintos, caminhava-se para relaxar, meditar e, às vezes, como pode acontecer em qualquer labirinto, se perder. A planta usada para constuir os labirintos era o teixo, cujas pequenas folhas verde-escuras e ramos retorcidos formam arbustos bem compactos, ideais para as paredes grossas e altas dos labirintos. Outra característica do teixo é, como sabem os jardineiros que o podam, conter um venenoso alcalóide que em contato com a pele causa torpor e, se ingerido, pode ser fatal.”

Resenha extraída da Veja 16/12/98

[Do teixo, o sobrenome Teixeira]

terça-feira, agosto 11, 2009

Il y a longtemps que je t'aime


Dois filmes um tanto melancólicos que me deixaram feliz.

Balanço

Hoje, como ontem, e ontem como no dia anterior. A sensação de pesadelo de correr sem sair do lugar, de socar sem ferir, de mirar sem atingir o alvo. Uma espécie de catalepsia voluntária, às vezes, de inércia, letargia, de muro emparedando, cômodo de 1x1.

Terminei o conto. Corrigi procrastinados trabalhos, botei nota. Simulei para mim a vontade de concluir trabalhos pendentes. Assisti a dois filmes bons e muitos pedaços de outros sem poder dizer que os vi. Desejo grande de não estar onde estou, mas ânimo nenhum de sair. Aquele gosto de reler velhos livros, ver comédias americas, tudo para não deparar com novidade alguma. Algumas saudades misteriosas que não me animam. Uma mensagem tristíssima de um amigo de colégio que bateu as 3h07 da manhã há dois dias, lembrando-me que estou tão só quanto todos, seja a noite fria ou quente.

Agora, a sensação aflitiva de que tudo está bem, mas não estou melhor. Então eu que já quase não rezo rezei por mim. Lembrei que durante um período eu pensei que enlouqueceria pelo excesso de tudo e nada conseguir realizar, reconhecendo essa mesma sensação de estar pela tampa e completamente insatisfeito.

Quando fico assim, a solução é a mais radical mudança de direção, antes que tudo comece e se imponha passado irresoluto no ano que começa a acabar.

Medieval

domingo, agosto 09, 2009

"O estudante empírico" (frag.)

Saem das suas caixas os mistérios:
desenrola-se o mapa dos ossos, com seus nomes;
o sangue desenha sua floresta azul;
cada órgão cumpre um trabalho enigmático:
estamos repletos de esfinges certeiras.

Cecília Meireles

sábado, agosto 08, 2009

REvidado antigo

Seu post de tão bacana só pode ser ficção. Fiquei matutando umas pautas possíveis para Regina Volpatto (aquela loura que num tropeço vira inglesa, tão adequada ao Casos de família, quanto uma girafa num presépio).

As minhas sugestões de matéria:


1. Meu filho gosta da Madonna, mas não é gay.
2. Meu marido me espanca porque sou sado-masoquista.
3. Minha esposa não fala comigo desde que ficou viúva.
4. Sou paulista, mas tenho nojo de pizza.
5. Só chego ao orgasmo através do ponto G, mas meu namorado é analfabeto.
6. Desde que me tornei profissional do sexo, papai e mamãe não entram lá em casa.
7. Minha esposa tem ciúmes do meu vibrador.
8. Sou cego, mas enxergo longe.
9. Minha filha me trocou por Jesus Cristo.
10. Meu marido judeu não me procura porque acha que sou porca.
11. Sou profeçora formada em encino adistansia, mais naum axo imprego.
12. Meu marido é zabumbeiro, mas não dá no couro.
13. Fomos barrados na cota para negros do Prouni por sermos albinos.
14. Sou evangélica, mas meu médico se recusa a me atender sem o Papa Nicolau.
15. Sou Pai-de-santo, mas também sou filho de Deus.
16. Sou virgem, mas meu futuro marido não acredita em signos.

sexta-feira, agosto 07, 2009

+ do Rio


Não há casas à venda no bairro das Laranjeiras, onde comi um peixe maravilhoso que me faz saudade. Ali no Cosme Velho, eu me surpreendi que no pé do Cristo haja uma igreja em forma circular, e atrás um altar para se pôr velas e ofertar placas de trânsito coloridas com letras felizes de graças alcançadas. E na totalidade, elas falam de filhos aprovados em universidades, concursos públicos, cursos de inglês e ensino médio. Ex-votos de um país em que educação e emprego são graças concedidas a fórceps por Jesus.

*

Do Rio, sempre aquela impressão de que o dia útil se converte em passeio porque a dois passos de onde se esteja, a paisagem se abre à contemplação.

*

E a violência é uma falácia de noticiários, que contrastaria, se conosco sucedesse a menor fatalidade que fosse. O Rio ilude-nos com sua exuberância-cachorra, a gente fica aquele menino que vê o mar pela primeira vez. Como tudo que não se vendo, se abre à entrega descuidada do viajante.

quarta-feira, agosto 05, 2009

Dilema: O culpado da morte de Sônia

Sônia, 30 anos, passa por uma grave crise no casamento. Tendo abdicado a uma carreira em favor do relacionamento, se vê abandonada pelo marido cujo principal foco é o trabalho, preterindo-a em favor do objetivo de enriquecer por meio de uma empresa de mineração. Sônia, fragilizada, deixa se seduzir por um desconhecido que encontrou na fila do teatro municipal. Com o pacto de nunca revelarem seus verdadeiros nomes, resolvem passar a noite juntos, em um pequeno chalé situado numa ilhota pouco distante do litoral, separada por uma ponte. Pela manhã, um tanto arrependida, Sônia parte cedo sem se despedir do amante, seu objetivo é chegar antes do marido (em viagem) e propor-lhe uma conversa franca sobre a relação. Segue rumo a ponte, mas ao tentar atravessá-la é surpreendida por um louco violento, que a persegue, o que a obriga a fugir. Como à margem do rio há um barqueiro, ela tenta contratá-lo para levá-la ao outro lado, mas neste instante percebe que perdera na fuga sua bolsa. Ela relata o ocorrido na ponte e promete pagar-lhe mais tarde, mas mesmo assim ele se recusa a atravessá-la. Desesperada, Sônia roga por sua piedade, mas ele se mostra irredutível, afirmando depender daquele dinheiro para custear o tratamento de um filho doente, e levá-la sem garantia de pagamento, equivaleria a perder outros clientes pagantes. Sônia retorna então a casa do amante e pede sua ajuda, mas ele se recusa a dar-lhe o dinheiro sem qualquer explicação. Ela então procura um amigo que mora na ilha e que nutre por ela um amor platônico ao qual ela nunca correspondera, razão que a fizera se afastar, não apenas para não fazê-lo sofrer, nem despertar-lhe falsas esperanças. Franca, Sônia lhe conta da indiferença do marido, da traição com sedutor canalha, do louco, do barqueiro, e se diz sozinha, podendo contar apenas com sua amizade. Sônia lhe pede o dinheiro necessário para retornar a casa, mas sentindo-se traído, ele se nega a emprestar-lhe uma moeda que seja. Magoado, ele se diz desprezado por ela, já que o procura tão somente quando necessita de algo. Sem alternativa, Sônia retorna à ponte e aproveitando a distração do louco tenta atravessá-la, mas é apanhada por ele, violentamente espancada, e morta.

A questão é: quem é o responsável por sua morte por ordem de culpabilidade? A própria mulher, o marido, o amante, o amigo, o louco ou o barqueiro?

O visitante


Pequeno, belo e triste. Os tambores magníficos. O professor universitário melancólico. A negra lindíssima. E aquela atriz que ilumina a tela.

Enojado


Enojado, para dizer o mínimo. Indigno, indigno, indigno.

Tarja Preta, contos

Dos diversas coletâneas de contos que comprei, Tarja Preta foi das melhores surpresas. Como gosto de ler saltado, destaco "Frontal com fanta", "Serial killer", "Sem remédio" e "O quinto elemento", ou seja, todos os contos que li até o momento. O preço, comigo é nada de Cultura ou FNAC, lá estava R$35,00 e eu paguei R$13 num sebo simpaticíssimo na descida da Augusta. Agora tento abrir mão do meu preconceito com outros "autores" e ver se não destoam destes que li. Em paralelo, estou sofrendo com Os cavalinhos de Platiplanto, do José J. Veiga a quem estou me forçando ler, anotar e pensar.

*
Sobre ti, qualquer um julgar-se-á no direito de tripudiar, sobretudo aquela vizinha que não bebe, não fuma, pertence à Igreja Universal do Reino de Deus, curte (nesta ordem) Adriane Galisteu, Ratinho, barbecue e o padre Marcelo Rossi. Ou a filha da vizinha que há quatro anos ganhou da mãe um aparelho de caraoquê apenas para cantar catatonicamente dia após dia, mês a mês, ano a ano, a abertura do programa da Xuxa: na cultura de massa, a imbecilização infantil é um fato. Quer nasçam com 40 ou 140 de QI, aos 8 anos todas se nivelam pelo mesmo índice de imbecilização globalizada. Ou o marido da vizinha, um fundamentalista paulistano de chinelo, cujo secreto herói cultural sementalista paulistano de chinelo, cujo secreto herói cultural seria um mix de George Bush, Nero e a Cuca. Afinal de contas, todos eles são politicmente corretos e você não, meu bem. (p. 125)

Márcia Denser

*

Frontal com fanta, de Jorge Furtado
Serial killer, de Adriana Falcão
Sem remédio, Luiz Ruffato
A noite, de Isa Pessôa
Dondon experiência, de Pedro Bial
O quinto elemento, de Márcia Denser
A química da ressurreição, de Jorge Mautner

segunda-feira, agosto 03, 2009

Frank Sinatra Has a Cold


Frank Sinatra, segurando um copo de Bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk-rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa idéia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu qüinquagésimo aniversário.

Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da Imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com 20 anos, que aliás não deu as caras naquela noite; estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que ia ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da Máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado “Sinatra – um Homem e a sua Música”, no qual ele teria de cantar 18 canções com uma voz que, naquela ocasião poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a considera banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.

Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível — só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma jóia que não dá para pôr no seguro – a sua voz –, minando as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece também provocar uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.

(fragmento)

Gay Talese