terça-feira, junho 30, 2009

Sentindo saudades do Sonic

Hoje eu acordei, estava frio, então eu senti saudade grandes de mim, dos meus irmãos, meus primos, a gente assim, só, no tapete da sala de casa, sem efeitos especiais (ou defeitos contemporâneos). Eu senti uma saudade de nós, sentados, jogando o Sonic.

segunda-feira, junho 29, 2009

Cabeça vazia: oficina do diabo



Uzyna Uzona - O banquete
[Uns dias atrás]

Revidando o Blog Projetando uma nova vida

Às vezes não conseguimos ver a floresta por causa das árvores.


Adoro paradoxos, oxímoros, contradições e hipérboles: recorto, colo, propago.

domingo, junho 28, 2009

Quatro horas no Oficina


Ontem, no Teatro Oficina, assisti à peça O banquete. Bela e apoteótica introdução, momentos espetaculares, mas de repente, o crescente incômodo daquele longo "discurso" rimado e infinito, cada um dizendo-se. Atores, nenhum personagem em cena, construído, emulando a voz do Zé. A crítica velha aos americanos. A crítica velha à Igreja. A crítica velha até aos outros encenadores. [Crítica à onda de monólogos-auto-ajuda. Mas ali presente, não eram os atores, monologando? O contracenar resumindo-se ao contato físico, à fricção coreografada (sem desejo) para choque de uma platéia aberta ao que se vai mostrar? Onde o bom do banquete? A autêntica festa?]

Sem embargo, a sempre irrefreável entrega dos atores, a fé em Zé Celso, na contramão, santificado, beatificado, o pai a cujo nome não se admite nunca (críticos excomungados!!!) que se diga em vão. Modernidade teatral: música ao vivo, caos uterino, peitos e paus? Sequências de vídeo nos telões? Cacilda! Matéria muita já discorrida em sertões e outras bacanálias. Hasta el momento: a felicidade de um São João circense sobre os andróginos e a separação dos sexos (para alegria de um público exausto). Faustosos cestos de frutas, algumas ostras, algum vinho à platéia pagante, mas insuficiente (Ali confesso, fez falta algum torpor). A língua do mestre no discípulo mais belo, louvação à pederastia. Nessa hora as velhinhas levantaram e foram-se para nunca mais. Gozaram delas, daquele momento Jesus, a hóstia saída de uma latinha de coca-cola do evangélico-yuppie-homem-bomba. Se é para o sagrado, por que a dessacralização? Por que não Dionísio no altar como São João? Eu querendo a conciliação. Tudo formas de ser. Necessário pontuar essa inegável convergência de forças. Apolo e a Paixão, a razão de ser Baco-Dionísio pedagogicamente mediado? Carecemos, nova catequização pelo corpo, quando do corpo, todo discurso (o mais elaborado) se esfacela?

Tudo tão lindo de se ver, a beleza gritante de atores/atrizes saídos daquele Satyricon de Federico Felini. Os corpos colados na platéia, de colchões, para o público sentir-se convidado.

Um dos achados: Um menino-Eros saído de um quadro de Caravaggio (ia dizer - profano: tal imagem e semelhança). A excelente sacada que converte a pomba-gira em Virgem Santíssima, com o azulado manto de ascensão. O pior: um ator muito ruim no desfecho, tornando tudo arrastado e enfadonho, e a toalhinha na cintura numa peça em que o pudor não faz qualquer sentido (destoa da dita entrega ao desejo/combustível/vinho de Zé-Celso).



Gostei da peça. Recomendo, mas não acompanho. ExCelso é salutar para pudicícia atual redescoberta. Só que o Oficina é para os bravos. E eu sou fraco, espectador espinhudo, calvo, falso inibido. Mais que elogio, só digo até onde mal alcanço (sujeito à excomunhão como detrator do santo-pecador). Ainda "crente" de que a hipérbole esvazia o significado. Por isso a certeza de que tudo poderia ser melhor-maior-inesquecível se Zé Celso, fúria-dionisíaca do teatro, fosse para cama com a deusa Síntese.

Livro

Na sexta, comprei um livro novo no sebo de Mauá:

Iniciação ao Teatro, de Sábato Magaldi

sexta-feira, junho 26, 2009

Iara

Iara só gosta de ilha
discreta pra namorar
Iara parece uma pilha
ligada no tchá tchá tchá

levava os seu amantes
pras loucuras em Paquetá
brincava de troca-troca
lá na ilha Porchá

Iara é uma garota de Cuba
danada pra namorar
fugiu com um brotinho pra Aruba
antes de vir para cá
streap-teases em Puerto Rico
nos cassinos de Trinidad
fez do Amazonas seu Nilo
e de São Paulo Baguidá

Iara iarucha, Iara iarucha, iarucha cha

só pra namorar



Orquestra Imperial

Porque eu gosto tanto da Orquestra Imperial



Porque eu gosto gosto gosto tanto da Orquestra Imperial

Microconto


Jaime de Railda disse antes de morrer que tinha falado com um peixe. Não conte isto a ninguém, disse Jaime, mas um peixe enfrenta muitas dificuldades.

João Ubaldo Ribeiro

Dia


Ontem, esqueci o celular na mãe.
Fui despertado com um telefonema preocupado.
Dormi muito tarde, acordei muito cedo, mas cheguei no horário.
O dia frio e chuvoso, poucos alunos, mas doces, atenciosos.
Mp3 novo já pifado, e eu não tenho amor por ele.
(E fico quase inteiramente contente por poder ouvir parte
do cd da Orquesta Imperial)
Ônibus para o Pignatari, chego dez minutos com atraso na ELCV.
Ligo para Elaine, Luquinhas chega depois.
Projeção possível de vídeos. Aplausos. Estamos um tanto quanto orgulhosos.
Pego câmera com Celso, fitas. Compromisso para Domingo.
E a grande foto feliz da conclusão, pré-festa/apresentação sábado.
Rush no trem (terça): eu e Luquinhas no trem com cadeira de rodas.
Ganhei do Alex programa de edição, curso e plugin.

De volta, os livros que comprei:

- A Alegria, 14 ficções e 1 ensaio.
Vários autores contemporâneos(Publifolha);
- Livro de histórias, de João Ubaldo Ribeiro (Círculo do Livro);
- A máquina peluda , de Ademir Assunção (Ateliê Editorial);
- A orelha de Van Gogh, de Moacyr Scliar (Cosac & Naify);
- A cabeça, de Luís Vilela (Cia. das Letras).

R$ 55,00

[Sebo do Carlos: Poesia e Companhia.]

De volta às aulas, exausto até as 10h30.
Boa conversa com Tércio sobre literatura contemporânea
Em casa, agora tarde, a ausência constante do sono de quem anda por demais cansado.

terça-feira, junho 23, 2009

Cartão de aniversário para o Eduardo Santinon


Há pessoas que não existem. O Eduardo Santinon é um cara que não existe. O Eduardo é da mesma classe do meu sobrinho Lucas, que também não existe. Na categoria de uma amiga que amo, a Margarida. A Margarida também não existe. Assim como o Douglas (Funny), que não ando encontrando muito. O Douglas também não existe. Tento lembrar de mais gente dessa espécie (a das pessoas que não existem) e não consigo. As pessoas que não existem são raras. (Se eu disse quatro, é por que eu as coleciono). Há gente na vida que nunca deu de cara com uma sequer. Eu tenho sorte.

No Eduardo, eu esbarrei por conta de Letícia, sua irmã, foi ela quem nos apresentou*. Estávamos lá na padaria/pizzaria perto da Augusta: Marcela (na mineral existência dos que existem); a Letícia (que existe com certo desespero), o Rodrigo (re-existindo sempre), e o Lucas (que existe numa espécie de saudável melancolia de quem tudo espera do amanhã, mas tem dúvida se a espera vale a pena), quando o Eduardo Santinon apareceu. Eu, que existo aos trancos e barrancos (no maior esforço para tão somente ser), reconheci de imediato a não-existência do Edu, e me senti feliz por ele carregar por aí o mesmo nome que o meu com uma leveza marota/maloqueira que não pratico.

As pessoas que não existem possuem uma espontaneidade que nos desconcerta. Estão na vida, como quem dá volta na praça, e é sol, e há banco, e grama, e por que não sentar um pouco e tomar sol? Cada encontro conosco de relance na rua com parada para abraços. Dizem bom-dia com interesse na resposta. Sorriem risos grandes e evidentes. Declaram seu amor-amigo com uma sinceridade que nos vexa. E porque nos parecem tão ingênuos ou frágeis, despertam irremediavelmente em nós imediato desejo de protegê-los.

As pessoas que não existem usam mal as palavras, pois insistem em conferir a elas significados que não possuem, nisso extraem (como leite das pedras) uma estranha forma de poesia. E sem perceber, estamos contaminados, falando a estranha língua inventada por eles, um modo (deles) de ver/pensar o mundo.

Estão todos sempre ávidos para amar o amor, por isso são desastrados, esbarram, indelicados, trôpegos tropeçam, atarantados tropicam: mil corações partidos, aorta fica/deixam danificada com flechas partidas, a alma saindo pela boca de fugaz amor/desamor feito jogo de malmequer.

São desatentos por natureza, por isso contam apenas com a orientação dos astros, dos ventos contrários, dos apitos, dos homens verdes nos semáforos. O que os guia é o acaso-estrábico, a sorte-desbengalada. O futuro bom ou mal: mero acidente. Por causa disso, oscilam entre o otimismo cego e (trágicos e hiperbólicos) a abismal desesperança.

São, normalmente, gente de família. Família original ou inventada, já que têm mania de arregimentar pessoas a quem conferem status de camaradas, irmãos, primos, filhos, tios, padrinhos, madrinhas etc etc. Famílias imensas, pois uma só parentela não basta aos que não existem.

O segredo, o modo melhor de identificá-los, não é pelos olhos, mas pelos olhares. Pessoas que não existem quando nos vêem, seus olhos não nos perscrutam como escaners de mesa, raio-x de sala, ultrassons. Seus olhares não vão nos julgar pelas roupas, sobrenomes, marcas, máscaras; não vão à caça do torto que há em todos nós. São míopes crônicos, seus olhos só nos vêem como “existindo”. Por isso mesmo, não parecem entender a noção de pudor, e que estamos todos nus quando despidos da máscara (que nós, que existimos, usamos e trocamos a cada situação). Eles, não existindo, ostentam o rosto despido, sua inteira nudez, com a inocência de meninos. Pois, como meninos, sabem ter o pasmo essencial de Caeiro: tudo é novo quando se dispõem a ver. E a vida: ganho festivo. O alaranjado do fim da tarde como bônus de um dia azul.

Por isso, ponho o Eduardo Santinon na categoria das pessoas que não existem. De que outro modo compreender a espontaneidade de quem diz as coisas mais podreiras como se falasse de flores perfumadas?

O meu amigo Eduardo Santinon, como pessoa que não existe, me enobrece com sua amizade rara, com seu humor único, suas expressões bagaceiras, sua alegria camarada, e sua forma singular de ver o mundo e querer sempre o bem das pessoas. O fato de ele ir para Enfermagem, só ressalta esse coração imenso que quer zelar pelo bem de quem está ferido. E porque ele é uma pessoa que não existe, eu quero o bem maior desse amigo novo, que o mundo o receba na condição de ser raro que é e lhe dê felicidade, alegria e sucesso – não apenas em seu aniversário – mas sempre!



*[Ou terá sido menina-Marcela? Mineira-arisca a quem não comove poesia e introspecção, última ainda a se espantar com minha memória curta? O que é certo, é que ela já anunciara o ser-Eduardo Santinon, quando mal-e-mal sabia que Letícia tinha irmão.]

A idade do lobo precoce ou quando a gente vira o lobisomen

Sim. Um lobo.
Sim. Esteve aqui e foi horrível.
Não. Saudade nenhuma. Sabe montanha russa?
Não. Não disse roleta russa. Bem! Ah... ok, roleta russa também.
Sim. Achei que ia morrer.
Sim. Agora realmente me sinto bem melhor.

[É vai entender crise que chega antes da meia-idade.]

segunda-feira, junho 22, 2009

Hoje, como ontem

Hoje, como ontem, simplesmente sem forças. Inferno astral ataca há qualquer dia do ano.

Leonera



Voltei aos grandes filmes: Leonera, de Trapero. Cinema argentino da mais alta qualidade.

domingo, junho 21, 2009

sexta-feira, junho 19, 2009

Lista de canções

Agora, por hora, ouvindo o silêncio e gostando muito.

quarta-feira, junho 17, 2009

Sobre Mel e outros felinos

Eu tive muitos gatinhos cá em casa. "Bichano", na infância, é o insuperável deles. Foi o primeiro morto amado que vi na vida. Esses dias pintou uma gata que vaga por minha rua aqui em casa. Chama MEL, segundo minha prima. Veio primeiro pelo portão, depois no corredor, na área, dentro da minha casa. Cada dia avança novo território; mas, se surpreendida, faz que vem, mas a qualquer movimento, cai fora dessa coisa de ser querida, desejada. Desconfia demais de amores machos, não é novelo, para ser enrolada. Acontece que ontem dormiu aqui, na cadeira do computador onde escrevo. Acordei rápido, às nove, e abri a porta da cozinha. Ela saiu correndo, como uma amante furiosa por ter sido aprisionada. Gatos são como amores canalhas, suas carícias raras sedutoras, a gente se sente o eleito. A paixão rouca de quem vai minando o ar dos nossos pulmões. O desprezo e a auto-suficiência atrativa de quem, cedo ou tarde, vai nos meter as garras, saltar o muro sem um miau de adeus, para sempre.


[Revide de um post da Tatiana Lazzarotto que está no blog das 30 pessoas. Comment que eu aproveito, pois a correria é danada, e gosto de estar sempre por aqui, enquanto eu não posto um texto que são retalhos de vários autores contemporâneos que escreveram sobre gatos.]

Eis aí a figurinha, deitada na minha cama, esses dias.

segunda-feira, junho 15, 2009

Dia dos namorados tardio



[Essa canção é tão bonita na improvável (bela voz) de Matt Damon, que acho a melhor para o dia dos namorados. E na contramão dos que amam a versão com Allan Delon (O céu por testemunha), eu gosto demais Tallented Mr Ripley.]

domingo, junho 14, 2009

20.10.1984


A câmera era Love, descartável, a pior do mundo. Minha irmã economizou, comprou, fez alguns registros. O resultado foi esse verde-amarelo desbotado, e a gente - Elaine, Márcinho, e eu - difusas crianças que fomos dissolvidas no tempo gasto.

Olhar fotografias é um tanto como espreitar o passado.

Sem filme a gente faz cinema



ELCV - Primeiro foco.
Santo André, maio-junho de 2009.

1998


Achei a foto, anotei atrás 1998. Pelo amor de Deus, passa tudo rápido demais. Foi ontem e já é hoje. Ele é o moço de baixo, a quem já dediquei um texto enorme. Vê essa meia lua que quase some na luz do poste, ele fez questão de sair com ela ao fundo quando descemos do trem. Ele tem olho para os astros, esse Lucas. Agora eu que dou aula de roteiro para ele, nos vemos duas vezes por semana, almoçamos juntos, trocamos histórias e livros. Eu me divirto horrores, ele diz coisas profundas sobre a alma e Deus e bondade e o desconcerto do mundo e música e escola e da beleza que ele vê nas mulheres que passam. Eu sempre amei esse menino. Rolava no chão brincando de tio-primo doido. Um afeto enorme. Por causa da distância, nós nos víamos pouco pouco, falando vez ou outra ao telefone. Você... como está... e a escola... saudades... venha me ver... e seu pai... faz natação... jiu-jitzu. Esses diálogos que ressuscitam reticências. E só agora dou com a exata falta que me fez sua boa companhia.


sábado, junho 13, 2009

Macaco kamikase


Ok. O cnpq não deu certo. Fazer o quê? Seguir vivendo, um pouco mais endividado. Pelo menos as viagens ao Rio me fazem bem, o PACC, Heloísa, a gentil Rosângela, Jocelene e Janete. Tem a Lapa, o mar que não vi. A chance de mergulhos. A vontade turística, quase aventureira, desconhecida. Não sei até quando posso com esse movimento kamikase. Mas não sei de nada, só sei ir levando. E é isso. Momento diário, para constar na agenda.

sexta-feira, junho 12, 2009

Revidando Thais no blog Mordo minha língua

Eu gosto demais do Gilberto e da Thais. São pessoas de altíssima qualidade. Eles me deram mão com câmera e microfone quando comecei meu projeto camicaze Literatura e outras artes sem pestanejar, sem querer saber por quê, para quê, sem cobrar um tostão. E eu gosto demais pois eles são amigos muito queridos que estão aí em Diadema fazendo sempre mil projetos, FAZENDO mesmo e belamente. Com eles não tem conversinha não, a vida é urgência, o que não significa que eles sejam sizudos, pelo contrário. A última que li lá no blog deles, Mordo minha língua, fez eu revidar amorosamente essa idéia de que por dinheiro a gente vende a alma. Tem gente que fala que ando me matando de trabalhar, mas só faço aquilo que amo e que me dá prazer. O que é para poucos. E aí está o revide, sem elocubrações a mais:

É, às vezes a gente não sabe o que a gente quer. A gente sabe só o que a gente não quer. E a gente quer mesmo é viver bem, sem ter que matar por causa de dinheiro. Abre outra cerveja por mim aí, se a gente não fosse um tanto sonhadores, a gente não estava neste caminho de cinema, arte, educação e beleza.
o

*Lie to me



Estou viciado nesta série, mais uma de investigação criminal, só que desta vez o "detetive/investigador/cientista" lê a expressão fisionômica e corporal dos envolvidos para chegar à verdade. Uma beleza de série, e a descoberta de uma atriz extraordinária:




Kelli Williams

Dia dos namorados macabro


Nem me pergunte!

Sessão da tarde



Algo aconteceu comigo. Não consigo mais assistir a filmes mais sofisticados. Evito. Só assisto a bobagens norte-americanas (bobagens mesmo, que não recomendo). Acho que fiquei meio saturado de cinema com o tempo, e só paro para ver coisas banais, de concentração miúda, clichês sem necessidade de fixação, superficiais como a revista caras. Não me pergunte. Já tive isso com livros. Passou. Esses de cima são os últimos, claro que vejo tudo em casa, baixado da internet, sob lençóis. Sono em demasia, comida demais, e filmes tolos. Deve ser um tipo de regressão infantil ao sossego da sessão da tarde.

quinta-feira, junho 11, 2009

Quinta-feira, feriado de Corpus Christi

Fui dormir por volta das 4 da manhã e acordei às 4h30 da tarde. Um dia inteiro perdido. Nem mesmo um sonho qualquer para deixar história.

Todo blogueiro é uma Natasha Kinski potencial


Natasha Kinsk despe-se diante do espelho, fala para si mesma e fala para o outro que não sabe quem é, fingindo não saber que fala ao marido que enlouqueceu de ciúmes, a acorrentou, incendiou a casa, separou-a do filho. Ele também (Travis), protegido na escuridão do outro lado do vidro, narra-se em terceira pessoa como se fosse outro, e não mais esse homem que permaneceu todo tempo calado, perdido, louco, vagando pelo deserto, peripatético. Mergulhados no aquário, vão se desnudando, palavra a palavra, perto e longe. Nunca houve streep tease como o destes dois.

[Paris, Texas, de Wim Wenders.]

quarta-feira, junho 10, 2009

Blogueiros, go-go-boys e streepers


Blogar, e nisso escrever, recortar, colar, pôr no rarefeito da rede um tanto de si, em fotos, músicas e canções é de uma exposição absoluta. O blog garante uma insuspeitada liberdade, mas em estado de permanente vigilância: de nós por nós mesmo e de nós rumo ao outro, a metódica construção de como queremos ser vistos. Neste sentido blogar é uma espécie de estratégico streep tease.



Somos todos um tanto go-go-boys e streepers?

terça-feira, junho 09, 2009

Comment dos 30 e algo de Melancolia

Para quem acredita no inferno terrestre antes e depois do aniversário. Para quem acredita no balaio de gatos de amigos, mas não tem mais paciência. Para quem acredita em desastres astrais, sortes também tremendas, e marasmo colossal. Para quem acredita que tudo pode ser no mínimo pior, o melhor erro levando ao maior acerto etc, e sempre sempre essa possibilidade de alegria. Para quem acredita (ainda acredita) que no fim, tudo dará certo, mas que o fim não custe a chegar, não arraste quilômetros essa saga de viver (antes que não sobre corpo e alma suficente para o encontro). Para tudo, todos, os 29, os que perdem o ônibus e ficam solitários também por opção. Um texto muito pessoal, cheio de elipses, e tão bonito assim: para os descrentes passarem a acreditar que não estão sós, mesmo não havendo barco, pôr-do-sol ou paisagem, para um ônibus que dobra a esquina e bate em olhos cotidianos luminosa luz de esperança. Um texto de aniversário para si. Porque a gente carece muito mesmo de mais amor da gente antes de merecer um qualquer outro amor.


[Comentando o "Parabéns para mim" de Ana Carolina Moreno. Blog das trinta pessoas.]

segunda-feira, junho 08, 2009

Poema

Eu hoje tive um pesadelo e levantei a tempo, a tempo

Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me trás uma lembrança... 

do tempo em que eu era criança
E o medo era motivo de choro, 

desculpa para um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei, nem reclamei abrigo
No escuro eu via um infinito sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte já não era medo, 

era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua, que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu a minutos atrás...

Frejat e Cazuza

sexta-feira, junho 05, 2009

NEIDE CANDOLINA

Preta chique, essa preta é bem linda
Essa preta é muito fina
Essa preta é toda a glória do brau
Preta preta, essa preta é correta
Essa preta é mesmo preta
É democrata social racial
Ela é modal

Tem um Gol que ela mesma comprou
Com o dinheiro que juntou
Ensinando português no Central
Salvador, isso é só Salvador
Sua suja Salvador
E ela nunca furou um sinal
Isso é legal

E eu e eu e eu sem ela
Nobreza brau, nobreza brau

Preta sã, ela é filha de Iansã
Ela é muito cidadã
Ela tem trabalho e tem carnaval
Elegante, ela é muito elegante
Ela é superelegante
Roupa Europa e pixaim Senegal

Transcendental
Liberdade, bairro da Liberdade
Palavra da liberdade
Ela é Neide Candolina total
E a cidade, a baía da cidade

A porcaria da cidade
Tem que reverter o quadro atual
Pra lhe ser igual

E eu e eu e eu sem ela
Nobreza brau, nobreza brau.


Caetano Veloso

[Eu tenho um amor tremendo por essa música. Está no que julgo a fase mais bonita do Caetano, um Caetano que já é mestre absoluto e que se volta para o passado sem descolar os olhos do presente, da Nova Ordem Mundial. Em Circulaêo, está menos preocupado em se reinventar, e muito mais em ser, nortear. Já não precisava pôr-se à prova ou aprovação (recusa constante). E fez o Circuladô, fez 50 anos. Um momento único, em que suas composições iam longe demais. Então pôs neste disco as letras "grandes", o rock, a bossa nova, uma MPB que ajudou a mudar, os novos, o de dentro do Brasil e o de fora. Meio político, cheio de ternura, sofisticado com os links com o Tropicalismo e ao mesmo tempo com aspiração ao mais popular. E "Neide Candolina" é um canto festivo e transformador. E eu adoro essa coisa de "PRETA SÃ, FILHA DE IANSÃ, MUITO CIDADÃ, TRABALHO E CARNAVAL. Tem toda uma definição de uma pessoa maravilhosa. Adoro Neide/Leide Candolina, glória do brown.]

Escola Livre de Cinema - Primeiro Foco




Santo André, maio e julho de 2009.

quinta-feira, junho 04, 2009

Revidando Paulette Miletta lá no blog das 30 pessoas

Sabe quando alguém vê algo belo e espantoso pela primeira vez? Mas não belo óbvio, explícito, canino. Belo assim: delicado lábio que morde as beiras, Elis cantando "Águas de março" com Jobim? Aquela última lágrima de Dora no fim de Central do Brasil? Sabe carícia renovada por alguém que demorou a vida quase toda para chegar? Sabe chuva lá fora, cama quente, nenhum compromisso para manhã, para o amanhã? horas e mais horas no telefone porque há tanto a dizer mesmo sem importância imediata alguma? Sabe, de mãos dadas à saída do cinema? Gratificação não esperada? Um eu-te-amo posto em ação para desnorteadora surpresa? Café na temperatura certa? Exame que te aprova ou que diz que está tudo ok? Pouso macio do avião na pista, e tudo correu bem, e há gente para nos receber com abraço e festa? Sabe, você e Deus e as ondas batem nas pedras no lugar certo do mundo e todas as pendências pendentes não significando nada? Sabe, apaixonar-se? Sabe o encontro com a Poesia?

Assim este seu texto, este seu conto, esta vida nua e desejante que narrou, chegou para mim. E eu entrego os meus braços e meus lábios de maior ternura por você ter me feito um cara tão mais feliz nesta noite de 4 de julho de 2009.

quarta-feira, junho 03, 2009

Sarto arepo tenet opera rotas


A palavra "palíndromo" vem das palavras gregas palin ("trás") e dromos ("corrida").SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS é uma frase inventada por um escravo frígio de Pompéia, feita de cinco palavras, cada um com cinco letras, que se pode ler igualmente nos dois sentidos.

Sator arepo tenet opera rotas. A frase, em latim, foi traduzida no site como Sator [a man's name] holds the handles of the plow in plowing. Em português ficaria Sator segura as guias do arado ao arar. Na Wikipedia:

Sator - semeador
Arepo - nome próprio
Tenet - ele segura
Opera - trabalha, esforça, cuida
Rotas - rodas

Duas possíveis traduções, de acordo com o artigo, são: O semeador Arepo segura as rodas com esforço e O semeador Arepo guia com suas mãos (trabalha) o arado (rodas)..

Ana Cristina César

De repente, eu me lembrei desses versos de Ana Cristina César, poeta melancólica e difícil que eu li cedo demais sem muita consciência do que havia em sua poesia. Ana C. é um mistério, o oposto de um Leminski do qual eu me fartava na fluência, leveza e deboche, que reconhecia em mim e breve se perdeu.  Já Ana C. permanece como recalque, com a  sua poesia que nunca pude amar para além dos epigramas. Volta e meia seus versos vem bater na minha cabeça, dando vazão, cobrando espaço. Deixo sair. Aqui. Abaixo. Lançados como Ana se lançou, em Copacabana, do apartamento de seus pais, pois nunca foi tão difícil ancorar navios no espaço.

Seis poemas de aos dezesseis



Recuperação da adolescência

É sempre mais difícil ancorar navios no espaço.



-


Cartilha de Cura

As mulheres e as crianças são as primeiras que
desistem de afundar navios.


-


Atrás dos olhos das meninas sérias

mas poderei dizer-vos que elas ousam?
ou vão, por injunções muito mais sérias,
lustrar pecados que jamais repousam?


-



olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas


-

21 de fevereiro

minha dor. me dá a mão. vem por aqui, longe deles. escuta, querida, escuta. a marcha desta noite. se debruça sobre os anos neste pulso.

-


Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios



-

Ana Cristina César



[Poemas de Ana C. que eu lia aos 16 anos em Aos teus pés]