domingo, maio 31, 2009

O amor e outros demônios ou O amor e outros objetos pontiagudos


Não acreditava no amor. Mas o amor acreditava nele. Perseguido, buscava refúgio em tudo o que não era amor: onanismo, fiel círculo de amizades, trabalho para encurtamento das horas, sexo casual e outras artes (artimanhas?) de aprofundar a distração existencial. Uma paixão grande e clara pela solidão, quase que uma predisposição natural para o suicídio. Não é que amasse demasiadamente a si, pelo contrário, punia-se com crueldade roendo as unhas que eram feridas expostas. (Culpa pelo não sabido vazio do não-pensar?) Foi velho novo demais, pelo gosto de tudo que ia à contramão da vitalidade dos companheiros de colégio. E amava a solidão da casa onde tudo se prestava a estar hodiernamente no mesmo lugar. Abominava mudanças bruscas. Tinha vocação para rituais (batia três vezes na madeira): a rotina mais banal constituindo-se sua liturgia. Acreditava - realmente - que tudo daria certo. Estava, desde sempre, consciente do que se perdia na passagem dos anos. Mas não conseguia ser outro senão ele mesmo, e não se trairia fazendo-se passar por aquele terceiro, que ele sempre quisera ser. E por que nada acontecia à sua vida, metia-se gostosamente desperto noite a dentro, sem expectativa de saltos mortais, mistérios ou encontros. Às vezes caía melancólico na armadilha da introspecção, da qual saía compondo poesias, lendo, rabiscando árvores e estátuas de gesso. Cantava mal no banheiro, gostando da água quente descendo-lhe às costas, dos azulejos fazendo eco sem crítica à sua nata desafinação. Vez ou outra tentou aquele amor descrente, irrealizavel, estátual de sal sagrada. Uma decepção. Um carro, um encontro no cinema, um nascimento procrastinado, a abdicação dos óculos, do sobrepeso e a degradação para um desejo afogado, salto mortal no abismo. De repente a ressurreição no primeiro dia do pecado adiado, tão mais feliz consigo mesmo, assim mesmo, mundanamente degradado. Pois é preciso morrer inteiramente para renascer no que não é cão nem cordeiro. Passou a ver pessoas mortas, tão vivas a seus olhos não-míopes essas almas condenadas à alegria mais prosaica. Reinaugurado o olhar, era agora como todos: tudo em desalinho, manco, genérico, mundano, luminoso e desejante. Como um deus. E o amor vinha. E o amor agora fazia todo o sentido.


[Os dois títulos confesso que roubei, o primeiro de um livro do Garcia Marquez, o outro de um livro do Marçal Aquino (obra que não li). Ia pôr um terceiro, um filme imperfeito do qual nunca me esqueci: O amor e outros restos mortais. No final, o certo era pôr o que há de constante nos três títulos: "O amor..."]

Panorâmicas



SESI. Show de Kléber Albuquerque.

sábado, maio 30, 2009

SESI Santo André - 29.05.2009

Coisas estranhas acontecem nos shows de Kléber Albuquerque.
(Câmeras fotográficas sensitivas são as únicas capazes de registrar)







[Show do disco novo do Kleber Albuquerque em Santo André, show cheio de encontros com ex-alunas-amigas Jéssica, Talita, Jenifer e a boa companhia de Lucas e Margarida. Tudo com direito a tietagem no final, foto de fanzoqueiro etc. Tudo integrando a alegria de uma sexta feliz sem promessas de eternidade.]

Uns Dez Amantes


Você tem dez amantes
Você tem mil sapatos
Um pra cada passo em falso
Um olhar em cada ocasião
Um vestido , um rímel
Um frasco de loção

Você tem dez amantes
Você tem mil escravos
E um mar de venenos importados
Um namorado pra espantar a solidão
Uma estrela , uma ilha , uma mina de carvão

Você tem dez amantes
Um professor de inglês
E um riso que não se desfez
Quando o medo atravessou seu coração
Quando a máscara caiu no chão

Me diz , como ser feliz
Como num salão de cores febris
De almas gentis
Seres de algodão

Você tem, dez amantes
Quarenta funcionários
Pra manter seu mundo imaginário
Um lar e um colar de diamantes
Um jantar com homens importantes

Você tem dez projetos
Dez mil expedientes
Pra fingir que é dor
A dor que sente
Seus desejos sempre tão incertos
Seus olhares tão beneficentes

Me diz , como ser feliz
Como num salão de cores febris
De almas gentis
Seres de algodão.

(Kléber Albuquerque)



[Adoro as baladas sentimentais, tristes, irônicas, melodramáticas e insólitas do Kléber Albuquerque].

sexta-feira, maio 29, 2009

Pontuando o momento



Ando cheio de reticências...

Do prosaico ao sagrado


Às vezes sinto essa imensa preguiça de existir porque há demasiadas demandas, e a vida cobra a cada esquina mais e mais urgências; outras, tudo cintila absoluto e eu me sinto tão amparado nessa minha inescapável alegria em Deus. Por isso, não são os estúpidos desmandos papais e sua Igreja de mármore e ouro, a cartesiana razão no mensurável espaço da ciência em transformação, ou o riso escarninho dos ateus (tão pouco bastável em suas descrenças), capazes de arrefecer em mim esse gosto imenso de enxergar grandeza no improvável, de extrair brilho do cotidiano baço, da aspiração, que não se esgota, de tocar, por gosto e acaso, a alegre transcendência. Sem rituais, rogos, exéquias, sigo como um mau cristão, mundano cheio de fé; e porque pecar só me faz mais humano, quase que só um mau ateu com Deus.


quarta-feira, maio 27, 2009

Está tudo ok. Obrigado.

O título deste post é uma homenagem a Letícia (moça do clã Santinon, ou dos Santi-non, ou, dos "santinhos, não") , que me ensinou a beleza dos posts enigmáticos.

Adoro o trabalho de Michel Gondry

Na estação

Aí eu fucei velhos álbuns e, grande decepção, não havia nenhuma foto minha com Luquinhas. Em época alguma, quando bebê ao colo, criancinha, nem dos anos mais recentes que a gente se esbarra. Então tratei de clicar esse registro para o blog, para vida, para perdurar esse tempo bom de convivência quando eu vou me lembrando, através dele, como tudo estalava de novo, e em cada curva o mundo se fazia a espantosa descoberta aos 14 anos.

[Clique na estação ferroviária de Mauá, vindo do curso da ELCV. Eu com meu sobrinho/primo-neto, Lucas.]

Blog das 30 pessoas

Orgulho enorme de ser dia 13 no Blog das 30 pessoas,
(13, meu número da sorte)
Orgulho
do convite do Lukino
dos amigos que lá estão
dos amigos que lá se farão
dos perfis
dos textos
dessa idéia-projeto mais que bacana.

sexta-feira, maio 22, 2009

Microconto

- Diz que me ama.
- Aí é mais caro.

Beto Villa

Microconto

A vida inteira pela frente.
O tiro veio por trás.

Cíntia Moscovitch

Flagrante


De repente flagrei a moça nuinha na janela, ela nem tentou se cobrir com as mãos ou braços ausentes. Num instante de puro nonsense ela me viu e eu vi a ela, e sentimo-nos lisonjeados com esse encontro fugaz, numa esquina qualquer entre a Glória e Santa Teresa.

[E há quem desconheça esse meu dom de encantar manequins, estátuas vivas, fazer colar em mim o olhar de Mona Lisa dos santos e santas das folhinhas cristãs; o coração exposto de jesuses e mariinhas na palma da mão.].

Gêmeos


CCBB-RJ

Casa


Uma casa nos olha feito àquela de Poe.

Nos arcos da Lapa



quinta-feira, maio 21, 2009

Lampejo


Caro REVIDE eu simplesmente não tenho mais tempo de postar nada, por que são tantas as atribulações, e a vida é urgente e tudo é tão interessante o tempo todo. Digo que estou exausto e misturadamente feliz e frustrado (pela falta de tempo para ir ao cinema, escrever aqui, ler o blog dos amigos, assistir às peças, séries, produzir ensaios, roteiros, ficar jogado no sofá sem pensar no amanhã, etc). Fica o desabafo e um lampejo de esperança de que tudo continue tão intenso quanto agora, só que ainda melhor.

terça-feira, maio 19, 2009

segunda-feira, maio 18, 2009

Mais um conto odontológico

Apaixonada por um dentista, Clara percebeu, certo dia, que tinha perdido a capacidade de sorrir.

Salão de beleza

Vem você me dizer
Que vai num salão de beleza
Fazer permanente
Massagem, rinsagem, reflexo

E outras "cositas más"...(2x)

Oh! Baby você não precisa
De um salão de beleza
Há menos beleza
Num salão de beleza
A sua beleza é bem maior
Do que qualquer beleza
De qualquer salão...

Baby você não precisa
De um salão de beleza
Há menos beleza
Num salão de beleza
A sua beleza é bem maior
Do que qualquer beleza
De qualquer salão...

Mundo velho
E decadente mundo
Ainda não aprendeu
A admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro
Puro do engano
Da imperfeição...

Zeca baleiro


Photograph by Sam Taylor-Wood.


domingo, maio 17, 2009

Eu e as meninas do Rio



Colocar aqui o texto novo

Marrento


Na escadaria da Lapa. Minhas amigas viram e falaram que estou "marrento". Eu que não entendo, gosto, acato e posto. Fim da viagem.

sábado, maio 16, 2009

Amor, dinheiro ou saude


Hoje em Santa Teresa, num restaurante lindo chamado Sobrenatural, enquanto desfrutavamos uma feijoada passamos a discutir se brindávamos ao amor, à saúde ou ao dinheiro. Eu fiquei com a saúde, e a Joce saiu com esta perola:

- Quem tem amor e dinheiro não fica doente não, meu bem.

Gloria, Lapa, Cinelandia, etc sem Cristo

Como uma praga de invejosos paulistanos o frio chegou (ainda que moderado) aqui no Rio, e jah nao vou ao Cristo, saio daqui para outro horizontes.

Janete

Aqui no Rio, a menina Janete que me recebe ensina ao saber que meu cel está sem crédito:

- Du, aprenda o seguinte, homem pobre não merece ser amado.

sexta-feira, maio 15, 2009

Sem acento e sem cartao postal

Ontem fui ao Beco do Rato aqui na Lapa beber cerveja e ouvir chorinho. Joce e mais dois amigos. O humor admiravel dos cariocas e atendimento sem estress do garcon Jesus. Todos gentilissimos. Amo a velocidade dos motoristas do Rio. CARACA eh a expressao mais usada. Hoje vou fazer passeio realmente de turista, e prometo uma foto com sol. A preguica nao me deixa fazer a barba. E quanto ao mundo real, sinto-me habitando um filme de Hugo Carvana.

quarta-feira, maio 13, 2009

Cristo


Estou indo amanhã para o Rio do modo mais irresponsável do mundo, com muitas pendências às costas e com mais cara (de pau) e coragem do que de costume. Para pousar na casa de uma amiga de uma amiga de um amigo, e um círculo de amizades feito assim pela rede. Tinha que me programar e não me programei nada. Mas estou aberto para tudo, para acaso e improviso. Estou indo para o Rio para ver o Arpoador, ver Ipanema, o Jardim Botânico, o lago, a lapa, viver o Rio da música de Jobim e de quem não é do Rio: Calcanhoto, Caetano, João.
Ao Rio eu vou para me divertir como espião que não domina o idioma local e acha uma graça o chiado ao vivo. Se tomar coragem, pelo mal da forma, caio na água e, cheio de constrangimento, reconhecerei que lá é o que há. Ou seja, essa segunda visita é para renegar São Paulo amado, amada.

Estou indo para o Rio de braços abertos para o Cristo.


Retrato do Lucas de passagem

Hoje passei o dia com o Lucas/Lukino/Luquinhas, meu sobrinho-primo. Uma das melhores pessoas que há no mundo. Fora que foi o bebê mais lindo que eu já vi; depois a criança mais doce, meiga, irresistivelmente amorosa que já levei ao colo. Agora, passado mais de dez anos, aos 13, rosto quadrado de adolescente loiro, ficante de uma moça que dá as caras no orkut mandando-lhe beijinhos. Lutador de jiu-jitsu (o mais novo da turma de homens grandes, pose de seguranças), ex-praticante de natação, ex-membro da igreja Água Viva. Ansioso discreto (atropela as palavras perdendo o fôlego se alguma coisa qualquer o empolga), é falante sem ser tagarela. A voz começando a pôr-se grossa ou grave. O orgulho do músculo das abdominais. Magro magro magro do estirão dos meninos que vão virando rapazes. O gosto um pouco culpado pelo MacCheddar. (Perguntou-me se de fato, a carne do MacDonald é de minhoca). O amor colossal pelo cinema, ele me disse à entrada do cinema de Mauá (confessa que desgosta de ver filmes em vídeo). Acha ridículo a dança do Hefron no High School Musical. No cinema, vai sempre com o pai (Luís), separado da mãe. Tem (por parte do pai) dois irmãos mais velhos, moço e moça ambos casados, mas não é tio. Outra irma (mais nova e parecida) toma corticóide para o Lupus. Esses dias foi pescar com o irmão. Tem olhos claros (e enxerga claro, disse-lhe o oftalmologista), mas não possui óculos escuros. Eu contei-se que são herança do avô esses olhos. Perguntou-me como ele era, para em seguida me dizer que não tem curiosidade nenhuma em conhecê-lo. Na escola, as matérias de que mais gosta são: Ciências e Artes. Tem amigos tão altos quanto ele (1,74m.) mas não é critério para sua amizade. Gosta de andar a pé, mas não descarta o conforto dos carros. Enquanto subíamos pelo caminho errado, ele confessou estar com uma "sede do cão". Ele insistia em pagar as contas, eu me recusando sempre, até que sossegou quando aceitei um guaraná zero (ele, água mineral). Do signo de libra, disse para mim que gosta da cor amarela, mas não a usaria numa camiseta. Não gosta de ler, mas citou uns livros pelos quais alimenta curiosidade. Aos atravessarmos a ponte sobre o rio poluído da Avenida dos Estados, confessou-me um súbito medo de altura. Para espanto da tia que pergunta se ele beija na boca, ri sem graça. A mãe preocupada com filmes "estranhos" que soube entre suas coisas. A outra tia, Elaine, chocada com as fotos das moças nuas no celular. Todas aflitas em perder o menino que cresce sem se perder. Disse para mim que sonha em ter um labrador e uma casa com quintal para deixá-lo correr solto. Explicou-me, enquanto caminhávamos num parque, por que os bitbulls são ferozes (o tamanho da caixa craniana pouco larga para um cérebro grande demais). No trem lotado, disse para mim não ter preferência por uma banda de rock. Acha o máximo os filmes de ação e efeitos especiais. Fez um poema sobre a água com base no "José" do Drummond, que eu o ensinei a recitar em casa há uns seis anos. Declamou uns versos para que eu soubesse o quanto se lembrava. Tem eventualmente problemas de estômago, mas me diz que come bastante agora, e me explicou em detalhes a importância da boa alimentação. Quando não familiarizado, é de uma timidez grande com as pessoas, mas basta abrir o sorriso que o aparelho corrige (o dentista arrancou dois dentes do fundo, que sobravam) e um sol brilha, fazendo com que todos o amem. Tem bom gosto para roupas, e prazer nas compras. Neste dia, ajudou-me a escolher (para mim) uma blusa legal. Quando nos despedimos ele me deu um abraço forte e um beijo no rosto, como quando tinha quatro anos. Ele é daqueles que dizem eu te amo com sinceridade e nenhum pudor. Eu que ando tão cínico, descrente do mundo, e triste com a passagem do tempo, saúdo a graça de sua existência. E me comovo tanto, pois apesar de não o ter batizado (seu padrinho é o meu irmão, o Sérgio; e a madrinha, a minha irmã), sei que ele me quer muito bem, e agora não sei sinceramente se mereço. Conversar com ele é uma alegria que não boto preço. Eu penso que é uma felicidade saber que vamos estar mais próximos duas vezes por semana, no tempo que durar o curso de cinema na Escola Livre. Porque ele é a melhor pessoa que eu conheço, e sei que tenho muito mais a aprender com ele.

terça-feira, maio 12, 2009

Palavras trôpegas do ceguim



Para ser bem franco. Sou daqueles que se deixam enganar; talvez porque fui míope por uns quinze anos. Por isso, alterno lucidez e cegueira. Um tanto cego (assumo) por comodismo, distração, preguiça. Só que cego de fato quando ao final da tarde a luz cai um pouco, trazendo de volta a velha miopia que a cirurgia quase deu jeito. Entretanto, insisto em não corrigir mais com óculos o desfoque que vem à frente, pois nem tudo pode ser visto (de imediato) com nitidez e precisão. Porque, de fato, a gente aceita fingir que é mais tolo que cego, e segue esbarrando por aí em móveis, coisas, gentes, em memórias de uma alegria espontânea e sincera. Vezenquando cai alguma coisa, caímos nós. - Desculpe, é a vida! - 'palpando o espaço, a gente estende a mão espalmada para melhor agarrar o espaço. O espaço que é maior que a vida. Mas a mão carece deste solitário tatear obscuro e tolo da escuridão. Às vezes alguém nos estende uma mão, e nos sentimos protegidos como se por termos guia tivéssemos rumo. Mas o rumo, não é dado pela mão, mas pelos passos. E quem tem que dar a direção (sem armadilhas) para vida, é cada um de nós, pois nesse trançado de pernas o que importa mesmo não é o rumo, mas o destino.

Fundação Santo André

Hoje iniciei aulas na Fundação Santo André, onde estudei e agora retorno como professor. Pós-graduação em Estudos Lingüísticos e Literatura. Meu curso: Literatura Contemporânea.[11.05.2009]

domingo, maio 10, 2009

Gracias a Elis

Gracias a la vida

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida.

Violeta Parra

Um chines atravessa a avenida


Puro nonsense em plena avenida

DVD MultiShow da Vanessa da Mata


[Puxa, essa moça consegue me fazer muito feliz.]

Nekropolis (a peça), e como anda a vida


Aproveitei o dia e fui ver Nekrópolis com minha amiga Tininha e sua filha Nicole. Nada cronometrado. Liguei, combinamos. Assistimos, comemos pizza, com cerveja. Rimos um pouco no carro. E acabei num trem, num ônibus, escrevo de casa. A luz apagou enquanto tomava banho. Conversei no computador com um velho amigo e um recente-mistério.

As aulas da turma da manhã foram bem felizes. Mas antes delas, às 11h, Patrícia tomou café comigo. Conversou acelerada/estabanada sobre a vida, os filhos, o encontro consigo mesma. O tempo deu uma enorme curva na mesa de café. Dou passos pesados e lentíssimos no espaço, arqueadas as costas como se tudo pesasse, e pesa.

Volto então às aulas. Tão alegres, a sala cheia para um sábado. E rio malicioso para turma, com tiradas rápidas/espirituosas encobrindo a seriedade do tema com certa ironia. Coisas simples e importantes para um futuro que não é mais o meu.

E eu digo que é quase quando eu posso tocar a alegria.

Em Santo André, no final da aula de Literatura da tarde, um aluno (totalmente fora do perfil) me interceptou no bebedouro e disse que minhas aulas o estavam levando cada vez mais para Letras. É um elogio para afastar nuvens de um dia estranhamente obscuro. Mas eu ando de matar! Porque não entendo de onde veio (e por que persiste) esta longa, exaustiva e súbita tristeza?

sábado, maio 09, 2009

Falso-cartão de aniversário que virou depoimento-verdadeiro

Essa "mensagem de aniversário" eu mandei para um ex-aluno que ficou grande amigo das insônias de msn. Não nos vemos há uns três anos (ou mais). Nossos gostos musicais, visões de mundo, desejos e aspirações não batem nem esbarram. Eu quero a paz e ele o caos. E eu celebro o fato dele existir, não menos real na proximidade (quase distante) da tela do computador.

Camarada Sérgio, que posso dizer? que cada aniversário é uma aproximação da decadência, como você bem gostaria que eu dissesse? Mas eu, que fiz aniversário semanas atrás, só posso dizer que a gente melhora com o tempo, pois a maior parte dos medos passam, a gente fica mais tolerante com os tolos, e aprendemos a valorizar realmente aqueles que interessam. Você interessa, por seu talento com as palavras, pela astúcia no raciocínio rápido, tiradas letais que nos desconcertam, e por sua fingida indiferença. Demorou para perceber certa fragilidade (de garoto-só) camuflada de fúria, sarcasmo, rancor pela humanidade. Às vezes digo que você “mente”, mas todos somos no mundo um tanto farsantes (eu sou). "Garoto mau que gosta de pessoas boas" e é tão "gostado" por elas, espero que este ano o mereça e dê a você as alegrias grandes e banais que possam fazer você se sentir - e ser - um Sérgio mais feliz.

quinta-feira, maio 07, 2009

EXAUSTO EXAUSTO EXAUSTO

Exausto exausto exausto

A arte de amar



Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira

As horas

Hoje acordei e cada um dos relógios apontava uma hora diferente. Isso não é bom. Prenúncio de tempestade no ar.

quarta-feira, maio 06, 2009

Flor da pele


Ando tão à flor da pele
Que qualquer beijo de novela
Me faz chorar
Ando tão à flor da pele
Que teu olhar "flor na janela"
Me faz morrer
Ando tão à flor da pele
Meu desejo se confunde
Com a vontade de não ser
Ando tão à flor da pele
Que a minha pele
Tem o fogo
Do juízo final...

Barco sem porto
Sem rumo, sem vela
Cavalo sem sela
Bicho solto
Um cão sem dono
Um menino, um bandido
Às vezes me preservo
Noutras, suicido!

Zeca Baleiro

segunda-feira, maio 04, 2009

Estou vomitando você, meu bem

Como o vivo vomita o morto, como a ave regurgita o seixo venenoso, como a fêmea rejeita o sêmen indesejado, eu vomito você, amor.

Vomito tuas roupas, tua cintura, teu andar pela sala sem nenhuma ternura. Vomito o tronco tenebroso, tuas olheiras, o cheiro de madeira podre do teu hálito.

Vomito as contas, os dedos, as unhas mal cortadas. Um a um, teus cabelos de metal e veneno vomito, vomito uma a uma as vértebras e as asas de teus sonhos aterrados.

Vomito sem mágoa, sem ódio, pequenos homenzinhos de bile verde com forte odor de ácido clorídrico - asas membranosas, formas orgânicas que reproduzem detalhe por detalhe as cartilagens de teu riso.

Vomito um desejo amarelo, noites de penetração e abismo, anéis de tenra mucosa rompidos. Vomito o gozo dessas noites de pêlos e cheiros, de espamos e fluidos, de marcas de lesma sobre a pele. Vomito oceanos de relíquias e cântigos antigos, castelos, frascos de vidro escuro e umas estranhas enguias agonizadas.

Vomito e vomito, e meu vômito ao riso se mistura, e rio você no vômito com a alegrias de águas puras, de uma fonte interior que explode e jorra pelos orifícios de meu corpo lavando você, expelindo você como o rim expele o cálculo, como a viva ave regurgita o seixo morto, como os anéis comprimem e expulsam o sêmen venenoso.

Rio você, meu bem, e te vomito com a alegria das águas indomadas, amorosa como a mãe noturna que subitamente pare uma aurora.

Jamil Snege



[Poema agressivo e belo de Snege, que já mal me lembrava, e nele caí por erro - acaso/sorte/alegria, com uma combinação um tanto errática no Google. Alta poesia.]

Virada Cultural 2009


Eu fui à Virada Cultural São Paulo 2008 e foi ótimo/a (ano passado comecei o texto assim, mas o adjetivo era "incrível"). Queria dizer que foi uma Virada Cultural bem Kassab (liberando umas coisas e retendo outras), com atrações velhas e pouco interessantes. O espanto e a maravilha de andar pela noite de São Paulo sentindo-me um pouco mais seguro (!!!!) pois havia tanta gente para ser roubada, que as probabilidades me beneficiavam. Tentei gravar um curta para o Festival do Minuto, e vi várias filmadoras em todo canto, com curtas sendo feitos, inclusive. [Não achei amigos para ajudar, mas fui coletando imagens e vamos ver no que vai dar]. Embora não tivesse na Virada nada que quisesse ver (rever sim: o show "Aos vivos', Chico César" no Teatro Municipal; também "Clara Crocodilo", do Arrigo Barnabé - ambos perdidos), o melhor mesmo foi ficar andando. A cidade fica espantosa e linda à noite, mesmo com metrô parado, transe de buzinas, bêbados e loucos (muitos loucos); mesmo com os banheiros químicos fétidos, com lixo espalhado, e fog perfumado de maconha, caos feliz. O que me espanta sempre é a quantidade de gente bonita que tem a cidade. Bonita e estilosa. Acho que a virada é uma festa viada, nunca vi tanto homem de mãos dadas, tantas sapatas lindas, altas, e dengosas, gente cinematográfica aos beijos, piercing nos mamilos dos casais gostosos (estou na cabeça com uma japonesa loura de olhos verdes, cabeça no colo de um um rastafari com alargador na orelha). Havia uma enormidade de gente com câmeras profissionais, tão felizes todos, e eu, quase tanto quanto os camelôs que vendiam cerveja a 5 reais. Tristes ficaram só os moradores de rua da cidade, incomodados com a invasão, deitados nas calçadas com seus cobertores pelo-de-rato. A fauna de São Paulo é a mais sexy e desbundada do país, pois São Paulo excede, é o Brasil agringalhado, meio Londres/novayork/índia/tokyo. Então eu, um pouco deslocado, diante de emos, blacks, rastas, putas incrivelmente louras, travecos de academia, rockers, punks, japas e chinas, com minha blusa que parecia uniforme corintiano, penso que a vida anda cada vez mais interessante. Depois de roncar mais um ano na Olido, acabei às dez da manhã, feliz demais deitado no gramado do vale do Anhangabaú, diante de um céu e um sol que escapavam entre folhas de uma palmeira alta. Gente passando rente, alterando a paisagem sob a palmeira. Conversei ali por umas duas horas, coisas de alma, angústias existênciais e matéria do corpo. Havia a distância uma orquestra fingindo tocar para um balé, fazia na verdade a trilha de um instante que minha memória perecível fará questão de bem lembrar.
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