terça-feira, março 31, 2009

Dois tons acima

Ando irritado. Irritado tenho ódio. E com ódio fico dois tons acima do normal, sobra até para as plantas, (já um tanto zumbis) da minha casa. Mas o que dá em mim o maior ódio é o menosprezo.

Aquela cara é o coração de Jesus



De novo, Cabíria

Não há self-made man ou brazilian way of life possíveis, no fundo somos losers vira-latas


Não há self-made man ou brazilian way of live possíveis, no fundo somos losers vira-latas

Odeio o complexo do "acho que nasci no país errado." Creio que seja problema de auto-estima, e não de identidade ou passaporte. Gente mendigando em embaixada seu visto, evocando gerações na névoa do passado, uns migrantes analfabetos desvalidos, expulsos pela miséria de seu país de origem; ou exilados de uma pátria que os perseguiu, oprimiu ou simplesmente os desprezou. Se o sonho da terra estrangeira os traiu, porque não retornar à "pátria-mãe" em vez de praguejar contra brasis e a grande massa de brasileiros para quem nada foi ou será fácil? Neles se justificam a saudade de um passado, de uma infância de algum modo feliz (porque a mente encobre do passado as mazelas). Agora, como julgar a nostalgia de seus descendentes?

Não se trata de nacionalismo, ufanismo pau-brasil, verde-amarelismo, guaraná-graal, açaí e bossa tipo exportação. A questão é senso de ridículo. Que a Europa é o máximo, que há tanto a se ver e conhecer na "trilha original da civilização" e que há avanços sociais excelentes (que encobrem retrocessos insuspeitados) é inegável. Que existe uma América avançada e bela quem questiona? Ásias e Áfricas interessantíssimas? Mas cegueira! Bonito fazer intercâmbio, receber sorrisos como turista, tirar foto abraçando Mickey em Orlando, curtir neve na Quinta Avenida. Mas experimentem em época de crise ir invadir o campo de emprego, competir por moradia, evocar direitos em terras onde estrangeiro é tão só mão-de-obra barata.

Acho que não tem isso de país errado, você simplemente nasce, e conforme pode vai viver onde deseja, e se necessário peleja para se estabelecer, aproveitando as oportunidades que se fazem. Normalmente o discursinho do país errado está na boca de "uma classe média diplomada mas de baixa cultura, cria de gente que cresceu em frente à teve, bem catequizada em cursinhos de inglês arrastado por anos, seduzida pelo pop mais descartável das rádios mantidas por jabá das multinacionais". A desqualificação se faz muito pela sedução da imagem projetada nos veículos de massa, que apregoam a ilusão de beleza, civilidade, justiça social, limpeza, acesso amplo ao consumo. Só quem viu casa de pobre numa novela de tevê sabe que há uma abissal diferença entre a ficção televisiva e o real. Bombardeados pelos enlatados estrangeiros que trabalham a imagem com esmero publicitário, os "que nasceram em país errado" emulam hábitos e, normalmente, constroem seu repertório cultural, sua impressão de mundo, e a apreciação estética do que lhes é próximo com base no mais baixo, precário e clichezado da indústria cultural: do pop boçal aos filmes de destruição acéfala. Orgulham-se do seu inglês rudimentar e do "portunhol' ensaiado para circular na Espanha (nunca para as latino-américas, méxicos e cubas), mas são incapazes de assimilar ou escrever um texto inteligível no próprio idioma, por incapacidade de ler um livro acima de cem páginas, a não ser best sellers de ocasião, já que "soam" fáceis como um filme legendado. Gostam dos musicais da Broadway que aportam no país, reclamam dos preços dos iphones mas compram, comemoram com desenvoltura o Halloween, atolam shows de grupos estrangeiros decadentes, e ensaiam sem pudor os passos de todas as Britneys, sub-madonas e high school musical que podem.

Impossibilitados de se reconhecerem no próprio país (para eles a consciência do subdesenvolvimento é um discurso datado, que a globalização, a rede mundial, e os shoppings para consumo de grifes internacionais aboliram), põem sobre lente de aumento questões prosaicas do país, e como não o assumem como seu, são alheios a todas decisões de ordem político-social, como se tais questões não constituíssem justamente seu país desencantado. Vendo a realidade no sistema PAL-M, têm rancor da origem (muitos hostilizam sotaques fora do eixo Rio-São Paulo, mas toleram o dos gaúchos, porque reconhecem neles a mais autêntica "germanidade" (separatista) com a qual se permitem identificar.

Os que "acham que nasceram em país errado" são na maior parte das vezes arrogantes. No fundo julgam-se superiores aos "brasileiros nativos". O país é dos "outros", o caos do país é obra "desses", um país que tem o "povo que merece", como se eles estivessem à parte na configuração de uma ordem e de uma elite que explora e despreza o próximo.

Uns dizem-se cidadãos do mundo, doce modo de escamotear seus preconceitos, esquecidos de que SEMPRE há uma pespectiva construída em nós com a qual miramos o mundo; e um modo de ser que define uma complexa "identidade" forjada à nossa revelia. São os que pagam pouco às domésticas, tratam mal aos garçons, sentem-se invadidos na praia pelos farofeiros/suburbanos. Quando viajam, não "vivem" os lugares com prazer, correm a se fotografar (tão somente) em cenários clichezados, comem em MacDonald, vão às compras em shoppings, trazem bugigangas (eletrônicos Made in Tawan) e se deliciam com tudo que lhes pareça exótico (pois o exótico é tudo o que eles não desejam ser).

"Os que acham que nasceram em país errado" são como a pequena Dorothy de O mágico de Oz, a realidade é cinza (ou em pb), e o mundo que almejam entrar é como um irreal tecnocolor reduzido na dimensão da tevê. Terra da fantasia, do edulcorado,do belo e do falso. Felicidade ao acesso do cartão de crédito.

No final, a única solução para essas almas adestradas e patéticas está na crença de que um dia reencarnarão.

segunda-feira, março 30, 2009

Dentista

Dolores procurou o dentista porque sentia dores. Nada em Dolores causava espanto, seu sofrer era puro pleonasmo. O dentista ligou motor e seguiu escavando o siso até não ter mais o que tirar.
"Lamento, disse, um pouco constrangido, mas você tem a alma cariada."
"Como é?"
"Tua alma, ... está inteiramente cariada"
E deu o espelhinho para que ela visse, de olhos próprios, o negror profundo.
"E o senhor acha que ainda dá para salvar?"
"Temos duas opções: podemos tentar um canal, mas não sei se vai dar jeito, talvez dure uns dois ou três anos, e a dor volte inteira, aguda, dor de parto. A segunda, é extrair mesmo. Vai ficar um buraco, vai sentir um vazio profundo, mas com o tempo você se acostuma, fica um repouso tranquilo para sua língua. Mas a decisão é sua.

Sentindo-se, de repente, vazia, Dolores regressou para casa. Numa rápida pesquisa no Google chegou à solução. Havia almas provisórias. Bastava atarrachar um pino; e a pessoa, depois de três dias de repouso, estaria livre para sair à vida: claro sorriso de alegria. Um sorriso natural e puro, tão perfeito, que muitos, já não poderiam distinguir a alma verdadeira da postiça.



Fábulas de desencantamento.

domingo, março 29, 2009

Dá o pé louro

Mas o louro tinha vontade própria e não adiantava implorar. A moça, vendo que o lance ia terminar em zero a zero deu de ombros. Ok, louro, você venceu. Next. E o louro acabou papagaio de realejo, distribuindo futuros marcados para corações partidos.



Fábulas de desencantamento.

Twitter

Aí o Sérgio - garoto meio amargo, pinta de mau, mas "gostante" de gente boa, me disse assim pelo msn:

"seu blog ta quase um twitter existencial".

E eu tenho que concordar que ele é esperto, e segue anos luz à frente do entendimento do Eduardo, diagnosticando minha bipolaridade e relevando minhas malcriações de ser mimado

A Rô e os meninos


Eu amo a Rô, e isso é simples assim de escrever, embora jamais tenha dito a ela diretamente, da importância que tem, do bem que me fez/faz, do quanto a admiro e gosto dela por ela ser a pessoa mais autêntica que conheço, num mundo cheio de farsantes em exposição. E neste amor pela Rô, e no grande silêncio em torno deste afeto, não estou só. Somos multidões daqueles que a amam e não dizem, por pudor; pois ela ri de nós com seu gracejo, e nos desconcerta com a esmeralda esperta de seu olho. No fundo, ela nos desarma por sabermos que nela cabem a grande força e a grande delicadeza que se exprimem em quem decidiu ser a pessoa que desejou ser. E é preciso a maior coragem para jogar fora máscaras e dar a cara a bater. Ela somos nós, e não somos iguais a ela, o que a faz superior, igual a todos, mas única. E eu sei que a amo, por desejar apenas a sua felicidade, e porque desejo que ela não deixe nunca de pertencer à minha (às nossas) vida(s).

sábado, março 28, 2009

Memória

Tão presente, que às vezes a gente nem se lembra dela.

Glenda de Cortázar, um resumo


Eu sou apaixonado pelo conto "Queremos tanto a la Glenda", de Júlio Cortázar. O enredo me encanta tanto quanto a linguagem, que é o trunfo maior de Cortázar, bem como dos prosadores poetas. No conto, Glenda é uma estrela de cinema, mas a história é de seus fãs que assistem a sessões de cinema com seus filmes. Como se encontram constantemente em filas, terminam por se converter num "clube" secreto de apaixonados por Glenda. Em reuniões secretas, reconhecem que muitos filmes não a merecem e por isso, decidem roubar as películas para refazerem todos os filmes, para que sejam perfeitos, para que mereçam o fulgor que reconhecem na atriz. Glenda, como se intuísse a existência de tal "núcleo de fãs", anuncia que abandonará o cinema. O núcleo, sempre descrito na primeira pessoa do plural, segue sua missão anos a fio, religiosamente, até que todos os filmes estejam perfeitos. Poucos espectadores percebem ou denunciam alterações de trechos e desfechos nas obras, mas o núcleo, estende seu poderio e abafa as críticas. Por fim, Glenda decide retornar ao cinema pelo motivos de sempre, saudades, vocação, proposta irrecusável. O núcleo já não pode aceitar seu retorno. [A Glenda mítica do cinema supera a Glenda humana, ser de carne e osso, e a supera na mente dos seus fãs. Cabe ao ídolo tornar-se definitivamente um ídolo, e não destruir a perfeição a duras penas construída.]. Decidem matar Glenda. O desfecho, imbatível, convém ser transcrito como está em Cortázar:

"Nunca falaríamos disso com ninguém, nós nos evitaríamos cortesmente nas salas e na rua: seria a única maneira de o núcleo conservar sua fidelidade, guardar em silêncio a obra realizada. Queríamos tanto a Glenda que lhe ofereceríamos uma última perfeição inviolável. na altura intangível onde a havíamos exaltado, nós a preservaríamos da queda, seus fãs poderiam continuar adorando-a sem diminuição: não se desce vivo de uma cruz."


Julio Cortázar

Eu queria ser original, intenso e inapreensível como um personagem de um conto de Júlio Cortázar.

Meu livro de contos

Eu componho há quase quinze anos um livro de contos extraordinários. O título deveria ser A invenção de Fernando Pessoa e outras histórias, ou apenas, Narrativas. Alguns, por uma estranha conjunção astral jamais poderão ser publicados, pois um outro autor capturou a história e sua essência assinando a publicação com um nome que não é o meu. Estão no mundo. Sou um autor plagiado e diluído por Patrícia Melo, alguns realyties shows, por uma peça sobre Artur Bispo do Rosário. Sei que há outros neste instante rascunhando na folha branca um conto que jamais publiquei. Meus inéditos estão na gaveta, o tempo e o "inconsciente coletivo junguiano" tiram deles todas originalidade.

Não

E eu decidi dizer sim para todos os projetos. Eu digo sim e sigo sofrendo, produzindo, dando um jeito, pondo fita crepe no quebrado, dormindo pouco, requentando café. Porque de repente, como eu pensei ainda no século passado que viria (e não veio), o tempo presente entrega-se inteiro, dadivoso, único tempo real, e eu tenho uma urgência boa de produzir a minha história.

Paciente

Ok, eu amo, o que não significa que a gente tem que fechar os olhos para os defeitos que empilham e a gente aloja no armário do fundo. O negócio mesmo é na hora da mudança.

Webcam

Sabe aquele lance de webcam que só rola uma vez na vida. Pois é, aconteceu comigo de novo. E de repente, há um sol amarelo de composição escolar raiando lá fora.

Acidente

Ralei os dois joelhos e o calcanhar há uma semana na academia. Não estão curados. Tive de tudo, pois sou alérgico a quase tudo. E fiquei inchado com o antiflamatório. Deveria ter investido na inércia, na estagnação voluntária, na preguiça cheia de empenho. Assim, hoje estaria sem dores e cicatrizes, acima do peso, sim, mas equilibradamente infeliz.

Sintético

Fui, postei, voltei, não gostei, apaguei em definitivo, nunca mais volto. A gente pode dizer tudo da maneira mais simples sem a dimensão precisa do desastre. E a vida segue em ondas como o mar.

sexta-feira, março 27, 2009

INFERNO ASTRAL

Eu acredito piamente.

Vero, veríssimo

“Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”

Luís Fernando Veríssimo

quarta-feira, março 25, 2009

Iara Rennó


03.2009Imagens do amigo fotógrafo Celso Cardoso para um projeto no qual somos parceiros.

terça-feira, março 24, 2009

Eris

Se o planeta anão próximo ao sistema solar, oficialmente chamado 136199, tivesse mais massa, órbita estável e exata, Éris seria o mais novo planeta do nosso sistema solar. Soube disso por conta dos livros didáticos imprecisos. Lembrei-me do nome, mas esqueci de que deusa se tratava. Então vou ao meu dicionário de mitologia e depois ao google para saber. 

Éris (Ἔρις, em grego antigo) é a deusa que personifica a discórdia na mitologia grega. Corresponde à deusa romana Discórdia. Seu oposto é a Harmonia. A palavra "erística", em português, vem do nome da deusa grega da discórdia. Significa a arte da disputa argumentativa no debate filosófico, desenvolvida sobretudo pelos sofistas, e baseada em habilidade verbal e acuidade de raciocínio (Houaiss). 

A conclusão a que chegamos da leitura, é que para haver harmonia é necessário que não haja discussão. Mas não seria tal conclusão um sofisma?

Sublimes inundações paulistanas

No ápice da peça, há uma tempestade que desaba no palco, com som de trovões, uma chuva absoluta e gráfica que não molha a platéia, não alaga o teatro, como uma ilusão por trás da quarta parede. E esta chuva, iluminada brilhantemente um pouco de lado, cria grafismos de HQ, rabiscos quase irreais que poriam em descrédito sua existência concreta se não encharcasse os atores que cruzam rapidamente o palco de um canto a outro. De princípio, achei excessiva a duração, como se a direção estivesse apaixonada por seu impacto visual, mas depois, tanto se conta sob a chuva, - seguindo adiante uma bela concentração de diversos tempos a amarrar as histórias vividas na Avenida Dropsie, - que toda a sequencia resgata a nostalgia (de dores e pequenas graças) que está na essência da criação luminosa dos losers de Will Eisner.




Trecho de um ensaio que preparo sobre a peça Avenida Dropsie, da Sutil Companhia de Teatro

segunda-feira, março 23, 2009

Museu da Língua Portuguesa


A descoberta de um programa sensacional: Autoplano Pro

domingo, março 22, 2009

Avenida Dropsie


Finalmente consegui assistir.

triste triste triste

Escorreguei e cortei os joelhos, os dois. Inflamados, inchados, a cicatrização numa lentidão de diabético. O horário bizarro das aulas de sábado condenando-me à casa. De repente, depois daquela vertigem de atividades, a inquietante sensação de falta. Ajeitei uns lanches bacanas, tomei um banho demorado, na televisão, a programação mais banal. Rodei o House e o Lost adiado. Caixa de email, orkut. Esvaziei o computador. Fiz uma cópia do Branco, do Azul e do Vermelho. Tentei ver Bethânia e Portuondo. Ainda assim uma noite branca. E eu lembrei a pouco de meu pai morto, com todos os verbos possíveis conjugados no pretérito, emaranhado de memórias recentes nada saudosas. Nestas pausas brancas penso que tudo anda correndo depressa demais, sem que eu possa achar uma posição confortável, um banco, um apoio, na corrente de mudanças. E já a hipótese de insônia dissipa a oportunidade de uma noite inteiramente feliz e minha.

quinta-feira, março 19, 2009

Pequena fábula

"Ah", disse o rato, "o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro." — "Você só precisa mudar de direção", disse o gato e devorou-o.


Franz Kafka

A próxima aldeia

“Meu avô costumava: A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo à próxima aldeia sem temer que - totalmente descontados os incidentes desditosos - até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa."


Franz Kafka

Eu adoro o Kafka

Ontem fui lá ao Sesc-Santana com amigas mostrar uns filmes e falar sobre Kafka. Foi bacana. Mas acho tudo ainda insuficiente. Careço buscar maior entendimento. Por enquanto fica cá esta foto, porque gosto desta ameça possível, a exteriorização do que se reprime, que mortifica o entorno, e que nos mata também, para que estejamos salvos. 


“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, 
encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. 
Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, 
ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, 
dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes 
a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, 
lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, 
tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.” 

Kafka, na tradução de Modesto Carone.



[E eu gosto muito do mistério das palavras e das expressões, tanto das obscuras quanto das, aparentemente, mais claras].



quarta-feira, março 18, 2009

segunda-feira, março 16, 2009

Chico é esse cara

Sob medida

Se você crê em Deus
Erga as mãos para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
eu nasci pra você
Eu não presto
eu não presto

(...)

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus

Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agradeça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece

Chico Buarque


[Essa música é o máximo. Rimas incríveis. Eu-lírico debochado, afrontando toda moral possível. As mulheres do Chico são demais: amam demais, sofrem demais. São as mais carnais da canção. Talvez daí venha esse tesão desenfreado das mulheres pelo Chico, tesão que se espraia para fora do harém que há na cabeça do Chico. Ele diz que não entende nada delas. Que as mulheres são incompreensíveis. E as mulheres fingem que acreditam, mas "bacantes" querem ainda assim devorar o Chico. Por que o Chico é o poeta mais homem da canção; antes dele, talvez, só o Vinícius. Não tem esse papo de ambiguidade com o Chico. E os homem o invejam, admiram, tem amor pelo Chico. Odiá-lo seria como odiar o que há de masculino em si. Chico é uma espécie de  fetiche nacional e coletivo]
.  



ESSE CARA

Ah, esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Com os olhos de um bandido
(...)
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou para o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada
Ele some
Ele é quem quer
Ele é um homem e eu sou apenas uma mulher.

Caetano Veloso

[Como bem letrou o Caetano fingindo-se mulher, os homens de quem falam as mulheres nas canções de Chico, amam e destróem com olhos inocentes, ainda assim, elas cedem com ternura ao seu amor caprichoso, às vezes cruel. Mas quando o homem está no centro, e fala em suas canções, é sempre para revelar certa perplexidade diante de uma mulher que nao compreende, que não se deixa prender por amarras, que se lança com fúria sedutora para o mundo. E ele é sempre um coadjuvante para sua "encenação fatal". Nas canções de Chico, o homem só existe por intermédio da mulher, e só é protagonista de fato, no coração daquela que ama, prementemente está em estado de coadjuvante ou anti-herói. Afinal a conclusão a que chegamos depois de uma duzia de canções, é que em Chico o homem só existe de fato quando é amado].

domingo, março 15, 2009

Porto (do Porto) ou Dia de Porto



Hoje fui ensaiar para Oh, Kafka no SESC Santana, aula-espetáculo que apresentarei com Susanna e Ângela. A mim cabe a parte fílmica: video-montagem Kafka XXI e tratar das relações sobre transposição da literatura kafkiana para o cinema. Como minha amiga Susanna nunca está para brincadeira, chegou ontem de Portugal e trouxe-me de presente um vinho do Porto mais que legítimo. Com isto, se resta dúvida que nasci para provocar amor e ser paparicado, que se desvaneça. Faltou um tintinho assim para ser um dia perfeito, já que perdi a Avenida Dropsie novamente. (Mas comprei para semana, e tenho fé). De Paula, recebi há pouco a notícia de que tudo 100% na filmagem do Samba Lenço. Para arrematar, notícias aguardadas pedem confirmação urgente.

Ou seja, inauguro a expressão, "dia de porto" para quando tudo for motivo de comemoração. E sigamos firmes, rumo aos planos para 2009 não repetir certos naufrágios de 2008.

sexta-feira, março 13, 2009

Sesc Santana - Show de Iara Rennó

Palco do Sesc Santana
Preparação para gravação do show Macunaima.opera.tupi

Palco iluminado

Teatro Sesc Santana

quarta-feira, março 11, 2009

Rosa

"O amor é sede depois de se ter bem bebido."



João Guimarães Rosa
Noites do sertão, p. 61.

Revidando Gláucia com Caetano


Este eu postei há bastante tempo, no blog da Gláucia, Palavrando tudo que é arte, quando ela postou o cd Transa, do Caetano:

Eu gosto demais de Caetano. Um pouco menos do Caetano televisivo, das entrevistas, metralhadora giratória, mas em defesa do axé, marketeiro vagabundo de discos e artistas de pouca ou nenhuma relevância. Este me cansa. Ao mesmo tempo, inegável separá-los, porque, nesse vai e vem do belo e do boçal, o Caetano-artista humaniza o Caetano-narciso, e nele podemos mais nos reconhecer. Não digo do bem que o sujeito me fez, quanta alegria com a descoberta de suas canções que sempre me levaram a outras; e também a livros, filmes, poetas, e artistas vários. Tenho minhas preferências: a canção "O estrangeiro", que ouvi cantada com violão num programa antigo do Ronnie Von me fisgou para sempre. E este disco em particular (O estrangeiro), é o que chamo de disco total, dos mais belos, e um clipe estranho no Fantástico. Amor irrefreável pelo "Circuladô de fulô", trilha de ponto luminoso da vida, e a descoberta de bons amigos e longas conversas também por causa dele. O "Transa", todo bacana. Língua, Um homem velho; a bossa nova. Também as canções de levada afro. (E até as desgastadas Sampa, Tigresa, Leãozinho, Rapte-me camaleoa, Queixa, Você é linda). Amor especial pelas canções mais delicadas: Giulietta Masina, Cajuína, Os argonautas, canções que redimem o Caetano-da-paulinha. Difícil para mim não gostar de Caetano, o melhor é seguir o conselho que Djavan pôs meio sem querer numa canção: "caetanear" o que há de bom.


terça-feira, março 10, 2009

Esqueça a minissérie



"- Para mim está importando você. Você me convidou para vir aqui. TUDO é pessoal."

"Criação é uma coisa que nasce. Nasce com a gente, nasce com as nossas dores, nasce com as nossas neuroses, com os nossos sorrisos. Não, não, não. Criação é uma coisa muito importante. Científico também é, só que... Científico é científico. Ou não?..."


Esqueça a minissérie, o melodrama tolo, a imitação, o decalque edulcorado, que no empenho pela perfeição, faz toda armação ruir falsa. Puro pastiche de manequim de vitrine. Prefira a original, retalhada, consumida, intensa, exalando a sexualidade de uma mulher fatalmente perdida. Maysa é mais que a nossa Amy Winehouse. Maysa é a figura feminina mais densa e complexa já esboçada na literatura: a protagonista intangível de um romance que Clarice Lispector jamais escreveu.

segunda-feira, março 09, 2009

2008

Gosto desta foto, clique de Marcela, Tiagônico e eu, zen-budista.

domingo, março 08, 2009

Recado ao viajante


Quando está silêncio eu não soo
Eu não gosto de interromper o silêncio
desrespeitá-lo com a mínima mímica
do som de
snecessário.

Meu silêncio diz tudo
todas as coisas imóveis cabem no meu silêncio:
o tempo retido na memória
a imagem, paralizada, no quadro
(as mil palavras ausentes da imagem).

Talvez só o eco me comova tal e qual
no seu círculo de repetições no espaço
em seu pleonasmo passadiço de som
seu roçar as paredes da caverna
com sua onda espraiando-se sem água:
giros invisíveis em torno do silêncio.


Neste instante vou às lágrimas
e pinga pesada uma gota
que fura a pedra mais dura
e um pouco, também de mim se desprende
como um dente que salta da rocha
ao encontro de outro, que se projeta.

E no fluxo dos anos, gargalhando gotas,
elaboro (em silêncios) o sorriso
que agora o recebe, viajante.

eat.março.2009


Pier Paolo Pasolini

Pasolini, na copa de uma árvores feita de sombra.

 [E se eu revelar que a árvore não existe, que a sombra é um desenho de Aragon que simula uma árvore que não há? E se eu disser depois, que minto, que a irregularidade no tronco da árvore revela o antebraço do fotógrafo, para lançar o clique? E se eu pedisse que olhasse melhor a figura de Pasolini, para que visse que não há sombra em seu rosto, revelando que o retirei digitalmente e o coloquei sobre a projeção desta árvore sob cuja sombra nunca esteve? E se eu disser que o homem da foto não é Pasolini? E se disser que esse tal Aragon eu inventei? E se eu disser que a simplicidade da imagem (que a faz poética) é falsa? E se eu, por fim, revelar, que há Pasolini, a árvore, a imagem natural, e o resto são questões meramente intelectuais. Tirei a poesia da imagem?]

sexta-feira, março 06, 2009

Presente contínuo

Chove agora uma chuva necessária para a fervura deste seis de março. Minhas férias intermináveis chegam ao fim. E há muitos projetos a realizarem-se. Eu conto com a ajuda de tantos amigos, e ando muito grato por estar vivo. Não passa nenhum instante essa urgência que me assomou há uns poucos meses, e que anda produzindo efeitos insuspeitáveis em mim e no entorno. Agora que se aproximam as aulas, vejo que senti falta dos meus alunos. Agora que se aproxima o pós-doc, percebi que senti falta de voltar aos estudos. Agora que se aproxima a realização dos projetos, sinto que devia estar mais preparado para as ações. Agora que se aproxima o presente, um ano brasileiro adiado pelo Carnaval, vou penetrando 2009 sobre o auspício da mudança. Não sei ainda bem onde vai dar tudo isto, e o caminho não se anuncia atapetado, mas recobrei uma fagulha de vontade, e junto palhas moles, secas, para acender uma fogueira, mais uns gravetos, para que o fogo não se extingua.

Um filme sem sexo



É um filme tão demais, que encontrei no blog da Ana, que roubei, e convido para o post que ela escreveu/transcreveu. Uma viagem boa entre blogs.

Dois instantes de Okuma


Fuçando o Orkut do Okuma, descubro a sua faceta fotógrafo. Esclareço. Okuma é o Documenta de Kassel num ser só. Um Pessoa sem angústia, sem lírica em versos, personas em luta interna e drama. No lugar dos heterônimos essas diversas faces: de ator, cenógrafo, artista gráfico, performer, baterista, cineasta, roteirista, proprietário de loja de mangá, educador, universitário (devo ter esquecido outras, que não sei, mas ele que se sabe tanto, me perdoe). O fato é que a gente não sabe para onde Okuma vai, pois Okuma não pára, salta de uma cidade a outra, sem noção de distância, mas não ruma "des-orientado". Okuma é frenético e zen, todo imagem e movimento. O andreense mais Liberdade que conheço. Então roubo, posto, homenageio esta figura plural tão singular, esses Okumas todos a quem eu chamo orgulhosamente de apenas meu amigo

Imagens Gorumbha




Às vezes acontece de esbarrarmos na vida com gente talentosíssima, estes são três exemplos lindos da produção digital do meu aluno excêntrico, que assina artisticamente Gorumbha. Mas sua arte espraia-se pelo desenho, pintura e fotografia. Sempre uma busca pelo estranho, do orgânico dentro da matéria concreta e da luz. Que siga assim, iluminado, iluminando.

Dia de hoje

Hoje com meu amigo Gilberto discutindo proposta de roteiro que ele fez com Thais. Muito bom. Toda sorte do mundo para ele. Novas propostas. Milhões de atividades a se concluir em 2009.

quarta-feira, março 04, 2009

Macunaó.peraí.matupi




IARA RENNÓ

SESC Santana

Dia(s) 12/03
Quinta, às 21h.

SESC Santana


A cantora, compositora e instrumentista, iniciando sua carreira individual, faz turnê apresentando o disco solo “Macunaó.peraí.matupi”, com musicalizações de trechos do romance “Macunaíma – O Herói Sem Nenhum Caráter”, de Mário de Andrade. O álbum é um lançamento do Selo SESC. Teatro.



[Eu, Lucas Guedes, Celso Luz, Conrado Falbo dando segmento ao projeto LITERATURA E OUTRAS ARTES, iniciado com "Aqueles dois da Cia Luna Lunera". Gravações de entrevista e inserts da apresentação para produção de ensaio e documentário. 2009].

terça-feira, março 03, 2009

Revidando Letícia

O post de Letícia, no seu blog, Palavras... apenas é este. Embaixo ficou minha resposta. Cansei de falar tanto de mim. De agora para frente, só revido.

Ou é amor ou cardiopatia. Em ambos os casos, você não está no seu estado normal. Você será sempre um ser de exceção, amando ou sofrendo do coração. De um modo ou de outro, o mais seguro é encontrar abrigo no peito do amado, evitar temores desnecessários, e acreditar na felicidade. No caso do amor, siga a esteira da vida, da cardiopatia, aquele exame chato com eletrodos no peito. De resto, convém repouso, cama, alimentação leve, vinho. Vinho é bom para o coração, seu e dele.

Dois posts para Letícia

Letícia é sintética, e sagaz. Escreve o essencial. Uma, duas ou três frases para dizer tudo. O que torna seus posts sempre ambíguos, susceptíveis a variadas interpretações. Como uma frase enigmática que se pega de relance, quando alguém vem no sentido contrário pela calçada a responder um mistério qualquer a outro que segue ao seu lado. E essa coisa que envolve impressões distintas, mistérios, vaguidão - que também é uma das qualidades que aprecio em poesia - é um modo inteiro de ser Letícia. Letícia é um verso-poema de Ana Cristina César, ou aqueles epigramas de Orides Fontela. Só poetisas para tradução desta moça, homens não poderiam desvendá-la. Letícia é a mais feminina das mulheres que conheço, ela cria gatas com estranha delicadeza, de alguém que se reconhece nelas, escamoteando a posse, suas gatas são suas iguais. E nós sabemos o quão escorregadios são os felinos. Ninguém sabe se o afago os agrada ou aprisiona. Se fossem cães ou outras feras, ela os domaria, e eles se converteriam em servos dóceis, estendidos a seus pés.

Tudo isso porque Letícia está na contramão das espectativas, das impressões rápidas, capaz de nos surpreender com uma ação inusitada num pulo, no outro, uma opinião tão conservadora que nos faz enrubescer.  E nós que fomos ficando amigos sem perceber, vamos amadurecendo nossa amizade nesse contato distante e perto dos escritos que nos endereçamos, leituras entrecruzadas e o gosto lanoso por filmes difíceis.


O estrangeiro


Adoro "O estrangeiro".
A voz de Caetano que demorei a apreciar. Mas a poesia sempre, grande, superlativa.

No msn, obrigando o Tiago (que não escreve mais) a escrever



edduardoat@gmail.com diz:
vou-me
edduardoat@gmail.com diz:
quero atualizaçoes
edduardoat@gmail.com diz:
atualizaçoes
edduardoat@gmail.com diz:
atualizaçoes
edduardoat@gmail.com diz:
escreva
edduardoat@gmail.com diz:
O PREGUIÇA MALDITA
Tiago diz:
escreverei!
Tiago diz:
nem que seja a ultima coisa que eu faça na vida!
edduardoat@gmail.com diz:
o epitáfio
edduardoat@gmail.com diz:
Aqui jaz pimpao, que na vida foi tiago, alegre até nos roteiros mais tristes, e que no aqui jaz para sempre enterrado, como um mal morto entediado, ensaia no pós morte, sua ultima piada: escapar da sorte dando vivas, e grandes salves, à Morte.
Tiago diz:
hehehe
Tiago diz:
vou usar essa na minha lápide
edduardoat@gmail.com diz:
vai para meu blog
edduardoat@gmail.com diz:
assim, à contragosto, posto um escrito e divido a autoria com vc
edduardoat@gmail.com diz:
o que faço, agora
Tiago diz:
mas eu não escrevi nada!
edduardoat@gmail.com diz:
mas me inspirou a escrever
edduardoat@gmail.com diz:
e isso, como ando tao sem ânimo, não é nada pouco (pelo menos para mim
edduardoat@gmail.com diz:
abrço
Tiago diz:
abraço1
Tiago diz:
!


domingo, março 01, 2009

Revidando semi elogio de Marcela

Marcela publicou no Umbigo Roxo que "às vezes" acerto como fotógrafo. Não resisti, revidei lá longamente, aqui posto umas impressões aos saltos. 

Às vezes não, a maior parte das vezes as minhas são as melhores. Com as digitais, não economizo, disparo, para irritação dos amigos. Sofro a ameaça da LER. Uns dizem que mal curto o passeio, o olhar sempre por trás do LCD da câmera. Mentira. Fotografar também, um prazer imenso, em conjunto com a viagem. Trago para casa a memória do passeio e o prazer do trato com as fotos. Nada mais de sala escura de revelação, só eu e meu computador. O paciente exame das imagens, manipulações mil. (Já disse que me interessa falsear a realidade, pois o real é inapreensível. Meu desejo é, alterando as cores, luzes, texturas, recuperar o clima; um pouco mais de luz, para o que saiu escuro)

Se não sei reconhecer aquele momento mágico, em que tudo é luminoso, me esmero no enquadramento e no ângulo, depois, o disparo caótico na confiança de um acerto. A preferência sempre pelo instante em que há uma distração qualquer do fotografado.

Assim, vou me aprimorando em fazer com que os amigos vejam-se retratados não como querem, ou como são (acham que são), e sim como eu os vejo. Por isso, reservo-me ao direito de só "apresentar" o que gosto.




MILK


MILK. Chorei. Menos que o devido, por certo. Sean Penn e aquela dignidade incrível, na grande e discreta interpretação dos atores maiores. Os astros novos todos empenhados em realizar um filme significativo. Não é um filme gay. Filme de lutas e amores viados, contrariando o puritanismo da forma e dos tempos. Beijos discretos e trepadas pudicamente nas sombras. Mas um plano geral do beijo encoxado na calçada, à plena luz do dia projetado, para tremer templos e incendiar bíblias. Salto nu na piscina chupado de Almodóvar: de Fale com ela e La mala educación. Um desejo grande de confiar que ações e verdades possam mudar o mundo, destronar hipocrisias. Careço desta crença e de tantas outras. Mas o filme, inegável panfleto pró-direitos gays de Gus Van Saint, registra o ponto de virada da luta, a emoção par a par com a consciência de que ser gay é, antes de tudo, coisa pra macho, seja qual for o sexo.