quarta-feira, janeiro 28, 2009

A paixão segundo Ester (conto)

Antes de se apaixonar perdidamente a velha era aquela casa. Acanhada, antiga, sóbria, por bem pouco espremida entre duas outras iguais da antiga vila operária. Dentro, o centro era um altar. O grande coração de Jesus exposto vermelho na folhinha enquadrada, o dedo ferindo no peito um clarão sagrado. O pai se fora, depois a mãe, puxando a filha por vinte três anos de viuvez. Moça, arrastava chinelas de avó desde a tenra flor da meninice. Uma vida inteira de inolvidáveis novenas, o orgulho dos joelhos calejados, as mãos estreitando terços, queimados os dedos de incenso, a alma para sempre parafinada.

A casa, depois do pai, nenhum homem. Há quarenta e três anos o último pretendente, tímido demais, bonzinho e gago. Vinha vê-la com preguiça. Gostava de comer paçoca. A mãe vigilante tricotando cachecóis. O moço comentava o tempo. No portão, última vez que se viram, o comentário de que as casas todas iguais da vila o confundiam, zanzava horas para encontrar o 670. 

Quem reinava sobre a toalhinha bordada era Veludo, gato angorá de olhos claros, bola de pêlos de ternura concentrada. Arredio às carícias da dona, que o mimava à revelia de sua indiferença. Como qualquer amor que deixa marcas, às vezes a feria com as unhas afiadíssimas do desprezo. Ela aceitava aquele amor difícil com submissão resignada . Para ela não havia paixão sem dor, e todo sofrer era tolerável, porque divino. E os santos no altar cravados de flechas, espetados por espinhos, com a palmeira na mão, decapitados, atestavam súplices essa verdade. Porque a tirania de Veludo era justa vingança pela castração da dona. No mais, afeiçoara-se ao conforto do sofá do Cretáceo. Tinha água, a ração diária era frugal, mas não insuficiente. Só não aceitava correias, pingentes. Recusava-se a corromper sua natureza brutal de gato. Duas ou três vezes escondeu camundongos, que capturara na casa vazia em frente, debaixo da geladeira que rangia velha. Nunca se submeteu à caixa de areia. Por isso tinha Ester que deixar a porta aberta para vadiação diária, para vê-lo voltar arisco, o olhar blasé. Ele era dono dela, consentia que saísse de manhã para missa.


[Parágrafo de um texto que estou terminando, já que resolvi transformar meus roteiros em contos].

Prevaricação ou homenagem Klint?










[A publicidade prostitui Klint?]

"Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas 
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão 
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta 
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem 
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes 
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma "

(Fragmentos da Ode triunfal)

Fernando Pessoa

Postando um recado no blog do Eduardo Santinon

Estou devolvendo aqui o comentário da minha página sobre a Argentina vir aqui me buscar em casa.

Eduardo, camarada, é o seguinte: emprego não é coisa de Deus. Jesus só recebeu o título de carpinteiro por causa do pai. Provavelmente, só carregava essa cruz em seu nome. O que fazia de melhor era pregar. E não estou falando de martelar, por que aí sua morte na cruz seria uma ironia dos diabos. Jesus não cortava o cabelo, montava em besta mansa, vestia lençóis e gostava de curtir a natureza com os amigos. Vez ou outra, ensinava a pescar, mas não pescava, e ainda encantava todo mundo caminhando sobre as águas. Era uma alma livre, de colinas, transubstanciava água em vinho, e era bom mesmo em multiplicar pães e peixes que distribuia, camarada, para multidões, e de graça. Nessa perspectiva, tinha puxado o pai, que, criando o mundo, não suportou mais do que seis dias de labuta. Por isso que domingo é dia santo, dia de comemoração, camaradagem, de roupa vistosa de missa. Depois destes exemplos mais que divinos de que o trabalho é coisa de seres inferiores, só posso acreditar que "trabalho" é invenção de ateus, ou "agnósticos", que nada mais são que crentes sem muita convicção.

DEPOIS MELHORA


Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora
E com o tempo vira um sentimento
Que nem sempre aflora, mas que fica na memória
Depois vira um sofrimento que corrói tudo por dentro
Que penetra no organismo, que devora
Mas depois também melhora

Sempre que alguém daqui vai embora
Dói bastante, mas depois melhora
E com o tempo torna-se um tormento
Que castiga, deteriora, feito ave predatória
Depois vira um instrumento de martírio duro e lento
Uma queda num abismo que apavora
Mas depois também melhora

E vira então uma força inexplicável
Que deixa todo mundo mais amável
Um pouco é conseqüência da saudade
Um pouco é que voltou a felicidade
Um pouco é que também já era hora
Um pouco é pra ninguém mais ir embora

Vira uma esperança
Cresce de um jeito
Que a gente até balança
Enfim
Às vezes dói bastante, mas melhora
Enfim
É só felicidade
Aqui agora
É bom

É bom não falar muito
Que piora
Enfim
É só felicidade

Luiz Tatit

[Esta letra linda de canção, Conrado postou no blog dele e dedicou a Cilene que amava o Tatit. Não resisti, roubei, posto aqui. Ando um todo-coração neste janeiro. Não sei por quê. E para justificar meu roubo escrevi isto no blog dele:

Li só hoje, e fiquei comovido até os ossos. vou recortar e colar no meu blog, pois desse modo junto duas amizades essenciais para mim: você e Cilene.]


terça-feira, janeiro 27, 2009

Postando um recado no blog da Letícia

As fotos da viagem, tão bonitas todas. Adorei e invejo, invejo na maior cara de pau. Mas a verdade, é que eu estou com uma preguiça abissal, uma preguiça de Macunaíma, de cágado manco, funcionário público em começo meio e fim de expediente. Já decidi. A Argentina se quiser, que venha me buscar.

True Blood



Esta série é a minha mais recente mania.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

De TUDOS, de Arnaldo Antunes

[Poema do qual gosto muito. Clique para ampliar]

TUDOS
Arnaldo Antunes
Iluminuras, 3a edição, 1993.

Nova aquisição

O SOL SE PÕE EM SÃO PAULO
Bernardo Carvalho


[Hoje, num sebo, lá na Liberdade, o terceiro livro que compro deste autor que ando admirando muito. ]

Contranarciso


CONTRANARCISO

Só admiro no outro
meu próprio corpo.

Eduardo At.

LENDO OBSESSIVAMENTE


MITO E TRAGÉDIA NA GRÉCIA ANTIGA
Jean-Pierre Vernant e Pierre Vdial-Naquet

[Adquiri este livro naquela feirinha da usp em 2003. Leio obsessivamente desde então, reforçando aquele amor que tenho por Mitologia Grega desde que meu professor, Reinaldo, na 5a série da escolinha pública do Jd. Zaíra nos contou a história de Narciso, Ulisses e Édipo. Édipo, outra obsessão, até a cegueira.]

terça-feira, janeiro 20, 2009

Estilo

Ele escrevia aquela crônica leve e jovial quase que diariamente e publicava no seu blog para ninguém, mas na esperança (ah, sempre a esperança) de que alguém o achasse. Queria talvez a compreensão, ou o registro de um pequeno luminoso momento de sua vida que era de uma palidez de serração. E tinha aquela máxima que não lhe saída da cabeça e que era ótima para imprimir-se: "o impossível ato de querer entender o presente como que saltando do carro em movimento para melhor perceber, do ponto da queda, o instantâneo da passagem". E agora pensa no clique que borra a imagem e restam as linhas transversais como um fantasma que lhe foge. E queria ele mesmo assim, com o precário estilo compor um retrato muito humano e tímido com pretensões de literatura disso que se a retina capta o cérebro turva sem razão. Era tempo de alguém recomendar a leitura de Spinoza.  Às vezes a gente precisa ler Spinoza para melhorar o filtro das paixões.

Anotações sobre ontem

Acordar tarde.
Ler emails.

Paula e Paulinho descendo um ponto antes.
Notícias preocupantes de La Bamba.
Mais a frente, Thalita e Bruno enquanto não é tempo de voltar a Minas.
Notícia da morte em Samba Lenço.
R$1,00 a impressão de uma página no pendrive.
Pagar contas.
Humilhante diálogo com Érica.
Escolhas erradas mescladas com fracasso moral.
Alguns jornais depois
Incrível coincidência: Douglas, Márcia e Luís no Plaza Mauá
Suportes indianos para bebês com Gláucia e cia
Conversa longa no caminho de eletrodomésticos
"Os tempos mudando, no devagar depressa dos tempos."
(essa pernóstica insistência em contorcer sintaxes
em citar sobre o supracitado)

Cerveja, amendoim, café expresso as 23 na casa de Doug Funny família (& Minduim)

Boa notícia do QUESTÃO DE CRÍTICA
Boa notícia do SARARÁ
Boa notícia do DJALMA abrindo possibilidades de mudanças
Todas as boas possibilidades viajam em kbytes.

Alguma insônia
reler Protocolos Críticos, bom texto final.
Ritmo acelerado na prosa do Rap
[com seus bons achados embrulhados numa forma não só imperfeita, erros de caracteres, nome corrompido na capa, tudo levando à certeza de uma insuficiência que embola pensamento e escrita. Tudo cobrando a urgência de atingir a sobriedade na vida e no estilo].
Final da insônia.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Fellini sobre Satyricon


Pergunto a mim mesmo: mas será possível apagar de nossa consciência dois mil anos de história e de cristianismo, tentar imaginar os mitos, as atitudes, os costumes de antepassados tão distantes, sem fazer disso objeto de uma satisfação moral, sem julgá-los, sem reservas críticas, sem inibições psicológicas e preconceitos? Talvez não, não será; mas de qualquer maneira, quero tentar, quero criar para mim um olhar límpido, destacado, que saiba observar outra dimensão de forma impassível. O mundo antigo talvez nunca tenha existido, mas não há dúvidas de que sonhamos com ele. Dos sonhos, Satyricon deveria possuir a transparência enigmática, a clareza indecifrável. O maior esforço que este filme me pede é fazer coincidirem duas operações paralelas e de todo opostas. Nos filmes tudo é inventado: os rostos, os gestos, as situações, as coisas, os ambientes. Para obter este resultado, confiei na paixão pela fantasia. Mas depois, terei de objetivar o fruto destas operações fantásticas, para poder explorá-lo de novo para encontrá-lo intacto e irreconhecível. Com os sonhos acontece o mesmo. Têm conteúdos que pertencem a nosso íntimo, pelos quais nos exprimimos, mas à luz do dia, a única relação que podemos ter com eles é de natureza intelectual. (...)(p. 144)

Federico Fellini 

In Fazer um filme. Civilização Brasileira. Coleção oficina interior.


sexta-feira, janeiro 09, 2009

Saer, sobre literatura "jornalística"


(...)Há uma confusão entre literatura e jornalismo que antes não existia. Há um tipo de literatura jornalística, de estilo rápido, descuidado, descosturado, que passou ao campo da ficção. Parece que o raomance se tornou o ponto culminante na vida espiritual do homem. Qualquer pessoa, seja um ministro, seja um assassino de bebês, seja um prostituta, para realizar-se plenamente em qualquer uma dessas especialidades, escreve um romance. Todos se tornaram romancistas. Mas a gente confunde o fato de estar alfabetizado com o fato de ser escritor.
A narrativa é uma arte que tem suas regras, como a pintura, a música; não é simples vômito confessinal nem resultado de uma experiência rica ou particular. A experiência de Kafka, um empregadonuma agência de seguros, não tinha nada de interessante; nem a de Borges que trabalhou numa pequena biblioteca de bairro; nem a de Guimarães Rosa, que era diplomata, mas cujomundo certamente não tinha nada a ver com o mundo do sertão. (...)

Juan José Saer
19.09.1999

Memórias do Presente (100 entrevistas do Mais!), Publifolha, SP, p. 243-244.

Dali atômico



[O fotógrafo Philippe Halsman precisou de 26 tentativas durante cinco horas para conseguir essa imagem, em 1948. O pintor Salvador Dali pulou. Cada gato foi jogado por um assistente. Um deles atirou a água de um balde ( a curva descrita pelo líquido é ótima). A esposa do fotógrafo cuidou da cadeira. A expressão facial de Dali é ótima.]