sábado, outubro 25, 2008

De um conto de Borges

Emma deixou cair o papel. Sua primeira impressão foi de mal-estar no ventre e nos joelhos; logo de cega culpa, de irrealidade, de frio, de temor; logo, quis já estar no dia seguinte. Ato contínuo compreendeu que essa vontade era inútil porque a morte de seu pai era a única coisa que havia acontecido no mundo, e continuaria acontecendo sem fim. Recolheu o papel e foi a seu quarto. Furtivamente guardou-o em uma gaveta, como se de algum modo já conhecesse os fatos posteriores. Já havia começado a vislumbrá-los, talvez; já era a que seria.
.
in O aleph


[Do conto e um conto "Emma Zunz", de Jorge Luís Borges, cuja frase sempre me impressionou.]

Lições de roteiristas



Ted Tally (The Silence of the Lambs)
Lisa Chodolenko (High Art)
Carlos Cuaron (Y Tu Mama Tambien)
Chris Weitz (About a Boy)
Michael Haneke (Code Unknown)
Wes Anderson (Rushmore)
Darren Aronofsky (Requiem for a Dream)
Patrick McGrath (Spider)
Alex Garland (28 Days Later…)
Michael Tolkin (The New Age)
Scott Frank (Out of Sight)
Alexander Payne and Jim Taylor (Election)
Lukas Moodysson (Together)
Paul Laverty (Sweet Sixteen)
Fernando Leon de Aranoa (Los Lunes al Sol)
David O. Russell (Three Kings)
Francois Ozon (Under the Sand)
Robert Wade and Neal Purvis (Die Another Day)
Guillermo Arriaga (Amores Perros)
.
[Novo livro que chegou pelo correio. Reune entrevistas de roteiristas diversos falando sobre suas experiências, métodos, formas. Até o momento, a certeza de que Kevin Conroy Scott, o entrevistador, conduz de maneira rudimentar as entrevistas, impedindo que realmente os "autores" revelem seu modus operandi com sinceridade e sem parecerem engessandos. ]

FOTO

Queria postar aqui uma foto do meu pai. Mas para mim é impossível entrar no quarto, mexer em suas coisas, nos meus álbuns de retrato. Não era tão apegado ao meu pai, e havia mágoa demais em nossa relação por uma sucessão de fracassos de ambos os lados. Entretando, sua ausência é tão angustiante que me faz desejar não pensar, esquecer. Mas esquecer é um caminho fácil que ando adotando demais, razão talvez do crescente "pagamento da minha memória". Nos últimos meses brigávamos o tempo todo. Os filhos podem ser horríveis com seus pais, e terem consciência de fazerem isto e mesmo assim, por uma questão de falta absoluta de contenção dos sentimentos, seguirem cruelmente amolando-os. É que a impressão maior é que não toleramos falhas em nossos pais.  E porque achamos que também, estranhamente, estão em dívida conosco, por tudo que deveriam ter feito (segundo nós) e não fizeram. E parecem, estranhamente, mais poderosos e eternos do que são. Na verdade não toleramos a humanidade deles. Reconhecemos tanto a nossa que não toleramos a deles. Na verdade tememos a instabilidade de estarmos sós quando todas as mudanças nos atingem e nos jogam para um mundo de instabilidade. O que anda me salvando, é o fato de tê-lo recebido em casa, cuidado dele por um período longo em que estivemos mais juntos em que toda a vida. E com brigas e sem brigas, a certeza de não ter sido indiferente a ele, algo que poderia ter sido melhor substituido por uma tolerância que deve ter, não um filho diante do pai, mas de um adulto diante de um homem velho [esta a grande imagem final]. Se eu tivesse conseguido esquecer essa vínculo por si tão difícil, os ressentimentos teriam se diluído e certamente eu estaria mais em paz comigo mesmo. Sem sofrer pelo que foi e o que deveria ter sido.
.
[Escrever é uma forma de gastar a angústia]

sexta-feira, outubro 24, 2008

DATA

MORTE de meu pai hoje. <24.10.2008>

Registrar e lembrar:

.                                     a percepção de um enorme silêncio,
na casa do fundo,
a voz para sempre perdida de meu pai,
e a impotência grande diante do imutável lance,
anterior ao fim.



quarta-feira, outubro 15, 2008

NIJINSKI

Vicioso Kadek

Pensava farto, pastoso, às vezes em trechos alongados: se às Tuas costas, meu Deus, eu pudesse me fazer, apagar a Tua imagem e de cima de um todo-mim entender minha completa potencialidade desde o meu existir. Menos farto: igual a todos eu queria ser se pudesse, atuar como todos. Pensava bonito: pedra sob lua baça. O meu amor no teu que passa. Colinas, pássaros, teu momento, meu passo. Gasoso Kadek, olhando através da testa dos outros, por isso todos se riam cada vez que olhava pensante, cada vez que bebia como todos o branco-alegria nacional, pinguço se fazia como todos, e delicado um entender de dentro de boca mole mas muito prudente soletrava: assim tu morre, Kadek, pinguço e pobre como todos, igualzinho sim. Antes matemático, psicólogo, espiou a curva de Moebius muitos anos, viveu prensado nela, horas pensando, também eu não tenho lado de dentro e de fora, e depois: tenho? Quis arredondar-se, grão, e não escurecer com a palavra seu estar aqui, gargalhada de todos quando passava, foi ouvindo e alguma vez tentou anotações futuras sobre a metafísica da risada: riem-se porque Kadek estando aqui, passando, pensa também, e alguma coisa à sua volta se enche de brilhos, de luminescências, estilhaços, e passo fosforescente entre as gentes do bar. Se me perguntam Kadek, tu passa e não diz nada? Respondo tentando não pensar: eu te devoro o mundo se me deres um revolver mudo. Risadas. Ou isto: só subi a montanha porque desejava tua impossível cama. Risadas. Ou isto: somos ateus com Deus. Muitas risadas. Pensava summum malum é esse meu viver pensante, essa pedantocracia, esse estético vazio, ético tentou atos políticos, ético Kadek redimensionando “a coisa”, chupava de Sartre “a coisa”, mas dizia: digo coisa para não dizer lixo, ditadura, então minha gente, “a coisa” corrói, empedra, suja, embrutece, suprime, lixa tua criatividade, adormece, ensombra, letargiante corrosiva coisa, te arranca a alma, senhores senhoras “a coisa”... Pegou dez anos e seis meses, muita enrabação, muita pancada, toma aí pestilento, a coisa é isso aqui, e a rodela de Kadek estremecia eletrizada, os bagos finos pendiam agora inchados, matemático é? repete aí dois mais dois é vinte e quatro. Repetia. Vício foi se fazendo de só ser comido pelos rombudos de farda, os botões duros cutucando-lhe as nádegas, mas nem por isso largou o outro vício de pensar beleza, de relembrar: é melhor estar sentado do que de pé, deitado do que sentado, morto do que deitado. Todo Zen, Kadek desejou que a morte viesse, esfarrapada, bêbada, patível o mais possível, ao lado, um louco, lhe dissesse: chi, Kadek, tu não morre, ta difícil. Foi deitando amortado, o olho tentando o além outro lado, pediu a Jesus que não lhe surgissem palavras, que morresse muito ético, nada estético, olhou o de cima cinzento sem nuvens, nem gaviões, nem pardais, pensou perfeito para a morte de mim, a cabeça virou quase encostada ao ombro, viu bosta de gente a um metro do seu corpo, repetiu: obrigado Jesus, mais que perfeito para a morte de mim, deitado pobre anônimo agora no esturricado capim, muito igualzinho a muitos, ia dizer infindáveis obrigado quando o olhar subiu para o cinzento sem nuvens outra vez, e viu o pássaro. Trincou a língua para não dizer beleza, adelgaçou a vida, mas encolhido poetou entre babas: alado e ocre pássaro da morte. Totalmente diferenciado, então morreu.

Ciência e arte: da fita de Moebius a Escher

O ANEL DE MOEBIUS




Descoberta em 1865 pelo matemático e astrônomo alemão August Ferdinand Moebius (1790-1868), a faixa (o anel) de Moebius foi o embrião de um ramo inteiramente novo da matemática conhecido como topologia, o estudo das propriedades de uma superfície que permanecem invariantes quando a superfície sofre uma deformação contínua.

terça-feira, outubro 14, 2008

Insônia

Todo dia a insônia
Me convence que o céu
Faz tudo ficar infinito
E que a solidão
É pretensão de quem fica
Escondido, fazendo fita

Todo dia tem a hora da sessão coruja
Só entende quem namora
Agora vam'bora
Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo acordar
E a gente dormir
Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir

Todo dia é dia
E tudo em nome do amor
Essa é a vida que eu quis
Procurando vaga
Uma hora aqui, outra ali
No vai-e-vem dos teus quadris

Nadando contra a corrente
Só pra exercitar
Todo o músculo que sente
Me dê de presente o teu bis
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir, dormir

Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir

Cazuza

RETRATO DE FAMÍLIA

Este retrato de família
está um tanto empoeirado
Já não se vê no rosto do pai
quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
as viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa, amarela,
sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rostos de Pedro é tranquilo,
usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
é um oceano de névoa.

No simicírculo de cadeiras
nota-se certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figuravai murchando,
outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços da família
perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
que um corpo é cheio de surpresas.

A moldura deste retrato
em vão prende suas personagens.
Estão ali voluntariamente,
saberiam - se preciso - voar.

Poderiam sutilizar-se
no clao-escuro do salão,
ir morar no fundo de móveis
ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
e papíes, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde,
ele me fita e se contempla
nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
dos que restaram. Percebo apenas
a estranha idéia de família

viajando através da carne.


Carlos Drummond de Andrade

MONÓLOGO



Oh não! muito obrigado!
Pra depois outros e mais outro...
Basta o que me vai por dentro,
Amargo de alma de moço
Deste século safado.
Cigarro? Pra que o cigarro?
Basta Mussolini, Trotsky,
A Neoescolástica, Freud,
Crise, mulheres, cinema
E a p... que pariu.
Não insista mais, ouviu?
Sou desgraçado. Não fumo.


Mário de Andrade

(que fumava) - em carta para Manuel Bandeira, 1929.

RAIZ

Os pais primos-irmãos
avós dando-se as mãos
os mesmos bisavós
os mesmos trisavós
os mesmos tetravós
a mesma voz
o mesmo instinto, o mesmo
fero exigente amor
crucificante
crucificado
a mesma insolução
o mesmo não
explodindo em trovao
ou morrendo calado.


Carlos Drummond de Andrade
Bontempo, 1968

TRÍPTICO

Três amores ligados e distintos
no tempo vão que despetala amores,
tão unidos nos rostos e posturas,
na variedade de almas e de corpos:
quem consegue o milagre de mantê-los
assim férvidos, diversos, alongados,
cobrindo o vasto território humano
sem que um, se consumando, extinga
a chama de outros dois na mesma hora?
Quem perfaz o prodígio e desafia
leis de fidelidade, sendo fiel
a si mesmo e aos contratos de ternura
de uma só boca, em beijos repartida?

O amor, já sei, é jogo de poesia
como a poesia é jogo de contrários.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, outubro 13, 2008

ORKUT


Entro cada vez menos no Orkut. Cada vez tenho menos mensagens. Entretanto, não desgostei do "negócio". Ali tem coisas ótimas, amigos para rever, gente nova que aparece e, claro, as comunidades. Um exemplo é essa comunidade sobre cinema: "LIVROS SOBRE CINEMA", na qual se pode encontrar uma material ótimo, além de ser um canal de diálogo com pessoas especialíssimas. Vale a pena:

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=13590903

quarta-feira, outubro 08, 2008

O Nome da Cidade

Onde será que isso começa
A correnteza sem paragem
O viajar de uma viagem
A outra viagem que não cessa
Cheguei ao nome da cidade
Não a cidade mesmo espessa
Rio que não é rio: imagens
Essa cidade me atravessa
Ôôô ôô ô ô eh boi êh bus

Será que tudo me interessa
Cada coisa é demais e tantas
Quais eram minhas esperanças
O que é ameaça e o que é promessa
Ruas voando sobre ruas
Letras demais, tudo mentindo
O Redentor que horror, que lindo
Meninos maus, mulheres nuas
Ôôô ôô ô ô eh boi êh bus

A gente chega sem chegar
Não há meada, é só o fio
Será que pra meu próprio Rio
Este Rio é mais mar que mar
Ôôô ôô ô ô eh boi êh bus

sertão ê mar

Caetano Veloso

Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar

Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Eu vivo no mundo com medo, do mundo me atropelar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
E o mundo por ser redondo, tem por destino embolar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Desde que o mundo é mundo, nunca pensou de parar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
E tem hora que até me canso de ver o mundo rodar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Quando eu vou dormir eu rezo pro mundo me acalentar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
De manhã escuto o mundo gritando pra me acordar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Ouço o mundo me dizendo: corra pra me acompanhar!
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Se eu correr e ir atrás do mundo vou gastar meu calcanhar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Eu procurei o fim do mundo porém não pude alcançar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Também não vivo pensando de ver o mundo acabar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
Nem vou gastar meu juízo querendo o mundo explicar
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar
E quando um deixa o mundo tem trinta querendo entrar
(mas na minha vaga não!)
Toda vez que dou um passo o mundo sai do lugar

Siba

domingo, outubro 05, 2008

PROTOCONTOS

PROTOCONTOS

1

Havia uma mulher que limpava obsessivamente seu apartamento todos os dias. Não que se sentisse impelida a isso, antes, aborrecia-lhe ter que fazê-lo, mas obediente, não podia ignorar as ordens que a mãe lhe soprava ao ouvido. Nenhum problema que ela estivesse morta desde sempre. Sentia-a presente em cada cômodo, desde o perfumado do açafrão que vinha da cozinha, até a solidez inabável de um relógio cuco que obscenamente se lançava no espaço a cada hora. Embora desejasse, não acendia-lhe velas, a voz fora desde sempre contrária a qualquer demonstação de emotividade cristã. Isabel fora uma mulher prática, e não havia porque não sê-lo depois de morta. A filha seguia assim, o rigor de uma vida limpa, reservada e ao mesmo tempo festiva, já que tendo ela herdado a casa, as xícaras de porcelana portenha e um piano, via-se no direito de trazer amigas às quartas e sextas para dedilhar duas ou três canções de Kurt Weill e Brecht. Golpeavam as paredes, tetos, pisos, invisíveis vizinhos de todos os cantos, mas não se incomodava pois nessas horas já estava entorpecida pelo winski que Isolda sempre trazia consigo e pela voz meio-soprano de Maria Madalegna, portuguesita feroz que convertia em fado tudo quanto cantava. Por isso, ter que se submeter à tirania de uma voz a quem o menos que devia era a vida, sentia-se feliz. E como a mãe, nada mais exigisse com os cuidado das coisas que foram suas, sentia-se livre para fazer todo o resto, sem culpa, sem pecado, pois sabia-se protegida, pelo menos até que uma desgaça viesse a abalar sua saudável rotina.

V.X.MMVIII

Votação hoje.
Visita ao Márcio.
Vi Letícia, Gabriel, Marcinha.
Viagem da irmã, amanhã, para Santana.
Várias leituras - interessantíssimas - ensaios Rumos

V.X.MMVIII

Ritual íntimo



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Assisti ontem no Satyros esta peça baseada nos contos de João Silvério Trevisan. E, surpesa, encontrei meu antigo aluno (de 8a série) Eduardo iluminando o espetáculo. O máximo.
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Cf. Overmundo: "Ritual Íntimo é formada por nove quadros que abordam a intimidade das relações afetivas, os encontros e desencontros, a fragilidade das relações e a dificuldade do indivíduo em dar prosseguimento aos relacionamentos."
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Mais, comento depois...

sexta-feira, outubro 03, 2008

As canções do amor




Hoje assisti As canções do amor. Um filme sobre amor, sobre morte, sobre sexo. Sexo à francesa, com variações: menino e menina, menina e menina, menino menina menina, menino e menino. Tudo sem nenhuma culpa, que é como tudo deveria ser. O tema da morte fica assim, leve, um tanto à margem. Mas trata-se de um musical, leve e bonito, já pela beleza dos protagonistas. Cheio de quebras narrativas, e ângulos incomuns. Sempre bem filmado por esse diretor francês interessantíssimo, Christophe Honoré, não podendo faltar seu ator-fetiche Louis Garrel.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Diálogos memoráveis do cinema: JOHNNY GUITAR

Da série "Diálogos memoráveis do cinema", começo por Jonnhy Guitar, filme de 1954, um faroeste estilizado, quase um anti-faroeste em tecnocolor. Dirigido por Nicholas Ray, estrelado por Joan Crawford (Vienna), o apagado Sterling Hayden (que vive o pseudo-protagonista que dá nome ao filme) e da super-vilã (voz do demônio de O exorcista) Mercedes McCambridge (Emma Small). Um bang-bang de colorido kitch, conduzido como melodrama, com diálogos afiadíssimos e que encerra com um duelo entre duas mulheres.



O diálogo é entre a ex-prostituta Vienna e caubói Johnny Guitar:

- Se divertindo, Sr. Logan?
- Não consegui dormir.
- Isso aí ajuda? - diz apontando o copo de wisky
- Passa o tempo. O que acordou você?
- Sonhos. Sonhos ruins.
- Também tenho deles às vezes.
- Isso (apontando o copo) os afasta.
- Já tentei. Não me ajudou nada.
- Quantos homens já esqueceu?
- O número de mulheres de que você se lembra.
- Não vá embora - Jonnhy pede-lhe bruscamente.
- Nem me mexi, - Vienna responde impassível.

Johnny Guitar está de frente para Vienna, que está apoiada numa viga de madeira. Johnny aproxima seu rosto de Vienna, esta permanece impassível, responde friamente suas perguntas, sem expressar qualquer emoção.
- Me diga algo agradável.
- Claro. O que quer ouvir?
- Mente para mim. Diga que me esperou esses anos todos. Diga.
- Esperei todos esses anos.
- Diga que morreria sem mim.
- Eu morreria sem você.
- Diz que ainda me ama como eu te amo.
- Ainda te amo, como você me ama.
- Obrigado. Muito obrigado.
Vienna se enfurece com a passividade de Johnny
- Não tenha pena de si mesmo. Acha que entendeu tudo?! Eu não achei este lugar. Como acha que construí isto? - ela diz desafiadora
- Não quero saber.
- Quero que saiba.Para cada compensado e prego neste bar eu...
- Já chega!
- Agora você vai ouvir.
- Já disse que não quero saber.
- Não pode mais me calar, Johnny. Antes, eu rastejaria para ficar perto de você. Procurei você em cada homem que conheci.
- Você disse que teve um sonho ruim. Nós dois tivemos. Mas acabou.
- Para mim, não.
- É como se fosse há 5 anos.Nada aconteceu nesse meio tempo.
- Eu queria...
- Nada. Não tem nada para me dizer, pois nada é real. Só você e eu. Isso é real. Estamos bebendo no bar do hotel Aurora. Comemoramos nosso casamento. E depois dele, vamos embora. Sorria, Vienna, vai se casar.
- Esperei por você, Johnny. Por que demorou tanto?