segunda-feira, setembro 29, 2008

Revendo HOJE É DIA DE MARIA


Um conto a partir dessa idéia

"E as vizinhas lhe deram um nome, dizendo: A Noemi nasceu um filho. E deram-lhe o nome de Obede. Este é o pai de Jessé, pai de Davi. Estas são, pois, as gerações de Perez: Perez gerou a Esrom,E Esrom gerou a Rão, e Rão gerou a Aminadabe, E Aminadabe gerou a Naassom, e Naassom gerou a Salmom,E Salmom gerou a Boaz, e Boaz gerou a Obede, Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi."

Rute 4, 17-22

FUTURO

Convite para pensar um curso em 2009.

Boas possibilidades.

Bela gravura de Manu Maltez


"Carregadores de piano", uma admirável gravura de Manu Maltez
Imagem tirada do blog do autor

sexta-feira, setembro 26, 2008

quinta-feira, setembro 25, 2008

De volta ao filme (Ensaio sobre a) CEGUEIRA




Vez ou outra me interessa comentar um filme, mas nem sempre tenho pique suficiente. Ainda mais por que encontro gente que escreve o que para mim era uma intuição, e de forma mais clara e franca. Nestas horas prefiro o método, recortar-colar (fragmentos) e indicar o texto integral. É o que faço agora com essa pequena crítica ao filme Ensaio sobre a cegueira, do Fernando Meirelles que está postado num bog/site que adoro(Filmes do Chico):
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http://www.interney.net/blogs/filmesdochico/2008/09/16/ensaio_sobre_a_cegueira/
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O jardineiro fiel tinha um engajamento que parecia de mentira, mas que era tão ingênuo ao fazer sua denúncia que é fácil entender que é assim que Fernando Meirelles deve ser: um cara com uma visão simples do mundo e que tenta nos aplicá-la da forma que melhor lhe parece.
(...)
E é mais ou menos o que ele faz em Ensaio sobre a Cegueira. Está tudo lá: o incômodo com a natureza das pessoas, com a organização social tão frágil, a experiência dolorosa da perda de parâmetros, o choque com o fato de a barbárie morar tão próxima. Tudo que se leu no livro está lá. Diluído, polido, equilibrado, é verdade; tudo devidamente adaptado para o que ele entende que seja seu público. Ou para como ele acha que seu público irá apreender melhor o que ele tem a dizer. Mas Meirelles não quis diminuir o impacto de nada. Pelo contrário, quis abranger muito mais o alcance do texto.
(...)
A impressão é de que lhe parece muito mais sério, muito mais importante, fazer com que sua mensagem atinja mais gente. Essa ingenuidade me parece de verdade. O filme só se afasta do original num ponto: não há pessimismo. A clausura, a barbárie, o caos não são suficientes para transformar a visão que o cineasta tem do mundo. A cena final, com Julianne Moore (finalmente de volta a uma grande interpretação), parece entregar que este é um diretor que acredita no que está por vir. Ao sair do cinema, eu não tinha visto o livro de José Saramago, mas o filme de Fernando Meirelles. E era um filme bom.
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Chico Fireman

terça-feira, setembro 23, 2008

RODAPÉ: RAP

NOTA QUE NÃO ENTROU NO ENSAIO
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No rap, a realidade social de carências extremas contamina a linguagem, que se faz direta, brutal, empobrecida por chavões, estilhaços do evangelho, jargões policiais e gírias; e no mais das vezes, por meio de palavrões e termos vulgares. O descaso com a correção gramatical decorre tanto do desconhecimento da norma padrão quanto pela procura de uma de comunicação mais direta, solta e autêntica, prescindindo de decodificação. Expressão da oralidade urbana, da experiência cotidiana, ela é um fator que garante legitimidade ao discurso, pois reforça a fidelidade da perspectiva; confere maior “verdade/realismo” ao mundo retratado. Mais que legitimar a “mensagem” entoada no rap, a linguagem reafirma o pertencimento ao grupo (a favela, a comunidade), bem como a posição de recusa dos rappers à elite burguesa, consumista, bem letrada e excludente. A temática predominante é a da crítica e denúncia de mazelas sociais convertidas em narrativas dramáticas. Dos conflitos pessoais e familiares, passando pelo abuso policial e o banditismo do narcotráfico, ela invariavelmente revela a omissão deliberada do Estado e das elites nacionais. Em versos livres e rimas pobres, o rapper normalmente entabula em primeira pessoa um depoimento que traduz uma experiência pessoal, ou da qual foi atento observador. Seu discurso compõe-se de palavras de ordem ou de aconselhamento pois ainda que vítima, o eu-poético sempre se expressa como voz de autoridade.

Marcelino Freire: entre o rap e o repente

[Finalmente entreguei o ensaio para o Itaú, fiquei (quase) plenamente satisfeito, mas é preciso pôr ponto e seguir a vida. 22.09.2008]. Sigamos.
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FRAGMENTO
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A ironia aflora nos relatos, não à maneira elegante de Machado de Assis, pois ao contrário deste, Marcelino Freire não cria um personagem-escritor, faz uso de um discurso dramático que expressa um modo de pensar complexo que se apresenta não orientado pelo encadeamento sintático preciso, de quem domina a técnica da escrita e, detentor deste poder, tenta ludibriar o leitor ingênuo. Este relato confessional, normalmente agressivo e emocionado se constrói por meio da aproximação do “solilóquio” e do “monólogo interior”, este, nada heterodoxo, pode livremente alterar-se na profusão menos ordenada de um fluxo de consciência.

A força expressiva dos contos de Marcelino Freire reside, principalmente, na criação de uma “fala-drama”, estratégia aproximativa que garante o pacto ficcional narrador e leitor. Fala, pela adoção de uma escrita que simula desta o tom coloquial; drama, porque se expressa teatralmente, encenando sua história, narrando-se. Por isso, o uso preponderante de um narrador em primeira pessoa que se faz responsável por narrar uma trama da qual, geralmente, é protagonista. O conto torna-se, portanto, relato de uma experiência “pessoal”, entretanto, a voz que narra se faz fragmentada, permeada de lacunas, cortes abruptos, não ditos, oferecendo-se a um “desvendamento” por parte do leitor, responsável este por preencher os vãos, reconfigurando o discurso para atingir seu sentido.

quinta-feira, setembro 18, 2008

CABEÇA DE NÊGO

ieiêeo iê Obá, Olorum modupé, Odá odara iêeee....

O nêgo não pára no tempo, não
suas origens vêm de Angola há um bom tempo
Sabo/tizil Brasil, bem Brasil, no Rio, do verdinho cabeça de nêgo!
Desfecho conforme vive o vento se mostra
respeito pro povo
um ofenso universo
protetor do Orun, que olho colheu o ouro, ouro no Olorum vem do terreiro....

Nêgo não pára no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia segue a seco um dia irá chover
sabe por quê?

Nêgo não paga veneno pode acreditar, se você já sabe a um bom tempo,
o nêgo pára um bom tempo, seja África, Brasil, brasileiro
maracutaia em toda parte, vejo no governo
tem ACM, Lalau, pra deixar tormento
tem muito tempo, o pobre pagando veneno
mesa branca, aruanda, que canta com fama
que manda a mensagem ao Cantão êeeeeeeeeee...

Nêgo não pára no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia segue a seco um dia irá chover
sabe por quê?

EEEeeeeeeeee ei bêbe um bebezin' tiririonã eu vi um bebezin' tiririônã!!!!!!

Faço o que faço há um bom tempo, chegado,
eu tô com carro parado, uma preta do lado
empapuçado de mato.
Rica (chegado) chega
presta um cigarro, se pá, não pago besteira
Brasil tô na palma, pandeiro não pára
de Porto Alegre à Candelária, um bom tempo na praia.

Porque o nego não pára, não pára não pára, há um bom tempo
O nego não, África vejo o momento.

Tipo: Anastácia, Tereza, relembram Mãe Meninha
o Cantois pode crer, cê sempre vai ter vida,
Maracanã lotado, o desastrado, por isso ja é sabado
tudo o que eu faço é torcer
mais vai ver: a trajetória do Timão vencer
(Periferia sofre em vida, mas tira um lazer)
Quem é o defensor do Ôrum vai saber dizer
quem é o protetor da guerra vai sabe viver, hey...

Nêgo não pára no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia segue a sede um dia irá chover
sabe por quê?

Faço o que faço, não quero pedaço
Sou nêgo véio chegado, talvez tô com mato,
elaricado, empapuçado, muita sede do lado
chegando sempre vejo um preto, vou mandando o recado:
"Sabote, vejo sim, quero dizer que vim, do Brooklin ressurgi aqui,
reinvidiquei estou aqui porque
um novo tempo vai pode dizer que, é,
sobre um passado de um tempo presente"

Moleque de black, descalço, vou chapando o coco, correndo no morro,
Aeroporto vivo vivo, Água Espraiada é assim, é,
o tempo todo Deus está por mim.
Porque eu faço o que faço não mando recado,
E faço o que faço, não mando recado,
(Diz) faço o que faço não mando recado
(Sim) faço o que faço não mando recado.

Nêgo não pára no tempo
teve um tormento, a dor que é forte, se sentiu lá dentro
Maracutaia, lá do norte, o mano vai viver
Maracutaia, segue a seco/sede, um dia irá chover
sabe por quê?

SABOTAGE
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[Simplesmente adoro esse rap. Eu o descobri através de um amigo, quando numa conversa disse-lhe que estava escrevendo um ensaio com conexão entre negritude, rap, repente, samba e literatura. Ele falou para eu procurar "Cabeça de nêgo", do Sabotage, pois este rap trazia citações do candomblé e de orixás. Achei o rap, mas não achei a letra, então tentei verter esse caos discursivo em versos. Ficou isto que se lê acima, muita coisa desconexa (em parte, tenho certeza, pelo meu desconhecimento mais amplo de expressões e gírias).
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[Adoro as composições do Sabotage. Acho esse rap sensacional. Musicalmente ele funde rap e samba com uma eficiência que nem Rappin Hood e Marcelo D2 conseguiram. Provavelmente é uma parceria do Sabotage com outros rapper, mas não achei informação na internet.]

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[Denúncia da corrupção, ironia e contravenção, canto-desafio (com entrada de parceiros cortando o discurso para apresentação a outra comunidade), afirmação à religião afro-brasileira, crônica do cotidiano, marca da presença e resistência do negro na sociedade brasileira, e olhar para os desvalidos do norte, tudo cabe neste rap incrível.]

segunda-feira, setembro 15, 2008

LINHA DE PASSE



Novo filme de Walter Salles, um diretor que gosto muitíssimo. Fui ontem, dia 15.09 com Tininha, Edna e Lucas. É um filme W. Salles, mas com algo duro, mais desesperançoso que os outros filmes. Está um tanto mais para aquele final do Terra Estrangeira, com o carro partindo e Alex morrendo ao som de "Vapor Barato", ou o presidiário (de O primeiro dia) na praia pensando que tudo seria melhor depois da virada, e com o gatilho apontado à nuca. Tem aquela coisa também de Dora partindo, o amigo de Che Guevara partindo, do moço de Abril despedaçado diante do mar. As obsessões continuam lá, agora reconfiguradas: o pai ausente sempre buscado, a mulher em estado de abismo, um humanismo que brota das coisas prosaicas, o mundo da periferia ainda mais parecido com a periferia, e usado como representação de um Brasil autêntico, profundo e triste. Há sempre alguém correndo, alguém partindo, alguém muito infeliz no fim dos filmes de Salles. Ainda acho Central do Brasil o filme que mais se aproxima de algo que nos represente, no que ele tem de fé, dor convertida em cinismo, esperança reconstruída.
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Em Linha de Passe o futebol, que para a maior parte dos brasileiros é motivo de alegria, gera no filme uma infelicidade desconcertante. O futebol é meio de chegar a algum lugar, é propósito, não é gozo, felicidade legítima, fim em si mesmo, salto qualitativo em rumo a uma alegria que entorpece e supre carências várias. É só campo para escolha e exclusão visando lucro, saída tática da miséria; e o pior: espaço de conflito e desavença. Para mãe, o futebol é vivido com intensidade, como vazão, alegria possível, quase religiosa. E a religião do filho, é tanto salvadora quanto aflitiva, como o futebol é pura angústia para o irmão do meio.
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Pensei muito em Lucrédia Martel, no seu Pântano, em como ela de repente marca presença em cinematografias do Brasil, como aquele tenso e duríssimo A casa de Alice.
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Da Lucrécia, senti no filme aquela iminência de tragédia, de que algo está a ponto de ruir, explodir, chocar-se. Walter não esvazia com a mesma habilidade que Lucrécia, de modo que o filme corre com mais dificuldade, com uma dilatação maior, sem aquele encadeado de sonho, um estar fora do mundo tão bem construído por Martel, e que há em O Pântano, e mesmo em A menina santa (uma atmosfera quase metafísica). Isto, penso agora, é porque em Linha de Passe tudo parece mais real, mais prosaico, sólido demais, sem chance de milagre (a imprevisibilidade salvadora) do gol.
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Como nasci, vivi, vivo na periferia de São Paulo, o espaço do filme me é particularmente próximo, assim como as histórias e os personagens. Me agrada o modo sem facilitação que W.Salles aborda temas hiper-melodramáticos pelas bordas, equilibrando-se na deriva do melodrama, dando aqui e ali uma pitada de emoção. Mas tenho que dizer, que senti falta da emoção (não do melodrama), mas um salto para superação possível e não o desastre que ele não explicitou no fim do filme (e que, a quem assistiu, parece inevitável).
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O que me surpreende, é como o cinema pega esse espaço dos bairros classe C, que eu tão bem conheço, e potencializa, exacerta, e faz com que ao vê-lo na tela ele me pareça irremediavelmente embrutecido, triste e sem saída possível.
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Linha de Passe, agora avalio, -- embora se coloque tão ao lado dos personagens, e pareça amá-los -- só pode ter nascido do olhar de alguém que não vive nestes espaços. Não tem gente em torno dessa família? não tem irmão de fato? primo? tia? agregado? Ninguém vive a família, só suas individualidades limítrofes? Não sei.
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[Só uma vizinha aparece por lá, e mais espezinha que participa, o que existe de fato (mas nunca é só isso), e aceita cuidar do garoto mesmo com a agressividade do garoto em relação a ela.] Mesmo a mãe, elogiada pelo treinador do menino, nunca é posta em contato com mais ninguém, a não ser no bar e na festinha do filho. Meninos de periferia sem ciclo de amizades (para o bem ou para o mal)? Quem mora na periferia sabe que ninguém está completamente apartado de ninguém.
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W. Salles colocou-os num tudo bom ensaio e depois numa lâmina com outros microorganismos.
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Ah, a periferia avoluma-se em torno do sujeito, ninguém é um cão tão só (ainda mais meninos) que não sejam vistos pelos amigos mais próximos, pela parentela, pela vizinhança vigilante. E pobre não precisa do olhar do rico para existir. Existe à revelia, alegre e triste, misturadamente.





Ensaio sobre a cegueira

Adaptação angustiante de um dos meus livros preferidos do José Saramago, Ensaio sobre a cegueira. Dirigido por Fernando Meirelles.


A cegueira estava alastrando, nao como uma maré repentina que tudo inundasse e levasse à sua frente, mas como uma infiltração insidiosa de mil e um buliçosos regatinos que tendo vindo a empapar lentamente a terra, de repente a afogavam por completo.

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago. p. 124.

sábado, setembro 06, 2008

CLARICEANDO

Ambos sabiam que esse era um grande passo dado na aprendizagem. E não havia perigo de gastar este sentimento com medo de perdê-lo, porque ser era infinito, de um infinito de ondas do mar. Eu estou sendo, dizia a árvore do jardim. Eu estou sendo, disse o garçom que se aproximou. Eu estou sendo, disse a água verde da pascina. Eu estou sendo, disse o mar azl do Mediterrâneo. Eu estou sendo, disse o nosso mar verde e traiçoeiro. Eu estou sendo, disse a aranha e imobilizou a presa com o seu veneno. Eu estou sendo, disse uma criança que escorregara nos ladrilhos que circundavam a piscina. Mas a luz se aquietava para a note e eles estranharam, a luz crepuscular. Lóri estava fascinada pelo encontro de si mesma, ela se fascinava e quase se hipnotizava.
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Ali estavam. Até que a luz que precedia o crepúsculo foi se esgarçando entre penumbras e maiores transparências, e o céu ameaçava uma revelação. A luz se espectralizou em quase auseência, sem que aquela espécie de neutralidade fosse ainda tocada pela escuridão: não parecia crepúsculo e sim o mais imponderável de um amanhecer. Tudo aquilo era absolutamente impossível, por isso é que Lóri sabia que via. Se fosse o razoável, ela de nada saberia.
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Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, de Clarice Lispector.
pp. 75-76

POSTAGEM MIL


Agora vejo, descubro que esta é a postagem número mil. Sou mais fiel ao meu blog do que a qualquer outro diário, ou texto que tenha escrito.

MOMENTO MÃE