segunda-feira, março 24, 2008

ILUSÃO DE MOVIMENTO


Nada melhor do que essa ilustração para mostrar meu estado de espírito atual. Vida em vertigem e falsa ilusão de movimento.

domingo, março 23, 2008

NADANDO

Por incrível que pareça,
talvez o melhor estilo
para um poeta moderno
seja o estilo clássico, ou
nado de peito. Ele exige
certa contenção. Você
desliza n'água mansa-
mente, como se hesitasse.
Ao atingir a borda, é
impossível virar cam-
balhota, daí talvez ele
ser chamado clássico, ou
quem sabe é porque é o que serve
melhor para se observar
o que se passa ao redor,
isto é, fotografá-lo, ou
— evitando o anacronismo,
e já que falamos de água —
espelhá-lo, visto que o
espelho é por excelência
a metáfora do clássico.
Nadar é como uma cobra:
um constante enrodilhar-se
em pensamento por vezes
nada sublimes (que belo
traseiro ali adiante, etc.);
daí, em vez de estilo clássico,
talvez fosse mais correto
falar-se em mescla de estilos.
Nadar: um poema longo
em redondilha maior
com andamento de prosa
em que é difícil manter
o mesmo ritmo sempre
(Poe não dizia que um poema
deve necessariamente
ser breve?). Começa-se a
arfar, os músculos pesam,
respira-se irregular-
mente, o nado, apesar de
clássico, agora assemelha-se
a um poema moderno
(ou a um desaprendizado),
um poema que tivesse
uma piscina por tema,
e um nadador que insistisse,
já que escrever poesia
(principalmente hoje em dia)
é uma espécie de nada.
Nada. Nada. Nada. Nada.

João Moura Jr.

sexta-feira, março 21, 2008

Um poema de Arnaldo Antunes

Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água.

Arnaldo Antunes in Tudos


[Analisei esse poema há muitos anos para um trabalho do professor Ernesto Manuel de Melo e Castro - Poemas do não e do nada - um dos melhores trabalhos que já fiz e pretendo publicar. Fica aqui o poema, para lembrar.]

quinta-feira, março 20, 2008

COMEÇANDO

Turmas novas e extensas de alunos no Henfil.
Desejo de alterar minha forma de lecionar literatura radicalmente.
Comecei a pôr em prática, aproveitando aquela liberdade quase obscena, que eu sempre me concedo. Tudo para tornar um tanto menos enfadonho o martelar insistente de velhos conceitos.

No coquetel de lançamento de...




Assisti no sábado passado esse filme de César Charlone e Enrique Fernández, El Baño Del Papa.
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O filme é baseado numa história real, narra a reviravolta no cotidiano da pequena cidade de Melo, no Uruguai, com a visita do Papa, em 1988. Beto, desempregado como a grande maioria da população, vê na construção de um banheiro na cidade que receberá Sua Santidade a perfeita oportunidade de conseguir dinheiro para pagar dívidas e sustentar sua família por um tempo.
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O filme foi rodado no Uruguai, terra Charlone, os atores eram do próprio país, a maioria sem experiência. Entre cômico e o trágico (perto portando da melancolia), mostra uma população que vive de contrabandear produtos entre Brasil e Uruguai, em bicicletas, o tempo todo monitorados e perseguidos por guardas de fronteiras. Há uma cena, logo no início, que muito lembra o encontro de Fabiano (personagem de Vidas Secas, de Graciliano Ramos) com o soldado amarelo.
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A fotografia de César Charlone é uma beleza, com menos maneirismos que em Cidade de Deus. Valoriza as cores latino-americanas sem sobrepor-se demasiadamente. Lembra em grande parte os filmes neo-realistas, com uma menina que descobre o valor do pai em luta com a adversidade.
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Uma crítica subjacente, é à imprensa (não por acaso, a filha do protagonista sonha em ser âncora/apresentadora de televisão, ensaiando notícias imaginárias no quintal de casa, alimentando o desejo de estudar em Montevidel). É a tevê e o rádio que anunciam e alardeiam a visita do papa, ao mesmo tempo que "noticiam a possível" (uma contradição em si) chegada de caravanas de brasileiros. É essa esperança de ver o local cheio de consumidores que faz com que pobres desvalidos mais se endividam, pois tratam de correr a preparar comida para dar a toda uma multidão que jamais virá. A imprensa alardeia o espetáculo da chegada, cria o desejo, apregoa a esperança e estimula os excessos com mentiras até o fim, já que só destaca nas entrevistas os entrevistados eufóricos com a chegada dos brasileiros, não dando o mesmo espaço aos descrentes. Numa das cenas mais interessantes e patéticas do filme, o protagonista atravessa as câmeras carregando uma privada(que trouxe por quilômetros) diante do altar do papa. E é justamente neste instante, redimencionado na tela da tevê, que é realmente "visto" pela filha. Fechando o filme, é ele que arremeça contra a tevê uma garrafa que se parte na tela diante dos companheiros a beber num bar.
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É um filme pequeno, bacana, bonito de ser ver; ainda mais porque nos mostra uma realidade bem próxima, só aparentemente distante, do Brasil.

O que vejo: ESCRITAS POR NÓS


ESCRITAS POR NÓS
SESC Santana
Dia(s) 15/03 Sábado, às 19h.

Fui assisti ao espetáculo que minha amiga Susanna Ventura montou com Kátia Teixeira (cantora, compositora, instrumentista e pesquisadora da cultura popular), uma beleza. Leitura de fragmentos de texto sobre personagens e personalidades femininas do Brasil (Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa , Érico Veríssimo, Maria José Silveira, Patrícia Galvão e Luiz Mott), concepção de Márcia Acióli (formada em Literatura Francesa pela Universidade de Nancy – França e em Comunicação Social pela PUC). 90 min.

LEMBRAR

http://teleduc.nied.unicamp.br/~rumos/literatura

O que leio


Sobre a crítica literária brasileira no último meio século,
de Leda Tenório da Motta
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AMY WINEHOUSE



Amy Winehouse posa nua para campanha de conscientização sobre riscos do câncer de mama entre jovens.

[Quando soube que ela faria campanha para "conscientização" já fiquei pensando em estratégia de marketing para "enquadrá-la" como bonitinha, como pessoa solidária. Mas no fundo, já me perguntava: como alguém tão louca e cheirada pode dar as caras numa revista para dar exemplo de qualquer coisa". Mas vendo como ficou a tal foto penso que ela jamais perderá sua essência baranga-trash-total. Por isso posso amá-la por tudo que ela tem de sujo, de politicamente incorreto, e portanto, de marginal que nem o grammy pode tirar.]