terça-feira, dezembro 30, 2008

2009


preparação para 2009
inicio de despendidas de 2008
blog fechado para balanço
até ano vindouro
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sexta-feira, dezembro 26, 2008

Jogo de cena, de Eduardo Coutinho



Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio. Em junho de 2006, vinte e três delas foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, ao seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas.

[Uma idéia aparentemente simples. Um documentário (?) surpreendente. Talvez o que tenha visto, ao lado de "Santiago", de melhor em 2008]. 

Dezembro 2008

Sesc-Paulista, durante gravação e entrevista para novas realizações. Um pouco mais tenso do que de costume.

Fotografado por Celso Luz.

quinta-feira, dezembro 25, 2008

Nove Noites, de Bernardo Carvalho


A descoberta deste livro e deste autor. 

[Romance de investigação, mescla de gêneros: histórico, reportagem, autobiografico, policial, metalingüístico. [Indianismo seco?] De novo o retorno ao realismo, mas não mais de tese, romance de incerteza, cético, cínico; e misteriosamente comovente. Poesia das pedras. Um título descolorido, já que nada diz do tanto que o livro contém.]
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Apontamentos para um possível ensaio
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- Reescritura de uma narrativa de viagem (a investigação), do viajante (de Quain), ou de viajantes (do narrador, de Quain, do pai);
- Neste caso eu e outro entre duas lacunas, interesses e projeções;
- Kuarup, de Antônio Calado?
- A impossibilidade de resgatar a memória, daí a vacuidade, as elipses, retomar e deduzir;
- A incerteza de confiar no escrito;
- Ênfase nas ações, num desenvolvimento épico, mas sem grandeza;
- Um tanto investiga o Brasil;
- Espreita por trás das matas dois ou três contos borgianos;
- Pensei no Quain de Borges, mas não há parentesco;
- Quain = Quem? (pois sonoramente o nome vai se modificando na narrativa);
- Marquei no meu exemplar oito pontos que sugerem intervenções do fantástico;
- Para exorcizar o exótico a narrativa seca, desencantada, mas que realismo é este?;
- Novamente, a fragmentação de perspectivas para composição do enigma Quain;
- Mais do que o suicidio em si (o desfecho "fecha", mas dilui o encanto) o mistério é Quain;
- Sub-repticiamente : incesto e homossexualismo;
- A trama oculta a carpintaria da linguagem;
- Metódica construção do suspense em ganchos sutis;
- Paralelismo, um tanto em Quain o desvendamento do eu-narrador?;
- A linguagem de Manoel Perna em desacordo com as possibilidade de expressão do personagem (vide. p. 104);
- Por que de Drummond, na página 102 a "Elegia 1938". Paisagem interior?
- Interessante reinserção de mesmos fragmentos cá e lá;
- Romance policial, pensando-se no crime, no detetive-narrador que deduz e confunde-se com o objeto obsessivamente buscado.

"(...) Numa das vezes em que me falou de suas viagens pelo mundo, perguntei aonde queria chegar e ele me disse que estava em busca de um ponto de vista.  Eu lhe perguntei: "Para olhar o quê?" Ele respondeu: "Um ponto de vista em que eu já não esteja no campo de visão". Eu poderia ter dito a ele, mas não tive coragem, que não precisava procurar, que se fosse por isso não precisava ter ido tão longe. Porque ele nunca estaria no seu próprio campo de visão, onde quer que estivesse, ninguém nunca está no seu próprio campo de visão, desde que evite os espelhos. Às vezes me dava a impressão de que, a despeito de ter visto muitas coisas, não via o óbvio, e por isso acreditava que os outros também não o vissem, que pudesse se esconder. O que eu vi, nunca falei. Fique à sua espera. O que eu ouvi, já não sei se foi de fato ou fruto de um conjunto de imaginações, minha e dele, a começar pelas visões de que me falava. (...)" (p. 100)



Nove noites, de Bernardo Carvalho.


segunda-feira, dezembro 22, 2008

RESÍDUO

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, dezembro 20, 2008

"Meu livro no Itaú Cultural"

O livro Protocolos Críticos, resultante do programa Rumos literatura 2007-2008, do Itaú Cultural, será lançado em 15 de dezembro, como parte do evento Seminário Internacional Rumos Literatura - Crítica Literária.

A publicação apresenta 16 ensaios críticos que analisam aspectos das obras de Caio Fernando Abreu, Milton Hatoum, Hilda Hilst, Lourenço Mutarelli, Luiz Ruffato, Marcelino Freire. O livro examina também a produção de blogues literários, da literatura homoerótica, traduções, um mapeamento da poesia contemporânea, o mercado da crítica literária no Brasil, entre outros temas.


[Meu livro é arrogância. O trabalho é coletivo. Gente de altíssimo nível. Um orgulho enorme. Colaboro com "Marcelino Freire: entre o rap e o repente". Publicado nestr livro que propõe olhares novos sobre a literatura contemporânea, e uma nova crítica. 

terça-feira, dezembro 16, 2008

PROTOCOLOS CRÍTICOS

Coquetel de lançamento do livro Protocolos Críticos, Itaú Cultura, 16.12.2008. 19h.


segunda-feira, dezembro 15, 2008

Minissérie Capitu

Uma versão maravilhosa de Dom Casmurro.

Io che non vivo

Siamo qui noi soli
come ogni sera
ma tu sei più triste
ed io lo so perché.

So che tu vuoi dirmi
che non sei felice
che io sto cambiando
e che mi vuoi lasciar.

Io che non vivo
più di un'ora senza te
come posso stare una vita senza te
sei mia, sei mia
mai niente lo sai
separarci un giorno potrà.

Vieni qui ascoltami
io ti voglio bene
te ne prego fermati
ancora insieme a me.

Io che non vivo
più di un'ora senza te
come posso stare una vita senza te
sei mia, sei mia.

Io che non vivo
più di un'ora senza te
come posso stare una vita senza te
sei mia, sei mia, sei mia.
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Estamos aqui sozinhos
como cada noite
mas você é mais triste
e eu sei o porque.

Sei que quer dizer-me
que não é feliz
que eu estou mudando
e que quer me deixar.

Eu que não vivo
mais de uma hora sem você
como posso estar uma vida sem você
você é minha, é minha
nunca algo, o sabe,
nos separar um dia poderá.

Venha cá, escute-me
eu lhe quero bem
lhe peço fique
ainda comigo.

Eu que não vivo
mais de uma hora sem você
como posso estar uma vida sem você
você é minha, é minha

Eu que não vivo
mais de uma hora sem você
como posso estar uma vida sem você
você é minha, é minha.

[De "Vaga estrelas da Ursa", da peça "Aqueles dois", do "msn da minha amiga Norma]
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[Os trabalhos de gravação - Eu, Lucas e Celso - foram de sexta a domingo, razoavelmente satisfatória, mas com captação do material necessário. Agora, questão de tempo para lapidação. Seguimos].

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Sobre a escova e a dúvida




"Meu duvidar é da realidade sensível aparente - talvez só um escamoteio das percepções. Porém, procuro cumprir. Deveres de fundamento a vida, empírico modo, ensina: disciplina e paciência. Acredito ainda em outras coisas, no boi, por exemplo, mamífero voador, não terrestre. Meu mestre foi, em certo sentido, o Tio Cândido. (p. 165)"

"Quantas mangas perfaz uma mangueira, enquanto vive? - isto, apenas. Mais, qualquer manga em si traz, em caroço, o maquinismo de outra, mangueira igualzinha, do obrigado tamanho e formato. Milhões, bis, tris, lá sei, haja números para o Infinito. E cada mangueira dessas, e por diante, para diante, as corações-de-boi, sempre total ovo e cálculo, semente, polpas, sua carne de prosseguir, terebintinas." 
(...)
"Ando a ver. O caracol sai arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o bocejo e o pôr-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza. "(p. 166)

Até hoje, para não se entender a vida, o que de melhor se achou foram os relógios. É contra eles, também, que temos que lutar... (p. 167)

O tempo não é um relógio - é uma escolopendra. (A violeta é humildezinha,  apesar de zigomorfa; não se temam as difíceis palavras.)(p. 169)

in Tutaméia, de João Guimarães Rosa.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

CAPITULO 73 - O CONTRA-REGRA

O Contra-Regra

O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço, representou-se aí, em não sei que teatro, um drama que acabava pelo juízo final. O principal personagem era Ashaverus, que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: "Ouço a trombeta do arcanjo!"

[A lenda do Judeu errante surgiu no século XVI. Ela narra que Cristo foi ridicularizado por um sapateiro judeu enquanto carregava a cruz para o Calvário. O Sapateiro, que às vezes é chamado de Ashaverus, ao vê-lo passar, incitou Cristo a ir mais depressa. – “Eu vou, mas tu deverás esperar até meu retorno”, replicou Cristo. Assim, Ashaverus foi condenado à imortalidade e a vagar pela terra até o dia do retorno de Jesus Cristo.]

Museu da Língua Portuguesa - 30.11.2008

 
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Mapa do Rio no tempo de Machado

 
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Museu da Língua Portuguesa

 
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Exposição Machado de Assis

 
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Delírio - Exposição Machado de Assis

 
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Museu da Língua Portuguesa

 
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Museu da Língua Portuguesa

 
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terça-feira, novembro 25, 2008

"Aqueles dois", Cia Luna Lunera


VIRIL DELICADEZA


“Queríamos tanto salvar o outro.
Amizade é matéria de salvação.

Mas todos os problemas já tinham
sido tocados,
todas as possibilidades estudadas.

Tinhas apenas essa coisa que havíamos
procurado
sedentos até então e enfim entrado:

Uma amizade sincera.”



Clarice Lispecto
r



Assistir aos atos concentrados dos Prêt-à-porter dos atores-criadores de Antunes Filho, depois ver esta peça que vem de Minas Gerais pela Cia Luna Lunera, ajuda a reconhecer certos traços que vem a definir um teatro contemporâneo mais inventivo que se desenha no Brasil contemporâneo. Um teatro que aspira à comunicação com o público, mas sem cair na armadilha da encenação fácil, porque mais centrado no ator, reduzindo os demais elementos a um mínimo que tenciona para, da contenção, extrair o máximo de expressividade. Tudo o que não é pouco.

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"Aqueles dois", apresentado pela companhia mineira, realiza tal proeza, avançando onde o Prêt-à-porter por vezes derrapa, por certa carência de ousadia que parece residir na crença demasiada, de que o menos é sempre mais. Assim ocorre quando a contenção excessiva represa o gesto criador em esquemas e limitações impostos à encenação. Não me contradigo. Aqui e ali, a criação nas mãos dos atores, a pesquisa, o adensamento no gesto e na palavra, com o diferencial, no caso da Cia Luna Lunera, do risco de encenar um texto literário sem vertê-lo exatamente em texto dramático.

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O conto "Aqueles dois", que dá nome à peça, é um dos textos mais conhecidos de Caio Fernando Abreu, penúltima narrativa de seu livro Morangos Mofados. A trama é de fácil apreensão: dois rapazes, Raul e Saul, recém-contratados em uma repartição, desenvolvem um forte vínculo de amizade que evolui, de maneira ambígua, para um envolvimento amoroso. Embora não se concretize sexualmente, tal relacionamento fará com que sejam banidos do emprego. Solidão, amor, repressão sexual, perda e intolerância são questões urdidas nesta narrativa para além da problemática homossexual.

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O espetáculo começa por surpreender ao colocar em cena quatro atores de tipos físicos bastante distintos que não dividem os papéis de Raul, Saul, ou quaisquer outros personagens presentes no conto. Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga são simultaneamente Raul e Saul; todos são os homens e mulheres emparedados no escritório, isolados em apartamentos; todos chefes e subalternos; narradores e objetos de narração. O ator não divide personagens, é multíplice, converte-se em todos. E num lance de quebra brechtiana (cerne do espetáculo), representam a si próprios: atores que encenam e que, voltados para o público (desnudos), homenageiam o autor da peça, Caio Fernando Abreu.

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O que se faz de mais notável na “encenação” de “Aqueles dois”, é o fato de os encenadores levarem quase às últimas conseqüências a aplicação dos conceitos de fragmentação, multiplicidade e simultaneidade. Chamo de “conceito” (por leitmotiven), pois não se executa na peça somente uma ruptura com a linearidade da narrativa, que no conto é esboçada em flashbacks e reiterações de cenas e frases (sem esquecer as similaridades - até sonoras - entre Raul e Saul). A construção do espetáculo se faz igualmente por fragmentos[1], com recorrente construção e desconstrução de ambiente executada pelos atores, à vista do público, num processo que integra a encenação.

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No palco, organizado em forma de quadrado[2] (por isso mais adequado ao formato de arena), o espaço construído é por vezes o do escritório, mas também às beiras, converte-se nos quartos dos protagonistas, nos meandros da área de café. Também, num mesmo espaço apresentam-se múltiplos tempos, evocados pelas frases burocraticamente reiteradas pelos atores, aqui e ali simultaneamente construído pelo figurino, por um tirar e pôr de camisa, a movimentação de um objeto cênico. Fragmentando tempo e espaço (e concentrando num só cenário essa multiplicidade), o trânsito temporal reitera a rotina estafante. Presente e passado tornam-se uma coisa só, inolvidável. Marca-se, assim também, a despersonalização a que estão sujeitos todos os funcionários da repartição: unidos e isolados, cada um preso ao seu próprio tempo e espaço. Literalmente: um deserto de almas desertas. Por isso mesmo, a saída faz-se pelas cartas, contato com o mundo de fora, cartas que são canções, que não pertencem à cena (leitura de carta de Caio Fernando Abreu), que denunciam.

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Com o foco em terceira pessoa, “Aqueles dois” apresenta grande economia no discurso direto. Restringem-se os diálogos a fragmentos soltos, inseridos no corpo da narrativa, mais sugeridos (em expressões, letras de canções) que explicitados. O conto faz-se, portanto, pelo comentário, evocado pela palavra poética repleta de sugestões imagéticas. Tais características estruturais reafirmam a dificuldade de transposição do narrativo para gênero dramático.

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A transposição integral de um texto literário para o palco, sem que a conversão para o gênero dramático seja realizada, produz um choque de linguagens que limita enormemente a expressão teatral, posto que cerceia o potencial expressivo desta arte. Comumente, encenadores fazem-se reféns do texto, limitando-se a ilustrar o narrado, produzindo um eco que esvazia a mensagem. Entretanto, a aproximação entre estes dois gêneros afins, mas distintos, tem servido de base para experimentações que superam as barreiras com maior ou menor sucesso. Um bom exemplo – ao qual podemos filiar “Aqueles dois” - é à técnica romance-em-cena desenvolvida pelo diretor Aderbal Freire Filho em três espetáculos de grande sucesso de crítica e público[3]

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Aderbal definiu a técnica desenvolvida por ele (romance-em-cena) como: “o jogo da ilusão do teatro levada ao paroxismo: o discurso em terceira pessoa e a ação em primeira. O passado e o presente se confundem. Aristóteles e Brecht sentados à mesma mesa. A adaptação é “apenas” cênica, não se transforma o texto narrativo em texto dramático.”

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No romance-em-cena há narração, mas não existe a figura do narrador, pois as narrações são ditas como falas pelos atores. Nas peças que dirigiu, observa-se a proximidade com o teatro épico, pois as ações proliferam num fluxo vertiginoso. Atores desempenham múltiplos papéis, e o texto literário é integralmente apresentado. É interessante observar que se tratam de três romances/peças que tendem à sátira, sustentando-se não só na encenação (vertiginosa), mas na própria “linguagem dos escritores”, uma prosa marcada pelo humor, pela ironia, e repleta de trocadilhos e jogos de palavras.

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Neste sentido, Cia Luna Lunera avança na técnica “conto-encenado” porque lhe é infiel, já que elege uma narrativa curta que dilata com delicadeza, dosando a “fidelidade à prosa poética do escritor gaúcho” a um inventivo uso de canções, sons, objetos e achados físicos (coreografias e expressão corporal) e uso de recursos de mídia. “Aqueles dois” avança também, no sentido de adensar o que o texto meramente sugere, sem pudor de alterar a ordem de frases e acontecimentos do conto. Se os atores narram passagens integrais do texto, não se furtam à execução de cortes/fraturas cujo objetivo parece ser enfatizar dados muito sutis.

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Pulverizado (descentrado) o protagonismo da peça, a atuação torna-se um equilíbrio de forças, ou melhor, um tour de force coletivo que impossibilita indicar uma ou outra atuação, já que todos parecem compor uma só engrenagem a serviço do texto, da encenação. Oscilando entre momentos de grande energia e dinamismo (a montagem da rotina incessante e vazia do escritório, por meio da aceleração e vertigem da movimentação dos atores) e momentos líricos, mais simbólicos e poéticos (a dança/confronto entre os corpos que se sustentam uns aos outros), o que obtém é um complexo momento de intimismo e empatia com o público, embora todo o tempo exponham ao público a construção da própria cena. Se retomam passagens já encenadas (narrando diretamente longos trechos), visam reorientar de modo mais direto o entendimento da platéia, como forma de contornar o fragmentário, ou reafirmar a quebra, mesmo, da ilusão do palco. Neste sentido, buscam a comunicação e a delicadeza; palavra, apuro técnico e emoção, um equilíbrio possível entre Antunes e Aderbal.

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A tentativa, contudo, de dar mais atualidade à história (com citações a cineastas mais modernos, como Pedro Almodóvar, e outros artistas) é falha, pois não conseguem espantar a impressão de que “Aqueles dois” circunscreva-se, inevitavelmente, a um período específico do passado, ainda mais, levando em consideração conquistas (pelo menos legais), no campo dos direitos dos gays. “Tu me acostumbraste” (citada/cantada várias vezes, bem como outros boleros, e canções de dor de cotovelo), remete ao passado, e permite a explicitação da alma melancólica e sentimental de Raul e Saul, “moços velhos” de coração interiorano, reprimidos sexual e afetivamente (em relação à mãe, à noiva, e ao desejo que um tem pelo outro). Se canções e castrações soam datadas e piegas, esses desconcertos são superados pelo fato de que são justamente os versos (e desenhos) que se prestam à explicitar a paisagem interior dos personagens; os sentimentos que um e outro não se permitem confessar.

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O que a Cia Luna Lunera traz de mais significativo na fusão que realizam entre Teatro e Literatura, é o mérito de equacionar distintos elementos: fidelidade à literatura de Caio Fernando Abreu, depuração e rigor cênico, inventividade criadora a serviço da emoção. Não é pouco. Sem violar o texto (por si, auto-suficiente), investiu-se criativamente na expressividade do ator, o que de certo modo significa o investimento na figura humana. Mais que submeter a prosa narrativa à quadratura da cena, a concepção do espetáculo buscou potencializar aquilo que no texto era esboço, integrando à encenação a noção de contato e encontro entre iguais (quatro homens), tendo possivelmente como ponto de partida jogos de atores, técnicas de contato-improvisação.

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“Aqueles dois” termina por não uma peça rigorosamente gay, já que nela não se investe no potencial de choque/escândalo - que a encenação de peças de temática homossexual normalmente valorizam, - mas na solidão do homem. Fiéis à sutileza (talvez demasiada) do texto, a interpretação dos quatro atores deslinda a evolução emocional e afetiva de Raul e Saul, e com viril delicadeza valoriza a eloqüência dos corpos em contato ante sentimentos emudecidos. Esvaziam assim quaisquer possibilidade de converter “Aqueles dois” em discurso acusatório, manifesto prosaico à discriminação homossexual. Sem escamotear a tensão erótica dos protagonistas, o foco recai na construção de um terceiro objeto, nem literatura nem teatro: poesia encenada com o corpo, - lugar onde paira o conto e a criação de Caio Fernando Abreu.


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1 - O cenário é constituído de elementos mínimos máquinas, gavetas, luminárias, cabides, garrafas, todos compondo a cena ao serem postos no chão do palco. Há igualmente mesinhas, aparelho de tevê, rádios/vitrola, discos, amplificador de som, deslocados para beiras e trazidos para cena conforme a necessidade de demarcar mudanças espaciais. Apenas uma parede é utilizada na fixação de cartazes/desenhos presos com fita adesiva.

2 - Amovimentação dos atores, na encenação que constrói ao público o espaço do escritório (também próximo do desfecho, quando se retrata/relata a solidão de Saul a vagar desolado entre as mesas), é constituída de numa movimentação geometrizada, com gavetas e objetos barrando os caminhos, e atores se entrecruzando, chocando-se, reafirmando a idéia de labiríntico, de emparedamento, opressão, ausência de rumo, impressões construídas pela repetição dos movimentos dos atores.

3 - A técnica romance-em-cena já foi utilizada por Aderbal em: A Mulher Carioca aos 22 Anos, de João de Minas (1994); O que Diz Molero, de Dinis Machado (2004); e O Púlcaro Búlgaro, de Campos de Carvalho (2006).

BOSSA NOVA, Balé Stagium


Fui ver no sábado, 22.11.2008, o Balé Stagium. BOSSA NOVA. Teatro do Edifício Itália. 20h.
Belo belo. Daqueles espetáculos que nos dão uma alegria enorme.


Músicas do espetáculo:


ÁGUAS DE MARÇO – intérprete: Elis Regina – autor: Antônio Carlos Jobim
SÓ TINHA DE SER COM VOCÊ - intérprete: Elis Regina – autor: Antônio Carlos Jobim
CORCOVADO - intérprete: Elis Regina – autor: Antônio Carlos Jobim
BERIMBAU – intérprete: Odete Lara – autor: Vinícius de Moraes
SAMBA EM PRELÚDIO – intérprete: Geraldo Vandré – autor: Vinícius de Moraes
LOBO BOBO/O PATO – intérprete: Pery Ribeiro – autores: Carlos Lira e Ronaldo Boscoli
RAPAZ DE BEM – intérprete: Johny Alf – autor: Johny Alf
DINDI – intérprete: Maysa – autores: Antônio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira
CANTO DE OSSANHA – intérprete: Maysa – autores: Baden Powel e Vinícius de Moraes

“Bossa Nova”
Ficha Técnica

Coreografia: Décio Otero
Direção Teatral: Marika Gidali
Trilha Sonora: Décio Otero
Edição de Trilha Sonora: Marcelo Jannuzzi
Figurinos: Décio Otero, Marika Gidali
Elenco: Ana Paula Tavernaro, Aleksandro Pereira De Souza, Danielle De Oliveira, Eugênio Gidali, Flavia Costa, Eduardo Mascheti, Juliana Figueredo, Edilson Ferreira, Michelle Caegari, Jorge Lima, Paula Perillo, Marcos Palmeira, Marcos Veniciu

segunda-feira, novembro 24, 2008

Relendo aquele conto de Morangos Mofados


Li aos 16 anos.
Reli algumas vezes, que nem todos os contos me encantam, espantam, estarrecem.
Agora relendo alguns, por conta do espetáculo que assisti.
:
Obsessivamente os mesmos:
:
Aqueles dois
Sargento Garcia
Caixinha de música.
:
Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu.

A paquidermica empresa de José Saramago


Leio agora este novo romance (romancinho) de José Saramago, A viagem do elefante, que começou morno, mas esquentou e está uma delicia de ler. É, sim, um Saramago menor, o mesmo de O conto da ilha desconhecida e As intermitências da morte. Ou seja, ainda menor é acima da média de muita coisa que se vem escrevendo por aí. A prosa, aquela beleza, no início a sensação de prosa repisada dos livros anteriores (sim, há muito disso), desenvolve-se pesado, (no começo) sem grande novidade, com as correntes obsessões deste narrador saramaguiano, que o dito escritor Saramago diz ser ele mesmo (sic). Mas um estilo, uma mão personalíssima, tão singularmente trabalhada por ele: os volteios frasicos, as inferências metalingüísticas (seja para explicar uma palavra, para explicar por que o romance está sendo construído dessa ou daquela forma) - à maneira do distanciamento de Brecht -, aqui e ali uma cutelada no catolicismo, as denúncias de mazelas sociais, o amor à ação coletiva do homem, à História de Portugal, à encenação de ações insólitas, e longas viagens épicas de transformação interior (não sei se há a presença do cão, do idoso e da mulher guia, é avançar na leitura para confirmar).
:
Assim, ainda que pareça mais do mesmo, há sempre o deleite da linguagem serpeteante, labiríntica e cheia de novidades - sem nunca perder o fio do jogo narrativo, de enredar o leitor na condução da trama, que faz este velho senhor um Autor maiúsculo. Sigamos o paquidérmico compasso.
:
:
:
"Por duas vezes, antes de chegarem a porto salvo, se tal se podia chamar a duas dezenas de casebres afastados uns dos outros, com uma igreja descabeçada, isto é, só com meia torre, semnave industrial à vista, ainda lhes caíram em cima duas bátegas, que o comandante, já perito neste sistema de comunicações, interpretou logo como dois novos avisos do céu, decerto impaciente por não ver uqe estivessem a ver tomadas as medidas preventivas necessárias, as que poupariam à ensopada caravana resfriamentos, contipações, defluxos e mais do que prováveis pneumonias. Esse é o grande equívoco do céu, como a ele nada é impossível, imagina que os homens, feitos, segundo se diz, à imagem e semelhança do seu poderoso inquilino, gozam do mesmo privilégio. "
:
:
:

A viagem do elefante, José Saramago, Companhia das Letras, 2008. p. 67

BUDAPESTE, de Chico Buarque


Um livro insuficiente.
:
{aguarde crítica}

CAPITU


"Capitu", série da Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho.
Adaptação do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, a ser lançada em dezembro.


LAVOURA ARCAICA



Um filme que adoro, uma adaptação impecável do livro de Raduan Nassar.
:
"Lavoura arcaica", de Luiz Fernando Carvalho

O cabeleira, de Franklin Távora em quadrinhos

Graphic novel

Editora Desiderata

a partir do roteiro de “O Cabeleira” (assinado por Hiroshi Maeda e Leandro Assis),

obra literária de 1976, escrita por Franklin Távora em 1876.

Baseada por sua vez nos cordéis sobre a vida do assassino pernambucano José Gomes.

MACUNAIMA ÓPERA TUPI

MINHA AMIGA SUSANNA E SEUS DIÁLOGOS LITERÁRIOS


Minha amiga mais que especial Susanna Ventura montou este diálogo-espetáculo com esses três artistas fabulosos que tive o prazer de conhecer. Apresentei há alguns meses, um vídeo-montagem para a apresentação nos Sesc sobre Franz Kafka. Eis aqui, aulas-espetáculos mais do que recomendadas.

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Correios patrocinam

Diálogos Sonoros
música e literatura

Com
Susanna Ventura, Márcia Accioly, Clóvis Tôrres e Kátya Teixeira


Dia 26/11/2008 às 20h - Na hora de trabalhar, pernas pro ar!
Visitando a literatura e a música brasileiras nos deparamos com a delícia da irreverência de personagens memoráveis,
acompanhadas e protagonizadas pelas aventuras e pela simpatia de alguns célebres malandros e preguiçosos que,
evocados a qualquer tempo, provocam o riso. Desta maneira, criamos um espetáculo bem humorado e inteligente, leve e provocativo.
Em realidade, uma boa "conversa fiada", acompanhada de cantoria e da interpretação do ator Clóvis Tôrres.


Curadoria e elaboração de textos
Márcia Accioly e Susanna Ventura

Direção Musical
Kátya Teixeira e Márcia Accioly

Susanna Ventura - leitura e comentários dos textos
Clóvis Tôrres - interpretação e diálogos

Músicos
Kátya Teixeira - voz, violão
Ricardo Vignini - violão e viola caipira
Cássia Maria - percussão e vocais
Produção
Andrea Gatto e Tôrres Produções Artísticas

Assessoria de Imprensa
Luciene Balbino




Realização
SESC/SP
Tôrres Produções Artísticas

Patrocínio
Correios


SESC POMPÉIA
Choperia
Rua Clélia, 93
tel.: (11) 3871-7700
www.sescsp.org.br

Entrada Franca

sexta-feira, novembro 21, 2008

NOVOS CONTOS

Contos novos escritos (e velhos, reescritos) e não publicados:
:
Introdução ao pânico
Amanhecer de Adamah
Oedipus
Monte Santo
O imitador de passarinhos
A invenção de Fernando Pessoa
Medo de Tom Waits
Para Paco que gostava dos meus contos
O dia da ira
O assassinato de Rubem F.
Pracinha
O planetário de Deus
:

RENE MAGRITTE

quarta-feira, novembro 19, 2008

PROFISSÃO REPÓRTER




Para mim, o melhor programa da televisão brasileira.

sábado, novembro 15, 2008

VICKY CRISTINA BARCELONA


Ontem, eu, Marcela e Lucas fomos ver este filme do Woody Allen no Unibanco. Uma beleza de filme! Um filme hiper falado, divertido e imprevisível; deste velhinho que está cada vez mais rejuvenescido.


Scarlett Johansson, Penelope Cruz e Javier Barden