domingo, agosto 26, 2007

ENEM


Meus queridos alunos do Henfil estão prestando o ENEM hoje.
Desejo a todos a maior e melhor sorte possível!
Principalmente por que todos são incríveis, gente da mais alta qualidade,
esforçados e merecem todo o sucesso.
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Sou besta com meus alunos. Completamente apaixonado.
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Então só posso desejar o melhor a todos.
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DVD adquiridos

LOS HERMANOS NO CINE IRIS
(show - maravilhos - 1h de extras)

MART'NÁLIA EM BERLIN
(show - magnifico - um disco perfeito com um show perfeito e participação super-especial de Chico Buarque e Luís Melodia)

quarta-feira, agosto 22, 2007

Lugares estranhos e falsificações no Googe Earth

TROPA DE ELITE


"Tropa de Elite", de José Padilha
Um filme simplesmente extraordinário (ok, ha algo de documental/comprovação de tese), mas que vale mesmo é ser assistido no cinema.
Aguardemos.

Fotógrafo

Bruce Weber

quinta-feira, agosto 16, 2007

CHORO ESDRÚXULO

Não quero crítico, nesse meu cântico.
Não sou melódico, não sou histórico,
não sou filósofo, nem sou nenhum sinfônico,
pois não conheço ritmo.
Também não sou esquelético,
gosto de música, embora lírica.
Adoro química, admiro a força elétrica
e da ciência gosto, não sou científico,
sou um tanto pernóstico em matéria magnética.
Sou magnífico, emboladístico,
pois sou metódico no radiodístico.
Deixo patético o radiofônico,
sou matemático num cântico chorístico.
Eu tenho físico, não sou anêmico,
não sou elástico de pneumático.
Sou veranístico e enigmático,
sou diabólico e pertenço ao ramo artístico.
Não tenho veia poética
Mas canto com muita tática
Não faço questão de métrica
E nem dispenso a gramática
Não me atrapalho na música
Nem mesmo sendo sinfônica
Procuro tornar simpática
A minha voz microfônica

(Zé Ferreira e Moreira da Silva )

JARDS MACALÉ CANTA BEZERRA DA SILVA


Só ouço isto, estou praticamente doente:





1.Acertei Na Milhar
2.Piston De Gafieira
3.Amigo Urso/Resposta Do Amigo Urso
4.Margarida
5.Na Subida Do Morro
6.Olha O Padilha
7.O Rei Do Gatilho
8.Choro Esdruxulo
9.Samba Aristocratico
10.O Ultimo Dos Moicanos
11.Tira Os Oculos E Recolhe O Homem
12.Moreira Na Opera

SAMBA LENÇO - Olímpia

Entramos em nova fase de produção do documentário SAMBA LENÇO - A memória do corpo. Paula e Odilon foram filmar em Olímpia. Eu fiquei. Material em casa para ver, rever, processar, repensar. Ler teóricos e descobrir caminhos possíveis. Por hora a decisão de montar um curta de dez minutos para amolecer o material e para descobrir o caminho. E chegamos de repente a esse subtítulo possível: "A memória do corpo".

Estranha forma de vida

Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha saudade
Foi por vontade de Deus
Que estranha forma de vida
Vive este meu coração
Vive de vida perdia
Quem lhe daria um condão
Que estranha forma de vida
Coração independente
Coração que eu não comando
Vive perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente
Eu não te acompanho mais
Pára, deixa de bater
Se não sabes aonde vais
Por que teimas em correr?
Eu não te acompanho mais

Amália Rodrigues

FADO EM SANTOS




Fechei hoje, finalmente, o acordo para dirigir/organizar o material de pesquisa sobre o fado na cidade de Santos. Recebi um material com depoimentos maravilhosas. Agora é caso de pôr em ordem. Mas é um trabalho a ser feito a várias mãos. A começar pela colaboração de Marcela e Tiago. (Não conto aqui a participação mais que fundamental de Suzanna Ventura, porque ela é uma das "donas" do projeto). Haverá filmagens, encontros, brigas. Um trabalhão. Mas tudo promete. Eu prometo.

sexta-feira, agosto 03, 2007

A Rota do Tarot



Estudar o Tarot é seguir uma Rota de Conhecimento Místico onde o mundo visível reencontra o seu significado mais profundo através da percepção da sua relação interna e união com as Leis do Mundo Invisível. O seu "Quadrado Mágico" (ver acima) sugere, assim, que o Tarot é um desafio pictórico para caminhar ao longo da senda mágico-religiosa para o Pleroma (ROTA), é uma descoberta que nos incita a orar e comungar com as suas Leis Espirituais (ORAT) e a conhecer o Divino como seu divino representante (ATOR) no seio do ser humano. Contudo, foi Guillaume Postel o primeiro a, no séc. XIX, defender que a palavra Tarot poderia ser uma cifra para Rota ou Tora. Para a geração dos ocultistas de novecentos o Tarot era um manancial cifrado de conhecimentos esotéricos primordiais sobre o Homem e o Universo, provocando o interesse de personagens como Eliphas Levi, Papus e, depois, de A. E. Waite, Crowley e Gareth Knight, todos eles tentando decifrar o significado desse livro esfíngico. Decifrar o Tarot é decifrar o Homem e o Universo, conhecer as Leis sobre as quais os Rituais são instaurados como Soberana Arte dos Magos

CARTAS NA MESA


Toda vida humana é destino em estado impuro. A mulher de novo baralhou e foi compondo na toalha, lâmina a lâmina, os 22 arcanos do Tarô – dito o livro revelador, de páginas soltas, que os ciganos trouxeram do Egito. A estrela, o imperador, a roda-da-fortuna, o diabo, por exemplo. – “Não entendo, não percebo” – tugiu, e juntou as mãos, grossas curtas, bem brancas: o consultante observando-a com ar de aluno. – “Salve-me, mas depressa. Acho que vou crer na senhora.” Ele respirou, boca aberta, espírito aspérrimo. Endireitou-se a cartomante; um pouco impressionava, quando cerrados os olhos de ave noturna, o ypsilone do nariz e sobrancelhas. – “Ao senhor, não engano...” Mais amadora que charlatã. – “A predição é dom, não ciência ou arte. Vem quando vem. A hora não é boa...”
– “Sei. Segue-me um homem armado, doido de ciúme e ódio. Decerto me viu entrar e espera lá fora.” – “Une marido.?” Madame de Syaïs outra vez misturava as cartas, mais digna, menos ágil.
– “Verei. Distrair-se do assunto. Concentremo-nos.” Ele quis, agora era quem guardava os olhos; soletrava-lhe confiança a voz, impessoal humaníssima. – “Deus nos dê luz...” Virou o bobo, o mago, o enforcado, a lua, a torre e a temperança. – “As figuras desdizem-se! Nada acusam...” – ela mesma se afastava. – “Tudo, mal para saber o futuro imediato... maluco ou sinistro” – ele se forçava a rir, não trazendo à testa os punhos, um instante sucumbido. A morte, o sol, o dia-de-juízo. A mulher também mordeu beiço, de pena e brio. – “Com o baralho comum, não as do tarô, quem sabe... Vale é o intuir, as cartas são só para deter a atenção.”O moço aprontou-se a ver. Tão logo a tentativa desnorteava-se. Espiavam nos naipes sutil indecifrar-se: de como por detrás do dia de hoje estão juntos o ontem e o amanhã. A adivinhã cruzou os braços.
Descruzando as pernas : – “A gente vive é escrevendo alguma bobagem em morse” – Ladal levantou-se. – “Vou procurá-lo! Talvez eu nem me defenda...” – toou o que disse, com imperfeita altivez. Mirou-o a mulher desfechadamente: – “O senhor pede presságio ou conselho? E acerta. Sempre o que importa é viver o minuto legítimo.” Tornava a mexer as cartas coloridas. – “Nem tanto, Madame, nem tanto...” – escarniu-se. Mas esperou. Seu rosto parecia mais uma fotografia. – “Detesta esse homem?” – “Não.” – “Não o enfrente” – com vigor e veludo. A magia – o carro, a justiça, a grã-sacerdotisa. – “Teme?” A tentação – sendo o amor; o mundo, a força, o hierofante. – “Sua mente abrange previsões e lembranças, que roçam a consciência. Prefere não agir: evita novos efeitos, pior karma.” Ele nem teve de sorrir, depois de meneios com a cabeça. – “Seu destino já se separa do outro. A isso, sem saber, ele reage, estouvado, irrompente aproximando-se.” A sabedoria – o eremita. A imperatriz, que pinta a natureza. – “Algo pode ainda obvir, o mau saldo...” Ostentadas as íris claras. – “Fique. O tempo vale, ganhe-o. O tempo faz. O tempo é um, dogma...” Ladal curvou-se. – “Tomo seu moscatel, não sua filosofia. Sou um néscio.” Meio mais tranqüilo.
Ele falava (ela respondendo): Aconteço-e-faço? (Reze.) Que jeito? (Pare de pensar em seu problema – e pense em Deus, invés.) E lá creio? (Não é preciso.) Sem treino nem técnica? (Deus é que age. Dê a ele lugar, apenas. Saia do caminho.) Como? (Não forme nenhuma imagem. Tome-se numa paz, por exemplo, alegria, amor – um mar – etcétera. Deus é indelineável.) Teoria? Court de Gébelin? Etteilla? Em que grimório ou alfarrábio? (Emmet Fox. Experimente. Um livrinho de seis páginas.) Renega a kabala então, o ofício de profetisa? (A qualquer giro, a sina é mutável. Deus: a grande abertura, causa instantânea. Desvenda-se nas cartas a probabilidade mais próxima, somente. Respira-se é milagre.) E ele, o outro? É justo? Deus deve ser neutro... ativa neutralidade. Reze, ajudando o outro, não menos. O efeito é indivisível. Tem cada um sua raia própria de responsabilidade. Também o outro é indelineável.) Os termos contrastantes... (Deus – repito, repito, repito! Não pense em nada.) Deram uma única interjeição – trementemente.
Tinia a campainha, da entrada. – “Quem for, esperará, na ante-sala...” Não entreolhavam-se os dois, em titubeio, não unânimes, nos rostos o enxame de expressões. Caluda, já Madame de Syaïs ia colher, à porta do corredor, o cochicho de aviso da criada. Desapontadamente – devia, sim, de ser o outro, de atabalhôo, dando naquele contraespaço.
– “Nada tem a fadar-aze. íVão há mais o tempo. Há, é o fato!” – e Ladal elevava o copo, feito brinde. Ela ergueu mão: seu cheio feixe de dedos. – “Não. O tempo é o triz, a curva, a curva do acrobata, futuro aberto, o símbolo máximo: o ponto. No invisível do céu é que o mar corre para os rios... Nunca há fatos.” Saída alguma, de escape. Não onde esconder-se. Nem chamar polícia. Tortamente oposto, a três passos, preso, passearia o outro sua carga de amargo. – “Talvez pense que a mulher se encontre aqui...” – “Ou vem à, consulta, simples-mente...” – “O nome é Mallam, Dr. Mallam...” – “Vale que seu seja, de Syaïs, Râ-na-Maga ou Ranamaga?”
Era nem equilíbrio, pingo por pingo, d’ora-agora, o escoar-se. O transprazo. Subiam em si, não ouviam, não viam. Da parede o relógio debruçava-se para bater.
E: oh. O estampido, tiro, na saleta, de evidência dramática. Cá, os dois paravam, sem respiro, não unidos, personagens sem cena. Ladal fez maquinal recuo. Madame de Syaïs emaçou ainda as cartas espalhadas. Um deles então abriu a porta.
Ali dera-se o dar-se-á – remorsivo – visão de tempos não passados. Tombado no chão, mais o revólver, amarrotava-se morto o outro, o peito em rubro e chamusco – que nem o mago, o diabo, o bôbo – ele mesmo por si rejeitara-se, irresolvidamente, sem fim, de história e trapalhada. Quase o choravam, em atitude insuficiente.

Pulso, 8 de janeiro de 1966
João Guimarães Rosa - Ave, palavra