segunda-feira, dezembro 31, 2007

FELIZ 2008

ESTÁ OFICIALMENTE DECLARADA A MORTE DESTE BLOG

31.12.2007


Feliz 2008 para todos.


Eduardo

sábado, dezembro 29, 2007

ode-haicai

Enaltecida
a noite caía
como uma luva

HERÁCLITO

Tudo flui
nada permanece
somente os rios existem
e o demais
são pedras.

Outros sertões

Narciso em seu labirinto
será Borges
ou outro mito?
que Pessoa
ou que rei
jaz inteiro e infinito?

no alto: Cão
Dom Sebastião
No entrevero
Antônio Conselheiro

Risco

nem soldo nem sal
a quem trouxer intacta
a flor de lis do peito
do peito arrancada
não se oferece prêmio
não se leva nada
a flor que eleva
a luz que é sagrada

DITO

Este é o fato:
ninguém fadado
nenhum mistério
nenhum conflito
tudo é clareza e concisão
tudo está escrito
nas entrelinhas da mão.

Insight

a p a l a v r a p ó l v o r a p o r u m f i o
[acenda o pavio]

[ ]

[
Pandora constata,
rompida a espera,
que na própria caixa se encerra
]

PREPARAÇÃO PARA QUEDA

Olhar em linha reta
o ângulo exato da queda
não rezar para que a viagem seja breve
e tudo transcorra sem dor
nem propor outros dilemas
que sugiram medidas preventivas

-- os olhos na janela --
-- os livros na estante --

[Vastos pensamentos imperfeitos]

Não creditar, ou melhor,
descrer
do valor real do salto
da precisão errática de seu ato

por fim,
a esquina
a sina,
a contramão

[proponho outros modelos de armar:
-- pureza com remissão --
-- omissão sem dano --
como há muito lido em Job:

Deus é também como nós - insano
Mas sempre está com a razão]

MAIO/1998

To Each His Cinema, or Chacun son cinéma ou Cada qual com seu Cinema




Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s'éteint et que le film commence (2007)

George Babluani ... (segment "Recrudescence")
Cindy Beckett ... Supporting
Josh Brolin ... (segment "World cinema")
Antoine Chappey ... Le Secrétaire de Khrouchtchev (segment "Rencontre unique")
Farini Cheung ... (segment "I Travelled 9000 kilometers To Give It To You")
Casper Christensen ... (segment "The Last Dating Show")
Yves Courbet ... (segment "No Translation Needed")
David Cronenberg ... (segment "At the suicide of the last Jew in the world in the last cinema in the world")
Anne-Marie Louise Curry ... (segment "The Last Dating Show")
Audrey Dana ... (segment "Cinéma de boulevard")
Duarte de Almeida ... Le Pape Jean XXIII (segment "Rencontre unique")
Émilie Dequenne ... (segment "Dans l"obscurité")
Lionel Dray ... (segment "Recrudescence")
Jean-Claude Dreyfus ... (segment "Cinéma érotique")
Yousra El Lozy ... (segment "47 Ans Après")
Erica Englert ... The Bug (segment "The Lady Bug")
Deniz Gamze Ergüven ... (segment "Recrudescence")
Wing Fan ... (segment "I Travelled 9000 kilometers To Give It To You")
Sara Forestier ... (segment "Cinéma érotique")
Jacques Frantz ... (segment "Occupations")
Grant Heslov ... (segment "World cinema")
Frank Hvam ... (segment "The Last Dating Show")
Kristian Ibler ... (segment "The Last Dating Show")
Clayton Jacobson ... The Man / The Voices #3 (segment "The Lady Bug")
Karim Kassem ... (segment "47 Ans Après")
Takeshi Kitano ... (segment "Rencontre unique")
Joachim Knop ... (segment "The Last Dating Show")
Sylvia Kristel ... (segment "Cinéma érotique")
Édith Le Merdy ... (segment "Cinéma érotique")
Geneviève Lemon ... The Voices #1 (segment "The Lady Bug") (voice) (as Genevieve Lemon)
Michael Lonsdale ... (segment "Le Don")
Sara-Marie Maltha ... (segment "The Last Dating Show")
Marney McQueen ... The Voices #2 (segment "The Lady Bug") (voice)
Jeanne Moreau ... (segment "Trois Minutes")
Nanni Moretti ... (segment "Diario di uno spettatore")
Juliana Muñoz ... (segment "No Translation Needed")
Peter Hesse Overgaard ... (segment "The Last Dating Show")
Michel Piccoli ... Nikita Khrouchtchev (segment "Rencontre unique")
Denis Podalydès ... (segment "Cinéma de boulevard")
Peter Reichhardt ... (segment "The Last Dating Show")
Jérémie Segard ... (segment "Dans l"obscurité")
Brooke Smith ... (segment "World cinema")
Zinedine Soualem ... (segment "Cinéma de boulevard")
Elia Suleiman ... (segment "Irtebak")
Lars von Trier ... (segment "Occupations")
Michel Vuillermoz ... (segment "Cinéma de boulevard")
Maya Waterman ... Patron (segment "Anna")
Luisa Williams ... Anna (segment "Anna")

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Maria Bethânia canta Carcará no show Opinião - 1965



[Eu não sei quem possui essa raridade e postou no youtube, mas isso é prova do quanto a internet e o "youtube" tornou-se importante para nossas vidas, nossa memória do que é uma "grande arte"]

Bethânia - interpretando o poema "Cântico Negro"

Bethania - Rosa dos ventos



{Maria Bethania, em vídeo histórico, cantando Rosa dos ventos, um das minha canções prediletas].

Maria Bethania - nos anos 80

terça-feira, dezembro 25, 2007

CLARICE LISPECTOR - Uma máscara


UMA AMIZADE SINCERA

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos ti­vés­se­mos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exal­tação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.

Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabía­mos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados - mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separar­mos.

Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.

Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, pre­pa­rá­va­mos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto - eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.

Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.

Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.

Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.

Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.

Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.

Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.

É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de co­nhe­ci­dos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade - posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.

Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.

Encerrada a questão com a Prefeitura - seja dito de passagem, com vitória nossa - continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.

Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

[LISPECTOR, Clarice. In Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998.]
.
[Um conto incrível. Caio Fernando Abreu o reelaborou de modo lindo no conto "Aqueles dois", mas neste, a questão homossexual está cifrada de modo magistral por Clarice Lispector, grande por tudo aquilo que não "diz", ecoando na técnica o que foi chamado por Oscar Wilde: "o amor que não diz o nome".

Ruivo


TENTAÇÃO

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele tremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava a menina, como se fora de sua ruiva carne. Eles se fitaram profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência, que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-os com olhos pretos que mal acreditavam, debruçados sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.

(LISPECTOR, Clarice. A Legião Estrangeira. Rio de Janeiro: Livraria José Olímpio, 1975, pp. 113-4-5)

Um conto absolutamente genial de Clarice Lispector

Dizem, "com o tempo se esquece"

Dizem, "com o tempo se esquece",
Mas isto não é verdade,
Que a dor real endurece,
Como os músculos, com a idade.

O tempo é o teste da dor,
Mas não é o seu remédio -
Prove-o e, se provado for,
É que não houve moléstia.

[Quase ao pé da letra (se isto fosse posível), na tradução de Aíla de Oliveira Gomes]

in Emily Dickinson, uma centena de poemas.
Biblioteca de letras e ciências humanas, 198f. Ed. Unviersidade de São Paulo.

A original

LXXXV

THEY say that “time assuages”,—
Time never did assuage;
An actual suffering strengthens,
As sinews do, with age.
Time is a test of trouble, 5
But not a remedy.
If such it prove, it prove too
There was no malady.

(in "Part Four: Time and Eternity", Complete Poems. 1924)

Emily Dickinson (1830–86)

domingo, dezembro 23, 2007

VARIAÇÃO DE EMILY DICKINSON

Dizem que o tempo atenua a dor.
Mas isto, penso, foge à verdade.
Dor real endurece o sofredor
como rijo faz o corpo a própria idade.
Se nos testa no sofrer a cada dia
que razão para louvá-lo eu teria?

Se o movimento das horas nos curasse
de que males nossas vidas sofreriam?


[Variação (do Eduardo) em torno de um poema de Emily Dickinson]

sábado, dezembro 22, 2007

DIZEM QUE O TEMPO AMENIZA



Dizem que o tempo ameniza.
Isto é faltar com a verdade.
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade.
É um teste no sofrimento
Mas não o debelaria.
Se o tempo fosse remédio
Nenhum mal existiria.


Emily Dickinson

[Tradução de Idelma Ribeiro de Faria]

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Um tal mistério chamado Júlio

Júlio Cortázar, um gigante terno e combatente diante de um gato que não supõe o seu mistério.

7

Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.

[Um capítulo de "O jogo da amarelinha", de Júlio Cortázar].

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca escolhida entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenha-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.



JÚLIO CORTÁZAR - AOS PEDAÇOS

A ROSA DE PARACELSO


"A rosa de Paracelso" é um dos contos de Jorge Luís Borges que mais gosto, simples, sutil, belo. Uma pena que poucos conheçam. Vai um postal, com um trecho.

PARACELSO




Paracelso
é o pseudônimo de Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, (17 de dezembro de 1493, Einsiedeln, Suíça - 24 de setembro de 1541, Salzburg, Áustria. Foi um famoso médico, alquimista, físico e astrólogo. Seu pseudônimo significa "superior a Celso (médico romano)".

Ele rejeitava as tradições gnósticas, mas manteve muitas das filosofias do Hermetismo, do neoplatonismo e de Pitágoras; de qualquer modo, a ciência Hermética tinha tantas teorias aristotélicas que a sua rejeição do Gnosticismo era praticamente sem sentido. Em particular, Paracelso rejeitava as teorias mágicas de Agrippa e Flamel. Ele não se achava um mago e desprezava aqueles que achavam que fosse.

Paracelso foi um astrólogo, assim como muitos (se não todos) dos físicos europeus da época. A Astrologia foi uma parte muito importante da Medicina de Paracelso. Em um de seus livros, ele reservou várias seções para explicar o uso de talismãs astrológicos na cura de doenças. Criou e produziu talismãs para várias enfermidades, assim como talismãs para cada signo do Zodíaco. Ele também inventou um alfabeto chamado "Alfabeto dos Reis Magos" e esculpiu nos talismãs nomes angelicais.

Quien no conoce nada, no ama nada


Quien no conoce nada, no ama nada. Quien no puede hacer nada, no comprende nada. Quien nada comprende, nada vale. Pero quien comprende también ama, observa, ve... Cuanto mayor es el conocimiento inherente a una cosa, más grande es el amor... Quien cree que todas las frutas maduran al mismo tiempo que las frutillas nada sabe acerca de las uvas.

PARACELSO


PREPARAÇÃO PARA MORTE (deste blog)

TRISTEZA NÃO TEM FIM

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Tristeza não tem fim
Felicidade sim



Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Um dos meus Fellinis prediletos


ALUNOS DO INSTITUTO HENFIL - SBC - 2007


Alguns dos meus alunos do Instituto Henfil SBC - 2007
Gente da mais alta qualidade. Alegria e sucesso a todos em 2008.

domingo, dezembro 16, 2007

The Right Profile

Say, where did I see this guy?
In red river?
Or a place in the sun?
Maybe the misfits?
Or from here to eternity?

Everybody say, is he all right?
And everybody say, whats he like?
Everybody say, he sure look funny.
Thats...montgomery clift, honey!

New york, new york, new york, 42nd street
Hustlers rustle and pimps pimp the beat
Monty clift is recognized at dawn
He aint got no shoes and his clothes are torn

I see a car smashed at night
Cut the applause and dim the light
Montys face is broken on a wheel
Is he alive? can he still feel?

Nembutol numbs it all
But I prefer alcohol

He said go out and get me my old movie stills
Go out and get me another roll of pills
There I go again shaking, but I aint got the chills

Arrrghhhgorra buh bhuh do arrrrgggghhhhnnnn!!!!

http://www.youtube.com/watch?v=1wDqwm-Yhmo

A CASA DE ALICE

MUTUM - Transcendente

sábado, dezembro 08, 2007

DO DESEJO (III)


Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)

Hilda Hilst

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Transforma-se o amador na coisa amada

Transforma-se o amador na coisa amada
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que,como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

CAMÕES

LIVROS À MANCHEIA

INDICAÇÕES PARA QUEM QUER DISCUTIR LITERATURA

A metamorfose, de Franz Kafka
Candido, de Voltaire
A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi
O estrangeiro, de Albert Camus
Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe
Bestiário, de Julio Cortázar
Oliver Twist, de Charles Dickens
Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel Garcia Marquez
Hamlet, de William Shakespeare
Werther, de Goethe
O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde
Orlando, de Virginia Woolf
Madame Bovary, de Gustave Flaubert
Ficções, de Jorge Luís Borges
Pedro Paramo, de Juan Rulfo
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa
A legião estrangeira, de Clarice Lispector
Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago
Vozes anoitecidas, de Mia Couto


[Não são os livros mais amados, mas são aqueles que formam (num crescendo) bons leitores]

A CASA DE ALICE, de Chico Pereira


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Um Nelson Rodrigues sem as famosas
hipérboles de Nelson Rodrigues
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[Lucrécia Martel (de O pântano e A menina santa) continua influenciando o cinema nacional (há determinado tom em Mutum). Mas eis aqui um filhote rodriguiano. Uma espécie de crônica familiar suburbana, agora dos anos dois mil. Esta lá a tensão sexual, as traições, os machos inúteis, as mulheres ávidas de desejos e cheias de solidão; a mater dolorosa que tudo sabe e tudo cala pela preservação do sagrado matrimônio, as ninfetas perversas, os maridos canalhas, os incestos e desejos sublimados em doentios ciúmes; a tragédia -- que como em Martel -- parece prestes a suceder, a ponto de manter uma tensão premente. Mas tudo tão bem construído, tão bonito de se ver, que só carecia de um final de potente, à altura da protagonista Carla Ribas, que tão lindamente compôs essa mulher com intestinos, entranhas e coração].

quinta-feira, dezembro 06, 2007

MÁXIMAS MÁXIMAS

"O sexo de minha mulher é uma orquídea deitada."

Nelson Rodrigues

segunda-feira, dezembro 03, 2007

AFRO-TRANSCENDENTE



Baixei uma versão linda no emule. Todos tinham dito que foi lindo. Minha mãe ficou emocionada ao ver. Tão bonito sem acompanhamento, à capela, com essa voz tão negra, tão brasileira, desta cantora que carece de adjetivos. Canta tão lidamente, sílaba a sílaba, firme, forte, guerreira e emocionada. A voz do Brasil, a voz afro-transcendente (para se poder traduzi-la, só uma nova categoria, para além da cor, do tempo, das idades). Esta é só mais uma postagem para derramar minha admiração irrestrita a Elza Soares.

ANIMAÇÃO EXTRAORDINÁRIA

sábado, dezembro 01, 2007

Cantos Negreiros - Um show inesquecível

Fotos dos amigos




JOÃO GILBERTO

Pra que discutir com Madame

Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora
Por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado
Que o samba é coitado
Devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de dor
Madame diz que o samba é democrata
É música barata
Sem nenhum valor

Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com Madame

No carnaval que vem também com o povo
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno
Meu Deus que horror
O samba brasileiro, democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.

Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, de 1956