sábado, março 31, 2007

ENCONTRO EM SAMARRA

Certa vez um mercador de Bagdá mandou seu servo ao mercado comprar provisões. Pouco depois, o servo voltou, branco e trêmulo. Disse: “Mestre, agora mesmo, quando estava no mercado, fui empurrado por uma mulher no meio da multidão e ao me virar vi que fora a Morte quem me empurrara. Ela me olhou e fez um gesto ameaçador. Agora me empreste o seu cavalo, vou cavalgar para bem longe desta cidade, a fim de evitar meu destino. Irei a Samarra, lá a Morte certamente não me encontrará”.
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O mercador emprestou-lhe seu cavalo. O servo montou, enfiou as esporas nos flancos do animal e, tão rápido quanto este conseguia galopar, se foi. Então o mercador foi até o mercado, viu a morte em pé no meio da multidão, seguiu até ela e disse: “Por que você fez um gesto ameaçador para o meu servo, quando o viu pela manhã?”
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“Não fiz nenhum gesto ameaçador”, respondeu a morte, “foi uma reação de pura surpresa. Fiquei atônita ao vê-lo, aqui, em Bagdá, já que tenho um encontro marcado com ele esta noite, em Samarra”.

INVASÃO,

quinta-feira, março 15, 2007

CARTAZ do meu curta mais arriscado



[A idéia era antiga, o roteiro custou a tomar corpo, mas já me sinto no direito de apresentar o cartaz como prelúdio do que será o meu novo filminho menos doméstico e mais cruel que os demais: "HIV- procura HIV+ para relacionamento sério"]

NOSTALGIA I

NOSTALGIA II



Ok. sou nostálgico, (e minha nostalgia é ainda mais estranha porque tenho saudade de coisas de antes de mim: memórias de rádio, vinis antigos, reprises de sessão da tarde, pedaços de arquivos, quadros renascentista, canções de bossa e dos 70, videotapes e super 8. E o pior, já era assim bem antes dos dez anos. Esse desalinho entre presente/passado fez com que na vida eu me sentisse sempre muito velho, quando (na verdade), e isto descobri depois, recuava os passos, procrastinando a vida e ficando cada vez um pouco mais atrás de toda gente. Woody Allen teve que fazer aquele seu Desconstruindo Harry para eu perceber que nasci fora de foco. Almejei por um bom tempo a invisibilidade. Queria me confundir com as pilastras, os muros, o gramado que subia a barreira de terra que havia na minha escola. Falharei desastrosamente em tudo, olhando através de uma janela a paisagem e sabendo de antemão que não ia resistir nem dez anos. Estava certo e errado numa série de coisas.] Mas, como dizia, sou nostalgico, e amo essa época do Brasil em que as pessoas eram mais soltas e radiantes.

quarta-feira, março 14, 2007

INVISIBILIDADE


TATUAGEM

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem pra seguir viagem
Quando a noite vem

E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega, mas não lava
Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina, salta e te ilumina
Quando a noite vem

E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço
Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas mas no fundo gostas
Quando a noite vem

Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, ferro e fogo
Em carne viva
Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sente

.

Chico Buarque e Ruy Guerra

[Demorou um tempo enorme, precisei ouvir o Caetano cantando esta música para me apaixonar profundamente. Canto ainda mal e sem cansaço. Fica aqui entre as coisas que adoro]

Notas sobre um escândalo



Notas sobre um escândalo, no Unibanco 13.03.2007

O que dizer?

:

Um escândalo.

segunda-feira, março 05, 2007

[circuladô de fulô]

circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já meu deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao solenquanto vendem por magros cruzeiros aquelas cuias onde a boa forma é magreza fina da matéria mofina forma de fome o barro malcozido no choco do desgôsto até que os outros vomitem os seus pratos plásticos de bordadosrebordos estilo império para a megera miséria pois isto é popular para os patronos do povo mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol pois não tinha serventia metáfora pura ou quase o povo é o melhor artífice no seu martelo galopado no crivo do impossível no vivo do inviável no crisol do incrível do seu galope martelado e azeite e eixo do solmas aquele fio aquele fio aquele gumefio azucrinado dentedoendo como um fio demente plangendo seu viúvo desacorde num ruivo brasa de uivo esfaima circuladô de fulô circulado de fulô circuladô de fulôôô porque eu não posso guiá veja este livro material de consumo este aodeus aodemodarálivro que eu arrumo e desarrumo que eu uno e desuno vagagem de vagamundo na virada do mundo que deus que demo te guie então porque eu não posso não ouso não pouso não troço não toco não troco senão nos meus miúdos nos meus réis nos meus anéis nos meus dez nos meus menos nos meus nadas nas minhas penas nas antenas nas galenas nessas ninhas mais pequenas chamadas de ninharias como veremos verbenas açúcares açucenas ou circunstâncias somenas tudo isso eu sei não conta tudo isso desaponta não sei mas ouça como canta louve como conta prove como dança e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feitoque pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento bagagem de miramundo na miragem do segundo que pelo avesso fui destro sendo avesso pelo sestro não guio porque não guio porque não posso guiá e não me peça memento mas more no meu momento desmande meu mandamento e não fie desafie e não confie desfie que pelo sim pelo não para mim prefiro o não no senão do sim ponha o não no im de mim ponha o não o não será tua demão


Galáxias, de Haroldo de Campos

domingo, março 04, 2007

RELI

A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada,

de Gabriel Garcia Marquez

MÁXIMAS MÁXIMAS - I


"Eu sou um pirotécnico.
Fabrico alguma coisa que serve, finalmente,
para um cerco, uma guerra, uma destruição.
Não sou a favor da destruição,
mas sou a favor de que se possa passar,
de que se possa avançar,
de que se possa fazer caírem os muros."


(MICHEL FOUCAULT, 1975)





[Eduardo, querendo acreditar
no poder das idéias e das
palavras]

[2007]

CIRCULADÔ DE FULÔ, o show




AMERICANOS

Americanos pobres na noite da Louisiana
Turistas ingleses assaltados em Copacabana
Os pivetes ainda pensam que eles eram americanos
Turistas espanhóis presos no Aterro do Flamengo
Por engano
Americanos ricos já não passeiam por Havana
Veados americanos trazem o vírus da AIDS
Para o Rio no carnaval
Veados organizados de São Francisco conseguem
Controlar a propagação do mal
Só um genocida potencial
- de batina, de gravata ou de avental -
Pode fingir que não vê que os veados
- tendo sido o grupo-vítima preferencial -
Estão na situação de liderar o movimento
Para deter a disseminação do HIV
Americanos são muito estatísticos
Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos
Olhos de brilho penetrante que vão fundo
No que olham, mas não no próprio fundo
Os americanos representam boa parte
Da alegria existente neste mundo
Para os americanos branco é branco, preto é preto
(E a mulata não é a tal)
Bicha é bicha, macho é macho,
Mulher é mulher e dinheiro é dinheiro
E assim ganham-se, barganham-se, perdem-se
Concedem-se, conquistam-se direitos
Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime
E dançamos com uma graça cujo segredo
Nem eu mesmo sei
Entre a delícia e a desgraça
Entre o monstruoso e o sublime
Americanos não são americanos
São velhos homens humanos
Chegando, passando, atravessando.
São tipicamente americanos.
Americanos sentem que algo se perdeu
Algo se quebrou, está se quebrando.

Caetano Veloso

quinta-feira, março 01, 2007

CONSCIÊNCIA DO SUBDESENVOLVIMENTO


"Ora, dada esta ligação causal "terra bela -- pátria grande", não é difícil ver a repercussão que traria a consciência do subdesenvolvimento como mudança de perspectiva, que evidenciou a realidade dos solos pobres, das técnicas arcaicas, da miséria pasmosa das populações, da sua incultura paralisante. A visão que resulta é pessimista quanto ao presente e problemática quanto ao futuro, e o único resto de milenarismo da fase anterior talvez seja a confiança com que se admite que a remoção do imperialismo traria, por si só, a explosão do progresso. Mas, em geral, não se trata mais de um ponto de vista passivo. Desprovido de euforia, ele é agônico e leva à decisão de lutar, pois o traumatismo causado na consciência pela verificação de quanto o atraso é catastrófico suscita reformulações políticas. O precedente gigantismo de base paisagística aparece então na sua essência verdadeira -- como construção ideológica transformada em ilusão compensadora. Daí a disposição de combate que se alastra pelo continente, tornando a idéia de subdesenvolvimento uma força propulsora, que dá novo cunho ao tradicional empenho político dos nossos intelectuais.

(...)

Neste ensaio falarei, alternativa ou comparativamente, das características literárias na fase de consciência amena de atraso, correpondente à ideologia de "país novo"; e na fase da consciência catastrófica de atraso, correspondente à noção de "país subdesenvolvido". Isto, porque ambas se entrosam intimamente e é no passado imediato e remoto que percebemos as linhas do presente. Quanto ao método, seria possível estudar as condições da difusão ou as da produção das obras. Sem esquecer o primeiro enfoque, preferi destacar o segundo, que, embora nos afaste do rigor das estatísticas, nos aproxima, em compensação, dos interesses específicos da crítica literária. "




Literatura e subdesenvolvimento, de Antonio Candido



[O genial do pensamento de Antonio Candido se soma a um estilo claro, mas denso, que em seus volteios comunica e conduz o pensamento para além do texto (e da literatura), suscitando tanto novas problemáticas quanto caminhos possíveis que brotam do escombro das que terminou de demolir. Brilhante manuseio da palavra que desmistifica o que na literatura se dizia estilo, quando de fato era estratégia de manobra dos juízos alienantes, dos preconceitos revestidos de conceitos, dos preceitos convertidos em teses.]

MELODRAMA



"Melodrama ou a sedução da moral negociada"





"A título de esquema é comum dizer que o realismo moderno e a tragédia clássica são formas históricas de uma imaginação esclarecida que se confronta com a verdade, organizando o mundo como uma rede complexa de contradições apta a definir os limites do poder dos homens sobre seu destino, ao mesmo tempo que os obriga a reconhecerem a própria responsabilidade sobre ações que terminam por produzir efeitos contrários aos desejados. Em contrapartida, ao melodrama estaria reservada a organização de um mundo mais simples em que os projetos humanos parecem ter a vocação de chegar a termo, em que o sucesso é produto do mérito e da ajuda da Providência, ao passo que o fracasso resulta de uma conspiração exterior que isenta o sujeito de culpa e transforma-o em vítima radical. Essa terceira via da fabulação traria, portanto, as reduções de quem não suporta ambigüidades nem a carga de ironia contida na experiência social, alguém que demanda proteção ou precisa de uma fantasia de inocência diante de qualquer mau resultado. Associado a um maniqueísmo adolescente, o melodrama desenha-se, nesse esquema, como o vértice desvalorizado do triângulo, sendo, no entanto, a modalidade mais popular na ficção moderna, aparentemente imbatível no mercado de sonhos e de experiências vicárias consoladoras."


O olhar e a cena, Ismail Xavier


[Sou apaixonado pelo estilo retórico de Ismail Xavier, pela concisão de sua linguagem, o uso que faz da palavra precisa, e ainda assim, a capacidade de fazer o texto soar como fala exata, corrente, moderna. É um exemplo de raciocínio depurado traduzido em bom Português do Brasil. ]

A marca da maldade, Orson Welles


No labirinto de espelhos, Rita Rayword loira fatal em múltiplicas máscaras:

Genial!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!