segunda-feira, novembro 20, 2006

Companhia VOLVER


UNIBANCO, NOVEMBRO, 2006


De volta ao cinema


CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO

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CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO
CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO
CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO
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CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO
CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO
CONTINUAMOS VIVOS E EXISTINDO

------- r e v i d e --------

quarta-feira, novembro 01, 2006

I-CHING


PROTO CONTOS

1

Havia um ex-alcoólatra que saía de noite para roubar a casa de seus amigos. Conhecia seus hábitos e conhecia os dispositivos de segurança. Forçava as portas ou janelas ou as janelas e as portas, e entrava quando seus amigos estavam ausentes. Adorava vasculhar os quartos de casal, fuçar nos móveis e nas gavetas secretas. Levava todo o dinheiro. Guardava os objetos roubados no sótão de sua casa. No dia seguinte, seus amigos o procuravam para contar-lhe que tinham sido assaltados.

2

Havia uma mulher que pensava que sua filha falsa era falsa. A verdadeira tinha nascido morta. Ela estava certa de que havia morrido porque aos seis meses deixara de se mover. Seu marido a havia golpeado ("acidentalmente!") com a porta do banheiro, no ventre, ao entrar. Fizeram-lhe uma cesariana. Trocaram-lhe a morta por outro bebê que agora era sua filha. Ela a amava, mas não era sua. Talvez seu marido houvesse tido essa filha com outra mulher. Teve que matar a sua, para ter a outra ao seu lado. Estava interada de que seu marido tinha uma amante. Uma mulher a havia chamado ao telefone. Não dizia nada para que seu marido não lhe tirasse a filha postiça.

3

Havia uma mulher que anotava seu nome e seu número de telefone no banheiro masculino de bares. Entrava bem cedo pela manhã, quando tinha maiores possibilidades de não ser surpreendida. Recebia três ou quatro ligações por dia.

4

Havia uma mulher que fazia nada sem consultar o I-Ching. Imaginava para si uma roleta onde as apostas se pagam com acontecimentos da vida de quem joga.

O monge escala a colina com um bastão de bambu. A tormenta se avizinha. Seu discípulo se recusa a segui-lo.

O caráter enigmático das profecias permitia-lhe certa margem de decisão pessoal. Havia vários futuros possíveis. Compreendeu que para construir um destino o fundamental era decifrar, não decidir.

Vivia em Princeton, Nova Jersey. Seu marido era um biólogo que antes de terminar seu doutorado no M.I.T. fora contratado por uma grande corporação. Viajava para Nova Iorque todos os dias e ela ficava só. Nunca sabia que fazer nessas horas vazias. Paralisava-a não poder escolher na pletora microscópica de possibilidades. Via sua vida como um formigueiro destruído, com insetos fugindo para todas as direções.

Uma noite, em uma reunião, alguém falou do Livro das mutações e elaborou uma teoria sobre a construção artificial da experiência. No dia seguinte a mulher conseguiu um exemplar na biblioteca. Pensou que não devia consultar o livro para tomar grandes decisões. Iria concentrar-se na cadeia insignificante de feitos laterais que podiam dar lugar a caminhos imprevistos. Um homem sentava, todas as manhãs, lendo o jornal no bar que ficava em frente à universidade. Deveria falar com ele? O livro disse:

Antes da batalha o rei decide banhar-se no gelo do grande lado. O exército acampa na borda. A bruma se ergue nos montes.

Teve uma aventura com o sujeito que durou três meses. Assim que seu marido saía para Nova Iorque, ela consultava o livro e visitava seu amante ou ele a visitava.

Um dia recebeu a ordem de deixar de vê-lo. Agiu com frieza e resistiu a todos seus argumentos. A princípio ele a chamava ao telefone, até mesmo a ameaçava, até que finalmente desistiu. Ela o via sempre lendo seu jornal no café em frente à universidade.

Começou a realizar pequenas escapadas seguindo as indicações do I-Ching. Tomava um ônibus, descia em um canto qualquer, se sentava para beber num bar. Essa vida secreta a enchia de alegria. Nunca podia imaginar o que iria fazer. Uma vez se disfarçou de homem e foi a uma casa de massagens atendida por mulheres. O livro insistia que era um homem. Um guerreiro. Começou a interessar-se pelo mundo do boxe. Passava horas assistindo lutas na TV. Uma tarde foi ao ginásio do Madison. Conheceu um boxeador negro, um peso pluma de vinte anos que media 1,60 e parecia um jóquei.

Por fim, o livro lhe disse que devia partir. Apanhou todo o dinheiro que tinha no banco, alugou um carro e começou a viajar. O livro lhe indicava o caminho.

Às vezes consultava o I-Ching para saber se devia consultar o I-Ching.