segunda-feira, julho 31, 2006

VEREDA DA SALVAÇÃO

Finalmente assisti ao Vereda da Salvação, de Anselmo duarte, adaptação genial da peça de Jorge Andrade. Um deslumbramento. Dia 30 de julho, no Centro Cultural São Paulo.
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(Brasil, 1965, PB, 101 min).
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quinta-feira, julho 27, 2006

The big carnival ou Ace in the role ou A montanha dos sete abutres



A mulher e a maçã: Eva? Em "A montanha dos sete abutres", de Billy Wilder. Escrevo neste momento sobre este filme.

segunda-feira, julho 24, 2006

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.
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Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!
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Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!
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Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
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Coelho Neto
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[Esta é minha homenagem ao mau gosto, poesia pode ser também tétrica!]

Me gusta cuando callas



Me gusta cuando callas por que estás como ausente,
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
Y parece que un beso te cerrara la boca.
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Como todas las cosas están llenas de mi alma
Emerges de las cosas, llena del alma mí­a.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
Y te pareces a la palabra melancolía.
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Me gusta cuando callas y estas como distante.
Y estás como quejándote, mariposa de arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza,
Déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencioclaro
como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
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Me gusta cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
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Pablo Neruda

quinta-feira, julho 20, 2006

O rosto de Greta Garbo por Billy Wilder


Garbo não permitia ninguém assistindo às filmagens, não admitia no set ninguém que não fizesse diretamente parte da equipe. E tinha algo como um sexto sentido para saber se havia alguém que não devesse estar presente à filmagem. Durante os trabalhos de Ninotchka fui [Billy Wilder] até o set apenas para dar uma espiada, não queria ser notado. Ela deve ter pressentido isso instintivamente, pois de repente surgiram dois homens e puseram, sem dizer palavra, um biombo entre mim e a cena. Ela não podia suportar ser observada durante a filmagem, era como que uma invasão de seus segredos mais íntimos. E tinha boas razões para isso, porque sabia que o milagre de Garbo não era visível na filmagem, era um milagre do celulóide.
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Seu rosto se transforma na tela. Passava do rosto fechado, e mesmo talvez até enfadonho, da atriz ao rosto de uma star, no qual o espectador presumia ler todos os segredos da alma feminina. Nas grandes estrelas, o celulóide, o banho de emulsão do cinema, opera esse milagre: ao ‘chapá-las’, fazendo com que passem de três dimensões para duas, dá a elas uma profundidade, um mistério – é como se seus enigmas de repente parecessem revelar-se. Greta Garbo foi um caso assim: o nascimento de uma estrela a partir do celulóide.
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p. 180
Billy Wilder - e o resto é loucura, de Hellmuth Karasch
Dórea Books and Art (DBA), São Paulo, 1998.







terça-feira, julho 18, 2006

Melhores roteiros


O longa “Casablanca” ficou em primeiro lugar na lista dos “101 Maiores Roteiros”, produzido pelos membros do Sindicato de Roteiristas da América. O roteiro de “Casablanca”, assinado por Julius Epstein, Philip Epstein e Howard Koch, foi seguido pelo de “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo e Francis Ford Coppola. A medalha de bronze foi para “Chinatown”, escrito por Robert Towne. Completam os dez primeiros da lista: “Cidadão Kane”, de Herman Mankiewicz e Orson Welles; “A Malvada”, de Joseph Mankiewicz; “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, de Woody Allen; “Crepúsculo dos Deuses”, de Charles Brackett, Billy Wilder e D.M. Marshman Jr.; “Rede de Intrigas”, de Paddy Chayefsky; “Quanto mais quente melhor”, de Billy Wilder e I.A.L. Diamond; e “O Poderoso Chefão - Parte 2”, também de Puzo e Coppola. Allen, Coppola e Widler tiveram quatro filmes na lista. Com três roteiros na lista aparecem: William Goldman, John Huston e Charlie Kaufman. Dentre os 101 roteiros escolhidos, 56 eram adaptações e 45 eram originais. Você confere a lista completa no site do Sindicato de Roteiristas da América: www.wga.org.

Filmografia de Billy Wilder


The Major and The Minor (1942)
Cinco Covas no Egito (Five Graves to Cairo, 1943)
Farrapo Humano The Lost Weekend (1945)The
Pacto de sangue (Duble Indemnity, 1944)
Emperor Waltz (1948)
A Foreign Affair (1948)
O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950)
Ace in the Role (1951)
Inferno 17 (Stalag 17, 1953)
Sabrina (1954)
O Pecado mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955)
The Spirit of St. Louis (1957)
Amor na Tarde (Love in the Afternoon, 1957)
Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution, 1957)
Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959).
Se Meu Apartamento Falasse (The Apartament, 1960)
One, Two, Three (1961)
Irma La Douce (1963)
Kiss Me, Stupid (1964)
Uma Loura Por Um Milhão (The Fortune Cookie, 1966)
The Private Life of Sherlock Holmes (1970)
Avanti! (1972)
A Primeira Página (The Front Page, 1974)
Fedora (1978)
Amigos Amigos, Negócios a Parte (Budy Buddy, 1981)
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Como Roteirista : Sabrina (1995)Witness for the Prosecution (1982)Buddy Buddy (1981)Fedora (1978)The Front Page (1974)Double Indemnity (1973)Avanti! (1972)The Private Life of Sherlock Holmes (1970)Casino Royale (1967)The Fortune Cookie (1966)Ates gibi kadin (1965)Kiss Me, Stupid (1964)Irma la Douce (1963)One, Two, Three (1961)Ocean´s Eleven (1960)The Apartment (1960)Ninotchka (1960)Quanto Mais Quente Melhor (1959)Witness for the Prosecution (1957)Love in the Afternoon (1957)The Spirit of St. Louis (1957)The Seven Year Itch (1955)Emil und die Detektive (1954)Sabrina (1954)Stalag 17 (1953)Ace in the Hole (1951)Sunset Blvd. (1950)A Song Is Born (1948)A Foreign Affair (1948)The Emperor Waltz (1948)The Bishop´s Wife (1947)The Lost Weekend (1945)Double Indemnity (1944)Five Graves to Cairo (1943)The Major and the Minor (1942)Ball of Fire (1941)Hold Back the Dawn (1941)Arise, My Love (1940)Rhythm on the River (1940)Ninotchka (1939)What a Life (1939)Midnight (1939)That Certain Age (1938)Bluebeard´s Eighth Wife (1938)Champagne Waltz (1937)The Lottery Lover (1935)Under Pressure (1935)Emil and the Detectives (1935)Music in the Air (1934)One Exciting Adventure (1934)Mauvaise graine (1934)Adorable (1933)Was Frauen träumen (1933)Madame wünscht keine Kinder (1933)Das Blaue vom Himmel (1932)Scampolo, ein Kind der Straße (1932)Ein Blonder Traum (1932)Es war einmal ein Walzer (1932)Der Sieger (1932)Happy Ever After (1932)Un peu d´amour (1932)Un rêve blond (1932)Emil und die Detektive (1931)Princesse, à vos ordres! (1931)Der Falsche Ehemann (1931)Ihre Hoheit befiehlt (1931)Der Mann, der seinen Mörder sucht (1931)Ein Burschenlied aus Heidelberg (1930)Menschen am Sonntag (1930)Der Teufelsreporter (1929)

quinta-feira, julho 13, 2006

TERRA


Oxalá não venha nunca à sublime cabeça de Deus a idéia de viajar um dia a estas paragens para certificar-se de que as pessoas que por aqui mal vivem, e pior vão morrendo, estão a cumprir de modo satisfatório o castigo que por ele foi aplicado, no começo do mundo, ao nosso primeiro pai e à nossa primeira mãe, os quais, pela simples e honesta curiosidade de quererem saber a razão por que tinham sido feitos, foram sentenciados, ela, a parir com esforço e dor, ele, a ganhar o pão da família com o suor do seu rosto, tendo como destino final a mesma terra donde, por um capricho divino, haviam sido tirados, pó que foi pó, e pó tornará a ser. Dos dois criminosos, digamo-lo já, quem veio a suportar a carga pior foi ela e as que depois dela vieram, pois tendo de sofrer e suar tanto para parir, conforme havia sido determinado pela sempre misericordiosa vontade de Deus, tiveram também de suar e sofrer trabalhando ao lado dos seus homens, tiveram também de esforçar-se o mesmo ou mais do que eles, que a vida, durante muitos milênios, não estava para senhora ficar em casa, de perna estendida, qual rainha das abelhas, sem outra obrigação que a de desovar de tempos a tempos, não fosse ficar o mundo deserto e depois não ter Deus em quem mandar.
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Se, porém, o dito Deus, não fazendo caso de recomendações e conselhos, persistisse no propósito de vir ate aqui, sem dúvida acabaria por reconhecer como, afinal, é tão pouca coisa ser-se um Deus, quando, apesar dos famosos atributos de omnisciência e omnipotência, mil vezes exaltados em todas as línguas e dialectos, foram cometidos, no projeto da criação da humanidade, tantos e tão grosseiros erros de previsão, como foi aquele, a todas as luzes imperdoável, de apetrechar as pessoas com glândulas sudoríparas, para depois lhes recusar o trabalho que as faria funcionar – as glândulas e as pessoas. Ao pé disto, cabe perguntar se não teria merecido mais prêmio que castigo a puríssima inocência que levou a nossa primeira mãe e o nosso primeiro pai a provarem do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. A verdade, digam o que disserem autoridades, tanto as teológicas como as outras, civis e militares, é que, propriamente falando, não o chegaram a comer, só o morderam, por isso estamos nós como estamos, sabendo tanto do mal, e do bem tão pouco.
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Envergonhar-se e arrepender-se dos erros cometidos é o que se espera de qualquer pessoa bem nascida e de sólida formação moral, e Deus, tendo indiscutivelmente nascido de si mesmo, está claro que nasceu do melhor que havia no seu tempo. Por estas razoes, as de origem e as adquiridas, após ter visto e recebido o que aqui se passa, não teve mais remédio que clamar mea culpa, mea máxima culpa, e reconhecer a excessiva dimensão dos enganos em que tinha caído.
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Foi o caso que estando já a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira mãe e do nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida também o deveria ser, puseram-se a traçar uns riscos no chão, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficariam delimitados, sob pena de um castigo, que segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de prisão, ou de multa, ou novamente de morte. Sem que até hoje se tivesse sabido porquê, e não falta quem afirme que disto não poderão ser atiradas as responsabilidades nas costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espoliação e escutado o inaudito aviso, não só não protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que até então havia sido de todos, como acreditaram que era essa a irrefragável ordem natural das coisas de que se tinha começado a falar por aquelas alturas. Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verificação dos fatos da vida pastoril, então é porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles obedeçam, e que tudo quanto assim não for será chamado subversão.
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Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça”. E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende”. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito”. E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece” E Deus: “Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito” Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite”. Então, Deus compreendeu que nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara ser seu, o lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que também ele tinha sido vítima de enganos, como aqueles de que se estavam queixando as mulheres, os homens e as crianças, e, humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que ainda ouviu foi o dos disparos, mas na última imagem já havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de gritos e de lágrimas.
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José Saramago.
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in: SALGADO, Sebastião. Terra. “Prólogo de José Saramago.” São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 10-1.

segunda-feira, julho 10, 2006

Canto VIII


Diversos pareceres e contrários
Ali se dão, segundo o que entendiam;
Astutas traições, enganos vários,
Perfídias, inventavam e teciam;
Mas, deixando conselhos temerários,
Destruição da gente pretendiam,
Por manhas mais sutis e ardis milhores,
Com peitas adquirindo os regedores.
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Com peitas, ouro e dádivas secretas
Conciliam da terra os principais;
E com razões notáveis e discretas
Mostram ser perdição dos naturais,
Dizendo que são gentes inquietas,
Que, os mares discorrendo Ocidentais,
Vivem só de piráticas rapinas,
Sem Rei, sem leis humanas ou divinas
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Oh, quanto deve o Rei que bem governa
De olhar que os conselheiros ou privados
De consciência e de virtude interna
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como estê posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notícia mais inteira
Do que lhe der a língua conselheira.
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Nem tão-pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição acaso ande encoberta.
E, quando um bom em tudo é justo e santo,
E em negócios do mundo pouco acerta;
Que mal co eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta
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in Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões
[estudo para composição de um conto]

Os 27 filmes de Greta Garbo

Para constar, Carlos Drummond de Andrade escreveu um belíssimo poema sobre Greta Garbo no seu derradeiro livro, Farewell. O título é "Os 27 filmes de Greta Garbo." Segue um trecho:


"Não julgo seus adultérios burgueses
nem me revolta sua morte espatifada contra a árvore
ou sob as rodas da locomotiva.
Sou seu espelho, seu destino."

O rosto de Garbo




Garbo pertence ainda a essa face do cinema em que o enfoque de um rosto humano deixava as multidões profundamente perturbadas, perdendo-se literalmente numa imagem humana como num filtro, em que a cara constituía uma espécie de estado absoluto da carne que não podia ser atingido nem abandonado. Alguns anos antes, o rosto de Valentino provocava suicídios; o de Garbo participa ainda do mesmo reino do amor cortês, onde a carne desenvolve sentimentos místicos de perdição.

Trata-se, sem dúvida alguma, de um admirável rosto-objeto; na Rainha Cristina, filme que tornou a passar nestes últimos anos em Paris, a pintura de Garbo tem a espessura nevosa de uma máscara; não é um rosto pintado, mas sim um rosto engessado, defendido pela superfície da cor e não por suas linhas; em toda esta neve, simultaneamente frágil e compacta, só os olhos, negros como uma polpa bizarra, mas de modo nenhum expressivos, aparecem como duas feridas um pouco trêmulas. Mesmo em sua extrema beleza, este rosto, mais do que desenhado, é esculpido no liso e no friável, isto é, simultaneamente perfeito e efêmero, e assemelha-se à face farinhenta de Carlitos, com os seus olhos de vegetal sombrio e seu rosto de totem.

Rolland Barthes

O rosto de Greta Garbo


Ora, a tentação da máscara total (a máscara antiga, por exemplo) implica talvez menos o tema do segredo ( que é o caso das meias-máscaras italianas) do que o de um arquétipo do rosto humano. Garbo exibia uma espécie de idéia platônica da criatura, o que explica que seu rosto seja quase assexuado, sem no entanto ser duvidoso. É verdade que o filme (a rainha Cristina é sucessivamente mulher e jovem guerreiro) presta-se a essa indivisão; mas Garbo não chega a executar um verdadeiro travesti; é sempre ela própria, exibindo sem fingimento o mesmo rosto de neve e de solidão, tanto sob a coroa quanto sob os seus grandes chapéus de feltro. O seu apelido, Divina, certamente pretendia menos conferir-lhe um estado superlativo de beleza do que restituir a essência de sua pessoa corpórea, vinda de um céu onde as coisas são formadas e acabadas na maior claridade. Ela própria sabia-o: quantas atrizes consentiram que a multidão seguisse a maturação inquietante de sua beleza. Ela, não: a essência não se podia degradar, era necessário que seu rosto tivesse por única realidade a da perfeição, intelectual mais ainda do que plástica. A Essência pouco a pouco se foi obscurecendo, velando progressivamente com óculos, capas e exílios, mas nunca se alterou.

Porém, neste rosto deificado desenha-se algo mais agudo ainda do que uma máscara: uma espécie de relação voluntária, e portanto humana, entre a curva das narinas e a arcada das sobrancelhas, uma função rara, individual, entre duas zonas do rosto; a máscara não passa de uma adição de linhas, o rosto, esse, é antes de mais nada a consonância temática entre umas e outras. O rosto de Garbo representa o momento frágil em que o cinema está prestes a extrair uma beleza existencial de uma beleza essencial, em que o arquétipo está se infletindo em direção ao fascínio pelos rostos perecíveis, em que a clareza das essências carnais cederá o seu luar a uma lírica da mulher.

Rolland Barthes

O rosto de Greta Garbo, segundo Roland Barthes


Como momento de transição, o rosto de Garbo concilia duas idades iconográficas, garante a passagem do terror ao encanto. Sabe-se que, hoje, estamos no outro pólo desta evolução: o rosto de Audrey Hepburn, por exemplo, é individualizado, não só pela sua temática particular (mulher-criança, mulher-gata), mas também pela sua própria pessoa, por uma especificação quase única do rosto, que nada mais tem de essencial, mas que é constituído por uma complexidade infinita de funções morfológicas. Como linguagem, a singularidade de Garbo era de ordem conceitual, a de Audrey Hepburn é de ordem substancial. O rosto de Garbo é a idéia, o de Hepburn, o fato.

In Mitologias, Roland Barthes
p. 47-48, 1982, São Paulo, s/d.

domingo, julho 09, 2006

Lata (quase um roteiro)


Maria Eduarda e Benício estão juntos há dois anos. Ela não o agüenta mais, mas tem preguiça de desmanchar o namoro. Naquela tarde, Benício diz a ela que precisam conversar: ele gosta muito dela mas está em crise, precisa ficar sozinho uns tempos e quer terminar o namoro. Ela se esforça para não parecer feliz demais com a idéia, diz que tudo bem, eles podem continuar amigos. E vai para casa comemorar a liberdade com morangos e creme de leite.
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A lata de creme de leite semi-aberta escorrega no balcão da pia e a tampa de metal faz um corte profundo no pulso de Maria Eduarda. O creme de leite e o sangue se misturam no chão da cozinha enquanto Maria Eduarda tenta improvisar um torniquete com um pano de prato. O sangue jorra de seu pulso. Maria Eduarda sai de casa e caminha apressadamente até o pronto-socorro, felizmente a poucos metros de sua casa.
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A mãe de Maria Eduarda a encontra no saguão do pronto-socorro. Está tudo bem, só levou alguns pontos, está um pouco tonta porque perdeu sangue. Mostra o pulso enfaixado e explica o que houve, fala da lata de creme de leite. A mãe pergunta onde está o Benício. Maria Eduarda diz que acha que ele está na casa dele. Percorrem o caminho de casa em silêncio.
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O pai de Maria Eduarda senta ao seu lado, na cama. Pergunta se ela quer mais suco. Ela não quer. Pergunta se ela quer conversar com ele sobre o que aconteceu. Ela diz que já contou tudo que havia para contar. Se ela quiser conversar, é só chamar. Claro, ela diz.
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Todos os colegas perguntam o que houve. Ela conta da lata de creme de leite. A Crica não parece acreditar muito na história. E pergunta se é verdade que o Benício terminou com ela. Ela diz que sim. E todos ficam em silêncio.
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A professora chama Maria Eduarda para conversar, depois da aula. Pergunta se ela está bem. Ela diz que está ótima, não foi nada. A professora sugere a ela que converse com a professora Cíntia, do SOE. Maria Eduarda pergunta para quê? Só para conversar, diz a professora.
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A professora Cíntia é muito amável, simpática, oferece uma coca diet. Maria Eduarda diz não, obrigado. A professora Cíntia começa a falar sobre a adolescência, sobre o futuro. Diz que a vida de Maria Eduarda está apenas começando, que ela ainda vai conhecer muitos lugares e muitas pessoas diferentes e interessantes. E que na adolescência a gente é sempre muito dramático. Ela, pelo menos, era. Conta que uma vez quebrou todos os vidros do quarto numa briga com a mãe por causa de um namorado e que a mãe teve que chamar um vidraceiro e o vidraceiro era um gato e ela esqueceu do namorado, não lembra mais nem o nome. Mas lembra do vidraceiro. Maria Eduarda acha engraçada a história e pergunta se pode ir para casa. A professora Cíntia diz que sim, e que se ela quiser conversar é só chamar.
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Maria Eduarda chega em casa e Benício está lá, com a mãe dela, na sala. Maria Eduarda diz oi, o que você está fazendo aqui? Benício diz que passou só para visitar, que queria saber se ela estava bem. Ela diz que está ótima e sobe para o quarto.
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Maria Eduarda acorda no meio da noite, com a tevê ligada. Levanta e desliga. O pulso lateja e ela tem muita sede. Maria Eduarda vai até a cozinha. Pega uma caixa de suco na geladeira. Abre a gaveta do armário com cuidado para não fazer barulho e pega uma faca para abrir a caixa de suco. Não faça isso!, grita sua mãe, na porta da cozinha. Maria Eduarda leva um susto e deixa cair a caixa de suco. A mãe corre e a abraça, chorando. Minha filhinha, nós te amamos tanto, ela diz. Maria Eduarda diz, eu sei mãe, eu só queria tomar um suco. E a mãe diz, vai deitar, minha filha, eu levo para você.
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Maria Eduarda entra na sala de aula e todos param de falar. Ela olha para Crica, que desvia o olhar. Maria Eduarda senta. A professora ainda não chegou. Crica se aproxima e pergunta se ela sabe que o Benício está namorando a Silvia Meneghinni, da 202. Se ela não sabe é melhor saber logo, que ela só está contando porque é amiga, antes que ela faça mais uma loucura.
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Maria Eduarda se vira para Crica e diz bem alto, para que a sala inteira escute, que ela está pirada, que não fez loucura nenhuma, que eles todos é que estão loucos em pensar que ela tentou se matar cortando os pulsos por causa do Benício, que ela já queria terminar o namoro há muito tempo, que o Benício é um idiota cheio de espinhas, que ele fala "menas" e escreve atrasado com "z" e tem um pau deste tamainho assim. Ela ergue uma borracha verde, de aproximadamente seis centímetros, para ilustrar o tamanho do pau de Benício.
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Ontem, ao tentar abrir uma lata de azeite, Benício cortou os dois pulsos.
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Jorge Furtado
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