segunda-feira, maio 29, 2006

Solo espistemológico

Ainda nos lembramos das páginas introdutórias de As Palavras e as Coisas (1966), livro em que o filósofo francês Michel Foucault desentranha da obra ficcional de Jorge Luis Borges uma classificação científica dos animais existentes no mundo, tal como ela se encontra relatada numa enciclopédia chinesa. No texto de Borges se lê que "os animais se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas.

http://www.revistaipotesi.ufjf.br/volumes/v5n1/cap09.pdf


FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. [tradução: Salma Tannus Muchail]. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Carta para Gilberto Dimenstein, colunista da Folha de São Paulo

Transcrevo aqui a carta que uma colega enviou para o Gilberto Dimenstein da Folha e que foi solenemente ignorada.

Por que às vezes é importante pensar

Caro senhor Gilberto Dimenstein

Após ler o seu artigo, ler e reler o próprio caderno Mais que o contém, decidi compartilhar, assim como o senhor, minha opinião a respeito da violência recente em São Paulo. Penso que sua visão em relação aos fatos ocorridos na cidade nesta segunda quinzena de abril são simplistas. Seu artigo, por isso mesmo, me deixou extremamente preocupada, pois o senhor faz parte de uma elite intelectual (possivelmente, econômica também), que não só “pensa”, como produz e divulga informação/conhecimento acerca da Educação. Digo isto por conhecer seus livros (generosamente comprados pelo Estado para nossas bibliotecas escolares), e os artigos que publica em periódicos sobre os jovens/adolescentes e as instituições públicas educacionais, foco comum de suas “reflexões”.

Imagino que após um longo dia de trabalho, sua cabeça repouse num travesseiro confortável, e sua mente aporte num espaço distante da sua realidade diária, por exemplo, nas precárias escolas de lata e cimento da zona leste de São Paulo. Acredito que nasça dessa viagem, ─ neste hiato entre vigília e sonho, ─ muitas das reflexões que vão ser “seriamente” lidas nos jornais. Pareço agressiva, mas como levar a sério a idéia de que o mero aumento da quantidade de horas dentro de uma escola degradada, sem condições mínimas de receber crianças e adolescentes com dignidade, teria resultado na diminuição da violência e da criminalidade? Desconheço, de fato, este aspecto “redentor” da educação. Ah, sim, sei de estadunidenses no corredor da morte que se redimem, e publicam livros; mas isto é (como diria minha mãe), lá na “América”, e importar soluções para uma outra realidade, como a brasileira, o senhor deve (ou deveria) saber, não costuma dar muito certo.
Miremos a nossa situação real: prédios caindo aos pedaços, sujos, depredados, professores despreparados sim, outros capacitados, mas desmotivados, seja pela condição precária de trabalho seja pelo baixo salário. Analisemos, também, o programa atual de ensino, a pedagogia da valorização do menor esforço (lembremos: aprovações maciças conclamam maiores verbas internacionais passíveis de desvio); a péssima remuneração de “todos” os profissionais da Educação. Ah, lembra-se que o senhor comparou o salário dos professores ao das empregadas domésticas (pobre delas). Eu me repito, o senhor se repete, nos repetimos ao dizer o que todos sabem, igualmente as autoridades políticas, que insistem em não escutar. Além de tudo, o senhor reiterou o que seu amigo e companheiro de foco, Ruben Alves, já havia dito com toda propriedade: a escola por si só é chata, ensina coisas que um dia talvez sirvam, e eu acrescento: “para além dos concursos vestibulares?”

Penso que algumas ONGs, como é o caso do Instituto Airton Senna, Gol de Letra, sejam organizações sérias, mas, o que dizer dessas outras que estão “pegando carona”, que visam verbas, e que contratam pessoas despreparadas, tantas vezes sem qualquer conhecimento formal/científico para trabalhar com formação? Creio que o empirismo tenha lá seu charme, embora tenha constatado, tantas vezes, que serve apenas para escamotear despreparo e descaso em projetos tais como “São Paulo é uma escola”.
“De boas intenções o inferno está cheio”, ecoa o velho provérbio que muito diz desta situação atual, em que a bruta realidade é analisada com base num “achismo” que, se não é ingênuo, é contraproducente. Educação não é o “Emplasto Brás Cubas”, mezinha mágica, panacéia universal, cura para todos os males. Antes é o placebo dos discursos inócuos ao qual se agarra a “elite branca”, para quem a prática da sala de aula é vista através de binóculos.
Por isso, penso que pessoas como senhor, possuidoras de um canal livre na mídia, fariam melhor à Educação, caso se ativessem à divulgação e ao estímulo na criação de políticas públicas sérias, apartidárias, reivindicando uma operação mãos-limpas nas contas destinadas ao sistema educacional. E, como são ouvidos por grande parte da sociedade, estimulassem uma verdadeira revolução educacional, como a sugerida por Nicolau Sevenko, fora outras importantes ações, para além dos limites da educação, como reforma e aprimoramento do sistema jurídico e carcerário do país.

Esta semana na periferia de São Paulo circulava brincadeiras como:
“Rei, Rei, Rei o Marcola é nosso rei”.

Não fiquei chocada.

Lembro que nos anos 70 o slogan “Brasil, ame ou deixe-o” rivalizava com “Seja bandido, seja herói”. É uma contradição que se mantém ainda hoje nas periferias, pois o criminoso representa, muitas vezes, no imaginário dos marginalizados, uma espécie de “Vindicador” dos sem-posse e sem-poder. Inegável que Marcola, ávido leitor (como nos informou a mídia), detém poder. Líder da maior facção criminosa do país, não foi ele que de maneira mais que eficaz, fez parar a cidade que, não sendo maravilhosa, se orgulha de jamais parar? O pior, ele garantiu à população que o PCC não mexeria com os civis, coisa que a Polícia, devido o despreparo que lhe é peculiar, jamais pôde garantir. Sob quem recaiu o grosso olhar de desconfiança das milícias armadas e ameaçadas? Pobres, negros, mulatos da periferia, como não poderia deixar de ser.

Por isso, o caos, o corre-corre no bósnio-abril de 2006 é produto muito mais do que problemas no sistema educacional, e estão, sim, atrelados à desigualdade social, à impunidade, à corrupção na Justiça, ao desemprego, à ausência de políticas eficientes de segurança; e principalmente, são produtos da adoção ─ por mais de uma década ─ de uma política que privilegia as grandes instituições financeiras e atua na sociedade civil com paliativos.
Penso que o título utilizado no seu artigo foi extremamente feliz. Quem sabe a “elite branca”, como diz o atual governador de São Paulo, saia da defensiva. A certeza é que carros blindados, seguranças ou condomínios bem-equipados com câmeras, grades e guarda-particular pouco possibilitarão que passem ilesos à onda de violência. Desnecessário dizer que o pandemônio criado, se existe, é fruto dos que muito têm acumulado e pouco permitem aos famigerados pobres do outro lado do muro possuir.

Para falar com probidade, convém abandonar os binóculos e saltar o muro.

Boa semana
Professora Maria Cristina

sábado, maio 20, 2006

Quadrilha


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade