terça-feira, maio 24, 2005

MORTE DA DÉTE

No dia 25 de maio de 2005.
Visitei-a na terça anterior.
Dia tristíssimo.

domingo, maio 08, 2005

Rock das Cachorra

Eduardo Dusek


Troque seu cachorro por uma criança pobre
Sem parente, sem carinho, sem ramo, sem cobre
Deixe na história de sua vida uma notícia nobre

Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro (uauuu)
Troque seu cachorro por uma criança pobre

Tem muita gente por aí que está querendo levar uma vida de cão
Eu conheço um garotinho que queria ter nascido pastor-alemão
Esse é o rock de despedida pra minha cachorrinha chamada "sua-mãe"

É pra Sua-mãe (é pra Sua-mãe)
É pra Sua-mãe (é pra Sua-mãe)
É pra Sua-mãe (é pra Sua-mãe)
É pra Sua-mãe

Esse é o rock de despedida pra cachorra "Sua-mãe)

Seja mais humano, seja menos canino
Dê güarita pro cachorro, mas também dê pro menino
Se não um dia desse você vai amanhecer latindo,
uau, uau, uau

Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uau uau uau uau uau

Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uap baptuba
Baptuba, uau uau uau uau uau

Elza Soares, divina negra Posted by Hello

A carne

(Marcelo Yuka / Seu Jorge / Wilson Cappellette)



A carne mais barata do mercado é a carne negra

Que vai de graça pro presídio e para debaixo do plástico

E vai de graça pro subemprego e pros hospitais psiquiátricos

A carne mais barata do mercado é a carne negra



Que fez e faz história

Segurando esse país no braço (meu irmao)

O gado aqui nao se sente revoltado

Porque o revólver já está engatilhado

E o vingador é lento

Mas muito bem intencionado



E esse país vai deixando todo mundo preto

E o cabelo esticado

Mas mesmo assim ainda guarda o direito

De algum antepassado da cor



Brigar, sutimmente, por respeito

Brigar, bravamente, por respeito

Brigar por justiça e respeito

De algum antepassado da cor

Brigar

Salve ELZA SOARES Posted by Hello

quarta-feira, maio 04, 2005

Frag. de "Joãotónio, no enquanto"

Se descanse, senhor. Corpo de mulher não basta ter qualidades: é preciso ter qualificações.

E a qualificada prostituta prosseguiu. Falou conversas deslocadas, quem sabe se para aumentar o preço das lições. Zeitona deixaria as virgindades mais arrependida que aquela, única que concebeu sem pecado. Pois, ela conhecia era a versão do exacto: Virgem Maria tinha, afinal recusado a visita do Espírito Santo. Respondera nestes termos: ter filho sem fazer amor? Qual o gozo? Deitar fora o prato e ficar com o arroto? É essa a lição que vou dar a Zeitona: nada de platonismos: sexo à primeira vista.”

in Estórias Abensonhadas de Mia Couto, p. 89.

LUXO Posted by Hello

terça-feira, maio 03, 2005

Guimarães Rosa escreve para o Tradutor Italiano

Primeiro, precisarei de tagarelar também um pouco sobre o livro, as outras novelas. Quero afirmar a Você que, quando escrevi, não foi partindo de pressupostos intelectualizantes, nem cumprindo nenhum planejamento cerebrino cerebral deliberado. Ao contrário, tudo, ou quase tudo, foi efervescência de caos, trabalho quase “mediúmnico” e elaboração subconsciente. Depois, então, do livro pronto e publicado, vim achando nele muita coisa; às vezes, coisas que se haviam urdido por si mesmas, muito milagrosamente. Muita coisa dele, livro, e muita coisa de mim mesmo. Os críticos e analistas descobriram outras, com as quais tive de concordar. Algumas delas é que vou expor aqui a Você -- ainda que sem esperança de lhe mostrar nada de novo.
Sem modéstia, porque tudo isto de modo muito reles, apenas posso dizer a Você o que Você já sabe: que sou profundamente, essencialmente religioso, ainda que fora do rótulo estricto e das fileiras de qualquer confissão ou seita; antes, talvez, como o Riobaldo do “G.S.:V.”, pertença eu a todas e especulativo, demais. Daí todas as minhas, constantes, preocupações religiosas, metafísicas, beberem os meus livros. Talvez maio-existencialista-cristao (alguns me classificam assim), meio neoplatônico (outros me carimbam disso), e sempre impregnado de hinduísmo (conforme terceiros). Os livros são como eu sou.
E eu mesmo fiquei espantado de ver, a posteriori, como as novelas, umas mais, outras menos, desenvolvem temas que poderiam filiar-se, de algum modo, aos “Diálogos”, remotamente, ou às “Eneadas”, ou ter nos velhos textos hindus qualquer raizinha de partida. Daí, as epígrafes de Plotino e Ruysbroeck.
Por outro lado, o sertão é de suma autenticidade, total. Quando eu escrevi o livro, eu vinha de lá, dominado pela vida e paisagem sertanejas. Por isto mesmo, acho, hoje, que há nele certo exagero na massa da documentação.
Ora, Você já notou, decerto, que, como eu, os meus livros, em essência, são “antiintelectuais” -- defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração, sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, a megera cartesiana. Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bérgson, com Berdiaeff -- com Cristo, principalmente. Por isto mesmo, como apreço de essência e acentuação, assim gostaria de considera-los: a) cenário e realidade sertaneja: 1 ponto; b) ernredo: 2 pontos; c) poesia: 3 pontos; d) valor metafísico religioso: 4 pontos. Naturalmente, isto é subjetivo, traduz só a apreciação do autor, e do que o autor gostaria, hoje, que o livro fosse. Mas, em arte, não vale a intenção. Dei toda esta volta, só para reafirmar a Você que os livros, o “Corpo de Baile” principalmente, foram escritos, penso eu, neste espírito.