Alguns dos livros comprados
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Cara BB.,
a saudade maior do mundo de você. mas não tanta, que não me faça sair daqui depois da sexta e ir lá na usp buscar uns livros naquela feira que de tão única só se apresenta nesses quase-finais de novembro. passei no banco, peguei grana e fui. trem, metro, baldeação, baldeação, baldeação e eis na Madalena, aquela escada rolante infinita, e o ônibus lá a frente. não, BB querida, não vou de ponte-orca, demora séculos descer, atravessar aquela curva de carros que vem a cem e pode matar qualquer um, pode me matar também. você quer que eu morra, BB? o que acontece é que já são quase 3 da tarde e estou torrando no ônibus quando o motorista resolve dar partida. o tempo de quatro ou mais canções no mp3 recalcitante, culpa do ideológico fone de ouvido que só desfila canção no ouvido esquerdo. mp3player coreano e comunista, desses de passar por cima de pacifista na praça da paz celestial. mesmo assim BB, você sabe que isso não é problema, eu sou do improviso, boto olhos perspectivos na gente universitária que vai no ônibus. vao ensimesmados, lendo trepidantes cópias xerox. vao ensimesmados, uspianos até o osso. igual como éramos, eu sou um pouco, não perdi o hábito de descolar retina em coletivos. então, BB, sucede entrar na cidade universitária, dou conta então que senti grandes saudades, que faz tempo demais que não vou lá, e rever é constatar mudanças, eu que quero tenho esse desejo petrificado de permanência. cogito buscar o diploma que já pedi há tanto tanto tempo. preciso do diploma. daquele que ateste minha competência. que reconheça quem sou, para que eu própria me reconheça. para que seja. preciso talvez para ser mais do que sinto ser enquanto o ônibus faz aquela curva fatal, pois todo motorista é um menino frustrado de montanhas-russas. minha cabeça fica ainda lá atrás, no diploma, pensando que botam na parede emoldurado para apaziguar o espírito conquistador, ou por fetiche exibicionista, ou para autoconvencimento, já que vivemos em eras de incerteza. então dou conta da parada brusca, fora do desobediente ponto onde despongo num salto no gramado ante o grande prédio histórico da história. a feira é longa, ocupa todo o pátio, o centro, uns quadriláteros com carteiras com gente dentro que lembra feira de ciências em escola pública. cada editora ter seu espaço delimitado, com vendedores excitados ou cheios de tédio em torno de caixas e livros. bastante gente, bastantes livros, livros em pilhas, andar fica impraticável, sacolas pesam nos braços, o ar irrespirável e livros. tanto de dostoievski e kafka e candido e extremos hobsbawm e a morte da tragédia na grécia e quadrinhos de crumb e mulheres nuas do manara com mangás e tantos e tantos livros sobre machado de assis que se vendem! zanzo banzo horas sem me interessar por quase nada, até parar ali na cosac naify. então encontro tudo. 50%, sabe? compro ali os livros mais bonitos do mundo. me deixo levar. resisto ao claude levi strauss tão sedutor do cru e cozido à gênese dos talheres na mesa. a prova de resistência é não ceder, não levar tudo que queira. idade média, minha perdição, se compro enrolo, acabo naquela leitura aos saltos, daqui a uns dez anos terei lido o livro aerobicamente. sabe como sou. eu não mudo mais. eu vou ser pra sempre esse mortal desatento. ia passar no serrano. esqueço. buscar o diploma para ser. esqueço. de comer, esqueço também. as horas passam. tenho que pegar uma coca. desaba uma chuva dos diabos, mas ninguém dá por ela. a universitariada mais linda que há comprando livros, roçando braço a braço na luta por espaço para escolher o que se dispõe a mesa como banquete. exaustos, festivos e compenetrados, com nomes e listas cheias de consoantes fricativas. pego quase tudo na cosac, uma fortuna, e zanzo mais: livros infantis para pedro e para o Gabriel. na língua geral uns africanos. uns contemporâneos de 3 e 5 noutra banca, de encalhe. e o dia acaba comigo procurando um banheiro com que lavar o rosto. o peso danado. Imprestável estado com que vou embora, parar naquele ponto. eu e buñuel. eu e orides. eu e virgínia woolf. eu e zazie no metro, depois de quase meia hora à espera. e tudo de volta até chegar aqui pela meia-noite enquanto mando mensagens engraçadinhas no msn. mas tudo vale, é tolo, eu sei, mas esses livros todos me fazem um cara mais feliz. e eu penso "onde vou por tanto livro?" , meus arquivos de metal arriam ao peso de muita obra lida e se não lida à espera de um dia que eu lhes pertença. (porque, não sei se é assim com você, mas comigo há sempre o revés do amor em excesso, vira preocupação, angústia. E o que a gente faz com a angústia daquilo que antes nos fizera feliz?). não sei, BB. eu guardo, pesam nos armários, mas não esqueço, tão prestativos meus sagrados livros, esperando por mim, meigamente. BB, sabe do que falo: dor feliz?
e é só isso. posto no blog, sem selo e/ou saliva, a que sobra é para mandar beijo. Beijo.
E, claro, as mais cordiais e arcaicas saudações neste teu coração de lápis-lazúli
Edu
- um telefone meio insólito ontem e um convite para um entrevista na Problemas Brasileiros
- uma hd queimada com trabalhos importantíssimos
- sete horas expulsando jornais velhos de armários, gavetas, caixas, esquecidos sob o colchão
- muitos filmes baixados e tempo algum para assisti-los
- questões financeiras para serem acertadas com urgência
- créditos e mais créditos no celular e ninguém para ligar (Tem Vivo?)
- uma aula boa com músicas de Chico Buarque que me fez feliz
- livros comprados sobre Gil Vicente
- pipoca no cinema para estragar a dieta e um filme catástrofe onde a Terra é destruída (mas desastre mesmo é o filme em si).
- assistindo a tudo de costas e em pedaços por conta da tevê a cabo (enquanto digito trechos do ensaio)
- passagens compradas (pela irmã) para estar em breve no Rio
- a proposta nova, e também insólita, para um documentário sobre o Betinho (e com verba)
- o calor de novas descobertas e a descida boa aos subterrâneos (na pena forte) de Gil Vicente e Caio
- malhação neurótica com bons três 3kg a menos (e dizem que esteiras e ergométricas nao levam a nenhum lugar)
- uma alergia (nao confundam com ALEGRIA) que não cessa
- um ensaio sobre o Caio Fernando Abreu com a precisão (e a dimensão) de uma tese
- semanalmente como que acorrentado à cadeira do dentista, seus instrumentos e contas estriDENTES
- um rumor estranho na casa traduzido em silêncios e indiferença para comigo
- a sensação de que um crime está prestes a ocorrer
- botando fim nos adiamentos
- saudades de longas conversas consoladoras, felizes, às vezes sobre nada
- saudades dos velhos amigos, e dos amigos jovens, e de novos amigos que farão a diferença
- preparando planos para equipe e filmagens e já temendo o vuco-vuco
- ouvindo Nego do Rennó e cd do Kleber exaustivamente. Exaustão feliz.
- aviso que o filme Padorum não vale a pena
- coco antes de chanel me sorrindo e eu o cara mais fora de moda
- de repente acho que estou velho demais para todas essas minhas roupas
- alguma melancolia passageira
- vontade de dar aquela gargada
- minha mãe com cabelos brancos e cinzentos crescendo fortes como uma felicidade reinaugurada
- a certeza de que falamos outra língua
- a redação talentosa de um aluno que me deixou orgulhoso
- querendo ir na balada literária
- talvez Recife em fevereiro
- fechando o 18 de novembro de 2009, na expectativa de uma boa consciência negra.