sexta-feira, dezembro 14, 2018

Fantasmas do século XX, Joe Hill


Jonathan, 2018



SINOPSE: Jonathan (Ansel Elgort) faz todos os dias a mesma coisa. Ela deixa o escritório todos os dias ao meio-dia, e quando chega em casa, ele vai dormir. Quando ele acorda, uma mesa com café da manhã já está posta junto com um vídeo contado a ele sobre a segunda parte do seu dia.

Baixei e assisti. Ficção científica é meu gênero predileto. A premissa era boa. Duas personalidade (irmão gêmeos, segundo o filme) habitam o mesmo corpo. Uma cientista introduz um timer de ajuste e cada um dele tem suas 12 horas para estar no corpo, um vive a noite, outro, o dia. Claro, personalidade diferentes: Jonathan: mais tímido, reservado e racionalista (arquiteto) e John: mais atlético, expansivo, solar (trabalhador braçal), sexual. Comunicam-se via vídeo que gravam uma para o outro, informando a rotina dos dias, trocando informações, segredos. John se apaixona por uma garçonete, Jonathan descobre, contrata um detetive para segui-lo, pressiona o "outro eu" para abandonar a garota. John acata, rompe com ele, deixa-o no limbo, fica deprimido. Solitário, Jonathan se envolve com a garota, perde a virgindade, se apaixona. Agora é John quem descobre, fere o corpo e decide se desconectar do corpo, ou seja, suicidar-se. Contando assim, o filme parece dinâmico, mas se arrasta. Tem o ritmo de "Her" e "Ex machina", mas mal aproveitado, com diálogos ruins, sem explorar as potencialidade todas da premissa. Só não fica desinteressante por causa do drama. Difícil comprar o conflito de amor. A solução é abrupta, uma das duas personalidade começa a morrer no corpo. John impera no final, mas com um desfecho ambíguo que poderia ser mais profundo. Não é. Elgort tenta, mas é inexperiente e o material não ajuda, no final o filme de tão morno não empolga. 

Tu, de Tulipa Ruiz



Outras capas da tetralogia de Elena Ferrante








História da menina perdida, de Elena Ferrante


Cheguei ontem (14.12.2018) ao quarto (e último) volume da tetralogia napolitana de Elena Ferrante. A narrativa foi ficando melhor a cada volume, é inteligente, emotiva, cativante. História da menina perdida tem 480 páginas.


segunda-feira, dezembro 10, 2018

Nenhum futuro

Pindorama libertária
Glória negra dos ilês
Iletrados, inspirados
Se esgueirando pelas leis

Corpo nus desrecalcados
Terão sido a tua fé
Foste uma pornoxanxada
Das elites à ralé

Teu espelho olha de novo
Agora pra mim
E o penhor da igualdade aqui
Canta assim

Guaranis alcoolizados
Sem nenhum futuro
Anunciam o despencar do céu
Sobre nós

Teu espelho olha de novo
Agora pra mim
E eu suspeito que estamos fudidos
Enfim

111 amontoados
Nosso mar vermelho
Chora o anjo da História
Pelo Brasil

(João Bosco & Chico Bosco)


[Um diagnóstico do Brasil atual cantado por João Bosco]

Fim

Fim
(João Bosco)

Cai a mágoa sobre mim
A noite sobre mim
O castigo sobre mim
O açoite sobre mim

Desça todo séquito do avesso do amor
Foi ao seu encontro que vim
O ressentimento, a injustiça, toda dor
E o infinito do fim

Que eu conheça a solidão
No lugar do lar, ao léu
O olhar da acusação
No lugar de irmão, um réu

Que desapareça o mundo em comum
Que retorne para o não ser
Nosso moribundo dois volte a ser um
Antes de se putrefazer

E nem saberemos assim
Se é melhor sentirmos a dor
Ou sentirmos nada, virarmos nada
Até que o fim chegue ao fim.


[Impressionante poema niilista de João Bosco (sobre aquele rancor ressentido que surge no fim de um relacionamento). Musicado e interpretado magistralmente por seu pai João Bosco. Eu me lembrei imediatamente de um soneto niilista de Camões, que não tem a temática do amor/rancor, mas que também apregoa o fim, a aniquilação, um pouco como esse poema/canção]


O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

Camões

Mano que zuera, de João Bosco


O que ouço há meses no meu mp3. Um disco muito crítico sobre o Brasil atual, grande inventividade e potência nas letras.

Viagem passageira

Viagem Passageira
(Gilberto Gil)

O sonho é ter tudo resolvido
Com o passar do tempo pela vida
A casca da ferida se formando
A cicatriz na pele do futuro

A pele do futuro finalmente
Imune ao corte, à lâmina do tempo
O tempo finalmente estilhaçado
E a poeira sumindo no horizonte

O sonho é ter tudo dissolvido
O corpo, a mente, a fonte da lembrança
Enfim, ponto final na esperança
Somente as ondas soltas no oceano

Não mais o esperma e o óvulo da morte
Não mais a incerteza do binário
Um tempo liso sem o fuso horário
Não mais um sim, um não, um sul, um norte

O sonho dessa canção passageira
Mochila da viagem passageira
Passagem nessa vida passageira
Para uma vida ainda passageira.

[Gilberto Gil agora velhíssimo, elabora essas canções magníficas sobre a proximidade da morte. Aqui a reflexão sobre o envelhecer e o estar na eminência do fim. O ritmo ponderado/sereno da canção que é como uma reflexão para despedida. Acho magníficos vários versos desta canção: "A casca da ferida se formando/A cicatriz na pele do futuro": no corpo as marcas da passagem do tempo consolidadas, vincos, riscos, rugas: cicatrizes da passagem do tempo, marcas no corpo do vivido e de seu deteriorar. a pele do futuro é a "pele final", próxima da morte, aquela que trará todas as marcas do declínio. Ela é por isso "imune ao corte, à lâmina do tempo", pois já apresenta todas as marcas, estilhaçando por isso o poder corrosivo do tempo ("O tempo finalmente estilhaçado"). As alegorias finais são sempre relativas a viagem, como trajetória existencial, tempo/espaço unidos. O passado é o que fica para trás: "E a poeira sumindo no horizonte".

A proximidade da morte traz o desejo de não ter pendências ("O sonho é ter tudo resolvido"), uma fase em que tudo se dissolve: "o corpo (flácido),  a mente/fonte da lembrança (as falhas da memória, o esquecer), restando da totalidade apenas fragmentos: "Somente as ondas soltas no oceano". 

Essa dissolução das angústias pontua o desvanecer do medo da morte, que contraditoriamente ele demarca com aquilo que é o princípio da vida humana (esperma/óvulo): "Não mais o esperma e óvulo da morte". Representa o fim de outras angústicas: das tensões de gênero e aceitação da sexualidade ("Não mais a incerteza do binário"), sem a ansiedade e a urgência do tempo frenético que vivemos: "Um tempo liso sem o fuso horário". Ele fecha a quarta estrofe com o fim das indagações, da busca de respostas e de toda dualidade (Nao mais um sim/um não), e novamente com outra metáfora de "vida/viagem": "Não mais (...) um sul, um norte".

A canção saúda esse "curso existencial", ela própria contendo (e se fazendo) a partir da esperiência do vivido (mochila da viagem passageira), um tributo/passagem pago pela efemeridade da vida ("vida passageira") dada a outras vidas que virão "igualmente" passageiras/efêmeras]

Sábado e Domingo com os sobrinhos no Zaíra


Saí mais cedo da última aula de sábado no Maximize Paulista e fui direto para Mauá, rever meus sobrinhos Pedrovski e Vittorino. Sérgio comprou um PS4. Comprei um jogo de presente para o Pedro além de levar vários quadrinhos de literatura para ele. Comprei também quebra-cabeças e carimbos e uns livros da turma da Monica para Vi. Fiquei lá com eles, batendo papo, lendo os livros todos para Vi (que insistiu para eu ler A odisséia), montando quebra-cabeças, carimbando. Apresentei meu tablet com jogos que instalei. Jantei, tomei café, almocei com irmão e  Lê. E dormi. Um sono absurdo, dormi por diversas vezes, longos períodos. É como recarregar energias, estar na casa que cresci. Meus sobrinhos são inesgotável fonte de alegria e felicidade. Voltei no domingo a noite, mais preparado par essa semana vaga e pedregosa. 






Cumbe, de Marcelo D'Salete



Comprei no ano passado na Feira da USP, impactado pela beleza do quadrinho e por causa da temática negra. Depois soube que o autor Marcelo Dsalete ganhou o Jabuti e o Eisner. Na feira da USP deste ano comprei seu graphic novel Angola Janga, uma história de Palmares. Lendo, o impacto de sua criação. Seu desenho engenhoso, seus enquadramentos perfeitos, a economia das palavras com a riqueza visual e o incisivo das narrativas curtas sobre a escravidão brasileira. Há muito que falar sobre Cumbe, sobre o autor. Eu fico estarrecido e emocionado diante da beleza. 


Marcelo D'Salete (São Paulo, 1979) é um quadrinista, ilustrador e professor brasileiro. É mestre em história da arte pela Universidade de São Paulo.[1] Durante a adolescência, fez curso de design gráfico no colégio Carlos de Campos e trabalhou como ilustrador para editoras. Estreou como quadrinista em 2001, publicando nas revistas Quadreca e Front. Sua primeira graphic novel, Noite Luz, foi publicada em 2008, pela editora Via Lettera. Em 2011, publicou a história em quadrinhos Encruzilhada, pela editora LeYa.



Suas obras mais aclamadas tratam da história da resistência à escravidão no Brasil pela ótica dos povos negros: Cumbe, de 2014, e Angola Janga de 2017, ambas publicadas pela editora Veneta. Angola Janga, uma história sobre o Quilombo dos Palmares, levou onze anos de pesquisa e criação pelo autor.


domingo, dezembro 09, 2018

História do novo sobrenome, de Elena Ferrante

Já na metade do segundo volume da tetralogia de Elena Ferrante: História do novo sobrenome. Espantado com o alcance deste romance, que tem contra ele o fato de ser um best seller. Fui em duas livrarias e não encontrei o original físico, pois todos já estavam vendidos, o vendedor me disse que não fica na prateleira. A crítica elogia e virou série italiana com super-produção. Sou desconfiado, depois de best seller como Cinquenta Tons... Crepúsculo... a desconfiança qualitativa era natural. Mas de repente, lendo-o há tanta coisa, tanto talento na escrita, tanta complexidade na psicologia dos personagens. Estou apaixonado. Espero que não me decepcionem os próximos volumes. 


quinta-feira, dezembro 06, 2018

Hoje fui ver minha mãe


Tive uma consulta com o endocrinologista hoje em Santo Andre, passei pelo parque Duque de Caxias (hoje Celso Daniel), desci até o shopping Plaza para almoçar. De lá peguei um uber e fui ver minha mãe na clínica. Encontrei-a assim, "trabalhando", transcrevendo elementos de uma receita médica. Preparando aula para seus alunos. Muito calma, muito compenetrada. Me deu pouca atenção, mas me apresentou a todos como seu filho doutor Eduardo. Levei bombons de menta e tuti-fruti. Ela adorou. Fiquei quase uma hora ali, sentado, vendo-a, conversando uma coisa e outra. A dicção dela está falhando, a letra mais inconstante. Reclamei para ela dos meus cabelos brancos, falei dos netos dela e da gravidez da Lê (que ela citou na conversa quando falou do Sérgio). Ela está bem cuidada. Há ali serenidade de quem mergulha num mundo paralelo de elipses, repetições, multiplicações de tempos. Eu tenho tantos sentimentos complexos em relação em seu destino com alzheimer, quase todos dolorosos, e que agem sobre mim. 

Fim dos trabalhos no cursinho Maximize

As coisas não vão bem. O ano foi difícil, decepcionante, cheio de angústias. Mas tenho esse privilégio incrível de conviver com estes estudantes todos os anos. Eles me energizam cotidianamente e dão sentido ao que faço, tornam menos espinhoso o ofício desprestigiado nesses tempos duros, e me enchem de alegria e orgulho. Tenho paixão por eles, e torço todo tempo por que o Brasil os mereça.