segunda-feira, junho 01, 2020

Carta para Josefa, minha avó, de José Saramago

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.

Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)

Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»

É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.

[Elaine mandou esse texto através de um vídeo para mim. Nele, a absoluta beleza da escrita de Saramago. A questão do tempo, da memória, da experiência humana, da tragédia da desigualdade, da incompreensão ante o outro. Uma lindeza impressionante.]

Carta para Josefa, minha avó, de José Saramago


sábado, maio 30, 2020

Memórias Póstumas de Brás Cubas, essa capa merecia um prêmio


O Brasil


Do Suassuna

“O otimista é um tolo. 
O pessimista, um chato. 
Bom mesmo é ser um 
realista esperançoso.” 


Ariana Suassuna

Years and years,


Filho de Black Mirror. O mundo distópico está aqui ao lado. Acompanhamos a família inglesa em meio a mudanças tecnológicas e políticas radicais. Um mundo horrível, de fakenews, de insanos e desesperança. O abismo. 





The handmaids tale (O conto da aia)


Demorei muito a assistir. Cada episódio é tão pesado que tenho que assistir muito pausadamente. Estou na segunda temporada e é terrível. 





Ilustrador Simon Stalenhag - Tales from the Loop



































Contos do Loop (Tales from the loop), da Amazon



Soube através de uma youtuber da existência desta série produzida para Amazon. Trata-se de uma minissérie de ficção científica com viés existencialista. O ritmo é lentíssimo e cada episódio apresenta uma relativa independência. Há algo de Black Mirror no modo como o efeito da tecnologia age no comportamento das pessoas, no cotidiano. Mas o fantástico também tem espaço nas narrativas. 


A série é inspirada na obra do autor e ilustrador sueco Simon Stålenhag, que participa da série como roteirista e produtor executivo, Tales From The Loop conta com oito episódios adaptados por Nathaniel Halpern, o mesmo da  série Legion, do canal FX. 


Em forma de antologia com oito episódio, a trama segue a rotina dos habitantes de uma pequena cidade aparentemente pacata, mas localizada acima de uma instalação de pesquisa, onde se encontra uma máquina chamada The Loop, capaz de desvendar e explorar diversos mistérios do universo. Isso acaba afetando os habitantes, que experienciam situações inusitadas envolvendo inconsistências temporais, forças que desafiam as leis da física e outras coisas que poderiam ter saído de alguma obra de ficção científica. Duas famílias estão no centro da narrativas, cada um dos episódios contemplando um personagem. 





Na maior parte da série, a trama gira em torno de duas famílias lidando com traumas diferentes, que sem saber, acabam conectadas por conta da máquina. Vale a pena entrar na série sem conhecimento prévio de alguns elementos porque ela traz revelações significativas, que ao contrário de outras produções do gênero, servem para construir um arco dramático mais importante que a própria ficção científica da cidade.



1o. episódio: LOOP (Ciclo)

Introduz o fantástico científico da série, mas é moroso e a solução não é boa, embora seja inicialmente instigante. Uma garotinha mora numa cidade pequena com sua mãe e tem grande curiosidade sobre o misterioso trabalho que ela realiza no subsolo de uma instalação conhecida como Loop. Sua mãe desaparece e com ela sua casa, a menina passa a procura-la e entra em contato com um garoto e uma família ligada ao Loop. No fim descobre ser ela mesma a mãe do garoto que ao resgatou quando a mãe deste se mostra sua versão adulta e a leva para conhecer o objeto no subterrâneo nomeado eclipse.


2o. Episódio: Transpor (Transpose)

Dois amigos de escola adolescente, opostos fisica e intelectualmente, encontram na flores uma estranha esfera. Ao entrar nela, o mais tímido tem seu corpo transportado para o do amigo. Ambos decidem trocar de papel durante um dia, mas o mais pobre e com notas ruins, decide permancer no corpo do outra, uma oportunidade para poder trabalhar no Loop e não no corte de árvores que era destinado. Desentendem-se, o mais tímido (um desenhista) vai a floresta sozinho e é encontrado muitos dias depois em coma a partir de aí. Mais tarde sabemos que sua mente passou para o corpo de um robô enquanto o amigo usurpador passa a ocupar seu lugar na outra família, eventualmente visitando sua irmã surda. Òtimo episódio, terrivelmente ético e cruel e que terá conclusão em episódios posteriores. 





3o episódio: Estase (Stasis)

Um dos melhores episódios. Ao se apaixonar, uma adolescente oriental tenta fazer o momento durar para sempre. Ela encontra um cilindro perdido num lago. Ela o conserta, rouba uma bateria e descobre, ao lado do namorado, (um rapaz deficiente físico, com deformação num dos pés que o faz coxo) que tal objeto serve para parar o tempo. Ficam vivendo por meses um mesmo dia, fazendo sexo (até na rua entre carros e gentes estáticas), roubando produtos de loja, fazendo jogos e se conhecendo profundamente. Até que ela descobre que a mãe tem um amante, desentendem-se ao descobrir que o aparelho não funciona mais e estão presos no mundo estático. Ambos brigam, ela o chama de aleijado, ele foge e a deixa sozinha (seu maior medo), por fim ela o encontra já sem a pulseira que o torna imune ao tempo estagnado. Ambos se separam quando o mundo volta a ordem, e num passeio com o pai, este lhe revela que as coisas são significativas justamente por não durarem. 

4o episódio: Esfera de eco (Eco Sphere)

Um velho leva seu neto até uma estrutura misteriosa conhecida como Esfera do Eco. Ao gritar ela replica as décadas que a pessoa terá pela frente. O neto viverá até os setenta, mas ao gritar, a esfera não mais replica o avô. Ele adoece para desespero do neto que tenta achar uma forma de mantê-lo vivo procurando o Loop. Ambos tem diálogos filosóficos sobre a morte, mas no final o avô morre. O episódio mais fraco da série. 

5o. No controle (Control)

Um de meia idade flagra um observador noturno da sua filha surta-muda à noite. Com problemas financeiros pesados, filho em coma, esposa insatisfeita, fiação elétrica sempre caindo e dívidas crescentes, ele faz um enorme esforço para manter sua família segura adquirindo (pedindo adiantamento ao patrão) um robo. Ele passa a ficar acordado a noite em vigília, assusta a vizinhança, quase mata a filhinha uma noite, no final vende o robo, a esposa que tinha partido volta para casa, e ele conserta a fiação da luz. O invasor é seu filho de corpo trocado.

6o. episódio: Paralelo (Parallel)

O vigilante negro da cabina do Loop encontra um trator abandonado próximo ao campo onde mora. Dentro encontra o retrato de um homem tocando piano. Fica apaixonado, chega a se masturbar vendo a foto. Manda consertar o trator e ao liga-lo é transformado para um mundo paralelo onde ele existe casado com o homem da foto. Ela é amparado pela sua versão no outro mundo, tenta retornar, não consegue e passa a viver na casa, e depois num galpão ao lado. Tornas-se amigo de si mesmo, mas como sempre sonhou em ter um marido, se envolve com o pianista/marceneiro. Acha que pode conquista-lo, escreve uma longa carta dizendo que o ama e que será melhor que a versão dele neste mundo. A versão futura vem conversar com ele, diz que leu tudo que fez e diz-lhe que o outro é infiel, que transa com outros mas logo perde o interesse. Ele decide partir e num bar encontra um ruivo que também é observador de pássaros, o mesmo que no seu mundo original tinha rechaçado por não acha-lo perfeito como os pássaros. Terminam juntos. Excelente episódio. 

7o. espisódio: Inimigos (Enemies)

Um garoto é instigado por dois amigos a irem numa ilha misteriosa onde dizem que habita um monstro. Apesar de ser alertado pelo pai de que não deveria ir à ilha, ele vai. Lá é abandonado peloa "amigos" e tem que passar uma noite inteira na chuva e no relento. Na ilha, há uma série de armadilhas e um monstro misterioso parece persegui-lo. Ele tem o braço ferido, a ferida infecciona, ele dorme sobre uma casca de árvore, é caçado pelo mostro mas o atinge com uma arma de choque fazendo seu braço cair. O monstro se revela ser um robô. Quase morto é resgatado pelos dois garotos, seu braço é substituido por uma prótese robótica. Seu pai pede que ele guarde o segredo sobre o robô da ilha, pois fora seu primeiro experimento e o mandara para ilha para não ser perseguido por outras pessoas. No final, já adulto ele volta a ilha, encontra o robô ainda existindo e lhe dá seu próprio braço biônico. (Bom episódio, mas um tanto inconsistente)

8o episódio: Casa (Home)

Um garoto está angustiado com a passagem do tempo, já que as coisas não perduram. Faz perguntas sobre o tempo para mãe, avó, pai. Recebe de uma professora um livro com cartão que fora lido também por seus pais e irmãos. Ele vai até o Loop visitar o irmão, mas esse confessa ser outro garoto ocupado o corpo deste. Ele então parte em busca do robô onde está a alma do irmão, encontra-o, mas tem que atravessar um rio congelado para encontrar a mãe que está na cidade. Na floresta um outro robô os ataca e o irmão luta, fica danificado e morre. Ele volta no rio, agora não mais congelado, e ao voltar para o Loop descobre que na verdade, embora seja um garotinho, passaram-se anos, a mãe está velha, a avó e o pai morreram. A mãe chama o "irmão postiço" para cuidar dele e no final, após usar maquina fotográfica ele já é um adulto diante da velha casa. sobe na torre e fotografa a paisagem. (Boa história, mas melancólica e insatisfatória como alegoria do tempo,, pois tudo soa injusto e negativo nesta trama). 

quinta-feira, maio 28, 2020

Sobre: William Bonner!

Bonner rompeu com o tecido democrático brasileiro. Ajudou a eleger um bandido, "herói do combate do crime organizado". Bonner mentiu. Bonner perseguiu os filhos de Lula, implacavelmente. Perseguiu Lula por helicóptero.Bonner chora hoje, mas já riu muito, até outro dia.

A satisfação de anunciar a vitória do fascismo, foi historicamente comparada à cara azeda de nó nas tripas, quando anunciou a vitória de Dilma.
Foi na emissora que Bonner trabalha, que o ódio aos nordestinos ganhou voz no Manhattan Connection. Queriam derrubar Dilma da bicicleta e contrataram Janaina.

Bonner anunciou cada "reforma" de Guedes, como se fosse um filho. Carona de pai orgulhoso do golpe que deu e que rouba até aposentadoria dos velhos. Esses que ele arma a sobrancelha para contar em "recordes" do covid.

A Globo se ancorou em Moro e foi perseguir Lula. Fez escândalo por pedalinhos, quando se descobriu que os Marinho "tinham" uma ilha e uma aeronave registradas numa empresa do Panamá.

Lula foi sentenciado por Bonner que, o tempo todo, como cidadão, sabia que o juiz era ladrão, cometia crime de segurança nacional e que o juiz vendia sentença pro Mercado.
Bonner é um pai de família que faz o que o Mercado manda e entendia bem o lado do juiz ladrão.

Bonner perguntou da onde vem o ódio. Da mídia, oras.
Bonner explica que ele é um "cidadão de bem" acima dos verde-amarelos que ele já chamou de "brasileiros".
Que os "cidadãos de bem" se resolvam. Essa história de "quem é mais brasileiro que quem", iria mesmo acabar na pistolagem.

Bonner, como Regina, tem medo de petistas.
Pra ele, pra cabecinha de menino dele, o Brasil se polarizou do nada. O ódio à política e a naturalização da violência, apareceu espontaneamente. Não teve "dannonimous", não teve "foraTodos" e não teve apoio milionário e cobertura, pra artificial aglomeração de perdidos da Copa, de verde-amarelo, gritando pela demolição da democracia brasileira.
O "povo Padrão FIFA" ameaça Bonner.

Os "cidadãos de bem" estão de mal.
Um oficial rouba os documentos do filho do Bonner, durante acidente em 2019.
Bonner sabe que tá falando com a milícia. Mas insiste em colocar no mesmo balaio, os brasileiros que ele e a emissora dele prejudicaram com o golpe e os pistoleiros que o ameaçam de morte.

Bonner trabalhou com eles, com Moro lá dentro, Regina, Alexandre Garcia, até mês passado. Bonner é pior ator que Jair. O ódio midiático contaminou a sociedade, Bonner jura que não é com ele. Ele colhe os frutos que plantou, com sua fala sonsa, sua sobrancelha cínica.

Bonner está gastando uma grana com justiça pra provar que o filho não é estelionatário. Bonner fez da vida familiar de Lula, um pesadelo. Sem um tostão roubado, Lula pagou 580 dias de liberdade. Pagou a morte da esposa Marisa, perdeu o enterro do irmão, foi tradado como bandido no enterro do neto.
As não-lágrimas de choro de Bonner não o vitimizaram. Tentaram, mais uma vez, criminalizar as vítimas de Bonner e da Rede Golpes.

Bonner que seja sincero com a turma do Jair. Parceiros desde a farsa da "fakada", Jair e seu bando estão sendo muito ingratos com a Globo.

Bonner queria o respeito que ele não dá ao Brasil, nem ao povo brasileiro. Depois de entregar o Brasil ao golpe, esperar a morte dos adversários políticos do patrão com ponto na orelha, ele gostaria que as vítimas dele o defendessem. Bonner escolheu o lado errado da História e a História é implacável com quem comete esse crime.

Bonner está prestes a encerrar sua carreira. Se prepara pro papel de vítima - "uma vítima da polarização.

Vamos ver se ele passa no teste do sofá do Jair!!


(Malu Aires)

Um poema de Suassuna, que esta em A pedra do reino


MAJESTOSO D. SEBASTIÃO

Nosso rei foi se perder nas terras do mal passar
Deitam sortes aventura quem o havia de ir buscar
O cavaleiro escolhido não se cansa de chorar
Vai andando, vai andando sem nunca desanimar

Até que encontrou um mouro num areial a velar
Por deus te peço bom mouro, me diga sem me enganar
Cavaleiro de armas brancas se o viste aqui passar

Este cavaleiro, amigo, diz-me tu, que sinal traz
Brancas eram suas armas, seu cavalo era tremedal
Na ponta de sua lança levava um branco sedal
Que ele bordou sua noiva, bordado a ponto real

Este cavaleiro amigo, morto está nesse pragal
Com as pernas dentro d’água e o corpo no areial
Sete feridas no peito, cada uma mais mortal

Por uma lhe entra o sol, pela outra o luar
Pela mais pequena delas, um gavião a voar
Mas é engano do mouro, nós vamos no aliar
O nosso rei encantou-se, nas terras do mal passar
E um dia, no seu cavalo, nosso rei há de voltar.

Contos Completos de Clarice Lispector



Embora ame Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres e A hora da estrela, nada mexe mais comigo e me encanta do que seus contos. Ler esses contos nos levam a tão alardeada epifania clariceana. Não há em Clarice uma palavra difícil, inacessível, mas sua sintaxe é desnorteadora, a força de sua poética que faz com que ao terminar de lê-la, assim como em Rosa, acessemos uma outra forma de ordenar nosso próprio pensamento. Começamos a escrever e a vibrar clariceanamente. Não é intimismo, não é psicologia da personagem, não é existencialismo, não é militante, não é feminismo, nem mistificação, ou surrealismo ou nonsense e é tudo isso. Ela é a Torá, o Pentateuco aclimatado ao Recife, ao Rio, aos trópicos, Kafka, Mansfield e Woolf, tudo fundando uma outra coisa. Essa outra coisa, absolutamente nossa é Clarice Lispector. 

Todos os contos, de Clarice Lispector


Embora ame Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres e A hora da estrela, nada mexe mais comigo e me encanta do que seus contos. Ler esses contos nos levam a tão alardeada epifania clariceana. Não há em Clarice uma palavra difícil, inacessível, mas sua sintaxe é desnorteadora, a força de sua poética que faz com que ao terminar de lê-la, assim como em Rosa, acessemos uma outra forma de ordenar nosso próprio pensamento. Começamos a escrever e a vibrar clariceanamente. Não é intimismo, não é psicologia da personagem, não é existencialismo, não é militante, não é feminismo, nem mistificação, ou surrealismo ou nonsense e é tudo isso. Ela é a Torá, o Pentateuco aclimatado ao Recife, ao Rio, aos trópicos, Kafka, Mansfield e Woolf, tudo fundando uma outra coisa. Essa outra coisa, absolutamente nossa é Clarice Lispector. 

quarta-feira, maio 27, 2020

Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa


O primeiro texto que li do Guimarães Rosa foi A terceira margem do rio, em forma de fragmento num livro didático da minha irmã. Tinha 16 anos. Esse livrinho de contos do Guimarães Rosa, que carinhosamente chamava de Amarelinho (por conta da cor da edição), eu só fui ler no segundo ano na Faculdade da Fundação Santo André e não achei a mínima graça. Só fiquei apaixonado pelo A terceira margem do rio, que finalmente eu li completo, embora o fim tenha aquela incompletude genial. A minha impressão era de uns contos folclóricos meio sem sal e que terminavam sempre em anticlímax. até uma aula iluminadora da professora Lurdinha Ruegger. Então, esse universo Guimarães Rosa se expandiu. Entrei intelectualmente em Rosa, depois virou paixão, crença, quase religião. Tanto que esta é a obra que estudei em minha tese onde o comparo com Estórias abensonhadas, de Mia Couto. E um tanto que pude dizer sobre essa obra estão nas 336 páginas de A reabilitação do sagrado: epifania e morte na obra de Guimarães Rosa e Mia Couto, minha tese. Esse livro é tudo e muito mais, amado e amorável. Durante anos de estudos, tive no IEB-USP acesso aos originais, aos cadernos de anotação de Rosa e rastreei todo o processo de construção. Ando pingando aqui e ali ensaios sobre os contos desta obra, e ainda hoje volta a reler pois está entre os livros da minha vida.