terça-feira, outubro 23, 2018

A pele do futuro, de Gal Costa (análise de Cleber Facchi)




“A Pele do Futuro”, Gal Costa
04/10/2018 Por: Cleber Facchi


O amor é o componente central de A Pele do Futuro (2018, Biscoito Fino). Do momento em que tem início, na nostálgica Sublime (“Insistir em nós seria um crime / O amor que a gente sente / O amor na vida da gente / Não pode ser menos do que sublime“), passando pela composição de faixas exageradamente românticas, caso de Palavras no Corpo (“Esquecer, amor / Poucos versos são precisos / Ninguém diz eu te amo“), uma confessa homenagem à Amy Winehouse, cada elemento do disco encontra na força dos sentimentos, desilusões e poemas apaixonados o principal componente criativo para dialogar com o ouvinte.

Sequência ao precioso Estratosférica (2015), obra em que decidiu revisitar o som produzido no início da carreira, A Pele do Futuro, trabalho conta com produção assinada pelo experiente Pupillo (Nação Zumbi) e direção artística de Marcus Preto, avança em relação ao tempo, lembrando os registros da cantora no final dos anos 1970 e início da década de 1980. Composições que transitam entre o samba, o jazz, o rock e o pop melancólico, proposta que muito se assemelha ao material entregue em obras como Água Viva (1978), Gal Tropical (1979) e Fantasia (1981).

“Vejo como um olhar para frente, mas também para trás, para tudo o que foi vivido”, disse em entrevista ao Estadão. De fato, tão logo tem início, cada elemento de A Pele do Futuro parece dançar pelo tempo, costurando ideias, referências e colaboradores vindos de diferentes épocas. Não por acaso, Gal decidiu reforçar o contato com parceiros de longa data, caso de Gilberto Gil (Vida Passageira), Guilherme Arantes (Puro Sangue) e Djavan (Dentro da Lei), porém, estreitando ainda mais a relação com jovens compositores da nossa música. Nomes como Tim Bernardes (Realmente Lindo) e Dani Black (Sublime), responsáveis por garantir novo fôlego ao material incorporado pela cantora.

Vem justamente desse claro desejo em explorar diferentes campos da música brasileira que Gal acabou encontrando uma das principais faixas do disco, Cuidando de Longe. Inusitada parceria com Marília Mendonça, a canção escolhida a dedo reflete com naturalidade a poesia romântica que rege o álbum. “Tô te cuidando de longe / Tô te amando do meu canto / Diga que está feliz / Que daqui eu vou me virando“, canta em um exercício de pura entrega do eu lírico. Surgem ainda criações como Abre-Alas do Verão, parceria entre Erasmo Carlos e Emicida, a já citada Palavras no Corpo, com letra de Omar Salomão e arranjos de Silva, além, claro, da amarga Livre de Amor, faixa em que a cantora abraça a poesia intimista de Adriana Calcanhotto.

Nada que se compare ao lirismo sensível que invade os versos de Minha Mãe. Produto da parceria entre Jorge Mautner e César Lacerda, a canção revela ao público o amor em seu estágio mais puro, regatando memórias afetivas, o peso da morte e os laços que conectam mãe e filho. Frações poéticas que transitam entre a dor e o acolhimento, consolidando de maneira sensível o esperado reencontro de Gal com a cantora Maria Bethânia, com quem divide a faixa até o último verso. “Quando eu fico muito triste / Eu pego a fotografia da minha mãe / E aperto bem forte no meu peito / Minhas mãos param de tremer / Segurando a fotografia / E meu coração bate mais forte“, cresce a letra da canção, sem pressa, costurando melodias tristes lançadas por uma sanfona econômica e percussão sempre diminuta.

Obra de emoções, escolhas inteligentes e sentimentos confessos, A Pele do Futuro perpetua a boa fase da artista baiana, ampliando parte do som jovial que vem sendo explorado desde o eletrônico Recanto (2011). Entre versos guiados pela forte universalidade dos temas, Gal e seus parceiros de banda se concentram em explorar todos os espectros da vida amorosa, mergulhando em instantes de pura libertação, incertezas da vida a dois ou mesmo versos consumidos pela dor, proposta que faz do presente álbum um novo e delicado capítulo na extensa discografia da cantora.

GENTE TROUXA, de Nuno Ramos

"Gente frouxa. Fazendo a conta das próprias culpas. Vocês vão deixar isso seguir, a câmera lenta do suplício, o passo a passo da catástrofe, até a coroação final desse palhaço?

Sua alma não está sendo vendida ao diabo, Fernando Henrique? Gozado, pois a minha está. E a daqueles que amo. Tenho medo por mim, e por eles. Precisamos de declarações bem claras de condenação à Venezuela antes de assinar manifestos democráticos, Samuel Pessôa, meu primo querido? --mas você ainda não entendeu que a Venezuela é aqui, agora?

Hélio Schwartsman, não há como garantir que o cara seja fascista e violento? Estatisticamente, você diz? Alguma experiência comportamentalista? Ou será o poder infinito da transcendência que se infiltrou em seu artigo?

Giannotti, o Brasil vai se civilizar com a chegada do "Brasil profundo" ao poder? Você diria o mesmo da Alemanha --que ela se civilizou (depois de assassinar alguns milhões) com a chegada da "Alemanha profunda", o nazismo?

E o glorioso Manual de Redação desta Folha, que proíbe chamá-lo de extrema direita? Seria o quê, então --média direita? Três quartos de direita? Haddad, tome para si o transe que o rodeia. O diabo está na rua, no meio do redemoinho, e não há tempo.

Você tinha três semanas, já perdeu duas. Sim, condene logo a Venezuela, como quer meu primo (ela merece); garanta que não se reelege de modo nenhum, e que na próxima eleição seu candidato é o Ciro Gomes (a ideia é do Marcos Nobre).

Faça o que tiver de fazer, inclusive romper com a Gleisi Hoffmann e com esse narcisismo autovitimizante do seu partido. Ah, e só pra lembrar: Lula de fato está preso (é bom lembrar a direita disso, também). O mundo vai acabar, jabutis.

Marina Silva demorou duas semanas para declarar seu voto! É incrível! Batemos palmas? Inauguramos uma estátua de bronze?

E Ciro, rodando a Europa? Estará magoado? Quem sabe um terapeuta? Uma xícara de chá, para iniciar a lenta dança de aproximação para as eleições de 2022, que provavelmente nunca chegarão?

Gente sem momento, sem desejo, sem energia. Narcisos pançudos coçando a própria imagem, dizendo "veja bem, veja bem". Não vejo bem, vejo mal para caramba, e o medo, o medo daquela ridícula Regina, me tomou.

Nós votamos em vocês. Durante décadas. Eleições majoritárias ninguém esquece. E vocês se empanturram nesse festim sinistro de hesitação, de tibieza, de continhas. O pânico que sinto não chega a vocês? Essa voz quebrada, esse tanto de gente chorando? Cadê? Sim, posso ouvir o argumento --o ódio aos políticos é que criou esse monstrinho.

Então sejam políticos e não covardes. Defendam os desprotegidos. Pois não é exagero --diante do que vem aí, desprotegidos somos todos, e mais ainda quem é pobre e preto e veado e lésbica e de sexo trocado. Juntem-se. Defendam em bloco, tirem a camisa, chamem para a rua, arrisquem. Criem. Gente frouxa."

O conto dos contos


Fui com Susana no lançamento da tradução para o português de Conto dos contos. Uma palestra no Instituto Italiano de Cultura. Comprei por 100 reais e aguardo a entrega. 

Elza - O musical






Assisti ontem, dia 21 de outubro, às 18h, com Cinha, Maristela e Mauro no SESC Pinheiros. Tão deslumbrante que faltam palavras.

quinta-feira, outubro 18, 2018

Nesta quarta

Hoje aulas especiais sobre Caetano Veloso para turma do Tatuapé. Almocei com Prof. Kleber de Geografia. Fui ao Vanin. À academia. Em casa resolvi questão da União Estável. 

quinta-feira, outubro 11, 2018

Tio tio tio






Então, serei tio
pela terceira vez.




.

Uma outra foto de Machado de Assis

Mundo Vittorino


Ontem fui às 8h na Fundação fazer a prova. Mauro me acompanhou. Depois fui para Mauá e tive a manhã na companhia do Vittorino. Soube que serei tio mais uma vez, o que me encheu de felicidade num dia muito agitado. A partir das 16h40 aulas com minhas turmas em Mauá até meu último horário. Cheguei em casa meio esgotado deste dia um tanto frenético. Mas foi bom estar com minha família no Zaíra. 


A estante, que é o mundo Vittorino. Faltou aqui sua casa de bonecas. 

Tio Mário


terça-feira, outubro 09, 2018

Teresa: original e paródia

O "ADEUS" DE TERESA
(Castro Alves)

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala...
E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...
E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"

Passaram tempos... sec'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...
E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"



TERESA
(Manuel Bandeira)

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

segunda-feira, outubro 08, 2018

O NAVIO NEGREIRO (Tragédia no Mar")

O Navio Negreiro (Tragédia no Mar)

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!…

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais … inda mais… não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral! … Que tétricas figuras! …
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!…

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
…Adeus, ó choça do monte,
…Adeus, palmeiras da fonte!…
…Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra não mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúm’lo de maldade,
Nem são livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
Ó mar, por que não apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!…

VI

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

(Escrito em São Paulo, em 18 de abril de 1869, com apenas 22 anos.)

sábado, outubro 06, 2018

Microconto

MICROCONTO




Era tão melosa
que matou o marido
diabético.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Da corrida

Semana corrida. Domingo virei a noite atualizando o Lattes (coisa que não faço desde 2012). Inscrição na segunda no concurso da FSA. Entrega dos comprovantes no ato da prova, as 8 da manha. 6 perguntas de literatura brasileira para serem respondidas em 4 horas. Tempo suficiente, pensei, sabendo a resposta de todas. Me perdi nas horas, e tive que responder com a mão tremula, três delas em meia hora. Saio de lá na companhia mágica da irmã, que acordou cedo e me levou para lá, cheia de afeto, sempre torcendo por mim. Tento reduzir suas expectativas. Almoçamos no Pinguin, aquele service perto da minha antiga casa. Ela me deixa na estação, poi tenho aulas em Mauá. Aproveito que cheguei cedo e vou ao shopping comprar duas calças jeans, camiseta preta e duas regatas. Mudo de roupa, start nas aulas nas quais conto as tragédias de Édipo em sequencia, e ensino sintaxe.

Terça de manhã acordo cedo, novas aulas e uma substituição até as 16h, no Tatuapé. Alunos ótimos. Falo do romance regionalista, do poder da arte, teço considerações sobre Os sertões, Augusto dos Anjos e sobre Pré-Modenismo, noutra sala. Leio Marcelino Freire dramaticamente. Me aplaudem, empolgados. Me perguntam sobre alienação. Almoço com Kleber, de Geografia. Chego em casa e desmaio no sofá ouvindo O quixote no celular. Faço comida e saio às pressas para malhar na academia. Recebo email de Cecile sobre a certidão para o casamento. Tudo que vou correndo acertar amanhã. Eleição durante a semana. Muitas aulas e resposta do resultado da prova, para apresentar aula (se aprovado) em breve. Cancelei terapia essa semana com Vanin. Converso com Susana, com Mauro por Whatts. 

Às vésperas das eleição, na semana da criança


Esta é minha foto aos 8 anos, uma das poucas que tenho. Fotos eram caras. Esta 3x4 (tirada para escola) publico porque é semana do dia das crianças e por que é, para mim, fundamental lembrar de como eu era e de como vivia.
Eu sou da periferia da periferia de uma cidade dormitório: o fundão do Jardim Zaíra, Mauá. É agora tempo de eleição. Nessa época estava a Ditadura Militar em seu esplendor. Cantávamos o Hino nacional, orávamos na sala, havia a disciplina de OSPB e Educação Moral e Cívica. Tudo uma mentira que não formou nem adultos melhores, nem políticos honestos, nem bons patriotas.
A merenda era uma m.: uma sopa ruim, rala, oleosa. Ovos cozidos eram às vezes entregues em sala de aula. Minha mãe sofria para comprar todo material escolar. Se não tivesse uniforme ou camiseta timbrada (e não tínhamos, numa casa com 8 irmãos) você era obrigado a voltar para casa.
Livros didáticos (quando não, cartilhas) tinham que ser compradas. Humilhações eram frequentes em sala de aula, muitas vezes, efetuada por professores, os mesmos que reprovavam autoritariamente alunos por um ou dois pontos, obrigando-os a repetir um ano inteiro por causa de uma disciplina cujo conteúdo eles jamais precisariam usar. Muitos eram expulsos por bobagem. As desistências eram imensas e frequentes. O bullying e a agressão, diárias. Ninguém se importava, nem os adultos, se os presenciassem.
O mundo parecia menos violento porque éramos crianças e a população era menor do que a atual. Também o espetáculo do crime e do banditismo não era explorado na tevê com a grande fúria de hoje, essa prática que amplia sua percepção, naturalizando a violência, tornando-a banal e, consequentemente, necessário o revide. Além disso, poucos tinham tevê. Mas basta assistir aos filmes PIXOTE, a lei do mais fraco ou Lúcio Flávio: passageiro da agonia para saber que já havia miséria, exploração de menores, crime desenfreado, sadismo da mídia, policiais corruptos.
Os militares NÃO resolveram a violência, NEM solucionaram os problemas do país, porque eles eram o "problema do país", por que eles eram os agentes da violência, até mesmo quando reativa.
Gays e travestis eram frequentemente xingados, surrados e mortos sem causar indignação. Ao contrário, execuções sumárias da Rota eram aplaudidas, bem como chacinas nas periferias. Negros eram humilhados à luz do dia, sem direito a retrucar. E empregadas domésticas eram ESCRAVAS, muitas "adotadas" desde crianças, jamais recebiam salário, envelheceram e morreram em quartinhos de fundo, sem janela, sem horizontes.
Dizer que os MILITARES farão uma limpeza e combaterão a corrupção é discurso de IDIOTAS, ou gente estúpida cega à realidade social e à História. Gente tola que confunde a NOSTALGIA DA INFÂNCIA (quando os pais pagavam as contas) com um tempo feliz, mais organizado e puro. Não era.
Ser pobre só era digno aos que se resignavam à exploração de seu trabalho, cantado como valor por aqueles que tinham os sapatos engraxados por crianças com flanela e escova. Curvados, humilhados, sem grandes perspectivas, sem acesso à escola, a uma improvável universidade. Só lhes restavam os sub empregos, ao risco do maquinário fabril, a quebrar pedra e encher lajes. Sem falar do trabalho escravo, da miséria desassistida e da seca nos sertões. Seu trabalho extenuante, visto como "valor moral", mas miseravelmente remunerado.
As pessoas pareciam menos idiotas, mas não eram; despolitizadas por anos elegeram MALUF, JÂNIO, COLLOR etc. Eu vivi a hiper inflação, a submissão do país ao FMI, o confisco da poupança, a remarcação diária de preços do SARNEY, o ABISMO e as taxas da Privataria dos anos FHC.
Quando ouço gente falando que o PT destruiu o Brasil, eu me pergunto onde essas pessoas estavam antes? Se são cegos, mentirosos ou só hipócritas. O Brasil viveu seus MELHORES anos nos governos da esquerda, e só cai no discurso mentiroso da tevê e dos jornais (comandados por empresários sujos, banqueiros, políticos, pastores) quem se permite enganar pela deformação da notícia, transformada em melodrama diário para fazer emocionar. Tudo visto na mesma tevê subsidiada com a linha branca nas políticas possibilitadas pelo PT.
Faltou no período da "ostentação favelada e do camaro amarelo" dizer para população não cair na ilusão de país "do futuro", como se nossas mazelas tivessem sido superadas, e tudo seria um passeio rumo ao futuro. Fizeram do Lula o vilão ideal, e puseram no lugar o "patrão" o "empresário não político" que vai gerir o país como uma empresa, onde o lucro será maximizado para o bem "do povo". Mas qualquer que tenha tido um patrão sabe que ele visa a seu próprio benefício e sem lei/garantias o que faz é expoliar ao máximo o trabalho do outro.
País é uma construção diária, que exige também posicionamento e voto consciente.
O que me espanta hoje é que quem já tentou pôr no poder o traficante AÉCIO (porque odiava o PT), chamou CUNHA de herói, assistiu a MORO destruir a construção civil e paralisar o país em nome do combate à CORRUPÇÃO, diz que vai votar num fanfarrão, - no mesmo baixo discurso de honestidade, família e pátria do COLLOR (avisei também sobre esse). Tudo na ILUSÃO de que o ex-militar parasitário vai MUDAR um Brasil que só assistiu a melhoras significativas durante os mandatos da esquerda em que nenhum direito foi perdido, e novos foram adquiridos.
O menino da foto está em mim, mas nada tem de ingênuo: não se ilude, não fez o apagamento da memória, tampouco adquiriu o dom da cegueira para realidade social somente por ter mudado para uma condição de vida um pouco melhor. Ele, que sou eu, não se reconhece nem como classe média, nem como elite. Tudo pode piorar. E eu torço ainda por um futuro melhor para a criança da foto, atônita ante o flash. E o melhor que posso fazer no momento, é não me deixar enganar e/ou calar.




Hamlet, de Shakespeare, no CCSP com a galera.





Comprei quase com um mês de antecedência e fui assistir com Ana, Tininha, Mauro, Solange e Airton, à Hamlet, de Shakespeare. Dia 30.09.18, às 20h. O teatro sob o Centro Cultural São Paulo é pequeno, mas agradável. As poltronas tem um designer interessante. O som estava alto demais, contudo, servia para encobrir o som do metrô que passa em ciclos, não sei a quantos metros, logo abaixo do teatro.

A montagem nada convencional, com cenografia sofisticada, projeções de vídeo, audio ampliado, elenco enxuto, texto remodelado para linguagem do presente. O protagonista vivido por uma mulher cinquentona. Ou seja, uma montagem contemporânea, nem de longe clássica, nada cerimoniosa em relação à fidelidade do "monumento" que é Hamlet, do fantasma que é "Shakespeare". Saí muito feliz de tudo que vi, pois já li a peça original, adaptada em conto, em quadrinho, já assisti no teatro, já via adaptação inglesa, americana, pop etc etc. Vou no teatro para ser surpreendido, para ser chacoalhado, para ver uma peça que já vi em outra perspectiva, com novos experimentos, que me instigue e a atualize. Eles enxugaram o texto com sagacidade, concentrando em elementos de força que há no texto: a aparicão do pai, a simulação de loucura, a caveira de Yorick, o "ser ou não ser", o afogamento de Ofélia, a luta de espadas mortal. Palavras, palavras, palavras. O texto tirado do gesso retórico, parnasiano, mas até um tanto descuidado, com exceção da protagonistx, com dicção perfeita, fazendo soar tudo profundo. Gostei demais. Uma montagem que se arrisca é sempre uma grande experiência.

Nem todo mundo gostou.