domingo, novembro 19, 2017

Prefácio de Guimarães Rosa para o livro Antologia do conto húngaro, de Paulo Róna



“Disse já que o húngaro, por seu rico registro de vogais - que a caracterizam imediatamente - e da prevalência das claras sobre as surdas, dá-se como uma das línguas mais sonoras, musicais, em seu vozeio. Sonorosa, se bem que de ritmo fundamental muito enérgico, nela as seqüências de inflexões naturalmente modulam e fácil melodiam. De si concretizante, figurativa, imagista, encerra copiosa quantidade de onomatopéias. Sua gramática, parca, põe garra mais curta que a da emoção. Suas palavras nem sempre se fecham na racional fixidez conceitual explícita, na rigidez denotativa, antes guardam sob o significado uma ativa carga potencial, rudimentar, com o que, nos diversos momentos, inteiram-se mais variadamente de sentido, e, segundo as soluções rítmicas, se reembebem de um halo vivaz. Será, se dizer posso, uma língua menos ‘da lei’ que ‘da graça’; uma língua para homens muito objetivos, ou para poetas. Nem não é tudo. Também, e o quanto ninguém imagina, é uma língua in opere, fabulosamente em movimento, fabril, incoagulável, velozmente evolutiva, toda possibilidades, como se estivesse sempre em estado nascente, apta avante, revoltosa. Sem desfigurar-se, como um prestante e moderno mecanismo, todo tratável, ela aceita quaisquer aperfeiçoamentos estruturais e instrumentais, que, nas exaltadas arremetidas criadoras de uma experimentação contínua, os escritores lhe infligem, segundo as mais sutis ou volumosas intenções. Suas partes obedecem à arte. Deste ponto-de-vista, nenhuma outra haverá tão plástica e colaborante, sem inércia. Por sua própria natureza original, permite todas as caprichosas e ousadas manipulações da gênese inventiva individual. Praticamente ilimitada é a criação de neologismos, o verbum confingere. O intercambiar dos sufixos e das partículas verbais é universal: os radicais aí estão, à espera de um qualquer afixo, como os forames de um painel de mesa-telefônica, para os engates ad libitum. Possível, mesmo, é a engendra de sufixos novos, partindo de terminações singulares ou peregrinas de vocábulos. Vale é o valível. Imissões adúlteras não são ilegítimas. A seiva arcaica se redestila. Absorvem-se os ruralismos. Recapturam-se as esquivas florações da gíria. Entre si, as palavras armam um fecundo comércio. Molgável, moldável, digerente assim - e não me refiro em espécie só à língua literária - ,ela mesma se ultrapassa; como a arte deve ser, como é o espírito humano: faz e refaz suas formas. Sem cessar, dia a dia, cedendo à constante pressão da vida e da cultura, vai se desenrolando, se destorce, se enforja e forja, maleia-se, faz mó do monótono, vira dinâmica, vira agente, foge à esclerose torpe dos lugares comuns, escapa à viscosidade, à sonolência, à indigência; não se estatela. Seus escritores não deixam. Os felizes escritores húngaros usam e mais usam da tratabilidade daquele esquematismo opulento, de um aparelho de tanta liberdade. E não o praticam apenas nos casos de necessidade elementar, conforme o ‘Sunt novis rebus nova ponenda nomina’ ciceroniano. Nesse contínuo operatório, querem não menos as operações estéticas fantasistas. O que eles buscam, às inspirações, toda-a-vida, é a máxima expressividade, a mais ponta para penetrar a matéria; o jogo eficaz. São todos individualistas. Desde que o entenda, cada um pode e deseja criar sua ‘língua’ própria, seu vocabulário e sintaxe, seu ser escrito. Mais do que isso: cada escritor húngaro, na prática, quase que não pode deixar de ter essa língua própria, pessoal. O alcance disso é mágico. Com isso, está o espírito geral da gente, que ele invoca. E essa é tendência que não arrefece. Cada jornal, em Budapeste, é escrito em seu dialeto ‘da casa’, às vezes fora da linguagem culta corrente - diz Laczkó Géza; e ajunta: ‘Na vida de sociedade húngara não basta ter-se espírito; mas a forma lingüística do dito espirituoso tem também de ser espirituosa’. Será que - como se fosse ainda o guerreiro em movimento ou solitário pastor, nas estepes antigas do Pamir ou, depois, onde volga o Volga e dona o Don - em o versar de seu idioma o magiar ficou sempre nômade.”

Guima ainda dá uns exemplos de flexões com palavras húngaras, como o que se segue. Sente o drama:
megengedhetetlen: inadmissível. (minha palavra favorita em húngaro)

megengedhetetlenebb: mais inadmissível.
legmegengedhetetlenebb: o mais inadmissível.
legeslegmegengedhetetlenebb: o mais inadmissível de todos.
legeslegmegengedhetetlenebbekkel: com os mais inadmissíveis de todos.
E, finalmente, minha citação favorita dele em referência ao húngaro:

“(...) contam que Carlos V, que desde muito menino teve de estudar uma porção de idiomas, por quantas terras e povos em que reinar, costumava dizer que: o espanhol era para se falar com os reis, o italiano com a mulher amada, o francês com o amigo, o holandês com os serviçais, o alemão com os soldados, o latim com Deus, o húngaro... com o diabo.”

Nisso, ele parece concordar com o Chico Buarque. É um negócio de diabo pra cá, diabo pra lá, cheiro de enxofre nos banhos turcos que eu já to ficando com medo...

Soneto 116, de William Shakespeare

Soneto 116, de William Shakespeare

Não tenha eu restrições ao casamento
De almas sinceras, pois não é amor
O amor que muda ao sabor do momento,
Ou se move e remove em desamor.

Oh, não, o amor é marca mais constante
Que enfrenta a tempestade e não balança,
É a estrela-guia dos batéis errantes,
Cujo valor lá no alto não se alcança.

O amor não é o bufão do Tempo, embora
Sua foice vá ceifando a face a fundo.
O amor não muda com o passar das horas,
Mas se sustenta até o final do mundo.

___Se é engano meu, e assim provado for,
___Nunca escrevi, ninguém jamais amou.


tradução de Geraldo Carneiro

Carmina Burana, de Carl Orff



Assisti com Mauro, ontem, as 21h. 18.11.17. Teatro Bradesco.

A Orquestra Acadêmica de São Paulo e o Coral da Cidade de São Paulo, sob regência de Luciano Camargo, apresentam o Carmina Burana, a célebre cantata profana de Carl Orff. Os concertos serão nos dias 18 de novembro às 21:00, 19 e 20 de novembro às 19:00, no Teatro Bradesco (São Paulo). Os solistas são Sebastião Teixeira (barítono), Viktoria Zadvorna (soprano) e Helder Savir (contratenor). No programa ainda será apresentada a Abertura “Édipo Rei”, de autoria do regente Luciano Camargo. A orquestra e o coral são grupos independentes ligados à Associação Coral da Cidade de São Paulo, entidade não-governamental sem fins lucrativos dedicada à difusão e ensino de música erudita na cidade de São Paulo.

Carl Orff
Carmina Burana

Big Little Lies, série da HBO




Gosto de séries com começo meio e fim. Big Little Lies é assim. 

Uma série cheia de Stars. Um filme de mulheres. Sobre a relação agressiva sobre a competividade entre mulheres. Mas também um filme sobre violência doméstica e abuso de homens contra mulheres. Sobre o vazio existencial de uma camada muito rica, fútil e que dá relevância demais à bobagens. Um filme sobre o modo como a interação social está revestida de hipocrisia, de falsa civilidade. 

Sinais de alerta de Fascismo, segundo Umberto Eco.


Spielberg, direto do coração - documentário HBO


Assisti em casa, por indicação do Marcos Paranex. Assisti com Airton. Spielberg é sentimental, as vezes prega, mas é engenhoso, tem um domínio absoluto da arte do cinema de prender, encantar, emocionar. Muitos filmes ele erra feio a mão, e faz finais bregas de tão melodramáticos, mas nada tira o fato de ele ter no currículo mais acertos do que erro. Criou filmes memoráveis, tanto que não careço citar nenhum deles. Foi o primeiro diretor de cinema a ter "nome" para mim. Ele pontuou minha infância e adolescência com filmes que foram da sessão da tarde, à locadora, ao cinema de rua e de shopping. Rei absoluto do cinema de entretenimento - e de encantamento. Tenho amor absoluto por ele. E assistir esse documentário que é muito pouco criativo, um documentário de depoimentos, de pontuações de alguns de seus caracteres como diretor, além da vida pessoal e toda sua trajetória, me fez desejar revisitar toda sua cinematografia. Ver tudo. Entender mais, me reencantar. Um gênio muito humano. 

Liga da Justiça - parte Um



Fui assistir com o Mauro, na Paulista, sexta, à noite. Liga da Justiça, parte 1.

Não consigo descrever o enredo do filme. Muito efeito de computação gráfica, algumas gracinhas. Erotização a toda do corpo masculino. Mulher maravilha arrasa, mas como memória do filme próprio e carisma de Gal. Um filme genérico.



DO FILME DE JOÃO SALLES, o conhecimento destes SLOGANS

Uma das principais marcas dos protestos de estudantes e operários na França, em 1968, foram os slogans escritos nos muros e cartazes espalhados por Paris, das faculdades de Sorbonne, Nanterre e Belas Artes aos arredores do Teatro Odéon e dos Boulevards Saint-Michel e Saint-Germain.

Irreverentes e provocadoras, de forte teor surrealista, as mensagens eram dirigidas não só ao poder, aos patrões e à polícia -mas também aos próprios estudantes e às instituições da esquerda tradicional. Confira abaixo 68 desses slogans*: 

"Abaixo a sociedade de consumo." 
"Abaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo." 
"A ação não deve ser uma reação, mas uma criação." 
"O agressor não é aquele que se revolta, mas aquele que reprime." 
"Amem-se uns aos outros." 
"O álcool mata. Tomem LSD." 
"A anarquia sou eu." 
"As armas da crítica passam pela crítica das armas." 
"Parem o mundo, eu quero descer." 
"A arte está morta. Nem Godard poderá impedir." 
"A arte está morta, liberemos nossa vida cotidiana." 
"Antes de escrever, aprenda a pensar." 
"A barricada fecha a rua, mas abre a via." 
"Ceder um pouco é capitular muito." 
"Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vocês." 
"A cultura é a inversão da vida." 
"10 horas de prazer já." 
"Proibido não colar cartazes." 
"Abaixo do calçamento, está a praia." 
"A economia está ferida, pois que morra!" 
"A emancipação do homem será total ou não será." 
"O estado é cada um de nós." 
“A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista.” 
"A imaginação toma o poder." 
"A insolência é a nova arma revolucionária." 
"É proibido proibir." 
"Eu tinha alguma coisa a dizer, mas não sei mais o quê." 
"Eu gozo." 
"Eu participo. Tu participas. Ele participa. Nós participamos. Vós participais. Eles lucram." 
"Os jovens fazem amor, os velhos fazem gestos obscenos." 
"A liberdade do outro estende a minha ao infinito." 
"A mercadoria é o ópio do povo." 
"As paredes têm ouvidos. Seus ouvidos têm paredes." 
"Não mudem de empregadores, mudem o emprego da vida." 
"Nós somos todos judeus alemães." 
"A novidade é revolucionária, a verdade, também." 
"Fim da liberdade aos inimigos da liberdade." 
"O patrão precisa de ti, tu não precisas do patrão." 
"Professores, vocês nos fazem envelhecer." 
"Quanto mais eu faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução. Quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor." 
"A poesia está na rua." 
"A política se dá na rua." 
"Os sindicatos são uns bordéis." 
"O sonho é realidade." 
"Só a verdade é revolucionária." 
"Sejam realistas, exijam o impossível." 
"Tudo é Dadá." 
"Trabalhador: você tem 25 anos, mas seu sindicato é de outro século." 
"Abolição da sociedade de classes." 
"Abram as janelas do seu coração." 
"A arte está morta, não consumamos o seu cadáver. " 
"Não nos prendamos ao espetáculo da contestação, mas passemos à contestação do espetáculo. " 
"Autogestão da vida cotidiana" 
"A felicidade é uma ideia nova." 
"Teremos um bom mestre desde que cada um seja o seu." 
"Camaradas, o amor também se faz na Faculdade de Ciências." 
"Ainda não acabou!" 
"Consuma mais, viva menos." 
"O discurso é contra-revolucionário. " 
"Escrevam por toda a parte!" 
"Abraça o teu amor sem largar a tua arma." 
"Enraiveçam-se!" 
"Ser rico é se contentar com a pobreza?" 
"Um homem não é estupido ou inteligente: ele é livre ou não é." 
"Adoro escrever nas paredes." 
"Decretado o estado de felicidade permanente." 
"Milionários de todos os países, unam-se, o vento está mudando." 
"Não tomem o elevador, tomem o poder." 

Euforia e desencanto "No intenso agora" de João Moreira Salles


“A felicidade é uma espécie de competência; 
você tem, mas não há garantia de que irá mantê-la”
João Moreira Salles



Fui ao cinema Itaú Cultural, da Augusta, acrescentar uns vinténs na conta do João Moreira Salles, cujo patrimônio é avaliado em 3 bilhões UDS.  O novo documentário de João tem o título sofisticado de "No intenso agora". É um documentário feito de colagem de arquivos amadores, e históricos, todos referentes à década de 60. O filme começa pelos vídeos "caseiros" de sua mãe, em viagem à China com grupo de amigos e empresários para investigar/documentar acervo artístico da terra de Mao Tsé Tung, em plena Revolução Cultural, tudo financiado por uma revista francesa. Ricos tem contatos, riqueza gera riqueza.

As imagens são acompanhadas de um off na voz do próprio diretor, que descreve o contexto, analisa as imagens, tece digressões pessoais e afetivas sobre a mãe, a família, sobre si, o tempo histórico; mas principalmente sobre a natureza das imagens, tudo tangenciando o tema da "felicidade" (momento singular de grande deslumbramento). 

O filme é belo,  mas evita o melodrama. João, diferente do irmão Walter, em seu cinema (e na vista, a se julgar por suas entrevistas), prefere os vácuos, os silêncios, a incompletude da palavra final, menos incisiva, gosta de frases curtas, lapidares, de efeito delicados, como o título do próprio filme. Neste, aliás, dá grande atenção às mensagens pixadas nos muros de París por "estudantes", no auge do Maio de 64. Diferente da "autoflagelação" do senhor da grana que executara em Santiago, belo documentario em p&b que fez sobre o mordomo argentino que serviu a família Salles por anos) (na verdade um filme sobre a relação de poder patrão e empregado, a mesma que estabelecia ao estabelecia ao filmá-lo), "No intenso agora" também tergiversa sobre relações de riqueza/privilégio e poder, mas se desvia para uma análise "ontológica/filosófica" da História e da memória. 

A colagem dos filmes da época é informativa/ilustrativa, mas peca na montagem ritmica que termina por fazer o filme se arrastar em silêncios não tão significativos assim. E há melancolia, desencanto, ironia também, pois como as imagens, nada nunca é o que parece ser. Os slogans dos muros são "produto de publicitários", Daniel Cohn-Bendit (um dos expoentes do maio de 68 na França, se é que se pode falar de lideranças) um babaca inconsciente / inconsequente / alienado que se vende barato à uma revista para fazer uma viagem à Alemanha; a cantora tcheca de revolucionária termina um criatura patética; mortos são usados nas marchas, muito ideologicamente, tanto para excitar como aplacar a fúria das massas. Nada resulta em nada no final, as paixões e sentimentos transformados numa desilusão.

O foco é 1968, e são exibidas imagens de enterros em Praga, Paris e Rio de Janeiro, mas o filme dialoga com as manifestações de rua de 2013, de quando Salles começou a montar o filme. E disserta sobre a ideia de utopia e uso ideológico das imagens para controle do Estado e manutenção do poder. Tem aquela desesperança típica dos Salles, para os quais a grana/o capital sempre assume a pauta e direção de tudo, subvertendo ideiais, e fazendo "ingênua" a causa, os movimentos. 

As imagens de - Elisa Margarida Gonçalves - que ele chama de Mamãe, flagram seu "encantamento" e alegria na viagem a Grande Muralha e nos povoados de crianças, tudo mais que distante da riqueza de esposa de banqueiro, com mansão em Paris, tão fina e elegante quanto alienada em relação ao que se passava de fato tanto na China quanto nas ruas de Paris. Ele diz, "nem sempre a gente sabe o que está filmando", e a mãe comprova no seu deleite contemplativo a grande inconsciência de classe, distanciada do mundo. Ela se suicidará no fim da vida, mas isso "nunca" será dito, é o grande tabu dos Salles. Dinheiro não traz felicidade, mas produz filmes, revistas, institutos onde expiar a culpa de esfolar milhões de correntistas brasileiros pobres com as mais altas taxas de juros do mundo e de sempre conseguir isenções para dívidas astronômicas, não importa qual governo nos governe. Sim, a revolução é uma utopia, sempre o será, já que o capital, - e os bancos: seus representantes máximos, - estarão aí para controlar o mundo, e seus filhos, para produzir imagens de como entender essa realidade que eles ajudam, com poesia e entendimento, a forjar no Brasil, na China, em Praga, ou em Paris. 



[O filme tem como ponto de partida imagens de manifestações políticas dos anos 1960, incluindo a Revolução Cultural Chinesa, os levantes estudantis em Paris e a Primavera de Praga, tecendo uma análise que inclui, entre outros temas, o significado que essas referências visuais ganham.
Direção: João Moreira Salles. País de Produção: Brasil - 127 minutos]


Leia mais: https://oglobo.globo.com/rioshow/critica-no-intenso-agora-22041065#ixzz4ytut9WL7
stest

Pedrão, 2017


Quando eu fico triste, eu penso no Pedrão, então até isso parece menos importante.

sexta-feira, novembro 17, 2017

Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas



[Quando assisti, há anos, a este filme de Walter Salles e Daniela Thomas, fiquei profundamente irritado com a representação da periferia de São Paulo. Hoje, caí nesta pequena crítica sobre o filme, e me parece extremamente precisa, não resisti e colo aqui.]




Fabio Diaz Camarneiro

Linha de Passe está permeado pela idéia da maternidade. O cenário é uma São Paulo um tanto inóspita: o único espaço público de convivência é o estádio de futebol. O resto, um mar de concreto de onde o ônibus de Reginaldo parte sem destino, fugindo talvez em busca desse Brasil que ainda não nasceu. A barriga de gestante de Sandra Corveloni concentra a espera pelo que ainda não veio, pelo que ninguém sabe o que será. Essa espera, e a incerteza, são os problemas dos personagens: o filho que não nasceu, a espera pelo salário no fim do mês, a incerteza se o emprego vai durar até a semana seguinte... As formas circulares dominam o filme: a barriga da mãe, a bola de futebol, a roda da motocicleta, o volante do ônibus. Símbolos de caminhos que parecem não sair do lugar, mas que tentam escapar de seus destinos. Espécie de obsessão do cinema de Walter Salles, a procura do pai está lá. Como em Central do Brasil, há uma cena em que personagens “anônimos” dizem nome e sobrenome em voz alta (os remetentes das cartas em Central do Brasil, os candidatos à peneira de futebol em Linha de Passe). A importância do nome próprio tem paralelo com o batismo dos crentes: a esperança de que, encontrando-se um nome (e encontrando-se um pai), as dúvidas sobre o futuro desaparecerão e aquilo que está esperando para nascer poderá, finalmente, vir à luz.

sábado, novembro 11, 2017

Relatório do cidadão Eduardo


Hoje, sai para pagar as contas, todas as contas. Tomei café com o David e pessoal da imobiliária. Irmã baixou aqui de visita. Fiz compras no mercado, coca, frios. Pão quente para todos, para as visitas. Airton passou aqui, com roupas para bater na máquina. Big segue tendo que ser paparicado para comer. Assisto Stranger Things. Reouço aquele primeiro dvd de Maria Rita e canto junto. Anteontem limpeza geral da casa. Mauro. Tudo bem e tudo em ordem. Baixo milhoes de ebooks em formato .epub, .mobi e .pdf. Converto. Mensagens por whattsapp. Notícias trágicas na política, de afundamento pleno do país. Faço militância pró-esquerda até em caixa de supermercado. Cozinho para mim. Como demais. Depois reclamo. Dente dói, tomo antiflamatório e dipirona. Empurrar com a super barriga até quando? Dois cursos para faculdade de Direito aceitos para janeiro. Cursos no Maximize, no fim. Comprei livro de Jogo dos sete erros e dos Labirintos para meu pequeno sobrinho Vittorino. Baixei jogo sensacional, Cuphead e instalei, para jogar com Pedrerico. Converso com Lucas (tristonho) no Whatts. Leio Clarice Lispector, Alice Munro, Machado de Assis. Fui entrevistado pela Record para falar da redação do vestibular. Apaixonado por todos meus alunos. Gabriel vai bem, e sumiu de casa. Solange em viagem, fico com o dever de aguar as plantas. Converço com amigo, colegas de trabalhos, confraternizo e faço planos para o novo ano. O dente dói vezenquando. E abandonei a academia, que se vinga, cobrando em dobro as mensalidades. 

Gosto do silêncio da noite. Sentar e escrever. Escrever é pensar. Escrever é botar ordem, encontrar caminhos. O que um dia foi desenhar. Memórias diárias da mãe. Alguns pesadelos. As unhas roídas como sintoma de ansiedade. Recuso todos os conselhos. Minha irmã leva meu nome para benzer. Trocar fraldas, tosar o cão, limpar banheiro e fazer comprar. O banal da vida recobrindo grandes esperanças. Ao mesmo tempo, o clarão da militância, o aspiração/dever de mudar o pequeno círculo onde existo e exerço algum traço de liberdade. Quero fazer vídeos (já em processo de elaboração) e quero escrever livro didático de redação, além de curso para elaboração de tcc. O Natal chegou. Nada que devia ter resolvido o foi. Mas sigo vivo, e já pensando de mudar deste apartamento que amo, para outro que amarei mais ainda. 

Estranhos e belos


Stranger things I e II


Quando estreou na Netflix esta série Stranger Things, confesso que assisti superficialmente, de modo muito desatento, saltando partes, "gostando", mas achando que nada trazia de novo. Identifiquei de imediato a nostalgia - a cara desta nossa década - em que, sem ser remake dos 80/90, trazia uma colagem de todos os filmes de Steven Spielberg e tramas de Stephen King. Tudo se mostrava tão familiar que não podia ser rejeitado por corações que viveram essas décadas e se apaixonaram por essas tramas cheias de suspense, fantasia sci-fiction e trama edificante que os filmes famílias propagavam nos tempos de então. O inimigo vinha de fora, invadia as pequenas cidades do interior, seus subúrbios, onde garotos digeriam vigorosamente uma cultura pop, deslizavam em magrelas e sofriam bullying dentro e fora da escola. Os adultos, pais displicentes, rigorosos, obtusos, autoritários (ou, em extremos: abusivos) eram tão vilões quanto os monstros alienígenas e agentes do governo. 


Tendo algum tempo, sentei e revi, episódio a episódio, para me deliciar com o carismas dos garotos apaixonados por RPG (do Dangeons Dragons), rock e cinema blockbuster. Fiquei instigado em entender como a série ressuscitava Winona Ryder, uma Star dos 80/90 e símbolo do próprio estilo de filmes de que Stranger Things é tributária. O filme "Super 8", de 2011, dirigido por J.J.Abrams (e produzido por Spielberg) já tratava de resgatar e reabilitar esta nostalgia, que Stranger Things trouxe sem pudor, em todo sua essencialidade para o tempo presente. Não só a época que se passa a trama é nos 80, mas os filtros e o estilo de filmagem emula todos os trejeitos/estratégias e ritmos tomados de Spielberg, Rob Reiner, Richard Donner, Chris Columbus, John Carpenter, Bryan Depalma e Tom Holland. 


Tudo competente, com personagens carismáticos (meninos feios), mães histéricas, namoradinhas recalcitantes e valentões covardes. O clima de conspiração, as florestas escuras e plantações interioranas invadidas por alienígenas e manifestações paranormais envolvendo crianças e aparelhos eletrônicos que permitem a comunicação em universos paralelos: puros 80.

Teminada a primeira temporada, certametne a questão essa, para onde ir. Resolveram então em apostar em mais do mesmo. E deu super certo.
 

Estou assistindo no momento a segunda temporada e, desde já, acho-a mais instigante, sofisticada e elaborada em peripécias e viradas, com belos achados que leva o espectador a um pleno engajamento emocional. As crianças começaram a crescer, e a trama ocupa mais espaço, com mais ação para o núcleo adolescente. 


Mas em termos de atuação, eu estou 100% vidrado na performance de Noah Schnapp, o garotinho raptado pelo Demogorgon e que tinha pouco tempo para brilhar. A atuação dele é tocante, emocional, aterrorizante, é espetacular. Faz Millie Bobby Brown (Eight) parecer apenas competente. Gaten Matarazzo (Dustin) ganhou dentes, mas segue sendo carismático até doer. Caleb MacLaughlin (Lucas), o mais irritante do grupo. Winona Ryder, transubstanciada, apaga qualquer traço de WR em Joyce, ela é aquela mãe maluca e histérica. Sean Austin entra na trama como Bob, namorado de Joyce, para lhe dar alguma alegria depois da primeira temporada, e para ser um contraponto feliz para sua família disfuncional.  Chefe Hopper se tornou um personagem ambíguo, misterioso, neurótico. Nancy, Jonathan e Steve seguem num triângulo fofo delicioso. Finn Wolfhard (Mike) perde em protagonismo, mas abunda em melancolia. Tudo funcionando que é uma beleza. 


A segunda temporada aprofunda em tensão, acrescentando mais horror à trama. Stranger Things está irresistível.