sexta-feira, outubro 13, 2017

Blade Runner 2040, de Denis Villeneuve


Como fazer a continuação de um clássico insuperável numa época de cinema pipoca e telespectadores preguiçosos para filmes que se recusem a ser frenéticos e banais. Aqui, o universo de Philip K. Dick grita em cada frame. As ambiguidades, os paradoxos, o futuro as questões filosóficas sobre o homem e o sentido da vida, a memória (e a história, que nos faz humanos) os limites da criação. 







Pilip K. Dick's Electric Dreams - a série




Ninguém pensou o futuro como Philip K. Dick. Como Stephen King, ele está na moda, com a continuação de Blade Runner, a série O homem do castelo alto. Agora, ele virou uma série entitulada Electric Dreams, contos adaptados com histórias com começo, meio e fim num mundo distópico. Instigante. 



quinta-feira, outubro 12, 2017

Nova direita conservadora não é burra: ela ataca o legado iluminista e o cerne da modernidade

Em um artigo importante para entender a atual investida da extrema-direita neoconvervadora, a cientista social, antropóloga e professora do departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford, Rosana Pinheiro-Machado (foto), defende que a inteligência e a artimanha da direita está sendo construída para redefinir a verdade histórica do processo civilizatório desde o iluminismo.

Para ela, é um erro achar que os neoconservadores que pedem “escola sem partido”, atacam obras de arte e outras agressões que beira à estupidez, sejam burros. “Os novos movimentos conservadores, com formação liberal, sabem muito bem que não havia nada de pedofilia nas exposições”, diz. Eles agem para destruir a democracia, para transformar a construção histórica e civilizatória. O artigo é longo, mas vale cada parágrafo.

A nova direita conservadora não despreza o conhecimento

.Por Rosana Pinheiro-Machado.

Os acontecimentos recentes nos museus de Porto Alegre e São Paulo mostraram como foi possível reduzir complexas formas de expressão a rótulos como o de pedofilia. Resta-nos a sensação de que estamos de um cenário empobrecedor e autoritário que comprime diversas camadas de significados em uma resolução encerrada aos gritos.

O populismo da nova direita conservadora se caracteriza pela privação de debates e promessas de soluções fáceis para problemas complexos. Tudo indicaria, portanto, que ela é contra o conhecimento, as artes e a ciência.

Mas não é: a nova direita não é anti-intelectual, mas anti-elite intelectual.

Para além do que aparece na superfície, os neoconservadores possuem um projeto intelectual claro que, por um lado, persegue um tipo de conhecimento e, por outro, procura redefinir uma nova direção para a sociedade global.

Em ambos os casos, o que está em jogo é a produção e a disputa de novos regimes de verdade sobre a humanidade.

Atualmente, há registros da perseguição ao conhecimento crítico e à memória de justiça histórica por todos os lados. Há o resgate de símbolos nazistas. Há a redução de disciplinas de carga horária das ciências humanas nos currículos de diversas grades escolares no mundo todo.

Isso se vincula diretamente a um fenômeno muito maior e estarrecedor: uma mudança de legitimação de retórica – aquilo que é historicamente autorizado a dizer.

Atingindo o coração do conhecimento humanista – tão duramente estabelecido ao longo do século passado – ataca-se o legado iluminista e o cerne dos princípios da modernidade, os quais, apesar de sua dimensão intervencionista, conseguiram criar certo senso de direitos humanos universais, civilização global e humanidade una.

O que os neoconservadores estão alegando é que esse projeto civilizacional não apenas ruiu, mas é o próprio produtor da desigualdade.

Escolas e Universidades

O Brasil está em posição particularmente retrógrada no ataque ao pensamento crítico e humanista. Lá em 2014, quando as faixas das manifestações verde-amarelas pediam menos Paulo Freire já estava claro que um impeachment não era apenas um impeachment: ele vinha acompanhado do espírito autoritário e anti-democrático.

De lá para cá, se a o projeto de lei Escola sem Partido irá ser aprovado, isso pouco importa a essas alturas: é sabido que a lei já é colocada em prática em sala de aula por meio dos estudantes-censores.

Professores estão amedrontados e muitos relatam que acabam não ministrando certos conteúdos para proteger sua integridade ou simplesmente para não se desgastar frente a jovens em alerta para atacar a suposta doutrinação.

Eu mesma vivi uma situação desse tipo. Passei um ano como professora visitante do exterior no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e era parte de minhas obrigações incentivar a internacionalização do conhecimento.

Com esse objetivo em mente, ofereci aos alunos de pós-graduação a mesma disciplina que eu ministrava na Universidade de Oxford, onde lecionei por alguns anos.

A disciplina era sobre movimentos sociais, mas certo dia apareceu nos jornais, sites e redes sociais dos institutos ditos liberais como um curso em que uma colunista da CartaCapital ensinaria Protestos na USP com o dinheiro público.

A forma como esse tipo de notícia se espalha é sempre muito nefasta: usaram minha foto, foram-me dirigidas humilhações verbais nos comentários e, finalmente, muitas pessoas disseram que eu – uma terrorista – deveria morrer.

Eu precisei começar o primeiro dia de aula acionando a segurança da universidade – um cenário que já não se imagina mais ocorrer. Não foi a primeira vez que fui atacada, nem será a última, mas foi a primeira vez em que o problema não era “eu”, mas a produção de conhecimento em si.

Apesar do lado anedótico dessa interpretação que transforma um tema sociológico clássico em “uma aula de protestos”, partir do princípio de que a direita é burra, anti-intelectual e anti-ciência me parece uma aposta equivocada.

Os novos movimentos conservadores, com formação liberal, sabem muito bem que não havia nada de pedofilia nas exposições, da mesma maneira que muitas de suas lideranças jovens estavam cientes que minha disciplina não era para ensinar protestos.

Disputando regimes de verdade

O argumento de que a nova direita conservadora despreza o conhecimento apenas nos coloca na posição de vítimas da história em defesa do sagrado saber – e esse é exatamente o ponto que eles querem provar.

Os neoconservadores também constroem sua identidade a partir da posição de vítima de um tipo de conhecimento: vítima de certo establishment intelectual das universidades e da grande mídia, o qual – ao priorizar determinados grupos – teria virado as costas das pessoas comuns.

A própria democracia seria um projeto sustentado por uma elite intelectual, privilegiando poucos apenas.

A crise do neoliberalismo do século XXI, acirrada pelo desvelamento das relações promiscuas mantidas entre a política e o mercado no mundo todo, serviu como uma luva para fortalecer esse tipo de narrativa acerca da ameaça vermelha.

Embaraçosamente, o primeiro ponto a levantar quando falamos em políticas do conhecimento, é reconhecer que a nova direita se coloca como protetora dos interesses do povo, no momento em que ela associa conhecimento humanista com establishment, elites intelectuais e poder.

Este establishment é a geração 68 que teria vencido no campo intelectual e ajudado a formar certo consenso liberal democrático que conciliava capitalismo e avanço das pautas identitárias.

A disputa por agendas econômicas (neoliberais ou progressistas) do século XXI se constrói por meio de uma guerra que é fundamentalmente discursiva: por palavras, estátuas, símbolos.

É uma guerra pelo estabelecimento de novos discursos que, ao atacar certo projeto moderno, vem com uma agenda econômica embutida. Mas esse cenário de disputas discursivas é uma oportunidade para o campo progressista repensar – seriamente e autonomamente – os rumos da mundialização e que tipo democracia almejamos.

Nós não somos vítimas dessa batalha e o que está em jogo é uma disputa de projetos que lidam com concepções muito profundas sobre a sociedade global, a modernidade e seus impactos na desigualdade.

Entender o funcionamento intelectual dos neoconservadores é parte fundamental para reorganizar resistência. A base da nova direita segue seus próprios intelectuais.

O Manifesto da Nova Direita Francesa, escrito por Alain de Benoist e Charles Champetier se define como uma nova escola de pensamento que procura desenvolver uma “meta política”, disputando espaços revistas acadêmicas, colóquios e conferências.

A história, para eles, “é o resultado de ações e intenções humanas, dentro de enquadramentos de convicções, crenças e representações que providenciam significado e direção [tradução livre]”.

Na mesma direção, o livro Generation Identity, A Declaration of War Against the ‘68ers, escrito por Markus Willinger, outra referência da nova direita, também salienta importância de recuperar uma direção de/para a humanidade e, em sua tese, isso passa pelo retorno ao local, às identidades regionais e ao freio de processos migratórios.

A base da nova direita também não é anti-ciência (ela se coloca contra o dinheiro público investido na ciência, que apenas contentaria a uma elite intelectual), mas entende que é preciso disputar estrategicamente espaços legitimados.

A publicação de um artigo na revista Third World Quarterly, chocou a comunidade científica global ao que fazer elogios ao colonialismo, gerando protestos de acadêmicos do mundo todo.

Esse recente escândalo ocorreu em uma das mais prestigiosas revistas científicas do mundo, a deixando bastante claro que o que está em jogo hoje não é um desprezo ao conhecimento, mas antes uma luta por novas (ou bastante antigas, na verdade) fontes de conhecimento.

Deparamo-nos com a necessidade de voltar a defender o óbvio, ou melhor, aquilo que parecia óbvio, aquilo que acreditávamos que já havíamos superado. Mas não superamos.

Ignorar que o avanço conservador também está equipado intelectualmente é um erro estratégico primário.

Afinal, quando Michel Foucault mencionou que conhecimento é poder, ele estava se referindo à consolidação dos discursos de dominação. O colonialismo e a indústria do desenvolvimento não dominaram o mundo sem uma conhecer o Outro, sem uma parcela significativa de intelectuais e experts a seu dispor.

Se há algo positivo nisso tudo é não nos deixar esquecer conhecimento é poder, mas também é resistência: precisamos conhecer o outro lado e, principalmente, lembrar que o senso de humanidade una, justiça, direitos humanos e equidade é uma verdade que nunca foi totalmente construída e, portanto, ainda precisamos lutar criticamente por ela. (Da Carta Capital)

quarta-feira, outubro 04, 2017

Cuphead





Então consegui baixar finalmente o jogo CUPHEAD.

A Good Marriage, de Peter Askin (2014)


 Péssima adaptação de um conto excelente de Stephen King, péssima pois deturpa a história, distorce e erra feio esvaziando o suspense. Nem os bons atores salvam. 

segunda-feira, outubro 02, 2017

Nossas noites, da Netflix


Drama romântico. Robert Redford e Jane Fonda conta história de dois vizinhos viúvos que resolvem compartilhar a mesma cama para suprir a angústia da solidão. Sempre franco um com o outro, vão se aproximando cada vez mais e se apaixonando. 

Corrente do mal


Um grande filme de terror sobrenatural. Vi na Netflix. Tenso.

Jogo Perigoso, de Stephen King (da Netflix)


Uma adaptação do romance de King adaptado para Netflix. Um suspense inquietante.

Uma mulher fantástica, do chileno Sebastián Lelio



Assisti com Mauro ontem, 1.10.2017, no Reserva Cultural. Um grande filme.

Vittorino fez quatro anos


Como não amar essa pessoa?

quinta-feira, setembro 28, 2017

Krisha,



Drama pesadíssimo sobre família disfunsional, daqueles que o Selton Melo tenta alcançar e ainda não conseguiu. Depois de ano de ausente, Krisha (Krisha Fairchild) se reúne novamente com sua família nas férias. Ela percebe que diante dela está a oportunidade de consertar os erros do passado, cozinhar o peru para a família e provar para seus entes queridos que ela mudou para melhor. Porém, os delírios de Krisha conduzem o feriado para uma experiência atordoante que ninguém vai esquecer.


Angustiante, claustrofóbico, acompanha a insana Krisha, um ser bizarro e autodestrutivo que vem ver a família para destruir qualquer possibilidade real de conciliação. Drogada e alcóolotra, irritante delirante. A direção é engenhosa e brilhante. Muda o aspecto ratio da cena para indicar o desconforto e choque entre a visão de Krisha e o que ocorre em cena. 

Screen Prism

A ghost story



Minimalista. Estranho. Circular. Melancólico. Existencialista. Silencioso. Poético. Inquietante. Misterioso. Voyerista. Místico. Artístico. Niilista. Vida. Morte. Eternidade. Atemporalidade. 


JUDICIÁRIO libera ensino religioso unilateral

Por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF), considerou constitucional o ensino público religioso confessional, ou seja, ligado a uma crença específica. Ministros rejeitaram a ação da Procuradoria Geral da República para que as aulas fossem genéricas e abordassem aspectos históricos e sociais das religiões. A partir do julgamento, a matéria confessional pode ser oferecida pelas escolas públicas de forma facultativa.

Votaram pela manutenção do ensino confessional os ministros Alexandre de Moraes, Luiz Edson Fachin, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia, que desempatou o caso.

Os ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux, Marco Aurélio, Celso de Mello votaram contra.

Apesar do placar apertado, a decisão causou espanto na comunidade jurídica. Para quem não entendeu a dimensão do que foi julgado, vale destacar que a corte autorizou que escolas públicas de todo o país instituam para seus alunos e alunas ensino religioso confessional – isto é, com crença religiosa. Logo, um ensino confessional teria oração, costumes e tudo o que está ligada à determinada religião. No Brasil, de imensa maioria cristã, é possível imaginar quais religiões serão professadas.

O Justificando conversou com diversos pensadores do Direito e de outras áreas do conhecimento, que rebateram a decisão sob o argumento da violação ao estado laico, das evidentes prioridades reacionárias da corte, e do “ingenuidade” da corte ao estabelecer a ideia de que o ensino será pluralista. As declarações sobre a decisão podem ser lidas abaixo:

Eloísa Machado, Doutora em Direito Constitucional e Coordenadora do curso de Direito da FGV-SP

“A decisão do STF é um grande retrocesso. Toda uma pauta liberal e progressista que vem sofrendo investidas conservadoras no legislativo e no executivo e que ainda aguarda posição do STF fica em suspenso: de código florestal a direito mudança de registro civil das trans.

Assumir a confessionalidade do ensino, além afetar profundamente a lógica do que deve ser a educação pública, laica e inclusiva, abre espaço para uma infinidade de outros problemas. É inadmissível, por exemplo, que os escassos recursos públicos sustentem a doutrinação religiosa nas escolas. Mas o STF não se pronunciou sobre isso”.

Joice Berth, Feminista negra: 

“Trevas. Essa decisão é mais uma assunção de racismo por parte do nosso sistema judiciário, pois sabemos que não será ensino religioso de maneira abrangente e democrática, será sim um esquema de doutrinação neopentecostal, uma imposição de pensamento evangélico, já que essa é uma bancada que só cresce dentro de todas as estruturas políticas. Lamentável e que os pais estejam atentos a essa agressão fascista a laicidade do estado brasileiro”.

Luis Felipe Miguel, Professor de ciência política na UnB: 

“O ensino religioso no Estado laico é uma excrescência. Se as famílias e as igrejas querem dar educação doutrinal às suas crianças, que o façam em seus próprios espaços. Ao interpretar a regra constitucional como sendo a necessidade de inculcação da “religiosidade”, o Supremo rasga a ideia da neutralidade estatal em relação aos diversos sistemas de crença”.

Márcio Sotelo Felippe, Procurador do Estado de São Paulo: 

“Não temos mais constituição. O STF julga ao sabor de injunções políticas ou para agradar setores da opinião pública. São tempos sombrios, uma reação termidoriana que enterra séculos de conquistas iluministas, de avanços no processo civilizatório. Este é um estado de exceção com sabor de fascismo. A inteligência está morta no Brasil”

Renan Quinalha, Doutor em Direito e Professor na Universidade Federal de São Paulo:

“A decisão do STF faz com que o Estado laico promova, nas escolas públicas, o ensino religioso confessional. Isso é um absurdo, pois se está permitindo que religiões se apropriem do espaço público da escola para propagar sua própria fé. Considerando o contexto atual, isso se torna ainda mais grave. Os discursos de “escola sem partido” e “combate à ideologia de gênero” poderão agora contar com o reforço do ensino religioso confessional nas escolas, minando o que restava de laicidade do Estado no sistema de ensino”.

Alexandre Melo Franco Bahia, Professor Doutor de Direito Constitucional na Universidade Federal de Ouro Preto: 

“A decisão do STF afirmando que o Estado Brasileiro deve custear um Ensino Religioso “Confessional Pluralista” ofende a tantas ordens diferentes do Direito que fica difícil definir por onde começar.

Como um Estado Laico pode atuar de forma Confessional? Em que mundo isso faz sentido? Ainda que a maioria queira dizer que esse ensino deve ser “pluralista”, ou eles são muito “inocentes” – e não sabem do que é o ensino religioso na maioria das escolas públicas do país, ou estão assumindo estarem prontos para receberem centenas de pedidos de Reclamação contra – o que acontece todos os dias e agora só vai piorar – o proselitismo fundamentalista e, claro, nada plural, que é feito em escolas públicas todos os dias”.