terça-feira, abril 24, 2018

Etnias africanas e Zumbi, de Caetano Veloso

Penso que seja interessante fazer uma relação para dar entender um pouco mais sobre a importância das etnias africanas na formação da sociedade brasileira, miscigenada principalmente por estas feições, abaixo indicadas:



Quadros com fisionomias pintadas por Johann Moritz Rugendas no Rio de Janeiro, durante a década de 1820. Cada quadro é identificado por uma etnia, como segue: (1) Angola, (2) Congo, (3) Bengüela, (4) Monjolo, (5) Cabinda, (6) Quiloa, (7) Rebolo, (8) e (9) Moçambique, (10) Mina. As etnias de 1-5 e 7 são da África central, 8-9 são do sudeste africano e 10 é da África ocidental. Todos, com exceção da etnia Mina, falavam dialetos da família Bantu.




Zumbi
(Caetano Veloso)


Angola, Congo, Benguela,
Monjolo,Cabinda, Mina,
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
Há um grande leilão
Dizem que nele há uma princesa à venda
Que veio junto com seus súditos
Acorrentados num carro de boi

Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola, Congo, Benguela,
Monjolo,Cabinda, Mina,
Quiloa, Rebolo
Aqui onde estão os homens
De um lado cana-de-açúcar
De outro lado, o cafezal
Ao centro, os senhores sentados
Vendo a colheita do algodão branco
Sendo colhido por mãos negras

Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Quando Zumbi chegar
O que vai acontecer

Zumbi é o senhor das guerras
Senhor das demandas
Quando Zumbi chega
É Zumbi é quem manda

Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Eu quero ver
Angola
Congo
Benguela 
Monjolo
Cabinda
Mona
Quiloa

Rebolo

Capricorniana, do Poesia Acústica

[Sant]
Eu tava doido pra cantar pra ela nosso som
Que escrevi ontem pensando no amanhã
E hoje eu tô aqui, despreparado
Preocupado com tudo ao redor
As pernas tremem, a boca não abre
E não dá nem pra me mover
Talvez se eu tivesse ensaiado mais
Talvez se eu estivesse um pouco mais firme
Talvez esse borbulho no estômago signifique que nós combine
E nem precise de mais canções
Além do sons de voz enquanto converso contigo
Mas eu não consigo e tudo que eu não te digo aqui, deusa
É que ontem eu pus no verso
Que eu tava doido pra cantar
Nosso som, escrevi ontem
E hoje eu tô aqui, doido pra cantar pra ela
Nosso som, nosso som
(Sant, vai!)

[Tiago Mac e (Sant)]
Ana capricorniana, nesse final de semana
Desculpa, mas não quero ver você partir (desculpa)
Amanhã acordo cedo, corre aqui, não tenha medo (vem)
O morro todo hoje quer te ver sorrir (Tiago Mac)
Quem é que tem coragem pra falar de amor? (Pra falar de amor)
Quem é que tem coragem de ser o que não é? (Quem tem?)
Fiz essa aqui na laje, esse fundo é montagem
Me diz o que cê quer pra aliviar essa dor (diz)
Fui de peito aberto pra fechar contigo (pra fechar contigo)
Seu mundo tava escuro, eu fui o seu farol (o seu farol)
Escolhas são escolhas, cê tem seus motivos (cada um de nós)
Mas quem quer viver na sombra não espera o sol (não espera o sol)
Cê sabe que a vida é um tecido fino (tecido fino)
Pois a qualquer momento pode se rasgar (a qualquer momento)
Talvez não seja nada, seja só o destino (só o destino)
Era simplesmente a hora de tudo acabar (chama!)

[Tiago Mac, Maria e (Sant)]
Meu quarto ainda tem seu cheiro, de vazio eu entendo (entendo bem)
Esvaziou o coração e, sem ter explicação, me arrancou de dentro (quê isso)
Meu quarto ainda tem seu cheiro, de vazio eu entendo (vida longa ao Norte)
Esvaziou o coração e, sem ter explicação, me arrancou de dentro (de dentro)

[Tiago Mac, Maria e (Sant)]
Ana capricorniana, você acha que me engana
Desculpa mas não quero ver você partir (logo o gângster amoroso?)
Vai embora com minha blusa, só pra deixar outra sua
Ninguém pode saber que você teve aqui
Quem é que tem coragem pra falar de amor? (Coragem)
Quem é que tem coragem de ser o que é? (Coragem)
Fiz essa no meu quarto, minha casa não tem laje
E a única montagem é seu sorriso sem cor, amor
Seu sorriso sem cor (seu sorriso sem cor), amor (amor, meu amor)
Seu sorriso sem cor (seu sorriso)

[Lord] -//samba//
Já não sei quantas vezes arrumou as malas
Amamos e brigamos mil vezes ao dia
Nem lembro quantas vezes procurei palavras
Pra te mostrar aonde nós dois juntos chegaria

Não sabe como eu corro pra cuidar de tu
Mas é verdade, eu não cuido nem de mim, eu sou um louco
Mas tudo porque eu gosto de sentir o gosto
Da gente brindando muito e dividindo o pouco

Eu sagitariano e ela escorpiana
Ela bate e ama, ela toca e mama
Era pra ser mais um romance, mas nós dois faz drama
Antes da parte do pornô que a gente faz na cama
E o mais sinistro é que tu sabe que elas me quer
E eu sei que eles te quer, mas nós dois só se quer
Cantando a nossa música, transando num hotel
A gente chora, porque eu preciso ir embora

[Lord e Maria]
Me chama de bebê, que hoje eu vou beber a água do seu corpo
E a gente vai começar tudo de novo
Nós vamo acordar juntin', eu e você juntin'
Vem, vem, vem, que hoje nós vamo queimar no nosso fogo
E todo tempo do mundo ainda é pouco
Pra eu cantar o samba que eu fiz pra te ver sorrir

[Choice e Maria]
Ah
Se você voltasse ao momento do impasse
E pensasse melhor, não se precipitasse
A um passo do precipício, se tu não me empurrasse
Imagina se fosse um começo tão doce
Que deliciasse sua boca e trouxesse um sentimento lindo
Ai se sêsse!
Seria tão bom
Eu teria o meu bem debaixo do edredom
Dispensaria o harém
Preta, você tem noção do que você tem?
Me deixa no chão, por favor, vem com amor e carin'
Que assim vou também
E se você voltasse ao momento do impasse e pensasse melhor?
A um passo do precipício, ai se sêsse!

[Choice] //rap aceleradíssimo//
Ela só finge que me ignora
Fala que agora namora um cara que usa blazer e dirige um Corolla
Mafioso, tipo barra pesada
Até me disse da grana que controla
Também disse que não tá preocupada, que tá preparada se chegar a hora
Tempo passa, telefone toca, eu atendo e digo: É o chefe
Tempo passa, ninguém fala nada, logo eu penso: Que se dane, isso é um blefe!
Novamente o telefone toca só que eu ignoro
Não era esse o jogo? Rio e comemoro
Mas por dentro choro, não é isso que nós merece!
Andando sem rumo me acostumo com as sextas-feiras
Vendo em segundos reflexos de uma vida inteira
Você perdendo tempo com esses caras fracos que cansam na primeira
E eu transando com mulheres experientes, tipo Susana Vieira
Amor, eu falo muito sério
Por mais que eu saiba, pretinha, tu ama bobeira
E todas essas coisas sérias que você me dizia e eu levava na brincadeira
Talvez tenha sido só culpa de não entender muito bem minha maneira
Mas eu penso que nunca foi obrigação de ninguém entender minha maneira

[Choice e Maria]
Mas se o fim me traz um novo início
O começo se tornou vício
Aquariana, aquariana
Isso é tão difícil, mas já faz parte do meu ofício
Adeus, ó libriana, ó libriana

Da misérias do Brasil

O Brasil vai mal. Tão mal. O Brasil é uma decepção constante. O Brasil oficial. Esse Brasil do traçado geográfico somado ao cartorial, o Brasil republiqueta das bananas. O outro Brasil, das gentes, vai levando a vida como pode. Sem poder. A precariedade do entorno, a exploração levada a níveis terríveis. Nunca tantos moradores de ruas, camelôs, sebestos, sub-empregados, zumbis numa terra devastada e que finge normalidade. Os reparos nas calçadas sem reparo. O desleixo diário de tudo que é inaugurado. Esse lançar de lixo nas ruas sem consciência do entulho. Os automóveis furiosos. O ódio represado resultando em pichos, depredação da coisa pública, do transporte, do alheio. A humilhação corriqueira das filas, dos caixas eletrônicos, das taxas exorbitantes para existir. Mas há também as fúrias soltas, as atrocidades diárias levadas a cabo pelo aparato repressor do Estado: multando, taxando, perseguindo, rapando os produtos da gente quase sem ter como se manter, o sarrafo descido em manifestações de professores ou qualquer causa justa e o extermínio dos pobres, periferias e morros sitiados para o bem público. A demagogia das emissoras de tevê, das estatísticas que apregoam, dos especialista cínicos, dos apresentadores delegados pelo patrão, mirando o umbigo e sabendo de que cada desgraça que anuncia é produto do seu serviço diário de iludir e desinformar. A deformação da verdade e sua substituição por factoides, fakenews. Nada causa espanto ou choca: a massa acrítica tudo compra e engole por verdade por que balizada pelo apresentador de terno. Fica difícil seguir a vida, nestes dias de sombras, ainda mais por que a percepção da ruína é sentida e atribuída por muitos a causas tão distintas. Uma cegueira política obtusa e um culto ao capital (que expolia) e ao passado ainda mais tirânico (a nostalgia dos generais). É a vitória da demagogia, dos cínicos, dos demagogos. Tudo segue dolorosamente e pisa na energia para viver os dias ante sombras maiores avançam e ameaçam nos tragar. E os idiotas úteis de joelhos em templos, diante de programas estúpidos de tevê, ou dançando - a metáfora do pinto no lixo - sobre sua própria miséria incessantemente, para além do carnaval e sem qualquer promessa de reparo ou felicidade. A terra em transe glauberiana não mais alegórica: visível, diária e incontornável. O Brasil anda irrespirável. 


Mas há sempre sua gente.


Ontem lecionando na Paulista. A inacreditável dificuldade dos alunos em repetir em voz alta verbo pronominais simples, matéria de sexta-série, mas presentes, depois do dia de trabalho pesado em que os dias os arrastam. Rio com eles. E triste. Mas o desejo (mais que a esperança deles) me renova e dá sentido a uma profissão que é para mim desde algum tempo, desencanto. Mas ali, mais que em qualquer outro canto, sei que sou útil e necessário.


No final da aula, depois que eu analisei na lousa, para eles, dois trechos de canções/versos de Caetano Veloso, uma aluna me chamou para me apresentar a canção "Capricorniana", do Poesia Acústica. Desconhecia a música e o grupo. Ela me recita timidamente uns versos e depois os lê direto do celular. Anoto na mão e ouço agora em casa, com atenção. Eu presto sempre muita atenção no que eles dizem, e eles dizem muito. Descubro essa letra, assim como foi aquela "Cabeça de nego", de Sabotage, e tantas outras. É uma beleza. Ouço. Longuíssima, intrincada, cheia de belezas e chutando a norma aqui e ali do Português padrão que eu imponho em aula, mas acenando para o valor da liberdade. Eis aqui a liberdade. 



.

Tantas belezas nesta canção. Essa permutação lindíssima entre o samba e o rap, o lirismo direto, objetivo dos jovens de periferia, a voz surreal da garota. Tudo me comove. E tudo dói em mim.

sábado, abril 21, 2018

sexta-feira, abril 20, 2018

A insuficiência da imagem.


Esta é uma foto bem antiga, de um museu da Holanda, o Rijksmuseum, de Amsterdã.

A imagem torna sempre a circular, sempre causando certa indignação.
Mas o que falta a esta fotografia é seu contexto. Foi tirada em um passeio escolar quando havia sido instalado nos celulares aplicativo educacional que traz informações sobre as obras em exposição. Os alunos estão usando tal aplicativo. Portanto, faz parte da atividade escolar contemplar as obras e em seguida ler informações a respeito delas nos celulares. Aliás, já é possível usar o celular em vários museus brasileiros (na Pinacoteca de SP, por exemplo), para aprofundar informações, ter acesso ao histórico da obra, além de uma interpretação crítica profissional sobre o que se vê. Contemplar o quadro e somar as impressões com outros dados enriquece a experiência da visita ao museu.

Isto nos faz pensar que mais do que nunca é preciso desconfiar das imagens, sempre, aliás. As imagens não são mais suficientes. Talvez nunca tenham sido. Hoje os criadores de fakenews/factoides e imagens manipuladas estão fazendo a festa em cima da nossa fé irrestrita no que vemos, afinal somos a geração da imagem.

O próprio quadro serve ao próprio questionamento sobre a questão da imagem. Pintada entre 1639 e 1642, A Ronda Noturna ou A Ronda da Noite é uma pintura a óleo sobre tela do pintor neerlandês Rembrandt, a começar pelo título equivocado do quadro. Por ocasião de sua reforma, descobriu-se que não se trata da representação de uma cena noturna, foram os anos que escureceram o quadro levando ao equivoco de nomeá-lo erroneamente. Na verdade, depois de limpo, descobriu-se que representava a festa dos arqueiros, sua saída (daí seu nome verdadeiro ser "A saída") de um pátio sombrio para um amplo e ofuscante dia de sol.


A pintura "A Ronda Noturna" é na verdade "O Sortie", a saída de uma companhia de mosqueteiros sob o comando de um porta-estandarte. O capitão Frans Banning-Kock e toda a sua companhia deviam pagar a Rembrandt por pintar seus retratos em grupo e em ação, e esperavam verem-se em trajes heroicos e pitorescos, no pleno dia do incêndio. A realidade impressa no quadro frustrou a todos. Pintado em 1642, muitos membros da guarda de arqueiros recusaram-se a pagar sua comissão a Rembrandt, por que parte deles justificaram que seus rostos não eram claramente vistos. Essa imagem, que por si só foi suficiente para torná-los imortais, foi a última comissão que qualquer uma das corporações se dispôs a pagar ao artista, já que ele não os retratava de forma bela ou nobre, parecendo pouco vantajoso a todos ser por ele assim retratados. Hoje esta obra, mais que vista, é cultuada no Museu Rijks, em Amsterdã.




Tão popular que até seus esboços são culturados



Tão popular, a merecer ser parodiada


Ronda noturna foi uma das obras "raptadas" por Hitler e, por pouco, não destruída pelos nazistas:




Mas, quem é quem no quadro de Rembrandt?
01. Capitão Frans Banning Cocq 02. Tenente Willem van Ruytenburch 03. Mosqueteiro 04. Portador da bandeira, Jan Visscher Cornelissen 05. Sargento Rombout Kemp 06. Baterista 07. Menino 08. Menina de vestido amarelo com frango 09. Mosqueteiro 10. Mosqueteiro 11. Jacob Dircksen de Roy 12. Mosqueteiro 13. Mosqueteiro 14. Mosqueteiro 15. Ancião Mosqueteiro 16. Jung Mosqueteiro 17. Mosqueteiro 18. Mosqueteiro 19. Mosqueteiro 20. Mosqueteiro em conversa com Kemp (05)



Os dois primeiros personagens são Frans Banning-Cocq, Lorde de Furmerland e Ilpendam, capitão da empresa, e seu tenente, Willem van Ruijtenberg, Lorde de Vlaardingen, os dois marchando lado a lado. As únicas figuras que estão à luz são este tenente, vestido com um gibão de pele de búfalo, com ornamentos de ouro, cachecol, gorget e pluma branca, com botas altas. E uma garota de cabelos louros enfeitada com pérolas e um vestido de cetim amarelo. Todas as demais figuras estão no escuro, exceto as cabeças, que estão iluminadas. Por que luz? Aqui está o enigma. É a luz do sol? ou da lua? ou das tochas? Há brilhos de ouro e prata, reflexos coloridos ao luar, luzes de fogo; personagens que, como a menina com tranças loiras, parecem brilhar por uma luz própria ... Quanto mais você olha para ela, quanto mais está vivo e brilhante; e, mesmo visto apenas de relance, permanece para sempre na memória, com todo o seu mistério e esplendor, como uma visão estupenda. "Charles Blanc disse:" Para dizer a verdade, este é apenas um sonho da noite, e não pode-se decidir qual é a luz que cai nos grupos de figuras. Não é nem a luz do sol nem da lua, nem vem das tochas; é antes a luz do gênio de Rembrandt. " Rembrandt pintou mais de seiscentos e vinte e cinco quadros e alguns deles são: "A Lição de Anatomia", "Os Sindícios do Salão de Tecidos", "A Descida da Cruz", "Sansão Ameaçando Seu Padrasto", "O Trocador de Dinheiro, "" Sagrada Família "," A Apresentação de Cristo no Templo "," O Casamento de Sansão "," O Estupro de Ganimedes "," Susana e os Anciões "," O Sacrifício de Manoá "," A Tempestade ". "O Bom Samaritano", "Pilatos lavando as mãos", "Ecce Home" e fotos de sua esposa, Saskia.

UM ARTIGO DE STEVEN PIKER sobre a imagem dos jovens





Tecnologia e a morte da civilização

Steven Pinker No início desta semana, entrei em uma aula durante o intervalo e vi um grupo de três garotas sentadas no chão, concentrando-se silenciosamente no iPad. Eu me perguntei o que eles estavam fazendo. Quando me aproximei vi que duas das meninas estavam lendo um livro e a terceira estava terminando o dever de casa em inglês. Eu conversei com eles e nós brincamos que eu não poderia pronunciar corretamente o título de um dos livros. Para alguém não familiarizado com o contexto, a visão de três alunos olhando para uma tela durante o intervalo poderia ter despertado reações negativas - distração, mídia social, jogos ... O tipo de reação negativa que vê três crianças olhando para um livro provavelmente nunca poderia evocar porque para muitos de nós o trabalho é rigoroso, científico e acadêmico, enquanto as telas são uma fonte de distração da qual nada de bom pode sair. No final do ano passado, esta fotografia de algumas crianças assistindo seus smartphones ao lado da pintura "The Night Watch", de Rembrandt, no Rijksmuseum, em Amsterdã, começou a percorrer a Internet. Ele rapidamente se tornou viral. Tem sido frequentemente acompanhada de indignação e comentários negativos como "uma metáfora perfeita para a nossa era", "o fim da civilização" ou "uma imagem triste da nossa sociedade".

Claramente, para muitas pessoas, a fotografia personificava tudo o que há de errado com os jovens de hoje e sua "dependência" da tecnologia. Essas crianças são tão distraídas pela tecnologia que não prestam atenção à beleza que as rodeia no mundo real. Só as coisas não são assim. Descobriu-se que o Rijksmuseum tem um aplicativo que, entre outras coisas, contém visitas guiadas e mais informações sobre os trabalhos expostos. Como parte de sua visita ao museu às crianças, que haviam admirado a arte alguns minutos antes e escutado atentamente as explicações dos especialistas, eles receberam uma tarefa de seus professores para usar o excelente aplicativo do museu. Gostaria de saber se a foto teria causado tanta indignação e desaprovação se retratou estudantes que "ignoram" a obra-prima ao ler um panfleto ou uma brochura do museu. Eu suspeito que não. Parece que, mais uma vez, as vozes anunciando a morte da civilização nas mãos da tecnologia poderiam ser fortemente exageradas. Eu gostaria de acreditar que todos aqueles que postaram no Facebook, compartilhada e twittou uma foto dos filhos na crença equivocada de que representava tudo o que está errado com esta sociedade se sentir um pouco bobo e um pouco de 'mais humilde agora. Mas sei que isso provavelmente não acontecerá. O trágico é que tudo isso - a verdade - nunca pode se tornar viral. Então, eu me pergunto: o que é mais provável que cause a morte da civilização, crianças usando smartphones aprendam sobre arte ou ignorância voluntária de adultos que fazem julgamentos muito rapidamente?


Volver a los diecisiete

Volver a los diecisiete
Después de vivir un siglo
Es como descifrar signos
Sin ser sabio competente
Volver a ser de repente
Tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo
Como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo
En este instante fecundo
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Ay sí sí sí
Mi paso retrocedido
Cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas
Ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido
Se ha paseado por mis venas
Y hasta las duras cadenas
Con que nos ata el destino
Es como un diamante fino
Que alumbra mi alma serena
Lo que puede el sentimiento
No lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder
Ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia el momento
Cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente
De rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia
Nos vuelve tan inocentes
El amor es torbellino
De pureza original
Hasta el feroz animal
Susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos
Libera a los prisioneros
El amor con sus esmeros
Al viejo lo vuelve niño
Y al malo solo el cariño
Lo vuelve puro y sincero
De par en par en la ventana
Se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto
Como una tibia mañana
Al son de su bella diana
Hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín
Al cielo le puso aretes
Y mis años en diecisiete
Los convirtió el querubín

(Violeta Parra Sandoval)

Catavento e Girassol (Guinga e Aldir Blanc)

Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol Entre o escancaro e o contido, eu te pedi sustenido e você riu bemol Você só pensa no espaço, eu exigi duração Eu sou um gato de subúrbio, você é litorânea Quando eu respeito os sinais vejo você de patins vindo na contramão Mas quando ataco de macho, você se faz de capacho e não quer confusão Nenhum dos dois se entrega, nós não ouvimos conselho Eu sou você que se vai no sumidouro do espelho Eu sou do Engenho de Dentro e você vive no vento do Arpoador Eu tenho um jeito arredio e você é expansiva, o inseto e a flor Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen Quando assovio uma seresta você dança havaiana Eu vou de tênis e jeans, encontro você demais, scarpin, soiré Quando o pau quebra na esquina, cê ataca de fina e me ofende em inglês É fuck you, bate bronha e ninguém mete o bedelho Você sou eu que me vou no sumidouro do espelho A paz é feita num motel de alma lavada e passada Pra descobrir logo depois que não serviu pra nada Nos dias de carnaval aumentam os desenganos Você vai pra Parati e eu pro Cacique de Ramos Meu catavento tem dentro o vento escancarado do Arpoador Teu girassol tem de fora o escondido do Engenho de Dentro da flor Eu sinto muita saudade, você é contemporânea Eu penso em tudo quanto faço, você é tão espontânea Sei que um depende do outro só pra ser diferente, pra se completar Sei que um se afasta do outro, no sufoco, somente pra se aproximar Cê tem um jeito verde de ser e eu sou meio vermelho Mas os dois juntos se vão no sumidouro do espelho.

[Mesmo tema dos os oposto que se atraem de O quereres, do Caetano.]

Favela

Favela
(Padeirinho e Jorginho Pesanha)

Numa vasta extensão
Onde não há plantação
Nem ninguém morando lá
Cada pobre que passa por ali
Só pensa em construir seu lar
E quando o primeiro começa
Os outros depressa procuram marcar
Seu pedacinho de terra pra morar

E assim a região
Sofre modificação
Fica sendo chamada de a nova aquarela
E é aí que o lugar
Então passa a se chamar favela

quinta-feira, abril 19, 2018

HISTÓRIA



Onde você estava no ano do Golpe? perguntará o garoto impertinente. Pegará você distraído, tanto, que fará algum esforço para lembrar. Mas nesse tempo, tudo vai exigir excessivo esforço: cortar as unhas, pentear o cabelo, inclusive trazer algo à memória. Acabará lhe dizendo que não sabe. Como não sabe? Não lembra o que estava fazendo no ano do Golpe? Como é possível? Botaram fora a presidente, entregaram de bandeja o petróleo aos americanos, a água, os minérios, liberaram agrotóxicos, venderam até a luz  e deixaram tantos velhos à míngua, fazendo dobrar a miséria. Tudo comandado por bandidos. A massa histérica. Há videos. Dança na Paulista, os discursos ridículos, a truculência entre ministros, depois o espetáculo medonho da prisão de Lula. Ele dirá "Lula", assim, familiar, como quem diz Dali, como quem diz Gandhi, como quem diz Pelé. Passados anos dirá Lula, como se fosse ontem, todos dirão Lula. Mas faz décadas. E repetirá, assim como repetem sempre, aos velhos, os mais novos, como se a gente já fosse demente. Sim, onde estava no ano do Golpe? Não sabíamos que era Golpe, responderá. Outros sabiam. Você não sabia. Na verdade, no fundo, sabia, é que será doloroso dizer que estava do outro lado. Terá a lembrança desbotada da camisa da CBF, do Pato, da dança, de replicar a fala do âncora da Rede Globo (qual o nome daquele crápula, dos vários crápulas, homens e mulheres deformando informações, conclamando mentiras, uma matilha de canalhas). Lembrará de tudo, chegará a corar sobre a carcaça gasta, o enrugado da cara, mas agora sim, simulará esquecimento, lembrando agora que era impossível não saber. E dirá, fingindo-se velho e sábio, que eram outros tempos. Não eram. Nega-se ainda a assumir a responsabilidade. Naquele tempo surravam professores, não é mesmo? Sorrirá um pouco torto. Falavam que a solução era a Educação e surravam professores, não é mesmo? E fechavam escolas. Muitas escolas. E privatizaram as universidades, para que só os que pudessem pagar voltassem a se formar. Você encolherá um pouco mais dentro do próprio corpo, as juntas estalando. Deve ter sido difícil ver uns poucos vivendo às custas da miséria da maioria. Você ia a shoppings? Comprava e depois desfilava nikes em calcadas cobertas de miseráveis? Você frequentava igrejas, templos, repetia aquela ladainha religiosa, universal? Dirá, para você, mais uma vez que não entende, como também não consegue compreender os seguidores do nazismo. Não havia quem dissesse não? Não havia inteligência entre a gente? fé? coragem? compaixão? As epidemias fora de controle, uma cegueira absurda, como naquele romance de Saramago. Sente a qui e me explique: todos odiavam os políticos e escolhiam os piores, como é possível? É que nos fizeram odiar, não se sabia. Mas como pensar num país governado "sem governo"? Um governo sem representantes políticos? De gestores. Mas era um país não uma empresa, queriam produzir o quê? Lucrar na miséria? Difícil explicar. Mas me explique: estavam todos em transe? Como é possível que tantos, uma segunda vez, caíssem na velha conversa mole de combate à corrupção? Será essa a pergunta. E você ainda tentará: Éramos todos muito crédulos de tudo. Antes ou depois dos julgamentos falsos? Da ilusão de justiça? Dos juízes e ministros fora da lei? As mãos velhas, suadas, sem ter o consolo de bolsos. Foi antes ou depois do fim da aposentadoria: velhos secando sob a míngua do sertão? Sob a extinção do salário mínimo, dos mínimos diretos, humanos e mundanos? Ninguém muda o passado. Será a resposta, lembrando-se de como era mais fácil seguir sem pensar demais, sabendo que aquilo não chegaria até você, como se estar ausente o isentasse do crime. Qual seu crime afinal? Aquele de não ter feito nada. Ouvidos moucos, vista grossa, tudo ao som triunfante do Hino Nacional? Então ele perguntará, como quem não quer nada, onde você estava quando começaram as mortes violentas, o abate das crianças pretas, pobres nas favelas, nas periferias? E dos esquadrões da morte? Da morte dos que iam contra tudo aquilo? os que pereceram nas prisões e penaram no exílio por que você tinha (e tinha) certeza que nada chegaria tão longe (pelo menos tão perto de você e dos seus). Irresistível era resignar-se. Dirá. Ou não dirá nada, no desconforto de sua omissão ante a barbárie, o ódio ao outro, daquele que não era você. Ódio justificado pelo privilégio de um nome que lhe garantia transitar tranquilo sobre quem, no fundo, sentia, estava abaixo. Impossível, ele dirá, impossível não ter dado pelo sumiço de tantos corpos. E apontando finalmente o dedo para você perguntará: Como é possível ter sobrevivido para nem ao menos saber contar a História?

Foi Assim

Foi Assim

Foi assim!
Como um resto de sol no mar
Como a brisa da preamar
Nós chegamos ao fim...

Foi assim!
Quando a flôr ao luar se deu
Quando o mundo era quase meu
Tu te foste de mim...

Volta meu bem
Murmurei!
Volta meu bem
Repeti!
Não há canção
Nos teus olhos
Nem há manhã
Nesse adeus...

Foi assim!
Como um resto de sol no mar
Como a brisa da preamar
Nós chegamos ao fim...

Foi assim!
Quando a flôr ao luar se deu
Quando o mundo era quase meu
Tu te foste de mim...

Volta meu bem
Murmurei!
Volta meu bem
Repeti!
Não há canção
Nos teus olhos
Nem há manhã
Nesse adeus...

Horas, dias, meses
Se passando
E nesse passar
Uma ilusão guardei
Ver-te novamente
Na varanda
A voz sumida
Em quase em pranto
A me dizer, meu bem
Voltei!...

Hoje esta ilusão se fez em nada
E a te beijar outra mulher eu vi
Vi no seu olhar envenenado
O mesmo olhar do meu passado
E soube então que te perdi...


LEONARDO BOFF


Entristece ver um dos maiores intelectuais ,um dos maiores teólogos contemporâneos, assim ! Meu professor e dileto amigo Leonardo Boff

Brasil

O jogo é esse e as cartas são essas. Sim: estão todas marcadas. As regras de alguns não são para todos, e não há a opção de não jogar. Perder, estamos desde sempre. E a questão não é o acaso dos dados (eles também, viciados), mas saber se vale correr o risco de não se arriscar nunca a nada. Blefar é o mínimo que se espera de você, já que este é o jogo: simular que as regras são para todos, o vermelho, vermelho; e o negro, negro. A mesa fica sempre com a maior parte. A casa ganha sempre. O crupiê também traz cartas nas mangas. Sobreviver, muitas vezes, é o sinônimo de vencer. O Brasil não é para principiantes. 









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Meu Kindle e uma capinha que ganhei da Solange



Achados & Perdidos da História: Escravos, de Leandro Narloch



Uma seção de Achados e Perdidos costuma reunir coisas diversas – carteiras, documentos, guarda-chuvas, alianças, sapatos de bebês, óculos, livros... Em comum, esses objetos são vestígios da aventura humana. Impregnados de vida e tempo, guardam a história de pessoas que construíram, destruíram, choraram, sorriram, sentiram saudades, se aventuraram, viveram. A coleção Achados & Perdidos da História tem o objetivo de resgatar biografias de personagens diversos – conhecidos ou anônimos – que retratam momentos fundamentais da humanidade. Contará a história do Brasil e do mundo por meio de histórias de vida. Não há caminho melhor para se reconectar ao passado do que conhecer dramas e aventuras de homens e mulheres que construíram a nossa identidade. A partir da biografia de escravos, este livro percorre os três séculos da escravidão e suas diversas fases. Muitas histórias confirmam a brutalidade que, como sabemos, marcava aquele sistema. Outras espantam: no século 18, uma mulher livre se vendeu como escrava; um negro liberto mandava dinheiro à viúva de seu antigo dono ao saber que ela havia empobrecido. São relatos tão surpreendentes que só conseguimos entendê-los se abandonarmos nossa mentalidade acostumada à liberdade e aos direitos humanos do século 21. Ao revirar este baú de achados e perdidos, o leitor chegará à conclusão de que não houve só uma escravidão no Brasil. Mas várias, de diversos tipos e cenários, com um grau de complexidade muito maior do que imaginávamos.


Baixado na AMAZON.

All I see is you (ou Por trás dos teus olhos)


Gina perdeu a visão quando era criança, após um acidente grave. Acostumada à deficiência, ela vive com o marido James na Tailândia, graças a uma promoção que ele recebeu. Gina é completamente dependente dele, o que agrada a ambos. Um dia, um médico decide testar uma nova cirurgia em Gina, que permitiria resgatar a visão de um dos olhos. Ao aceitar o procedimento, ela finalmente descobre um mundo novo, munida da vontade de viver várias experiências de que foi privada a vida inteira.


Um filme arrastado e insuportavelmente chato. Não convence como drama, como história de amor, como nada. Só entedia. Duro de assistir.