sábado, agosto 17, 2019

Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio chôro,
e compomos os dois um vasto côro.

Oh dor individual, afrodisíaco
sêlo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contacto furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.




ANDRADE, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:_____Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

O paradoxo entre Capitalismo e Democracia



"Contradição entre capitalismo e democracia. O capitalismo tem uma estrutura feudal fundamentado na acumulação, ele tem um arcaísmo que não supera, já que é parte constitutiva de seu funcionamento global. Um sistema desses é contrário ao princípio básico da democracia, um regime de igualdade radical, baseado num procedimento fundamental: a igualdade, mas não igualdade como homogeneidade ou unicidade, é igualdade quanto todos tem o mesmo poder. E para que todos tenham o mesmo poder não é possível esse processo de concentração de renda que quebra o fato de que todos tenham os mesmo poder."



Política é uma questão de quem controla a percepção, a visibilidade e a sensibilidade. Quem muda a estrutura. As pessoas que tem uma luta contra a população LGBT argumentam: "Você pode existir, mas você é visível demais. Exista, mas não apareça." Contudo, ser reconhecido socialmente é existir, aquilo que não é reconhecido socialmente inexiste.Portanto, está dizendo inexista, porque se você entrar na minha percepção você irá me afetar, assim eu não poderei ser da mesma maneira. E eu vou ter que me implicar, pois os corpos me afetam. E as artes são práticas que lutam pela transformação das estruturas de sensibilidade, por isso o seu poder e a "necessidade por parte de um Estado conservador e autoritário de combatê-la."

Vladimir Saflate

Caio Coppola sobre Machado de Assis

Os comentários nos ensinam que o Brasil é um país RACISTA, que nega continuamente sua negritude e AFIRMA que isso não é uma questão de discriminação na sociedade brasileira. É cegueira histórica e ideológica. Caio é um personagem machadiano, um medalhão (muita retórica e pouco conteúdo, até no jargão do Direito), mas a linguagem ilude os ignorantes e pouco letrados (que fingem serem leitores até para si mesmos). Caio e seu cinismo é o arrogante Brás Cubas moderno que vê seu ex-negrinho Prudêncio,  no Valongo, surrando outro negro e achando "fino e profundo".

Pesadelos e paisagens noturnas, de Stephen King



Leio e releio uns contos do primeiro volume de Pesadelos e paisagens noturnas, de Stephen King. 

quarta-feira, agosto 14, 2019

Aladdin


Aladdin, uma bobagem. Protagonista sem carisma, enredo redundante em relação o desenho, vilão Jaffar sem força, só o WillSmith salva com algum brilho. 

Pedro e Vittorino, meus sobrinhos






terça-feira, agosto 13, 2019

Perciliano


Meu pai me olha (com aquele seu olhar sedutor) do passado. O amor nunca é fácil. Sinto saudades dele. E rezo pedindo proteção, que me afaste os problemas, me abençoe, me ajude nas adversidades.

Meu pai


Perciliano Bernardo Teixeira, que me deu 50% de seus genes, dentre eles a calvície, o nariz de batata, os olhos fracos, a libido exacerbada, certo desejo de ócio e algum humor em relação à vida. Meu pai foi o adolescente mais velho que conheci, chegou aos setenta com os mesmos sonhos teens. Nunca entendeu bem as responsabilidades de ser marido e pai. Confundia temor com respeito, e tinha um difícil acesso à empatia, chegando à injustiça e à crueldade. Suas virtudes eram silenciosas, soterradas em contradições espantosas. Em relação ao mundo, sempre foi um homem comum, com ambições e sonhos pequenos. Mas se orgulhava dos filhos que sempre amou desapegadamente.

No dia dos pais



Meu irmão é meu pai preferido, só colocaria um pouco mais de movimento para fora da segurança do lar: uns passeios, umas viagens, etc. No resto, é o pai que gostaria de ter, com sua participação ativa na vida das crianças desde bebês, seu amor incondicional, seu respeito a forma de ser de cada uma das crianças, sua responsabilidade como pai, sua preocupação atenta e impulso de criar e libertar os filhos para vida. Neste dia, quero mandar para ele a admiração e o orgulho que tenho em tê-lo como irmão. Amor.

Teodora Pereira de Souza.



A bisavó olha a câmera e sorri em um de dois registros fotográficos que comprovam sua existência. Gosto da cor negra da sua pele, dos cabelos brancos, da dignidade da sua pobreza que não me faz esquecer também que tenho as raízes nesta Santana, nesta Bahia, neste nordeste, neste mundo mestiço e paupérrimo, de mulheres e desvalidos destinados a sofrer. Minha mãe pegou os males e rompeu o ciclo fazendo outro destino. E todo dia honramos, sem até termos consciência, a memória dos nossos que está em nós.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Doze homens e uma sentença (1957), Sidney Lumet


Doze homens e uma sentença 

Seguindo o encerramento do caso do julgamento do assassinato cometido por um adolescente, os membros do júri devem chegar a um consenso sobre qual será o veredito. Enquanto os 12 indivíduos estão fechados em uma sala para tomar uma decisão, onze deles votam pela condenação do réu, porém um deles acredita na inocência do jovem e tenta convencer os outros a mudarem seus votos, dando início a um conflito que ameaça inviabilizar o delicado processo que vai decidir o destino do acusado.

Direção: Sidney Lumet
Roteiro de Reginald Rose



1. Treinador: coerente, sóbrio, prima pela objetividade
2. Banqueiro: ingênuo
3. Empresário: pai rancoroso, autoritário, egoísta, masculinidade tóxica
4. Contador: cético, metódico, autocontrole
5. Mexicano: pobre, periférico, submisso, constrangimento
6. Pintor, operário, imigrante: praticidade, integridade, valor
7. Comerciante/homem comum: indiferente, superficial, indiferente, alienado, volúvel
8. Davis (o arqueteto): homem virtuoso, valores democráticos, racional, integridade, honestidade, respeito
9. Avô: humanista, empático, sábio, consciencioso

10. Racista: ódio, cinismo, mal
11. Relojoeiro imigrante: educado, lógico
12. Publicitário/Marketeiro: superficial, volúvel, aparente, tolo



Uma pipoqueira e uma panela de arroz



Troquei os pontos do meu cartão de crédito Visa, por uma pipoqueira e por uma panela de arroz da mundial. Tive que pagar 30 reais de frete no total, mas valeu. 

Reassistindo



Nestes dias frios e politicamente depressivos, deito no sofá e reassisti a filmes/animações. Sing é aquela felicidade de alegre divertimento. 


E descubri, novamente, como o filme é bom e tem tanta fidelidade ao espírito do romance original que é para mim uma obra prima. Incrível como materializa bem os cheios com cortes abruptos de superclose. Feroz, melancólico, poético. Um final maravilhoso, quase tão intenso quanto descrito no livro. 



Fiz uma resenha há anos e crio que disse tudo sobre essa maravilha que é uma animação policial/suspense. Personagens deliciosamente carismáticos. 



Revi o Toy 3 por conta de ter visto o Toy 4 no cinema. E confirma-se o fato de este filme fechar com perfeição o ciclo como uma trilogia. O quatro vale pelo Garfinho, mas nada mesmo acrescenta ao alto clima emocional que tem o 3. Poesia. 

O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers


sábado, agosto 03, 2019

Postagem de 30 de novembro de 2016



Fiz uns tantos posts e compartilhei outros tantos que chegaram sobre temas variados. A minha recusa à comiseração geral pegou fundo nos corações e fui xingado inbox por pessoas amadas. Flanando sobre vitrines cyber, não alimento novas ilusões sobre pessoas, sobre o país e o futuro. Tampouco escamoteio minhas falências morais ou éticas. Sexta tem hospital para levar a mãe, lavei hoje o banheiro, dei banho no meu cachorro aleijado e comi linguiça calabresa. Li um trecho lindo do ensaio do Walter Benjamin, o suicida que sempre estimula meu desejo de viver e produzir. Conversei com meu irmão, instalei o Uber no seu celular, e minha cunhada me serviu um café delicioso. Com meu sobrinho Vitorino fiz um sol amarelo de massinha de modelagem, um coelho púrpura, um video cantando "Meu pintinho amarelinho" e fotos lindas. Minha vida é prosaica, simplória e, em boa medida, satisfatória. O Facebook me distrai e nele propago determinadas impressões absolutamente pessoais sobre o mundo, alem de cronicar meu dia-a-dia. Leio várias postagens e interajo com pessoas que mal conheço, que conheci um pouco mais nas redes que na vida, com gente que admiro e sinto saudade da presença real. Mas na prática, nada é sério e relevante demais. Que relevância tenho eu antes a catástrofe? Que valerão lágrimas minhas aos mortos que independem do meu respeito piedoso ou insultuosa indiferença? Por que aos vivos constrange e agride minha recusa a compactuar com a catarse ou expurgo em forma de dor coletiva? Este dia o que vai me ficar é a alegria deste encontro, sintetizada numa fotografia com Vitorino, que para mim é a cara do amor.