domingo, janeiro 21, 2018

Roubei de uma aluna no Facebook.

“Você nunca vai chegar ao seu destino se parar para atirar pedras em cada cão que late pelo caminho.” 

(Winston Churchill)

A máscara e a cara da princesa



Chovia.

Sobre o castelo, nuvens se moviam embaladas pelos ventos nas alturas. Rebentavam trovões, como cornetas de cavalaria. A gente do reino corria de lado a lado, encharcados de chuva e medo. Ainda não se conhecia a ciência dos raios. As tochas tremiam, os monges entoavam cânticos em línguas antigas, mulheres rezavam ajoelhadas e faziam promessas cheias de desespero. Um raio se precipitou do céu e arrebentou a torre do castelo. As paredes tremeram. Nesta hora, a rainha deu à luz uma princesa.

O rei que estava longe, ao saber da notícia veio a toda, mal desceu do cavalo branco, correu para o quarto da rainha. Encontrou-a espalhada na cama, envolta pelas aias cheias de cuidado. Retirou as curas luvas de metal, o elmo prateado, inclinando-se com doçura, beijou a fronte da rainha.

Estavam felizes: rei, rainha e princesa, agora, uma família. O rei pensava nas obrigações que teria como pai de uma bela menina, cuidados de buscar a paz para todos, ser justo, dar o bom exemplo,  trazer prosperidade ao reino, para que nada faltasse a princesa. A rainha pensava no tanto que teria de ensina-la sobre ser princesa, para mais tarde ser rainha. Saberia cantar, saberia girar a roca, tecer e bordar e teria sempre uma palavra doce para bom todos.

Mandaram buscar a princesinha, pai e mãe ansiosos por vê-la. A aia entrou com passos receosos, colocou a pequena entre ambos e se retirou imediatamente.

Acharam estranho o comportamento da aia, mas estavam mais interessados no bebê. Assim, afastaram os panos que lhe cobriam. A rainha deu um enorme grito. O rei, desesperado, cobriu o rosto com as palmas das mãos.

Viveram os anciões que em toda sabedoria de velhos não souberam dar conselho algum. Por fim, iam mandar chamar o homem da floresta que estudava as estrelas e sabia ver o futuro, quando esse, no mesmo instante, adentrou na sala real. Nem foi preciso dizer o que lhes afligia, de suas mãos receberam uma caixa de madeira, no seu interior dois objetos.

Era um par de máscaras diferentes entre si. Uma deveria ser usaria somente nos dias em que a princesa estivesse com o coração feliz, a outra, para os dias em que fosse só tristeza. Haveria de se ver livre das máscaras somente depois de se casar com um príncipe bom e justo, que aceitasse a alma oculta por trás da máscara.

Anos passaram e a princesa cresceu. O pai para agradá-la perguntava o que lhe faltava para ser feliz e, podendo ter tudo, nada pedia. Possuía a felicidade das coisas simples, como um beija-flor brincando num mar de flores. Mas nenhum príncipe veio desposá-la.

O que viam era sua máscara, sua alma, esta, não enxergavam,. Que cantasse e as feras dormissem, que os pássaros viessem repousar na sua janela e que estrelas acordassem no céu para saudá-la. Só tinham olhos para máscara. Fazia uma bota, um homem? Fazia uma batina, um padre? Não, as coisas eram estranhas, pensava a princesa, julgar alguém pela aparência. Era feliz e nada esperava nem que todos a amassem, nem que um príncipe viesse. Seria feliz assim da mesma forma, pensava. Em volta dela, as borboletas giravam com suas asas repletas de cores.

Porém Perter surgiu, Perter e seu cavalo, sua armadura, seu imponente elmo e seu riso de menino. A princesa nunca tinha visto alguém assim, algo mudou de repente e a máscara já doendo. O peso no rosto. Como poderia se mostrar para ele? Falar-lhe? Lembrou-se no dia em que foram apresentados, Ele a olhara no fundo dos olhos, apertara-lhe depois a mão, com mais força que os demais; Ela tremeceu. Seria um sinal? Ah, se seu pai não tivesse inventado aquele campeonato para premiar o melhor cavaleiro dos treze reinos, talvez nunca o tivesse visto. Aceitaria o seu amor? Seu lencinho, sempre presente a cada competição? Ele precisava saber que torcia por ele.

Mas todas as donzelas agitavam os seus lencinhos para Perter, que alheio a tanto amor, triunfava sobre os oponentes. Não desposaria nenhuma, pois não buscava o amor verdadeiro. Orgulhoso, ia buscar a vitória sobre os demais e o prêmio surpresa que o mais abastado dos reis reservava para o vencedor.

Sabia que o rei tinha organizado os jogos para atrair os jovens que pudessem desposar a filha. Riu-se pensando naquela figura coberta pela máscara. Lembrou-se de ter apertado com força sua mão para vê-la tremer. Pobre coitada, ele riu-se, devia ser horrível. Desde pequeno, ouvia os bardos com suas cantigas sobre a princesa oculta pela máscara. Que jovem, pobre ou rico, ousaria desposá-la? Talvez um louco, pensava e, por vezes, do alto do seu cavalo, por piedade, lançava-lhe uma rosa.

A princesa colhia as rosas e se feria de tanto comprimi-las no peito. Saberia ele, do seu imenso amor? Que não tinha um sonho que não fosse com ele? O que esperava ele, para se declarar? O final dos jogos? A décima rosa?

No ultimo dia da competição, depois que Perter venceu os dois cavaleiros restantes e se consagrou campeão, lançou-lhe a decima rosa. Todos aguardavam ansiosos o prêmio que seria dado pelo rei. Assim, quando o rei, do alto do palanque retirou da cabeça sua própria coroa, pendendo-a numa das mãos, sendo que na outra ofertava a da filha, todos caíram em profundo silêncio. Haveria o rapaz de aceitar?

Então Perter desceu do palanque, montou no seu cavalo, desprezando a oferta do rei.

O rei se curvou humilhado. A princesa caiu em profunda melancolia e cercada de suas dez rosas, adormeceu tão profundamente em volta de seu corpo, mal notavam os finos fios que lentamente a cobriam, uma camada de seda cada dia mais densa, até que já não se podia ver mais a princesa guardada em seu casulo.

E a princesa sonhou:



Sobre apropriação cultural


Eduardo Arau O post já traz explícita a crítica aos brancos, e olha que são brancos que valorizam a cultura negra. Acho o máximo quando japoneses se apaixonam pela capoeira e pelo candomblé, na verdade qualquer etnia. Amar a cultura negra/afro e suas mil reverberações leva a um maior respeito ao povo negro, sua cultura e sua raiz. Vai além da empatia. E propaga esse respeito, e com ele uma visão crítica do racismo. Achar isso absurdo - estamos falando do ponto de vista cultural - é o mesmo que criticar um não jamaicano por curtir reggae, um branco por fazer samba, um italiano por fazer filmes de faroeste, um paulista compondo forró, um chinês por querer sambar. É estupidez mesmo querer cercear tais limites. A coisa piora quando no Brasil você esta chamando de branco pessoas com avós, bizavós e tataravós negros (como é o meu caso), que pela miscigenação "branquearam" ao longo dos anos, mas cresceram em periferias e tiveram um chão, uma comunidade uma experiencia comum/compartilhada com irmãos, primos, amigos namoradxs negros. Se o que legitima é a tonalidade da pele e não um conjunto mais amplo, acho que a base é a propagação de ódio ao "pseudo-branco", como se todos fossem inimigos. MANO BROWN foi o mais esperto nessa questão, até ele tentaram "desempoderar" por que a cor da pele era "menos escura" do que outros.

Ana Cristina Cesar



A carioca Ana Cristina Cesar também possui um lugar no grupo das mulheres trágicas da poesia. A poeta e tradutora nascida em 2 de Junho de 1952 e falecida em 29 de Outubro de 1983 escreveu: “Eu não sabia / que virar pelo avesso / era uma experiência mortal”. Nasceu em uma família culta, e, desde muito jovem, Ana demonstrou grande talento para a poesia: ditava poemas antes mesmo de saber escrever. Como Sylvia Plath, Ana Cristina Cesar obteve destaque e sucesso acadêmico: com uma licenciatura em Letras em 1975, tornou-se Mestre em Comunicação em 1979 e estudou na Inglaterra em 1980, onde conquistou mais um diploma, o mestrado em tradução literária pela Universidade de Essex. Ana também traduziu alguns poemas de Sylvia Plath e escreveu diversas cartas e ensaios ao longo de sua vida.

Ana C., como também ficou conhecida, atirou-se da janela do apartamento de seus pais em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Ela vinha sofrendo de uma depressão profunda. Um de seus poemas mais conhecidos chama-se “Psicografia”: “Também eu saio à revelia / e procuro uma síntese nas demoras / cato obsessões com fria têmpera e digo / do coração: não soube / e digo da palavra: não digo (não posso ainda acreditar na vida) e demito o verso como quem acena / e vivo como quem despede a raiva de ter visto”.

The good doctor, de David Shore



Um jovem cirurgião diagnosticado com savantismo, um distúrbio psíquico raro, é recrutado para trabalhar na ala pedriátrica de um hospital de prestígio. Apesar do seu incrível conhecimento na área da medicina, esse médico não consegue se relacionar com o mundo à sua volta. Resta saber se esta dificuldade será um problema na hora de salvar vidas.

A trama é invossímil mas o ator protagonista Freddie Highmore é gênio, e sua interpretação é impecável. David Shore criador de House mescla aqueles dramas/investigação/diagnóstico/policial com tramas do nível Plantão Médico e Greys Anatomie, e as tramas paralelas vão ficando tão tao chatas, com personagens sem carisma que a gente, espectador, começa a se entendiar e não perdoa mais tantos furos no roteiro. Estou neste clima no quarto episódio e sinto que estou perdendo tempo.

Pathos Logos e Ethos


Dia preparando aula para começar segunda. Mauro aqui me ajudou a montar todos os PowerPoint traduzindo e remodelando as sínteses que apresentarei. Ontem comemos próximo da Roosevelt, neste sábado academia e peruano. Hoje, teclado imprestável, fomos à Santa Efigenia comprar novo teclado e dei a ele um carregador para celular como presente que  não dei de final de ano. Final da noite, bolo de chocolate e bate papo sobre youtuber aqui em casa com Airton. Antes, o alugo para não só cuidar de mim como formatar e atualizar meu computador. Não sou nada fácil. 

Dark, série alemã da Netflix


Começa como um desaparecimento de um garoto, a investigação policial, o encontro do corpo e tudo que vai reverberar Twin Peaks, com mistérios e revelação da cidade, depois afunda no insólito/fantástico. Dark vai tratar de crimes e viagem no tempo, de uma estranha usina nuclear, de cavernas milenares, de multiplicidades do tempo através de portais cósmicos. Começa então a polular homens/mulheres misteriosos, adolescentes a investigar o caso, novos sumiços. E de repente, o que era interessante e corria para um sentido, se perde em tramas complicadas de conspiração mística, governamental, que a gente começa a assistir de forma desatenta. 

O grotesco fica pesado demais, e uma quantidade enorme de tramas paralelas e personagens duplicados - na infância, adolescência e velhice - faz tudo ficar uma confusão. O efeito final foi o Lost, ou seja, a ciência de que ao abrir tantas possibilidade o final resultará num vazio tolo ou sem sentido. Mesmo assim, vale ver pois tudo é forte e instigante, duro, sóbrio, tenso, alemão. 

A real beleza numa imagem


Suits, série da Netflix


Comecei a assistir por causa do curso que darei a partir de segunda na Faculdade de Direito de São Bernardo. Mas o piloto é longo e só cheguei ao terceiro ou quarto capítulo. A série tem 7 temporadas, uma enormidade.



Não gosto de comédias dramáticas permeadas de suspense e algum romantismo. Tudo parece tipo Plantão médico. Mas a série pega a gente de cara pela força dos protagonistas, pelos diálogos afiados e o universo de múltiplas traições e viradas. Beleza e carisma dos protagonistas torna tudo ainda mais interessante. E de repente, as tramas ágeis, dinâmicas e já estamos capturados. Queria ter tempo, sentar, assistir, curtir. Está já entre minhas preferidas. E gosto de saber que é longa e não brochou como tantas outras a audiência.


Lady Bird, de Greta Gerwig






Dirigido e escrito por Greta Gerwig (protagonista de Frances Ha), Lady Bird é uma comédia dramática que tinha tudo para ser mais do mesmo, mas vai ganhando dentro de um prosaismo incomum, a empatia do espectador, a porto de ser impossível não se identificar com a protagonista vivida por Saoirse Ronan. Ela já arrasara anteriormente em Brooklyn, mas este é seu melhor papel. Ninguém dirá que ela tem de fato 23 anos e não 16. 
Embaralhando muito da biografia da própria diretora (Cristine, o verdadeiro nome de Lady Bird é o nome de sua mãe), Lady Bird canta amor e ódio pela cidade de Sacramento, pelo seu provincianismo, pelo catolicismo modelar da escola, e pela vida estagnada da família, cujo correr do dias envolve a presença norteadora da mãe diante de filhos desocupados e contas a pagar. O filme vai pontuando o amadurecimento da adolescência ao início da juventude, suas amizades, seus primeiros namoros, o primeiro beijo, primeira transa, primeiras inclinações profissionais. Mas é um filme fundamentado na relação calorosa e difícil que estabelece com sua mãe, o que se apresenta desde a primeira cena.


O filme vai engendrando o desejo de liberdade de Lady, sua luta para vencer-se a si mesma, e conseguir uma vaga para estudar o mais longe possível da família, numa capital. A mãe é a antagonista, sempre a chamando para realidade, de seu baixo desempenho escolar, sua inconstância, à depressão do pai, um homem de meia idade recém desempregado. Lady vive tudo sem freio, todas as descobertas, e luta, contra a vida tacanha, contra o que lhe oferece a mãe, que ela tanto ama, que a ama, mas que a quer conformada numa vida sem horizontes. Então tudo se ilumina, por que Lady Bird está disposta a arriscar-se, mentir, ludibriar, amar, e ser algo para além, até o desfecho, quando a memória da cidade, logo que chega, faz com que saiba que "por mais que você se afaste, você nunca deixa de fato um lugar que de fato está todo em você.


Apaixonante. Raro. Poético. Uma beleza da primeira a última cena, sem ter que cortar nada. 

Três Anúncios Para um Crime, de Martin McDonagh (2017)



Drama pesado e angustiando, bem interpretado por uma constelação de astros. Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. Coloca anúncios denunciando o descaso da investigação e incompetência do delegado (com câncer) e uma horda de policiais racistas, agressivos e incompetentes. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o Delegado Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação. 

Espanta o fato de a filha ser o "macguffin" do filme, ou seja, estopim para o drama, mas que não vira foco do conflito, já que o mais importante é como a morte reverbera em sua mãe e como esta age à revelia de toda uma cidade pacata indiferente que só quer seu silenciamento. A melhor cena, sem dúvida, é seu diálogo com o padre. Forte, pesado, sem facilidade e com desfecho nada apaziguador. 





sábado, janeiro 20, 2018

Preciso de uma cadeira como essa e é urgente


Gypsy, série da Netflix com Naomi Watts


O seriado mostra médica que começa a ter relações perigosas com parentes de pacientes. A primeira temporada tem dez episódios no total, cada um com cerca de uma hora de duração. Gypsy chegou ao catálogo do serviço de streaming em junho.

Começa confuso, não se entende a motivação da psicologa, seu comportamento irrita, mas ao longo do processo, sua loucura se intensifica e a série fica mais interessante. Assisti aos capítulos finais com Mauro, mas não foi renovada e acaba com final aberto. 

Corpo e Alma



Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Morcsányi Géza) são dois funcionários de um abatedouro de gado. Ele é o diretor financeiro, ela uma aspenger que acaba de ocupar o cargo de inspetora de qualidade. Em comum, têm a profunda inadequação social: o chefe quase não possui amigos, e carrega traumas como antigas histórias de amor e um braço paralisado. Mária é obsessiva por organização, seu Transtorno de Espectro Autista (TEA) faz com que não converse com ninguém, recuse-se a tocar outras pessoas ou tratá-las com familiaridade. Ainda mais, se manifesta traços obsessivos-compulsivos junto com uma necessidade de encenar normalidade, mostrada nos diálogos que no seu apartamento estabelece com bonecos que simulam a vida real. On Body and Soul constitui um filme romântico, crente na ideia de que toda pessoa ferida e estranha está à espera de outra pessoa ferida e estranha. A intenção da narrativa, previsível e árdua, é aproximar duas pessoas que não sabem amar. Mas peca pelo estranhamento excessivo do casal, o abatedouro violento e grotesco onde o "romance" se encena, a morosidade da cena, a dificuldade de realmente criar empatia e torcida para um casal de idades extremas e tão pouco a ver. Mas su maior pecado é ser um filme chato, que esmaga/desperdiça passo passo uma premissa muito interessante.


Mas se há algo que salva, são a cena de sonho dos servos na floresta gelada. Pura lindeza. 

A forma da água, de Guillermo del Toro



Vi em casa. Elisa é uma zeladora muda que trabalha em um laboratório onde um homem anfíbio está sendo mantido em cativeiro. Quando Elisa se apaixona com a criatura, ela elabora um plano para ajudá-lo a escapar com a ajuda de seu vizinho.

Guillermo del Toro faz sua Amelie Poulain.

Um poema.